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73ª Leva - 11/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Fao Carreira

É recompensador perceber que a unanimidade não combina com o universo da arte e da literatura. Reconhecer isso significa elevar a multiplicidade de expressões a uma potência deveras indefinida. Nesse ínterim, cabe falar de formas distintas, ou melhor, vozes distintas a compor um vasto painel cênico. E certamente a contemporaneidade nos trouxe mais desafios do que algo consolidado. O que construímos hoje é parte ativa de um discurso que parece longe de soar definitivo. Desconfiemos, pois, de qualquer tentativa de universalizar verdades, não perdendo de vista o bonde da história bem como as referências necessárias propostas por ele. Como conceber as criações ante nosso tempo? Ser vanguardista é ainda uma missão necessária e palpável? De qualquer modo, essas são apenas algumas das muitas indagações que podem flutuar por sobre nossas sôfregas trajetórias. Embora uma curiosa e delicada sensação de liberdade possa impregnar os instantes do hoje, criar sempre será um processo complexo e que requer um vigoroso mergulho nos signos do mundo. No girar da ciranda dos feitos, não há como deixar passar certas leituras e apreensões. É quando a voz de gente como Nuno Rau, Vera Lúcia de Oliveira, Cícero Galeno Lopes, Valéria Tarelho e Hilton Valeriano nos recorda da matéria sensível e densa de que somos feitos. Através de sua prosa, Carlos Trigueiro, Tere Tavares e Nilto Maciel redimensionam sentidos para a vida. Em nossa pequena sabatina, a escritora Marilia Arnaud fala sobre seu primeiro romance, Suíte de Silêncios, e revela alguns de seus percursos íntimos pelas letras. Num trajeto que sabe a memórias e reflexões, Yara Camillo promove sua estreia no caderno de teatro. O poeta e editor Gustavo Felicíssimo nos conduz por entre as tramas sensíveis de Rascunhos do Absurdo, livro de poemas de Jorge Elias Neto. O olhar apurado de Larissa Mendes sonda o legado do cineasta Rogério Sganzerla. Em nosso Gramofone, paira toda a suavidade de Presente, disco da cantora e pianista Delia Fischer. Ante as manifestações aqui presentes, reina intensa e harmônica a exposição de desenhos e pinturas de Fao Carreira. Por tudo isso e, principalmente, pelo desejo firme de continuidade, a Diversos Afins celebra uma nova e gratificante Leva.

 

Os Leveiros

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Valéria Tarelho

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

 

siameses

 

somos os mais íntimos
os mais enigmáticos

mesclamos nossas peles
com a pleura da palavra
somos sílabas singulares
sem sofismas plurais

somos os mais cúmplices
parecemos os mais complexos
possuímos o mesmo álibi

o teu veneno é mel
o meu tanino é céu

meu e teu o suor sob
um sol de meia-noite
teu e meu o soro sobre
o húmus dos insones

só nosso
o endereço do segredo
confinado em um quarto
crescente
[fonte das sedes
foco das fomes
fólio de sucessivas mortes]

e mudos e desnudos
e completos
seguimos rumo
ao cimo do sigilo

pátria dos prazeres
secretos

solo do intraduzível

língua onde nós
nos confundimos

 

 

***

 

 

viúva negra

 

para cada boca
que me sorve
sirvo
o mesmo veneno

vario
conforme o beijo
a dose de ar
cênico

 

 

***

 

 

Reverso

 

O homem certo
decerto não é esse
que amo a torto e a direito
com todos os seus efeitos

O homem a contento
por certo não é esse
que favoneia carícias
nos anéis de meus cabelos

Esse é o homem incerto
inserto em mim como um vício
ou um defeito genético

Esse é o homem inverso
revés do vento brando que invento
– Zéfiro ao avesso –

 

 

(Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002)