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155ª Leva Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ramayana Vargens

 

Ilustração: Nicole Marra

 

SEM VOLTA

 

O tempo se dissolve no ar
Átomos mágicos
de pó
de vida
O tempo só pode viver
em trânsito
através da transmissão solar
que transporta
a trajetória da existência

O tempo não é triste
nem histérico
É tranquilo
no transe histórico
dos motivos orgânicos
da razão de existir

O tempo
O tempo
O tempo
O tempo poeira
transitório
não tem trombetas agudas
Atropela em silêncio

 

 

 

***

 

 

 

Na geografia abstrata
da condição humana
imprudência maior
é não perceber
a inutilidade do medo

 

 

 

***

 

 

 

Ninguém sabe quem
inventou
a máquina que criou
Deus
No entanto percebe-se
pragmático engenho
humano
na indústria da culpa
e fabricação do pecado

Mas quem explora
o câmbio flutuante
do medo
e outros ativos baratos
dos negócios escusos
da alma
no mercado
clandestino
das mentes covardes?

 

 

 

***

 

 

 

Quando sinais são trocados
menos com menos
é demais
A ordem dos horrores
não altera o produto
A soma das mazelas
é um total sem restos
ou rasuras

 

 

 

***

 

 

 

Eduquei meus neurônios
com muita
permissividade
Fiz todas as vontades
e eles ficaram
mal acostumados
Criei meu coração
com liberdade
para sentir
o que quisesse
Aceito sereno
seus caprichos estranhos
e suas manias esquisitas

Não ensinei maldades
ao meu espírito rebelde
Acostumei meu sono
a dormir limpo
com a consciência
desarmada
Passei meus olhos
por paisagens pacíficas
e atmosferas benignas
Habituei minhas mãos
no trato sincero
do afeto dedicado

Sou normal
Diferente diverso
Único
Exclusivo
Comum

Sigo leal
os mandamentos
do instinto
as luzes da razão
os saltos de improviso
e a verdade
desconhecida
do que sou

Faço o que sinto
Mas não controlo
infortúnios
e mal entendidos
de amor

 

 

 

***

 

 

 

Histórias íntimas
têm o sagrado direito
ao segredo

Memórias secretas
retidas no peito
sangram de medo
quando não são
drenadas com jeito

 

 

 

***

 

 

 

Do sal das estrelas
e dos sonhos dos deuses felizes
fez-se o amor no espírito da vida
Do atrito do vento
passageiro do espaço
que sopra faíscas
no incêndio das águas bentas
formou-se a massa matéria
fumaça
de momentos partidos em pedaços
de tempo

Comunhão
entre sangue
e sentimento
na usina do desejo
nas formas da carne em festa

 

 

 

***

 

 

 

Bichos que voam
conhecem
todos os tipos de chuva
Não arriscam as asas
em tempestade com raio
Não voam contra o vento
em nuvem pesada

Só os pássaros da paixão
enfrentam tormentas
por amor

 

Ramayana Vargens é poeta, jornalista, dramaturgo, compositor e professor de Literatura. Iniciou seus escritos na adolescência e, após mais de 5 décadas, tem textos publicados em variados suportes, do impresso ao digital. Os poemas aqui selecionados integram o livro “Amor Tecido nas Nuvens” (Via Litterarum, 2023).   

 

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145ª Leva - 05/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

DIZERES ALEGRES

 Por Sandro Ornellas

 

 

Pulsares é o segundo livro de Lílian Almeida, primeiro em versos, pois o anterior, Todas as cartas de amor, foi uma ficção poética. Publicado em 2019 pela Caramurê, divide-se em três partes: “Pulsares”, “Siderações” e “Eclipses”. São poemas curtos, à maneira de pequenos quadros carregados de lirismo e de certa forma organizados tematicamente em cada uma das partes. Cada uma delas parece desenhar uma mitologia específica da poeta, embora também possuam traços em comum na brevidade, nos versos curtos, no ritmo das imagens, sempre tendendo à construção de uma cosmologia poética muito pessoal, mas ao mesmo tempo inteligível pelo leitor.

Na primeira parte, a maior delas e homônima ao livro – ou seja, de alguma maneira a que orienta as demais ao longo da leitura – é onde percebemos alguns dos elementos mais característicos do lirismo de Lílian nesse livro: uma busca por associar, pelas palavras, o sujeito a elementos da natureza. Não que aquele seja constituído por estes, mas que ambos são aproximados como semelhança em suas constituições, como em “A imensidão das folhas / é silêncio de palavras”.

Mas a presença da natureza na poesia de Lílian não se limita a elementos do ambiente. Sua subjetivação se dá pari-passu a certos rimos e processos naturais, como no poema que abre o livro, “Crisálida”: “Grávida do ser que me habita / vou parir a mim mesma. / Outra. // Quando a lua anunciar negruras / já serei o que sou. // […]”; ou em “Fiat lux”: “A vida é o acender / e o apagar / da luz”; ou ainda em “Tuaregue”: “Tempestade de areia / açoita a alma / em desafio. // O sentido de seguir / inalienável / à revelia de qualquer intempérie. // Viver é deserto”.

Essa cosmologia se aterrará na segunda parte do livro “Siderações”. Antes, no entanto, quero ainda me deter nos dois últimos poemas de “Pulsares”, intitulados “Contemplação do infinito I e II”, nos quais percebemos um pouco da técnica de composição de Lílian. No primeiro, vemos três breves fragmentos se sucedendo e montando quadros que não se seguem ao modo de uma narrativa, mas se sobrepõem ao modo de fotografias em discreto diálogo, tanto que poderiam funcionar independentes, uma estrofe da outra, quanto em conjunto: “Fugaz passar de nuvens / em coração de menino. // Olhar pousado / em passado presente / de tanto chorar. // O azul derrama memórias / guardadas / no peito do céu”. Mas mesmo não construindo narrativas, a poesia de Lílian formula o que posso chamar de imagens em movimento, como na primeira estrofe do segundo poema da série, onde lemos: “Levita na tarde / um coração azul / mas rubro”, lembrando-nos que poesia é precisamente esse uso mágico da linguagem – “um coração azul / mas rubro” – fazendo um coração mudar de cor bem diante dos nossos olhos.

Disse acima que a cosmologia da primeira parte se aterraria na segunda, “Siderações”. Pois é quando “a memória / das estrelas”, do poema que abre a segunda parte se transforma no primeiro verso do poema seguinte “Saudade”: “há um cheiro de saudade nesta casa”. Da memória para a saudade, das estrelas para a casa, a ancestralidade ausente se faz presente no “chão”, “no varal”, “nas roupas”, nas “mãos da mulher”, “na cidade alba”, “na rua marechal mallet”, nos “pneus dos automóveis”. Afinal, toda ancestralidade, bem como toda poesia que se preze, é sempre o instante da “Presença”: “Os meus passados / passam-me / de trás para frente / em busca de futuros / cheios de agora.”

Mas não é só isso em “Siderações”, pois um poema como “Capoeira” ratifica o que disse anteriormente sobre os quadros montados pelos versos de Lílian: “O golpe girou no ar. // Açoite nas pernas / – velocidade e precisão. / Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”. Quase homônimo de “o capoeira”, de Oswald de Andrade, a “Capoeira” de Lílian Almeida possui em seus três últimos versos a mesma imagem em movimento do poema oswaldiano no verso derradeiro. Tanto o último de Oswald (“pernas e cabeças na calçada”), quanto os últimos de Lílian (“Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”) não possuem qualquer verbo, malgrado imporem ao olhar do leitor uma forte impressão de movimento dos substantivos que os compõem.

Agora a terceira parte do livro, “Eclipse”, é claramente a seção erótica do poema, lembrando-me em alguns momentos a poesia da angolana Paula Tavares na conjunção erótica entre elementos naturais e o corpo feminino: “Concha aberta / engole mar proeminente. // Pérolas líquidas cintilam / mistérios gozosos / ao entardecer”. Mas o erotismo da poesia de Lílian é muito mais intenso do que o de Paula, com “Explosão de mares / em pernas fendidas / fundadas / no espesso amor / sobre os lençóis.” O que se tem aí é uma poesia erótica, e por isso, transgressora de leis morais que historicamente ligam o corpo da mulher a um território controlado pela sociedade patriarcal. Lílian Almeida toma posse do seu corpo e das palavras para dizê-lo sem esses interditos, como em “Aurora”: “floriu vermelho / meu sexo / na tua boca / de vontades azuis”. Ao romper os limites do interdito, Lílian faz da sua palavra poética instrumento para ditos alegres.

Não importando o assunto de um poema, todo bom poema é sempre feito de dizeres alegres, pois rompe com a mera função de comunicar o que quer que seja e vai ao cerne da palavra tirar dela o que há de mais vivo e mais comum, não o comum da comunicação, mas o uso comum da linguagem, aquele absolutamente livre de um sentido único, uma reta, um único uso. O uso comum é um uso qualquer. É justo aí que percebo a alegria da poesia de Lílian: pequenas frases, versos, estrofes e poemas que são como potências indicadoras de caminhos luminosos, como diz seu próprio título Pulsares.

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O ofício poético é esse debruçar sobre a vida que acontece, constatação dos instantes, explosão de sentidos e mistérios. É dado ao poeta pensar sobre seu tempo, sua realidade, seus desvarios. É dado ao poeta, também, esculpir em palavras o espanto e o estranhamento que perpassam o ato de existir. Quem escreve sabe que o tempo impõe desafios, modulando cargas que se equilibram ou não na dinâmica das emoções, ora fugidias ora permanentes.

Por mais que especulemos sobre as razões do engenho com os versos, empreendendo toda sorte de análises particulares sobre uma determinada obra, nada substitui o diálogo direto com o autor. Nesse gesto de escuta, talvez o melhor resultado seja aquele que opera dentro da lógica da provocação. E o que seria isso? É um deixar que o escritor transite livre pelas suas ideias, mas não sem antes ser estimulado a movimentar territórios inquietantes em matéria de pensamento.

Aquele que entrevistamos por agora na revista não tem o perfil de fugir às provocações e parece estar bem à vontade quando um eixo filosófico se desenha no horizonte das falas. Trata-se do poeta capixaba Jorge Elias Neto, a quem poderíamos definir como uma espécie de artífice da palavra. E dizer isso do autor é ir além da ideia de que nele está o cálculo arquitetado para fazer eclodir a forma em seus versos. Um olhar para sua obra nos permite dizer que seus poemas emanam epifanias abundantes da vida.

Jorge é, de fato, um poeta de inquietações. Quando um tema o assola, é capaz de mergulhar fundo em toda sorte de leituras adicionais que o façam movimentar compreensões mais robustas. Está atento aos sinais da existência e, tanto em suas falas aqui presentes quanto em seus poemas, notamos um caminho de busca: sentir a experiência humana como um protagonista face aos cenários. Dessa maneira, ele é um alguém que não se furta em saborear os enfrentamentos da vida, refletindo sobre nossa condição de seres que interferem a todo tempo no transcurso da história.

Dono de uma trajetória que contempla a escritura de livros como “Verdes Versos” (Flor&Cultura, 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura, 2010), “Glacial” (Patuá, 2014), “Sonetos em crise” (Mondrongo, 2020), dentre outros, Jorge Elias Neto atravessa agora nossos sentidos com o seu pungente e provocador “Manual para estilhaçar vidraças”, recentemente lançado pela Editora Cousa. Seu novo rebento poético é verdadeiro roteiro para cutucar uma coleção de sobressaltos da contemporaneidade com vara curta. Ou, como o próprio poeta nos diz, “uma alternativa de salvação”. De todo o dito, a entrevista serviu, sobretudo, para também mostrar um autor que presentifica o seu lugar no mundo.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Manual para estilhaçar vidraças” é uma verdadeira reunião de modos de existir. Sob o manto da provocação, a obra desfila cenários distintos da experiência humana. O que dizer de tais caminhos?

JORGE ELIAS NETO – Fabrício, esta nova oportunidade de ser entrevistado por você, para publicação nesta que foi a primeira revista eletrônica que divulgou minha obra e uma entrevista, isso no ano de 2009, quando eu me encontrava finalizando o meu segundo livro, ”Rascunhos do absurdo”, me despertou a necessidade de reler a nossa conversa da época. Foram poucas as entrevistas que dei nestes quase 20 anos de produção poética e a releitura que ora acabo de fazer me causou algumas surpresas. A primeira foi descobrir o momento no qual iniciei a abordar um tema específico para escrever poemas e, como no caso do “Manual para estilhaçar vidraças”, um livro. Naquela época, após a finalização do livro, ocorreram os eventos em Gaza e o poeta, e atualmente editor da Mondrongo, Gustavo Felicíssimo, me propôs um desafio: escrever uma trilogia sobre o tema. Foi algo que fiz com muito prazer e se transformou no embrião para algo que se mostra recorrente em minha obra. Depois veio o convite do saudoso Pipol, editor do Portal Eletrônico Cronópios, que resolveu convidar 50 poetas brasileiros para escrever um poema para um livro em homenagem ao Éder Jofre. Sentei, estudei o tema e, de impulso, escrevi 43 poemas. Enviei para o Pipol, que me propôs incluir como um caderno especial dentro do livro. Infelizmente ele faleceu. Mas Eduardo Lacerda, editor da Patuá, resolveu publicá-lo com o título de “Breve dicionário (poético) do boxe”. Depois vieram “Glacial”, “Cabotagem” e agora o “Manual”… Trago para o “Manual para estilhaçar vidraças” questões rotineiras, irrelevantes, executadas, muitas das vezes, de forma mecânica por todos nós. Já alguns poemas lidam com conflitos existenciais, abordam as questões que norteiam e creio permanecerão ao longo dos meus escritos. Boa parte dos poemas foram escritos em um curto espaço de tempo; escrevi 11 poemas em uma noite.  Alguns temas foram enumerados antes da escrita. Outros partiram de imagens que me ocorreram ao longo das horas que fiquei imerso na busca da estruturação dos poemas. Quando escrevo tenho como primeiro objetivo o leitor que sou. Desta forma, o intrincado das imagens, um certo grau de hermetismo involuntário  (e que, creio, afasta muitos leitores de minha escrita) e a proposta de trabalhar muito com as ideias acabam prevalecendo. Como “tenho uma ideia” do local que cada palavra ocupa em meu inconsciente, sinto-me confortável quando revisito os poemas. Já o leitor, e isto aprendemos com o tempo, tem suas leituras particulares e muitas vezes, com convicção (e isso já é sabido de todos), nos sinaliza interpretação imensamente distantes do que busquei no poema. E é isso, no “Manual”, ora falando sério, ora com ironia, proponho uma reflexão sobre o cotidiano, tento usar da palavra para dizer da irrelevância dos nossos atos, da insignificância relativa de nossa vida e, como nos diz o poeta e psicanalista Ítalo Campos no posfácio do livro:   Para ler bem o Manual Para Estilhaçar Vidraças é preciso fazê-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos ele apenas “prega uma peça”. Ele é ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu propósito último é o de estilhaçar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapaça que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado. O poema é minha forma de rebeldia contra o cotidiano. Este livro é uma proposta alternativa que somente o olhar poético para a vida é capaz de nos dar, uma alternativa de salvação.

 

DA – Rebelar-se contra o cotidiano através do engenho poético é desacomodar certezas?

JORGE ELIAS NETO – Aqui se impõe discutir duas questões fundamentais: o papel da arte em minha vida e algo muito mais prático neste momento histórico, a relação entre certeza e dúvida. Costumo dizer que cumpro com os pés o que é devido e cubro com sonhos o desmedido. Penso que todo percurso é uma ilusão necessária, e a arte é meu ato, sim, de rebeldia; a arte é o cosseno, o obsceno e outras peripécias. A minha experiência como médico ao longo dos últimos 30 anos me fez ver e ouvir muito e construir uma certa paz no remendar das imagens e das palavras. Eu vou apreendendo as palavras e guardando-as no silêncio. E chega o dia que o poema se faz dos fiapos destas recordações, ajeitadas aqui e ali com algum enchimento, com algum artifício adquirido, ou mesmo com algum vício repetido. Talvez  este “Manual para estilhaçar vidraças” seja a tradução deste meu “ato de rebeldia”, como você bem diz. Por isso digo que primeiramente escrevo para mim. Sei que serei um dos poucos, talvez o único, que terá o interesse em folhear o manual no futuro. Nada como uma cartilha para iluminar e evitar que nos desgarremos ainda mais neste cotidiano de ilusões multimidiáticas. Passando já para o segundo ponto, acho que você foi muito feliz quando utilizou a expressão “desacomodar certezas”. Quando jovem, sempre me senti inferior aos demais por não ter certeza de nada. Hoje digo que a dúvida é o alicerce de minhas convicções. Penso ser necessário resgatar o valor da dúvida… Mas isso valeria se a dúvida não fosse algo anacrônico para a sociedade atual. Existe uma suposta razão, uma “verdade” que encobre as dúvidas dos homens. Vivemos um tempo de desperdícios e de bandeiras. No meu caso, aprendi que a ciência é um divino manancial de  verdades fluidas e dúvidas eternas. Também aprendi que a certeza é estática e a dúvida é dinâmica. Fico então com a dúvida. E como “desacomodo a certeza”? Convivendo com a ideia que, do útero à morte, seguimos renascendo. Afinal, o principal conflito humano é mediado pelo nada. A morte é parteira dos desesperados e desespero dos inocentes. E a paz é um corte na carne da convicção, o osso aparente na trincheira criada pela força da humildade. Tento, com os meus poemas, como no caso do “Manual”, lembrar ao homem que ele é um deus que se perde na encruzilhada da ausência. Daí o poema que dá nome ao livro dizer da sombra e da escuridão. Proponho ao leitor o confronto com a sombra, pois ela é a experiência diária da morte, o ato introdutório do homem no esquecimento. A sombra sinaliza ao homem o poder da luz que não nos deixa esquecer que estar de pé é uma circunstância, uma transitoriedade. A sombra é a seta que o céu projeta sobre a soberba da consciência bípede.

 

DA – Ao que parece, temos alguma dificuldade em nos compreendermos como sendo simultaneamente luz e sombra. Seguimos engendrando verdades e inventando versões para narrar nosso imperfeito trajeto no mundo. Na sua visão, quem é esse sujeito contemporâneo? 

JORGE ELIAS NETO – Há alguns anos li um livro que me intrigou muito, “A negação da morte”, parecia que eu conseguia estabelecer uma ligação tão procurada com minhas leituras da obra de Nietzsche, Camus e Emil Cioran.  Nele, o antropólogo Ernest Becker me apresentava a obra de um dos grandes discípulos de Freud, Otto Rank. Busquei os livros de Rank e encontrei uma interessante descrição do papel da sombra na história da humanidade. E a sombra passou a ser tão importante que me ocorreu escrever um livro que denominei “XXI – Diálogo das sombras”, ainda inédito. Nele trato especificamente do sujeito contemporâneo e este diálogo com a sua sombra, esse duplo Rankiano. E para estabelecer uma ligação entre sua pergunta e minha opinião deixo aqui um aforismo poético que escrevi: Não identifiquei entre os destroços nenhuma sombra de dúvidas. No meu entendimento, mantendo sempre como lastro a dúvida, tem sido fundamental a leitura das obras produzidas a partir da segunda metade do século XVIII e, principalmente, a obra do século XIX. E não posso deixar de sinalizar a minha admiração pessoal pelos autores russos. Ler Gogol, Turguêniev, Tolstoi e Dostoiévski tem sido fundamental para entender a transição para o século XX e fazer uma ligação com a produção da obra de Marx, Engels, Feuerbach, com a efervescência de Darwin, as proposições de Freud e por aí em diante. Foi a partir daí que busquei entender toda a frustação quando ficou claro que, por detrás de todas as propostas de uma sociedade mais justa, existia o homem, e que os “leões” insanos rugem mais forte… Adoro reticências… Elas dizem do inacabado das dúvidas… Nesse momento, muitos, como Octávio Paz, indagaram se adiantavam essas pedras empilhadas apoiando precipícios? De que vale a rosca e o parafuso no vazio? Entenderam perfeitamente que o ódio não é fonte, é desperdício. Era o momento do homem medir os seus fantasmas pela hora do dia que admirava a sua própria sombra. E esta sombra tornou-se imensa. Só que a visita das sombras tem um pio ingrato, é a cor branca da culpa nos delatando por nossas atrocidades, nossa vaidade, nossa hipocrisia. É difícil aceitar que existe um lado obscuro na fronteira imposta pelos que buscam o paraíso terrestre. Mas, no meu entendimento, na volta devemos percorrer o caminho da sombra. Mas a mentira seguiu sendo um tônico revigorante… Um assunto tão denso tomaria muito tempo do leitor, por isto prefiro deixar aqui um poema inédito que talvez sintetize meu olhar sobre este “sujeito contemporâneo” e sua sombra. Afinal, o poema é o um esforço de silêncio de meus olhos cansados.

 

Retorno ao rascunho do mundo

Eis o inerte,
o sucumbido,
aquele antes do instante
em que se dissipou a paz.

Desperta homem,
vê a grandeza do seu nome
e o Não, imposto ao seu destino.

A página leve não tem a tessitura do seu caminho
e o que lhe resta é o estampido
ou um pilar qualquer que te convide ao abismo.

 

Madeixas das sombras

O Eu apagado, descrente,
o crucifixo do outro
e toda nudez
do medo.

Meu martírio:
esta fogueira que não vesti.

Se restam fagulhas,
são versos roubados,
pés trocados
de outros passos
no silêncio das cinzas.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No atual estado de hiperconexão em que estamos mergulhados, talvez tenhamos perdido a capacidade de nos recolhermos em nós mesmos, de sermos silêncio para  fruição das coisas e sentimentos. Em que medida tamanha absorção com consequente efeito de dispersão interfere, por exemplo, na prática literária de leitores e escritores? 

JORGE ELIAS NETO – Nos últimos anos tenho escrito alguns pequenos ensaios abordando, dentre outros temas, este “tempo sem tempo” que permeia a realidade das relações interpessoais e consigo mesmo do homem contemporâneo. Sempre digo de minha condição de alternância entre um pessimismo e um realismo entusiasmado (uma migração que faço entre um olhar mais cético de Cioran e do brasilianíssimo Suassuna). Isto me levou ao “Ornitorrinco do pau oco”, nome do meu livro publicado pela editora Cousa em 2018. Tomo a liberdade de incluir aqui alguns esclarecimentos sobre esse ser inusitado:

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

………………………..Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

………………………..E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

……………………….O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

 

Ou seja, se faz necessário estender o conceito de silêncio para a visão. E isso serve para os leitores e, infelizmente,  também para muitos escritores. O homem se esqueceu que o silêncio é o ponto de partida e de chegada. É o nosso “buraco negro” individual. E imerso neste caos se incluem também escritores e leitores. Tenho a sensação de uma “bolha” literária. Algo como grupos de whatsapp, de Facebook, onde se posta e se aguarda, com urgência, o reconhecimento de nossa obra. Uma busca constante de feedback positivo. Mas conviver com os homens é a forma mais popular de isolar-se de si mesmo. Somos indivíduos comuns ambicionando a glória do instante. Mas este tempo desperdiçado hoje, essa busca da glória diária, é o tempero da fome de amanhã. É uma “verdade” requentada dia após dia. Perdemos muitas vezes o senso crítico, maximizamos nossos desejos e potencializamos nossas frustações. Entretanto, o Mundo é regido de tal forma que ficou fácil estender as coisas no sem tamanho da ambição humana. O mutilado se satisfaz com uma miragem da perfeição. Vejo uma linha do tempo que já teme o rastilho do fogo, um presente como uma presença perdida no instante, um sufocamento da poesia. Mas a palavra tem seu tempo e as horas sorriem durante o sono dos homens. Acredito que o nada resplandece no silêncio e que há de se buscar a paz em algum ponto impreciso entre a contemplação e a convicção da conquista. À paz da inércia sou mais o atropelo do silêncio. E o que pode fazer um ornitorrinco nestas circunstâncias? Trabalhar, silencioso, o naufrágio do homem.

 

DA – Seria apocalíptico demais dizer que, em escala global, estamos experimentando um processo de desumanização?

JORGE ELIAS NETO – Não tenho pretensão de conseguir com palavras dizer de minha visão apocalíptica para o futuro da humanidade. Por mais que eu insista, os dias são mais irônicos que as palavras. Mas agradeço que assim seja e que eu perceba a limitação de que elas, as palavras, reproduzam a realidade humana. Trabalho com tecnologia, realizo procedimentos em minha profissão que utilizam recursos altamente sedutores, com imagens impressionantes e, principalmente, com alto grau de resolutividade e de segurança. Ora, então eu deveria ser um porta-voz incondicional dos avanços científicos. Outro ponto, não tenho religião. Então eu deveria ser um herdeiro natural da visão positivista e materialista. Devia acreditar, em termos sociais, na morte de Deus. Mas a necessidade me fez ambidestro. Hoje mantenho o hábito de usar ambas as mãos para escrevinhar minhas dúvidas. E, como disse acima, elas me levaram a buscar entender esta transição fundamental do século XIX para o século XX. E antes de falar minha impressão sobre o mundo atual, gostaria apenas de dizer o nome de um poeta que me ajudou a ver toda angústia contida na dicotomia inserida naquele momento histórico: Augusto dos Anjos. Não. O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. Não vou recorrer às minhas anotações, às minhas leituras, vou recorrer ao meu descontentamento. Como ambientalista e como defensor dos preceitos da responsabilidade propagados por Hannah Arendt e Vaclav Havel, só consigo ver com muita tristeza o futuro, não só do homem, mas, principalmente, para o Planeta. Onde começa o fio? No novelo ou na farsa dos dias? A farsa cuidadosamente lapidada pelos ditos “engenheiros do caos” já se desgarrou do novelo da história e estes veem crescer, exponencialmente, o seu poder, e já ocupam o lugar vago deixado por Deus e pelo Estado. Muitos já escreveram sobre a terceira revolução industrial. Outros, neste momento de pandemia, sinalizam para a quarta revolução. Informação, imagem, consumo, efêmero, que palavras dúbias. É por isto que penso que um retorno ao triplo transcendental (o bem, o belo e a verdade), uma retomada da religiosidade, seria uma possibilidade, uma alternativa mais realista, mais acessível aos homens, em geral, de evitar um futuro distópico para a humanidade. Da mesma forma não creio que o pós-humanismo ou mesmo o neo-animismo sejam uma visão aglutinadora. Não acredito que o “big-data” seja uma panaceia para a humanidade. Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte e o vazio seria a verdade celebrada por todos. Mas essa visão míope aliciou uma parte significativa da humanidade. É preciso entender que dentro do absurdo existe um reino de perdas.

 

DA – No que se refere a pensar o escritor como leitor de seus próprios poemas, haveria uma espécie de margem para, numa mirada autocrítica, mudar aquilo que já foi publicado? A atitude revisionista não causaria certa instabilidade à obra do autor?

JORGE ELIAS NETO – Sabe, Fabrício, a palavra tem seu tempo, tem seu espaço na vida das pessoas. E no poema, quando ela se instala de forma definitiva em um livro, seja com perfeição ou meio impositiva, empurrando para os lados as demais, o poeta deve respeitar esta disposição como definitiva. Publicado o livro, passo a ser leitor. E mesmo, como acontece muitas vezes, ao me deparar com uma palavra ou mesmo versos que me pareçam imperfeitos e desagradem, raramente os altero. Pois já é outro o poeta, já é “outra” a palavra. Se a ordem, os versos, não se alteram, prevalece o impulso criativo do momento da criação do poema; ou o de sua lapidação. Em suma, eu me sentiria desonesto alterando um poema. Posso roubar um verso antigo, ou usá-lo como epígrafe, isto faço sem pudor, mas respeito as palavras. Alterar o poema seria, no meu entendimento, uma tentativa artificial de torná-lo atemporal. Talvez tudo seja uma busca de estetização da vida  ̶   retorno aqui ao que disse acima sobre a urgência de resultado  ̶ , um superdimensionamento de nossa obra, o que traduziria o quão brilhante e singulares somos enquanto indivíduos. Mas o meu sentimento é que o poder da flor está no voo da pétala. É neste desgarrar da beleza que se atinge a amplidão do infinito, é um distanciamento que tento alcançar. É esse voo, que independe de nós, que dará alguma relevância a nossa obra. As pedras marroadas sempre guardam um espaço para os nossos pés. Segue abaixo um poema que trata da relação obra e autor. Coloca, em verso, como tento entender esta questão.

 

A obra

Do artista
……………– a obra,
o todo
…………..– da obra.

Mesmo que um segundo
apenas, seja o tempo
para a derrocada do homem,
cabe o feito
…………..definitivo,
traduzindo o gesto, o
desfecho do combate.

Não se apegue
ao herói erguido aos céus
na glória do instante,
reafirmo:
………….– veja a obra.

A arte,
as mãos,
também se expressam
fechadas, sufocando
o ar no exíguo espaço
da tensão dos dedos.

O artista do palco,
do ringue,
persiste na imagem
que desaba
e se rasga.

Atenha-se ao diálogo
……….– com a obra.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há limites para o autobiográfico no horizonte da poesia?

JORGE ELIAS NETO – É na prosa que o autobiográfico habitualmente se apresenta. O poema é território do “eu lírico”, um rebelde, fingidor, um subversor da sintaxe (como sempre diz o linguista e amigo José Augusto Carvalho). Mas toda grafia tem um recorte da alma de quem escreve e não me cabe julgar os poetas que se mantenham na primeira pessoa em seus poemas. Afinal, cada ilhéu traz uma concha guardada a sussurrar saudades. De início, para discutir essa questão como leitor de poesia, deixo de lado aqueles poetas que se confundem com a sua obra. Autor e obra não coexistem em equilíbrio de perfeição, quando o autor não se apercebe disso, geralmente a obra perde. Brinco com meus amigos que a biografia mais fiel deveria ser escrita pelo psicanalista… Agora, quando o poeta consegue dizer do “eu universal”, equilibrando entre os versos todos os recursos de linguagens que tem a sua disposição, é possível resgatar no seu passado memórias que permitam um diálogo com o leitor. Os grandes poetas podem tudo em seu “eu lírico” – esse “ser de papel”. O que podemos dizer no “Eu” de Augusto dos Anjos, e na obra imensa de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Drummond e Minas Gerais, Adélia Prado e a religiosidade, Ferreira Gullar e o seu retorno ao mercadinho no Maranhão… Como nos diz o Antônio Miranda citando Lejeune:

 

Pode haver uma coexistência da biografia do autor na medida em que o poeta faz do “eu” da poesia lírica o “eu” da autobiografia. Por outro lado, ainda diz Lejeune, a poesia torna-se uma escritura segunda, isto é, aquela na qual o escritor reconverteu, ao voltá-la para si mesmo, a escritura que ele havia anteriormente elaborado para “dizer o mundo”. Não haveria, por isso, a possibilidade de a experiência poética ser contraditória com o projeto de uma “narrativa” autobiográfica.

 

Quando falo de minha produção poética, este diálogo com o passado está mais presente nos meus dois primeiros livros: “Verdes versos” e “Rascunhos do absurdo”. Em “Glacial”, o “eu” que se apresenta é uma caminhante que atravessa os Andes em uma busca pelo sentido da existência. Já em “Cabotagem” resgato a cidade de Vitória de minha infância e adolescência. Mas se eu tivesse de escolher um poema no qual vejo um equilíbrio entre a palavra, o passado e o Universal, é o poema “Cristo de pão”. Um evento ocorrido na mais tenra infância que ficou guardado e serviu como uma metáfora de minha, da nossa, relação com Deus.

 

Cristo de pão

Herdei de meu pai
esse Cristo forjado em miolo de pão.

Esse crucifixo que, pacientemente,
foi moldado no almoço de domingo;
em seus dedos, amassado,
em seus lábios umedecido.

Um Deus criado
pelo provedor de minha casa
durante o eterno silêncio
comigo repartido.

E eu aprendi que da bolinha de massa
se forja um ídolo.

Ao final da refeição, meu pai me estendeu
o Cristo na cruz.

Eu o peguei
e ele se partiu.

Foi duro para mim
ver Deus quebrar-se em minhas mãos.

 

DA – A Literatura é um perfeito território de ilusões?

JORGE ELIAS NETO – Guimarães Rosa escreveu que “… livro, a ser certo, devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos, virtude de enganar com um clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens”. Sempre senti na arte a possibilidade de um legado sem tragédia; o mais próximo que posso chegar, talvez com menor risco, do legado humano e do porvir. Uma perspectiva de alguma sanidade. A grande literatura é uma das grandes fontes possíveis de ilusão. E com as suas coirmãs: música e artes plásticas são a maior possibilidade de nos levar próximos à perfeição da Natureza. Sabemos que, em graus variáveis, o disfarce da órbita é desviar-se do óbvio. E que “a arte existe pois a vida não basta”.  Afinal, em que pernas poderíamos apoiar esta existência no sem sentido? Como disse em um ensaio que escrevi sobre Augusto dos Anjos, “(…) hoje, faço parte dos poetas que procura este olhar insubornável, perdido na ausência. Procuro a nobreza desse olhar entardecido de uma ilusão”.

 

O que se arrepende é o avesso do nome

A morte é zelosa em sua força,
e aprecia a fragilidade no arremate do erro,
no estampido do verbo,
no testemunho do assombro,
no lento embuste dos passos catados.

Digital falsa
no contorno das letras
que se desprendem nas entrelinhas.

O flerte do verso com o abismo,
o encantamento da bruma sobre os lençóis,

……………………o suborno do medo.

 

DA – Afinal, por que escrever?

JORGE ELIAS NETO – Eu poderia usar da escrita como um lamento, parodiando o grande poeta, dizendo do drama existencialista pós-moderno, mostrando assim uma das facetas do por que escrever:

 

De que vale a vida se a tela é pequena, e de que vale o Mundo se não para viajar e registrar em um Smartphone a minha felicidade fluida e postar no Instagram, no Facebook e nos meus grupos de zap…

 

O exercício crítico da vida é uma das minhas justificativas para escrever. Poderia dizer que, por vezes, escrever é um ato de desespero, um vício que assombra. Na verdade, ao longo de minha vida, a escrita paira, e sua razão de existir se apresenta de várias formas. E confesso que tenho um ghost-writer, o hemisfério cerebral direito com suas pinguelas sobre a maré alta vazante… Escrever é um refugiar-se na síntese contornando a sintaxe, é uma terapia, é um jogo de videogame com possibilidades infinitas. A eternidade é uma metáfora que já não me ilude. Mas como me disse certa vez um psicanalista e amigo “há de se relativizar a morte, de tangenciá-la”. E embora saiba que a esperança é uma simples questão de instinto de sobrevivência, todo artista persiste vasculhando sua particular caixa de pandora. Em 2013, ingressei na Academia Espírito-santense de Letras. Naquela oportunidade, em meu discurso de posse, tentei trazer o porquê da escrita e a questão da imortalidade para o centro de minha fala. Tomo a liberdade de reproduzir aqui alguns trechos.

 

……….Digam-me, com a experiência humana no século XX, quanto nos afastamos deste deslumbramento com a capacidade humana de criar, descobrir – desse potencial do homem para atingir os céus com seu gênio, tornando-se o centro do Universo. Um deus a servir-se do inesgotável entornado em seus pés?

……….É certo que muito ocorreu ‒ perdemos a inocência ‒ , mas nada foi capaz de alterar a condição primeira da existência consciente: o desejo de transcendência da alma.

………E como reagir quando Albert Camus nos lança na face que “A razão não explica tudo, mas não existe nada além da razão”. Isto atordoa. E resplandece perante os nossos olhos – a Morte. O que faz a consciência com sua extrema maleabilidade, sua capacidade de se moldar perante o abismo? O que faz, como se justifica o indivíduo, em especial aquele mais cético e realista, aquele que se intitula um homem do absurdo, com sua existência lançada no rosto?

……. E o poeta responde a Albert Camus:

Parte-se do esquecimento.
Caminha-se para o esquecimento.
Disso dou testemunho.

Tamanha consciência da morte vindoura
nomeia encantamentos
em cada trecho de aurora.

E, se, em algum momento,
falta ao punho o sustento,
recolho-me ao verso que apoia.

Eis a dura lida que ao poeta condena.
Mas apesar do tormento da finitude certa,
tem no poema – pulsão de vida – rumo ao esquecimento.

 

É possível, trabalhar e sonhar. É possível a convivência do cientista com o poeta. Afinal, a quanto dista o zelo do cientista do abuso apaixonado do poeta com a palavra? Pois a poesia começa assim:

 

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.

E quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alex Simões

 

Foto: Cristiano Xavier

 

cama de gato

 

nas voltas
que a poesia
nos dá
nos laços
e
nos nós
nas amarras
e
nos desenlaces
nas cordas
e
nas codas
eu faço versos como quem
faz uma cama
de gato

 

 

 

***

 

 

 

o albatroz brasileiro

para Paquito

 

um albatroz-de-sobrancelha-negra é o mais
brasileiro albatroz porque é tão malandro,
a ponto de ganhar a alcunha por meandros
tais, que coloca em xeque se irracionais
são eles ou se somos nós. senão, vejamos:
ele plana o litoral de Sul ao Sudeste,
mas jamais pousa no solo do Brasil, este
belo animal alado e baudelairiano.
talvez por precaução à fama de trollagem
que dão aos brasileiros em outras paisagens,
o pássaro sambou na rixa com a Argentina.
ganhou fama de ser o Albatroz do Brasil
de onde só se vê riscando o céu de anil,
mas só relaxa e pousa nas Ilhas Malvinas.

 

 

 

***

 

 

 

aquele que convoca uma assembleia

 

não há nada de novo sob o sol.
depois do coronavírus nos dar

tantos golpes, ceifar tantas possíveis
uniões afetivas, reuniões

fraternais, festas de tantas linguagens
artísticas, estamos nós aqui,

os que sobrevivemos, recontando
histórias dos que nos antecederam

para que nos iluminem, apesar
do horror, a memória e um inclemente sol.

 

 

 

***

 

 

 

QU4DR1LHA

 

João marcava Teresa que enviava a Raimundo
Num direct pra Maria que zapeava Joaquim que tuitava para Lili
Que não dava match com ninguém.
Raimundo, Maria, Joaquim e Lili estão em isolamento social
Marcando nas publicações e enviando para o zap que marcaram J. Pinto Fernandes
Que não tinha visualizado o Stories.

 

 

 

***

 

 

 

sonetos metidos a ingleses I

para Natan Barreto

 

falava 26 nesse teu sonho nosso.
talvez não fosse só dos meus alunos em
viagem além-mar em direção à Ítaca
saxônica. talvez fosse eu balbuciando
que o afeto, uma vez instaurado, jamais
se degenerará. se se perdeu, não houve.
e sinto que aqui há. o canto das sereias
da Ilha de Avalon tentou nos encantar.
mas não cantaram em vão, porque as escutamos
e dançamos a sós, cada um em seu sonho,
copiando em log books as notas dos solfejos.

 

 

 

***

 

 

 

astrolábio de sete faces (6a face)

 

fórmula: sangue, saliva, fio de cabelo ou sêmen, líquido amniótico, ossos, face, cu, dentre outros tecidos, entulho de amante, musa, silêncio, problemas, oxigênio, tapa-buraco, permissão progressiva, triz, sigilo, troca de segredos, treda ao lado, tecnologia, contas para viver melhor, conexos e conexões, odum, incêndio, puta dor, fúria e alta tensão no mundo, todos temos. no meu corpo, o canto.

 

Alex Simões é poeta e performer. Tem quatro livros publicados e uma série de poemas em antologias, coletâneas, revistas e sites nacionais e internacionais. Participa de importantes saraus, festivais literários e eventos multilinguagens na Bahia e fora dela desde os anos 90. No dia 5 de dezembro vai lançar “no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas”, livro de artista em coautoria com o Coletivo Tanto Criações Compartilhadas.

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Maria da Conceição Paranhos

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

SONETO DE COITA DE AMOR

(Ditado por um cavaleiro à sua amada distraída em despetalar uma rosa)

 

A rosa, palpitando em meus dentes, ornasse
a cortina mais densa de brasa em meus beijos!
Mas, escrínio e mudez, tu te envolves em seda,
enquanto, com a cravelha, procuro o cadeado.

Imagino em minha boca o sabor mais desperto,
engrossando minha febre, num alcance de enlevo
– melhor é deslembrar esse enlace gozoso,
e bebê-lo no dia, a pascer horizontes.

Te imagino no leito, sonho ou devaneio,
eu, besta grave e lenta, libando teu peito,
para te oferecer cascatas de deleite.

Mas que importa! Rasguei, em incalculáveis horas,
com o desejo em fervor de adentrar a tua cona,
a concha de tua mão, roçando a língua morna.

 

 
***

 

 

O NOVO TORSO DE APOLO

 

Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído

detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.

Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda – nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,

e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira – nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida!

 

 

***

 

 

SONETO DA PREMONIÇÃO

 

A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a par a par, e sem temer.

Entraste deslumbrado, eu, generosa –
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.

Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.

Espera e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.

 

 
***

 

 

APOSTA À DERIVA

 

Perdi. Perdi o jogo. Esvai-se a vida,
em si, presa paixão de intenso gesto.
Jamais pensara ser, cada partida,
aposta já perdida, sem ciência.

Não pressentira, então, o desabrigo
de cada dia, luto tão absorto,
rude bocejo a esfumaçar o rito
de prosseguir, sem pátria no alvoroço.

Estanca a desistência da miragem –
que se faz e refaz, futura imagem
do desarrimo, embora tão presente.

Tarja de luz, suspensa a esmo, aclara
espectro de aura torva, que deambula
ao susto vesgo de carta marcada.

 

 
***

 

 

ORFEU QUÂNTICO

 

Fragmentos de corpo destroçado
espalham-se pelo tempo.
a história infinita,
ali inscrita.

O difícil é escrever essa história,
com o corpo bípede profanador
em sua vaidade assassina.

 

 
***

 

 

QUINTA-FEIRA

 

Corpo meu tão gentil, minha alma ardia,
viajando em teu mastro – n’ alma o vejo,
e mantenho minha flama: é meu desejo,
conservar a tua luz lume em meus dias.

Ao mirar o teu sono, se esbraseiam,
o meu corpo e a minh’ alma, e é tão sobeja
a impaciência a singrar por teu beijo
em naves de paixão – que se encandeia,

presa, minha vida – em uma só cadeia!
Ditosa aquela sina, que se atreve
a apagar ardentias e tormentos

em momentos que a tinta não transcreve!
Possuem-me, Senhor, teus elementos,
enquanto gelo em fogo e fuljo em neve.

 

 
***

 

 
VISITA

 

Apenas isto: andar, buscando a vida.
Sem carregar consigo nenhum tempo.
No céu, é tarde. A voz não pressentida
emite um grito vão, irmão do vento.

Andar assim, o corpo numa lágrima,
indagando um destino de demência,
a contemplar estrelas: só, em pânico,
e este silêncio frio, e esse silêncio…

Viste a louca mudez da estátua fria?
Já o dia se cumpria, e o abismo abria-se,
nos meus olhos vendados e vazios.

Talvez a ida seja breve e pura
ao suspiro letal em hora túrbida,
mas visito a paisagem cada dia.

 

Maria da Conceição Paranhos nasceu em Salvador e escreve desde os 4 anos de idade. Formou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia, onde também fez mestrado. Concluiu seu doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, em Literatura Comparada, e seu Pós-doc. Na Universidade de Viena, em Estudos de tradução. Tem vários livros publicados, entre os quais “Dr. Augusto chegou” (contos, relatos e sonhos), “Chão circular”, “Os eternos tormentos, “As esporas do tempo”, “Minha terra e outros poemas”, “Delírio do ver” (poesia). Recentemente, lançou “Poemas da Rosa” (Ed. Mondrongo).

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Elizabeth Hazin

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PRINCÍPIO DO FIM

 
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?

 

 

 
***

 

 

 

FELICIDADE

 
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade
………………………de ser
esse ser não sendo

alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)

nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule

é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga

é esse fio de navalha em que me equilibro
……..sem asa que me suspenda
……..ou mão que me segure

é essa trama em ouro e cobre
…….que na solidão do quarto se urde.

 

 

 

***

 

 

 

MAR DA CHINA

 

a minha mãe

 

 

Por sobre as ondas da China

onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)

 

 
***

 

 
POUR CAMILLE

A Camille Claudel

 

Quem modela a vida

(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?

Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.

Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?

Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.

Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos
………………………..em asilos
………………………………..exílios
…………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.

Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)

Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.

 

 
***

 

 
LUX DELENDA EST

 

 

LUX DELENDA EST, alguém disse

e houve a escuridão

……………………..esse apocalipse –

manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso
…………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã
……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim
………………………………………. (como começo).

(Fosse um domingo talvez?)

Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!

Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos
………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes
………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos
………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.

Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas
…………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos
………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente,
…………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares
………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.

Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Matheus José Mineiro

 

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Foto: Ana Pérola

 

ALERGIA A COR CINZA

 
a vida manuseia a gente com foice e facão, fervoroso boia fria.
Sabe que o coração
é material corrosivo o qual exige-se luvas para tocá-lo.

Desembestada, a vaca erupção.
…………………………esmaga verduras e hortaliças,
…………………caniveta a carótida, lesiona a panturrilha ,
………………………..gás propano no olho da faísca.
Contudo
……………………………..cotidianamente
…………uma força resistente, com ímpeto de búfalos e bisões,
prossegue subindo a minha cabeça
………………………esta ladeira com o calçamento de terra e bloquetes de pedras.
O medo a insegurança são substâncias tóxicas no fígado da gente.
Entre o suflê e a fuzilaria entre o mudra e a lâmina da serraria
…………………………………..aturamo-nos.
amor, rapé alucinógeno no meio do coma e dos transtornos do alumínio.
………………….o poema é aquele que oxigena o sangue
………………………..quando encontra-se esmagado
……………entre os ferrões de aço inoxidável da formiga saúva
…………………….que mede o tamanho de uma cidade.
……………….o poema é o analgésico o poema é o sedante.
…………………..vida, diária colheita de jiquiris e urtigas.

carreta que transporta querosene tombando numa rodovia .
…………………………..Com esta sensação prossigo
sensação de barranco e chuva
diante do galpão da indústria de material bélico;
…………………esfregar de folhas de cansanção nas mãos ;
………..fogos de artificio chuva de raios piruetando na sobrancelha ;
………………………..uma outra espécie de horizonte
………………………mais cor mostarda no nascer do sol
…………………………mais cor beterraba no por do sol
…………………mais cor de jabuticaba estelar na madrugada
…………………….chovendo debaixo dos seus supercílios.

 

 

 

***

 

 

 

FULIGEM ESMURRA AS SAMAMBAIAS

 
..o operador da retroescavadeira, a caixa de e-mails
..o fuzuê de bytes o pau a pique eletroeletrônico
sondas radiofônicas, quilohertz & farmacologia no furdunço cotidiano
maquinário industrial na beira das nascentes do meu rio;

atrito, abrupto abutre
…………………….no silêncio vermelho do pós parto de uma rinoceronte branca.
Como o sossego do minério encrustado no intestino do rochedo
.o estresse almeja
…….milhões de volts, noventa mil cavalos, trinta mil gigabytes
que há no tráfego calmo sanfonado cor de cores fantásticas da lagarta .
Arco íris apresentando-se na Terra com o seu formato que rasteja.
..enquanto a vida trata a alma e o coração da gente
……………………usando movimentos de um açougueiro .
…………………………Disso o estar-se sempre ensopado
……………………….com a alucinação de um carvoeiro
………………….encantado ao ver o canário chover amarelo
………………………e o azul babar verdes maritacas no céu.
..locomotiva movida a vapor e euforia fumegando dentro da espinha.
solda durex durepox
naquelas coisas que já não aproximam-se mais por meio de um abraço.
………………implante de tártaros e arames farpados na boca
………………..e luxações em algum tendão da silaba mão .
……………..retorno a missa de beatificação da palavra Ânimo
……………….este analgésico, este sedativo, este entorpecente
……………….em meio a massoterapia e o alicate de pressão.
…..Pretendo ser medido por um sextante e ser visto por telescópios
e mesmo com esta tarântula de bário
…………………………………..metal alcalino
………………………cuja picada causa febre e delírio
…………………..é corte no supercílio do meu horizonte.
sobrevivo,
momento de estalo que a nuvem descarrega uma chuva de raio
………………ou mão que desfolha um galho de manjericão.

 

 

 

***

 

 

 

PARTÍCULAS DA GALÁXIA PUPILA

relâmpagos, raios e trovoadas se hospedando no céu da minha boca.

*
aqui por dentro de mim
está tão luminoso
que até mariposas me sobrevoam.

*
dentro do pão sovado não se passa mais manteiga de Minas,
depositam fios de gilete e navalhas.

*
estou no quadril de uma zebra, e sinto
pressionado pelo maxilar de uma onça parda inoxidável.

*
um rinoceronte branco entra pela axila
para ir rugir no castanho das pupilas

*
ouço um rottweiler apelidado de cidade
com seu metálico ranger de ferro
milimetricamente mira um bote na minha coxa.

*
às vezes
o verde musgo do meu peito
fica comprimido dentro da mandíbula de um jacaré do papo amarelo.

*
que as verduras e as estrelas nos usem como vastidão.

*
já que o silêncio, enfermo e abandonado no branco sujo
cirúrgico do mundo
deita agonizando sobre a maca hospitalar.

*
procuro uma bicicleta Poti
para pedalar dentro da palavra afeto.

***

 

 

TODO DIAMANTE BROTA NO ESCURO E PERPASSA O ESMERIL

 
todas estas inquietações e apreensões,
……….cromado tatu canastra que escava a região do pescoço
………………………..Máquina triturando nossa calma.
dentes de titânio de um labrador
e a mandíbula de brita da moreia
disputam a primeira mordida na textura deste coração crocante.
ser cãibras
..na mecatrônica pata deste javali que pisoteia nossos alfaces e nossas rúculas.
…………………….embutir o sono de um carrinho de bebê
………………….e a procissão de um jabuti nas vias públicas
……………………..onde o sossego é desossado por hienas
………………………..e olhos são arrancados por abutres .
…..Toda vez que sangro ou me queimo junto com o diesel de um caminhão
…………………………o Poema aproxima-se de mim
………………………………….me coloca na garupa da sua bicicleta
…………….e pedala pelas estradas de terra da palavra Ânimo;
velotrol colidindo com um tanque de guerra israelita;
…………………………………….desengordurante;
enxada roçando este terreno íngreme que é a vida;
água mineral lençol freático escorrendo do tórax diante da aridez dos dias;
proteína esmurrando a enfermidade;
…………..embrião fervido nas caldeiras da Usina da Jatiboca.
Até aquele momento de não sentir mais a sua altura,
…………………comprimento e nem espessura no Planeta,
………………ver o corpo como propulsão de um jato de luz
………………………………………………………………………….de calor de cor parda.
…………………………Em meio a anemias e toxinas
………….abocanho a vida com ímpeto de maxilar de hipopótamo.
……………….Nuvem que pela primeira vez relampeja.
….dentes empolgados de cabra diante dos grãos desta ração que é viver.

 

Matheus José Mineiro é autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda Do Seu Astra (2013, Selo Petrópolis Inc.). Produz os fanzines Estrondo Na Bolsa Fetal, Galáxia Pupila, Apologia Poética, Mais Um Cadim de Poesia Aí, Costelinha Com Quiabo e Poesia.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Camila Charry Noriega

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

La palabra ha muerto,

 
sin ella
¿Cómo nombrar a Dios?
En el silencio,
en la ausencia de palabra
el mundo flota como una idea
ensombrecida, virtuosa
y también Dios,
su lenguaje hecho de capricho humano
de humana incertidumbre.
Ahora, cuando no hay palabra
cuando el lenguaje abandona
su servidumbre,
su súplica, aún digo:
–Dios, sálvame de tu furia, dame luz y sed
protégeme de mí misma,
aunque sea haz que en mí las palabras digan algo
traigan algo
revelen alguna verdad
si es que acaso existes–.

 

 
***

 

 
El Aro

 

Rodaban por la montaña
eran un solo río
que atrás dejaba
la carne flagelada de sus padres.
Como un río eran una sola herida
que vagaría por las ciudades
hasta la época de la ceniza.
Un río que florecía como un largo puñal eran.
Traían en las manos
amados
afilados huesos
armas o amuletos
tallados con el brillo de los dientes
por si la sombra los volvía a encontrar
ahora huérfanos,
curtidos.

 

 
***

 

 

Se acostumbra el cuerpo a ser muñón

 
y desea de lo perdido su verdad, su belleza fulminante.
Se hace más presente el deseo que el muñón,
su latencia de carne mutilada.
Esta cruel servidumbre:
descreer del hombre,
para otros,
esperar al Buitre
dios, de todos,
el domador más cruel,
negrura del pan
el otro continente, el muñón que palpita
atado al cuerpo roto.
Una palabra en llamas para el hambre de este mundo.
Un escupitajo contra el andén caliente.
El pan que en las manos del que espera
se descompone,
hiede.

 

 
***

 

 

Bojayá

 
Les trozaron las manos
y en el pellejo de otros muertos, los labios les hundieron.
Para comer
después de tres días
les llevaron las tripas de sus perros.
Detrás de los árboles
unos cerdos esperaba las sobras
las falanges
los tendones quemados
que aún temblaban
pues las balas
dentro de estos pedazos de cuerpo,
de mundo,
seguían calientes y sacudían la piel partida
por el plomo final.

 

 

***

 

 
Entre la red el pez aguarda,

 
estaca la red que impide su huir.
Agua y pez socavan el hueco del tejido
en un bello intento de fuga.
Perpetuidad su vuelo entre la nube de mar que lo consume.
El pez reconoce pronto en la entraña del agua
el espejo que lo reclama;
bebe su instante de verdad
sin alegría.
Vuelve del otro lado de la red cocido.
Igual los hombres acá,
regresan del otro de la calle
cocidos, su hambre intacta.

 

Camila Charry Noriega nasceu em Bogotá, Colômbia.  Tem formação em estudos literários e é professora de literatura. Publicou os livros “Detrás de la bruma” (Común presencia editores, Bogotá, Colombia), “El día de hoy” (Garcín editores, Duitama, Colombia), “Otros ojos” (Elángel editor, Quito, Ecuador) e “El sol y la carne” (Ediciones Torremozas, Madrid, España). Participou de diversos encontros de poesia na Europa e América. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês e romeno. 

 

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Demetrios Galvão

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

palavra-mágica

 

quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.

os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.

……..(a língua quando bem plantada
……..atinge veios profundos
……..manancial voluptuoso de fabulações)

busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.

me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.

 

 

 

***

 

 

 

pescaria noturna

 

olho tua pele como uma estamparia do infinito.
Floriano Martins

 

 

embarca tua forma épica
……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.

……..era de gozo que teu olho escorria
……..o perfume do primeiro encontro aniversariando
……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.

……..nossa pescaria na madrugada
……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória.
……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses,
……..nos fez náufragos de carnes unidas.

infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável:
…………………..revolta de mar solto.

o que se escreve do teu corpo não tem nome:
…………………………..esôfago de veludo
…………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.

……..se usasse brincos eles seriam satélites
……..rodopiando em volta de tua existência celeste.

teu peito-abajur vibra uma luz rara:
……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante
……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.

………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio, o barulho

ao som de philip long

 

para assis, lara e hilda

 

o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.

o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.

quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.

o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.

o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.

o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.

o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.

 

 

***

 

 

 

esticar o mundo

 

para marcelino freire

 

ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética

se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais

é possível esticar o mundo.

 

 

***

 

 

 

para uma criatura encantada vol. 5

 

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta.

 

era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão
……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.

é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos
……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.

não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético
……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.

não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes
……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.

é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução
……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança:
………………………………….a felicidade é uma invenção macia.

 

 

 

***

 

 

para uma criatura encantada vol. 7

 

não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.

de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.

só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.

em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.

foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é
………………………………….privilégio dos que amam.

 

Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Roberto Dutra Jr.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Acaso ao horizonte
as linhas se perdem
nos homens.

Linhas
e horizonte de homens.
Homens:
linhas e horizontes
do tear.

Ao acaso as linhas cruzam-se.

A velha fiava ao sereno
linhas, horizontes e homens.
Ao cerrar-se o fio
quiséramos todos, ser
carretel.

 

 

***

 

 

QUANDO FIZER UM POEMA:

 
desfiar pedras
alimentar tigres
ordenhar deles
o medo
e constelar
ar
……….a
……………….ar
o frêmito febril
em alumbramento

 

 

***

 

 

JANELA

 
Preso no horizonte
eu mesmo
Não sei se te vejo
ou às próprias grades
da cegueira.

O sol se pôs
Vivi na sombra
do não ser-me.

 

 

***

 

 

POEMA ÁRIDO

 
Persigo as palavras
fundo, na memória das pedras,
ruído dos pássaros.
A pele descarnada das botinas
traduzindo-se em deserto.

Quando há um poema
o deserto sou eu.

 

 

 

***

 

 

NUDEZ

 
A cada minuto
perder o fio
diáfano da manhã
contemplando
sua
lânguida luz

 

 

***

 

 

O PEIXE

 
não tem nome

………………………………..[o peixe]

assim o chamo
contrário à sua vontade
escorrega das mãos
a verdade de escamas metálicas
um salto apenas

………………………………..[o peixe]

pura profundidade
tudo mais é engano
infenso drama
mergulha além do olhar
longe demais – fria chama
sem voz
nada diz

………………………………..[o peixe]

flutua
essencial e inominável.

 

Roberto Dutra Jr. é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Mestre em Letras, tem um livro publicado e diversos artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente.