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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Stefanni Marion

 

Foto: Tomás Casares

 

o enforcado

 

me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.

com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.

me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.

oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.

querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.

querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.

sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.

voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.

me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.

 

 

***

 

 

lana, ele não virá para jantar

 

um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.

ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.

dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.

hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.

quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.

quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.

sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.

lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.

 

 

***

 

 

beautiful fucker man

 

o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.

a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.

o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.

meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.

 

 

***

 

 

luver, drunk, lover

 

pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.

e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?

coloquei gelo num copo
despejei vodca negra

e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.

se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.

 

 

***

 

 

dor

 

ingredientes:

01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade

modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…

 

Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário” (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje” (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Willian Delarte

 ADORE AS ALMAS

 

tape os olhos e verá
que o mundo é um mar
de pontos de vistas

torne-se surdo e ouvirá
o que tanto
e tanto
as plantas falam

tente tocar
sem usar os dedos

ouse falar
com mais silêncios

e sentirá o fino sabor
de um deus redescoberto
na fôrma ou na forma
de ingredientes

(secretos)

 

 

***

 

 

SEU NOME

 

os amigos passaram, passou o amor,
a hora de morrer passou. a cadeira de balanço.
a palavra que não veio. a chuva lá fora.
o vento e seu nome.

passou a hora do lamento, a hora da chegada,
o momento de partir.

os olhos se voltam contra si.
há sombras por trás da retina.
há fantasmas corroendo os escombros.
há eco nos escombros. espectros desidratados.
a cadeira de balanço assovia seu nome.
a palavra que não veio.

no piscar dos olhos
passou o tempo de chorar. o sorriso que passou.
seu cadáver maquiado no meio da praça.
a palavra que não veio.

os pombos e a dança dos mortos.
seu nome na boca dos pombos.

 

 

***

 

 

INCENSÁRIO

    “à Fabiana Cozza”

sobe das frestas
das tumbas funestas
dos faraós

mira o ocidente
ó mirra, oriente
as cinzas, o pó

arruda
na porta, espada:
cada muda uma rajada
na lâmina da fé

de queimar, romper, rasgar
a redoma densa do ar –
fumaça imensa da guiné

se debilitado me sinto,
o escudo do absinto
no amor tece uma âncora

tal raio ou faísca
que no amuleto de almíscar
abrasa acácia, anis e cânfora

rosa branca, rosa amarela
erva doce, cedro e canela
defumam quarto e terreiro

irrompem portas do mundo inteiro

queima a dor
– incensa, defuma, queima
cheira a flor
– incensa, defuma, queima

o universo que arde o fim
dilata o cosmos dentro de mim
expande sândalo, cravo e jasmim

(sob as frestas de tumbas funestas
o amor é filho do pó de alecrim,
alfazema, benjoim –

e cheira a flor de laranjeira)

 

 

***

 

 

PAKU-PAKU

 

o santo come
o que é do homem
o homem come
o que foi deus

o céu come
canja
de verme

anjos na terra
quem come é ateu

a morte come
todos os planos

a morte come os anos

come os meus
come os seus

come< come< come< come<

 

Willian Delarte é autor dos livros “Sentimento do Fim do Mundo” (poesia, 2011) e “Cravos da Noite” (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente”, todos da USP. Tem publicações em diversas revistas e antologias. Foi co-editor da revista Rebosteio Digital.

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93ª Leva - 07/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ehre

 

 

bosko admira

 

O tanque de guerra
é uma grande escultura
As armas não disparam sozinhas

Emborca-se o tanque
uma flor de ferro moderna
As armas não disparam sozinhas

Um avião de guerra
pode lançar grãos e lírios
As armas não disparam sozinhas

O ventre da terra
aos corpos, agora serve de abrigo
As almas descansam

 

 

***

 

 

a la carte

 

I

Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
Quando no início da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II

Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa

 

 

***

 

 

júlio

 

A esperança é uma flor desenhada na pedra
É esperança o calor que o inverno não mata

Ele repetia as palavras como um mantra
ensinando os olhos a ver o invisível
ensinando os pés a caminhar sem estrada

Ele, mesmo sem fé, rezava
Deus acreditava nele

 

 

***

 

 

(trinta e dois)

 

Se amanhã não acordasse tarde,
com cheiro de taça
e lista de resoluções,
seria outro ano e seu começo?

Se a televisão não nos contasse
.do primeiro a nascer,
da procissão dos Navegantes,
da queima em Copacabana,
..da São Silvestre rendida ao Quênia,
nem da contagem regressiva da Times Square,
.uma maçã cairia?

Se amanhã acordasse cedo,
feito um ator que esqueceu a fala,
……………………sentiríamos frio?

Uma cortina sobe e não é janeiro.
Improviso…

 

 

***

 

 

nega

 

Na varanda e salas de jantar,
os lábios não negam.

Morenas moram na baía dos santos e pescadores
e vivem banhando-se de sol e canela
ainda que estrelas
ainda que o verão não aconteça.

Negra é morena.

Negros, filhos de negros
e bisnetos de pretos são também morenos.
Pais de negras
e de negro baiano
nem preto ou mulato,
moreno.

Nos quartos e banheiro,
o espelho…

 

Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo.

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lucas Perito

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

Objeto

 

A par entre o pensar e o estar,
Edificado no espaço e feito pelo ser,
Esse objeto sem forma combina com aqui
O marrom da cerejeira
O vermelho e azul da renda
A luminosidade amarela.
Suas setas marcam a língua – sem a qual
Vagaria sem traços que a delimitassem.
Mesmo não mais funcionando é um bonito objeto,
Um enfeite.

 

 

***

 

 

O Inteiro

 

…..Não, eu digo não ao inteiro, eu digo não.

…..Ao captar o seu inverso, algo me escapa; Tanto no tempo das horas de sal ou das horas de mármore. Esticar-me, é apenas tatear o peso de um corpo.

…..Sim, eu digo sim a carne.

…..Entrar nada mais é do que tocar – ou sentir como o gosto de mim escapa e donde minha polpa chega sem nunca saber se doce é.

…..Não, o inteiro não é para nós. Para mim, só – à parte que me toca.

 

 

***

 

    
O Despertar

…..Num entrever de águas pesadas, o nado se torna denso, lerdo,
[perto

…..Nada é torpor, um pulmão que abre e fecha frente o vento que chega

…..Uma montanha de curvas sobre o salgueiro que freme a luz que entra nesse íntimo espaço

…..É um membro que cresce na vista que mais branca se torna

…..O algodão ao lado, o ato em cima,

…..A constatação do terrível despertar dos sentidos.

 

 

 

***

Do Escrever Sobre uma Raposa

É uma presa que marca
Em traços rubros      em meio a folhas virgens
Agudo passar          entre árvores anêmicas
Todo belo                  se encontra nesse andar
Incerto traço          que rasga a mata
Que freme          e fere
Uma marca na presa.

 

 

 

***

 

Entre todas as dores
Que me tocam
A que mais machuca
É a sua.

Sem sangue ou carne

Como uma cor
Que lateja
No compasso
De um coração
Purpúreo
E seu.

 

 

***

 

 

Quatro Formas de Eros
(Fragmentos)

 

À Diana

I
Perder a si mesmo como
Um encontro ansiado

II
Quando nua doura a negra noite
Que guardas em teu olhar

III
A comunhão nasce da morte de nossos filhos
Que tu usas como alimento.
Aos que não nascem
Tu dás repouso no meu desejo;
Engole-os como bebo seus felinos olhos.

IV
Não temos fronteiras.

 

Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985, é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na Editora Empresa das Artes. Atualmente trabalha para o Estúdio Anacã, onde produz e publica textos ligados a dança. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái (Volume 1 – Nº3 – Março 2014).

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Inês Monguilhot

 

Foto: Luiz Navarro

 

Argos

 

A superfície das coisas pode refletir
de volta, concêntrico e ciclópico, o olhar.
Ou, desavisados, os olhos podem,
se não se mantiverem bem presos ao umbigo,
– sem tremular sequer um risco –
romper as superfícies como fossem água ou ar.
E, navalha ou navio,
perderem-se feito pedra
num oceano,
arrastados.

 

 

***

 

 

Antífona

(ao Señor de los temblores)

A tudo agradeço:
raízes,
espinhos,
escuridão,
a pálpebra cerrando o olho cego,
branco de caridade.

Cravos
escorrem largos das mãos;
a misericórdia serpentelínea,
de saia alvíssima.

Em mim os tambores,
terrores,
a carne fria,
uma auréola de suores.
O beijo rente a costela floresce
em descuidada ferida.

Perante a lei
.as  flores são santas e proclamam a inadiável ruína.

 

 

***

 

 

Compaixão

 

No claro de uma selva,
incerto tempo de monções,
um céu verde abre-se apaziguado
das findas luzes amarelas.
Mostra, alta, dissipados os vapores,
uma tigela branca, de arroz.

Ao pé de uma árvore
ele  terá avistado em outros tempos,
assim, solta na seda verde,
uma lua cheia, próxima, feito essa.
Num inspirar ou noutro, quem sabe,
tocou-lhe a falta
da samsara
e das dores humanas.

 

 

***

 

 

Diz a Lagarta a Alice

 

Escuta o germinar
das unhas aos céus, a lenta escalada.
Não, agitam-se as árvores
as setas verdes murmurando:
não se pode crer!
…..Corre nelas um alarido
…..contra o vento abusado,
…..contra tudo.

 …..E se pergunta a dama de copas:
 …..quanto é preciso marchar para permanecer?

Nesta hora,
se vier dar a teus pés alguma lisonja,
um trapo colorido, caco deste mundo sitiado,
deixa que sangre seu perfume, se tiver.
Não te curves, não o apanhes,
já não é.

 

 

***

 

 

…que tanto me doem rosas quanto espinhos…

 

Reis

 

Trancemos uma coroa,
das rosas que já se largam das mãos.
Trançaremos outras mais, mais adiante,
ao calor de outros verões.

Deixemo-nos  a ver-nos nas rosas,
ser carne de rosas.
Desejando, breves, os seus dias
e dar-nos por inteiro aos verões.

Coroas menos belas,
por mais que durem, todas  vão.

 

Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras.

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Carlos Barbarito

 

Foto: Luiz Navarro

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida…

 

A Albert Camus

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida.
Un vino agrio para saciar la sed,
un escaso alevino para poblar ríos y estanques.
Nada más. Por qué, entonces,
su obstinación en hablarnos
de las nupcias del viento con el mar y los ajenjos,
del árbol pequeño y aislado
como la más tierna y frágil de las imágenes,
del desacuerdo que sin embargo ilumina,
del canto de las cigarras
a mitad de camino entre el amor y la miseria.
En qué punto, entonces,
ahora se lo pregunto, la pánica divinidad,
el sólido corazón que se abre a la música,
la noche pura que se bebe,
la pasión que se encamina hacia las lágrimas,
los olores de la tierra y la sal,
el verano adormecido, el sereno o voraz decurso
hacia el pavor, el éxtasis, la ira, las uvas.

 

 

***

 

 

A la pregunta no responden…

 

A la pregunta no responden
aquellos que debieran responder
desde el fino apetito,
la conciencia calibrada
a un palmo por encima de la tierra.
Cómo decir blanco
sin quedar desnudo ante desconocidos,
cómo decir negro
sin lastimar lo que apenas admite roce.
En qué lengua hablar.
En qué medida esa lengua
alcanzará oquedades, jorobas, ardores.
Cómo entablar diálogo,
cómo inquirir acerca de pulsaciones
y destellos, la manera
en que el mundo se dispone
para que brote una flor
y en la flor se hagan el color y el perfume.
Hay todavía más. Y más.
Tal vez no alcance para contenerlo
cuanto hay a mano, lo ancho
y profundo, lo advertido
y lo ignorado, cuanto
vibra, fluye, se tensa, sube o se precipita.
A la pregunta, el aire fijo,
la llave de paso bloqueada.
Hacia la luz una polilla,
choca una y otra vez contra la lámpara;
a cada golpe el tiempo
hunde un poco más su aguja,
avanza a través de la carne
hacia el nervio central, la médula.

 

 

***

 

 

Intraducible, incluso para un demonio…

 

A Susana Wald y Ludwig Zeller

 

Intraducible, incluso para un demonio
y más allá del lento agotamiento
de las lámparas, único, permanece.
¿A qué flujo o reflujo,
entonces, encomendarlo
y hacia qué polo sonoro
o con sordina dirigir el magnetismo?
No saber, jamás, si razona
o desvaría, si expresa
una vía de lava, un encuentro de amor,
si anda bajo soles errantes,
bajo la tierra, sonámbulo,
si alcanza la orilla,
si se configura como nube o vértebra,
si habla de yescas,
rayos, traiciones, esquinas,
amparos, intemperies, escudos.

 

 

***

 

 

Tal vez toda la luz del mundo…

 

Tal vez toda la luz del mundo
sea sólo el reflejo de un sol entre nubes
contra el cristal oscuro de un cuarto vacío;
quizás el que, en busca de agua,
cava tras la orden del rabdomante
no guarda dentro de sí
más esperanza que aquella que se quita,
pliega su vestido sobre una silla,
y espera cada día la llegada del desconocido
en una casa plantada en el desierto.
¿Y la constante mudanza
de la piel y las plantas,
la hora en que a tientas la beso y la penetro,
el tosco florero vacío
ante la colmada vastedad de la muerte,
el vuelo de la polilla de cuarto en cuarto?
Ahora que la hija del sueño se consume
y un único pájaro canta
desde el borde de una larga rama inclinada,
quema la lágrima y el río
no se convierte en mar ni lo que hablo
en idioma exacto y puro.

 

 

***

 

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta…

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta
y el gusto es como una sensación
de un mal futuro, extenso y enceguecido.
Escucha: un sonido sin húmero
ni sustancia. Acaece un descolorido meteoro
donde debiera haber caos de muslos,
cavidades húmedas a un paso
de la gracia y del abismo.
Sosténganme – pide. Piel
de ofidio, frío
contra el que la vigilia se disemina
en actos repetidos, sin significado;
¿y el sueño? ¿Escena
que aguarda su idioma amplio,
su desnudo? En el centro
de cuanto ocupa la mirada,
un animal huele un poco
y luego, antes de que pueda gritar,
se convierte en aire.

 

 

***

 

 

Trakl

 

Antes que yo, en cólera y sangría.
Como yo, un ojo hacia los próximos ramajes
y el otro hacia las remotas estrellas.
Antes que yo, en dolor sin anestésico,
a la luz de lámparas agónicas,
cerca de los caballos, sus cuartillas y antebrazos.
Como yo, ante el entierro del sol,
el negro vuelo de los pájaros,
la hermana en otoño, el purpúreo sueño.
Después que yo, en cuanto pulse,
respire, pernocte, se despliegue como un mapa
o se contraiga como una santa,
en la flor de artificio, en la flor verdadera,
en el abrazo de los amantes,
en los insectos sobre la carroña.

 

 

O escritor Carlos Barbarito nasceu em Pergamino, Buenos Aires, Argentina. Dentre outros livros, publicou: Poesía quebrada (Mano de Obra, Buenos Aires, 1984), Caballos y otros poemas (Hojas de Sudestada, La Plata, 1990), El peso de los días (Ediciones Electrónicas Altamira, Buenos Aires, 1995), Puntos de fuga (Colectivo ZonAlta, Toluca, 2002), Cenizas del mediodía (Praxis, México D.F., 2010) e Paracelso (Excodra Editorial, 2013).

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Regina Azevedo

 

Foto: Luiz Navarro

 

Mãe Terra

 

seu corpo finda em raízes
sempre.

a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.

não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.

ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.

 

 

***

 

 

o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul

 

 

***

 

 

você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso

o amor também é aquático
de carne e osso

 

 

***

 

 

nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro

 

 

***

 

 

de que tens medo?

o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável

 

 

***

 

 

muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.

 

 

Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Juliana Krapp

 

Arte: Marcantonio

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

 

 

***

 

 

tipografia

 

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

 

 

***

 

 

Roteiro

 

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente

 

Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.

 

 

Categorias
88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Peluso

 

Foto: Ozias Filho

 

Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
se a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças

em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento

homens como novelos
de uma lã tão tosca

 

 

***

 

 

Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber

 

 

***

 

 

Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas
serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções

montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento
olhei-as buscando a palavra
o sentido exato
risquei a pele
na ânsia por respostas

apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite

indignada, cortei uma delas
com uma mordida

 

 

***

 

 

Refém do primeiro verso
a palavra não encontra mais caminho
verbo
não concretiza mais destino
ponto
não aborda reticências
vírgula
não carrega interjeições

não há sujeito
nem provas que houve
o artigo não define mais nada
ou indefine

metáforas
métricas
rimas
elipses
são só dores fantasma

estrofe perdeu a língua
ninguém cogita resgate

 

 

***

 

 

A incapacidade de compreender o furacão
quando falta o ar
e a devastação é a respiração da terra

 

 

***

 

 

Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira

fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho

agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia

ele não ri nem de soslaio
antes odeia

 

 

***

 

 

Intergentes falais
por códigos análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte

epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
se for
e de fato parece ser,
juristas compadecei-vos
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos

e
poetas
afundais
porque já é ávida
e movediça
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem

 

Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

 

 

Categorias
87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .