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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fred Matos

 

Arte: Julia Debasse

 

 

cangalha

 

jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.

 

 

 ***

 

 

balada para uma advogada

 

imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário

as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face

há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo

a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.

 

 

 ***

 

 

 entre mim e mim

 

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles

 

não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido

 

 

***

 

 

balé

 

tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.

 

 

***

 

 

o verbo

 

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos

e o verbo…

ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

 

(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Filho

 

Arte: Julia Debasse

 

 

 

NITIDEZ SUBMERSA


Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
— avenidas, becos, praças —
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.

 

 

***

 

 

SALVADOR, 1996-2013

 

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

 

 

***

 

 

Para José Luís Franco

 

Esteve aqui, durante a tarde e nunca mais…
E lenta, lentamente, sua ausência cresce.

Mais uma. Porém, perdas não são sempre iguais,
e o tempo, irmão, nem tudo amadurece.

Dói e assusta qualquer resquício de presença,
falta é peso e não vácuo e silêncio,

pois arrastamos nossa carga imensa
nesta margem extrema que nos vence, e o

que temos e tocamos é tal solidão,
e mesmo as coisas mais amadas são amargas:

os valores sem níquel perdidos ou não:
dedicatórias, fotos, versos, as recargas

da memória tão vária na mesmice.
A carne arde só e não há lágrima

para dessedentá-la. Luz franca sem lástima.
No travo dos adeuses fica o que eu não disse.

 

 

***

 

 

DIDÁTICA

 

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa —
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

 

 

***

 

 

LUZ PRIMEIRA

 

É possível que tão inquieto quanto este,
menos o acúmulo de desacertos de sua rota,
mais o céu primevo
e o azul bruto.
É provável que já fosse isto,
porém tosco a palmilhar seu sentido
e se assombrasse de estar desperto na disposição geral de tudo;
melhor não, nem mais puro,
não isso,
talvez intactos alguns caminhos,
e a relva e as águas e os bichos
fossem realmente mais livres.
A luz primeira veio com o primeiro grito,
e o invisível foi o medo mais duro,
porque o visto era em sua metade crível;
ao perceber que negar não era resolver,
a morte
foi o mistério mais agudo.

 

 

(João Filho nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Contos sobre tela, Editora Pinakotheke, 2005, Brasil; Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; Travessias singulares – Pais e filhos, Casarão do Verbo, 2008, Brasil; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha. Publicou Encarniçado, contos, Editora Baleia, 2004; Três sibilas, poesia, Dulcinéia Catadora, 2008, e Ao longo da linha amarela, contos, P55, 2009)

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wender Montenegro

 

Foto: Rosa De Luca

 

ABSTRATO EM LUZ E MEDO

 

O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.

 

 

 

***

 

 

 

MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ

 

Ao poeta Francisco Carvalho

 

Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.

Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.

Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.

Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

 

 

 

***

 

 

 

INVENTÁRIO

 

O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.

 

 

 

***

 

 

 

TEMPO DESCARRILHADO

 

Ao poeta Mário Gomes

 

Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno…
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.

 

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia)

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Floriano Martins

 

A NOITE EM QUE UM ANIMAL FABULOSO RENASCE NO NINHO DE TUAS MÃOS

Imagem: Floriano Martins

 

As tuas mãos tateando verbetes em minha pele.
Descobrindo onde dormia o verão. Despertando um balé profano em minhas vértebras.
Anunciando um beijo a cada sensação de desmaio.
As tuas mãos são o meu gerúndio preferido.
À noite escuto apenas o rumor das ondas de meu mar interior.
E uma voz que reconheço ser minha deslacra outro abismo com sua gramática imprecisa:
Eu sou tua, você me roubou, seu diabo!
Os meus mamilos se multiplicam e desarvoram a paisagem salpicada de lábios.
A sombra de tuas mãos imersa em minhas águas primordiais simula a dissolução de
tudo quanto fui.
Eu me recupero em tuas nascentes. Como semelhante de teus sonhos.
E não vim nem mesmo para ficar. Tu me revelas a descrição de uma lenda esquecida.
Decerto a ela retornarei.

 

 

 

***

 

 

 
RELATO DUVIDOSO DO QUE SE PASSOU CERTO DIA DO QUAL NINGUÉM RECORDA UMA SÓ PALAVRA

 

 

Imagem: Floriano Martins

 

 

A história foi toda escrita ao contrário.
Só assim resultaria permanentemente desacreditada.
O tempo se arrasta como um símbolo perdido.
Um pássaro aplicado à linguagem tentando descobrir uma função para o excesso de
aspas.
Púlpitos são comprados em brechós.
A memória jamais deixou de ser abundante e perversa, como uma escada largada na
garagem.
Aos que não vivem sem um oráculo, consultem a escada, consultem os brechós.
Há uma longa distância a atravessar entre o que vemos e o que não conseguimos tocar.
Querem mesmo saber o que houve naquele dia?
Tudo parecia despertar deslizando na matéria de nossa percepção.
As dádivas da perda se associando às lágrimas como um dragão dominado pela
assimilação demoníaca.
Como nunca, eu desejei ser o abismo do mundo.
O que vi foi a minha filha expirada em mim, a minha vida tomada como uma alusão
volátil, um rio de sangue e mais nada.
A eternidade nunca faz parte da cena.
A vida mói o espírito, o princípio e até mesmo os anjos não adaptados.
Eu teria me desfeito em sangue por ela.
Deus algum saberá até onde eu fui.
Nem importará sabê-lo, pois não importa o mais implacável de todos os destinos.
A minha filha se foi dentro de mim, consagrada ao vazio como uma espécie perdida.
Os dias felizes são tangíveis.

 

 

 

***

 

 

 

O ENIGMÁTICO SONHO DE ROSALÍA DE CASTRO NO ALPENDRE DE SUA CASA EM TEMPOS VERDES

Imagem: Floriano Martins

 

 

Parte do que fomos jamais conheceu uma outra versão de nossos abismos.
A noite percorria com inquieta intimidade um labirinto de sonhos que teimávamos em
decifrar.
Uns pássaros rascunhavam na escuridão a imaginária linha do horizonte,
até que o calor de teus lábios testemunhasse nossos corpos reescrevendo suas formas.
Atrás de uma pequena coluna, cada abraço parecia abranger um mistério propício.
Apenas o teu sonho colecionava metáforas entre satisfeitos gemidos.
Tudo isto quando o alpendre da casa recortava teu sorriso e com ele compunha uma
trilha de inquietudes, teu olhar finalmente decidido a incendiar-me as miragens.
Metade de teu corpo ficou presa na cama em que nos encontrávamos.
Eu nunca pude entender como voltávamos um para o outro e recomeçávamos a partir do
que havia sobrado da noite anterior.
A outra metade acumulando sombras antes que o sol desaparecesse.

 

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os seus livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Raquel Gaio

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

um desconhecido que me fala ao pé da noite,
possui entre os dentes
a calmaria de um rio.
em meus sonhos agudos,
sorve como um ventre
os esqueletos decadentes
e translúcidos de minha confissão.
(visões de um deserto que ninguém pressente)
esse sonho
transe alucinatório e místico
onde perco a dormência e o verbo,
nos inventa sem falta
sem desonra.

alegria cobiçada por Deus.

salto com violinos à beira-mar.

a fala desse desconhecido
se debruça sobre meu piano mudo,
e a cada nota costurada à goela,
desmancha qualquer pudor
qualquer lábio e cabelo
sem desastre
e escuridão.

reflexos da manhã

tudo nele é nada
gema de destroços
espinha de peixe
vastidão.

através de sua música onírica,
decomponho-me surrealisticamente.

/porque há um estrangeiro que me habita todas as noites
como uma avenca em perpétuas ilusões/

 

 

***

 

 

costurar na minha virilha
nosso enlace.
apertá-lo com as pernas nas noites
prenhas e insones.
(encontro frutífero de terrenos baldios-
benção de um deus que não reza.)

 

 

***

 

 

perpetuar  homicídios
abater  andorinhas
e retirar de cada mamilo o pouso.
as feridas continuam a se mover em círculos, você não vê?
o adorno dos corpos diz o destino
diz a escama escura e perpétua?
uma matilha de cães te ensaboando as vísceras
e no meio da guerra  compartilhando a romã da madrugada.

um explícito exu encosta em meu hálito,
e fecundo o chão grávido de nada.
(o chão me exige uma paternidade que não posso dar)

desejos de fim de ano
derramando o café
substituindo a borra pela combustão.

/eu tenho um relâmpago nas mãos e uma fratura na boca/

estou vendendo o tempo que esse poema consumiu pra ser feito,
quanto você pagaria?

 

 

***

 

 

um poema me começa
e invade minha saudade inventada.
tenho um sonâmbulo amor
e as costelas lúcidas da madrugada.
– sei que isso já foi escrito em algum lugar-
sou plagiadora desde nascença.
imito paraísos e tonturas.
tenho correspondências não lidas
que ocupam toda a mesa de jantar.
– ando preferindo ser horizontal e mística.
encerro esperanças na vodka
e minha sede se derrama pela noite.
cem estilhaços me dão a mão,
e no verão,
tenho contrações
devido ao número excessivo de verbos.

qual a palavra/gesto que costura
um abcesso?

observações pertinentes a esse plágio:
não possuo óculos escuros
e  antes de sair de casa,
esqueço de tirar os soluços do bolso.

 

 

(Raquel Gaio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é atriz, poeta e performer. Cursa o último período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo” com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas da UFRJ. Suas performances, algumas delas, são derivadas de suas poesias como “Retina” e “poemas vermelhos”. Mantém o blog Sensação de Violeta, onde publica suas poesias e algumas imagens de seus trabalhos)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alberto Boco

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

Fotograma

 

Para Daniel Tubío

ni una sola hoja el árbol ese
contra el cielo espeso de julio

desafía la fuerza de la gravedad y la brisa
fuera del tiempo detenido el dibujo del árbol
en esa luz diciendo que para mirar
el ojo es nada más que un aparato

lo que ve y lo que mira
el capricho estocástico del día*
es otra cosa

 

* Contraluz, Thomas Pynchon, P.943

 

 

***

 

 

La fuerza de la ilusión

 

…sospechar que tal vez todo
no sea sino páramo como luz
de casualidad puede crecer algo
(puede que flor u otra cosa)
hasta que la cosa muere y al tiempo
aparece lo igual y lo distinto
y el evocar de cada flor o lo que sea
lo real (si existiera) y lo imaginado
por todos los recuerdos
de cada uno y de todos
hacen la historieta del páramo
que se hizo a su vez otro cada día
sin saber primero
como sospecha después
acaso por querer conocer
y siempre la duda en el final
ahí donde se oye cuando
suena más fuerte la risa
que cualquiera voluntad.

Así también se ama, dicen algunos.

 

 

***

 

 

Oniricón

 

Para Alfredo

mientras el sueño  visita las tardes
donde todavía el calor no hizo su estrago
en espera de la sombra que trae cuando se retira
el sol como si fuera vaya uno a saber qué
decimos y se desviste o desvive por ahí…
no
en este borde no hay modo de saber qué
va a suceder entre todas las cosas
que los dados del sueño fabrican
(…el azar..la rareza..)
soñamos como los niños que miran
las cosas que se preservan
cuando cierta música los arrasa
… sabemos bien que más allá
de toda reflexión somos aquí los garantes
del sueño de la ferocidad
y la ternura de las cosas de la vigilia
en que las cosas pasan porque
pasan las cosas que  hacemos que pasen
sin descanso ni pensar al pasar
en cada paso dado del nosotros
nosotros responsables del sabor
el ruido y el perfume de las comidas
que comemos e imaginamos y el olor
de las pieles que dan testimonio
como una forma de respuesta con alegría
sobre la luz de las  calles donde todas
todas estas palabras están de más.

***

 

 

Pylon*

 

Para Ida

 

imaginar los postes y el plano vacío el giro
la figura que repite y se repite hasta la duda
perro en suspenso del que busca
sabe y descubre que no son los postes
más que la pobre ilusión del punto fijo
no hay más que órbita y vacío
mirada y pulso sueltos en la última curva
y dejar el dibujo
con breve bamboleo de las alas
volar al abierto en propia luz y sombra
propios el vacío y el plano
los recuerdos
el olvido …eso sí…
el olvido

 

 

* Pylon é o título de uma novela de Willian Faulkner, de 1935. Narra a história de pilotos que realizam competições de acrobacias aéreas. Também se denominam “pylon” os pontos de referência que indicam o circuito através do qual os pilotos devem percorrer. Chama-se “giro em pylon”, a manobra típica de uma aeronave ao redor de um ponto fixo, denominação oriunda do tipo de acrobacia realizada pelos competidores.

 

 

***

 

 

Estar callado y saber

 

Todas las cosas acontecen en nosotros mucho antes de que sucedan
Novalis (Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg)

 

…a veces aquello que parece que no sirve crece
cuando lo apartamos
y a pesar de la ternura y el dolor de la pena
cuando se descarta
(¿cuánto hay que cuidarse del odio y el amor a la ternura?
¿tanto como de la ternura vana, de la ternura misma?)
lo que parece que no sirve permanece en una zona
de la espera como en un cuarto desconocido de la casa vieja
uno de los rincones del tiempo que olvidado supo
resguardarse de la sabia demolición de la memoria
y espera callado que un verbo
vaya y lo rescate como decir callar
en vez de amar y callar
en vez de amar callar temer no estar
como un (¿inútil?) morir anticipado

lo que sabe dentro de nosotros
bien podría ser un color de lo que siente
una nota muda en la música
del silencio nuestro
y de nuestro valor.

 

 

(O poeta Alberto Boco nasceu em Buenos Aires. São de sua autoria os livros de poemas “Arcas o pequeñas señales” (1986), Ausentes con aviso (1997), “Riachuelo” (2008), “Malena” (2012), dentre outros. Por sua obra, recebeu prêmios e menções na Argentina. Em 2007, coordenou o Café Literário “Mirá lo que quedó”, junto com Alicia Grinbank, Alfredo Palacio e Rolando Revagliatti. Publicou poemas e artigos em revistas literárias impressas da Argentina e do exterior. Prepara o livro de poemas “Evanescentes, In Propios Y Pequeño”)

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Jorge de Souza Araújo

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

JOGO

 

Quando afinal o que não se diga
eu o imponderável lógico matemático
querendo-me aberto patife herói safo
discurso que não esporre ou ex-porre
o húmus da terra me cobrirá
ou a gala o cuspe o vômito do mundo
se farão o lanho das minhas carnes e feridas?

Com essas dúvidas
estarei reencontrado e pronto
para o sacrifício
se em dia de intensa morte
louco de ver-te e te perder
eu te puder manter na ponta dos meus dedos
e com eles trocar a incúria e o terror
dos olhos do povo
por tua presença, liberdade

 

 

***

 

 

NADA SOSSEGA O HOMEM

 

Nada sossega o homem nada
o acalma nada o amansa
que não o amor

nada aflige o homem nada
o amarga nada o suprime
que não a opressão

Nada sucumbe o homem nada
o dilacera nada o subjuga
que não a inconsciência

Sejamos pois
……………..fome ao amor
……………..firmes à opressão
……………..fortes à inconsciência

Votemos nada a tudo o que seja
contrário ao homem
Vivamos fartos o destempero do sem-ódio
do sem-medo do sem-nada
Joguemos livres o lá de nossa paz

 

 

***

 

 

NESTA ILHA V

 

Nesta ilha
não me arquipélago
noutros largos (inexistentes)

ouço
ventos gemendo ausências
nas vidraças, polifônicos

e me guardo
do apocalipse dardejando
sinas, sinos, senões

 

 

***

 

 

VADE

 

O segredo não está no aceite de uma relatividade
nem no acinte de uma vã docilidade
Cumpre e urge no entanto
dar curso e recurso a esta longa sensação de ácido:
a vida
Quem com ela advir-se
descobrirá incertos fios invisíveis a tecer
Maio deste ágio imponderável
bússola sem reparo decaída árvore sem sumo
a vida é uma mulher cega cantando ladainhas no adro do tempo
Não há como esquecer-se:
para encontrá-la, à vida
nada como embriagar-se e ver de novo
seu renascer assim papoula desgarrada
em tarde quieta e loucas laudas
de um sequer talvez quem sabe porventura

 

 

***

 

 

DATUM

 

E se de repente
me fosse dada
a sentença da vida
e da morte

eu escolheria
ficar na terra
cheirando a terra
comendo a terra
vivendo a terra
em sangue
em seiva
em salva
e mel (ou fel)

 

 

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), “Floração de imaginários – o romance baiano no século 20” (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008), “Essa esquiva e dilacerada fauna” (Contos – Ed. Mondrongo, 2012)

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Karinne Santiago

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

As nuvens redesenham o azul

 

a poesia
lambe minha cara
engole a vergonha
e despe a alma
sem espelhos

as cicatrizes
são marcas
do que não me partiu (…)

feriu
em golpes mestres (…)

ou me pariu
num gozo de estrelas (…)

a sobra camufla a falta

não condecoro a dor
aos meus vazios
janela e ventania

 

 

***

 

 

(in)verso da metáfora

 

sua língua
segredo que dissipa
palavras em paladares
antigo diálogo amante

verbos complacentes
ordens sem imperativos
diminutivos ais

ditos sem rima
reinscrevo a estrofe
quando deita em mim
o mote

sou o (in)verso
da metáfora.

 

 

***

 

 

arremato
minha solidão a sua

alinhavo vazios

moldo minha pele
no contorno dos seus braços
dobro o tempo e amasso

ajusto o amor
espeto o dedo
esqueço que esgarça

 

 

***

 

 

não aceitam devolução

 

inexato
traço no lábio
ensaio
esboço de riso

quebrou o grafite
nasceu torto
no rosto

inacabado

porém
expressivo

o riso torto

 

 

(Karinne Santiago é sergipana, mãe de um menino descabelado, poeta e psicóloga. Escreve em redes sociais e em seus blogues: Poeticaria e Poesia Veneno antimonotonia, como colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica. Atualmente, envolvida no projeto de poesia infantil onde convida outros poetas a se aventurarem no universo lúdico das palavras)

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sandrio Cândido

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Casa em dezembro

 

A saudade queima os campos interiores
crepúsculos ardem na garganta.
Minhas paisagens estão ficando para trás
as cinzas do ontem transpassam-me

o tempo tem fome do meu corpo
fontes soterradas me gritam
as cadeiras pairam no pensamento
esburacando o enxame de ausências.

Acendo o fogão a lenha
o rio em meus olhos ficou poluído
dentro os corpos apodreceram

os rostos límpidos fecharam-se nos espelhos
dói-me os passos encravados no antes.

 

 

***

 

 

Tereza

 

Os dedos molhados na luz
escavam a pedra de sal no coração
abre fendas no espelho calcinado
em busca da fonte.
Existe uma porta em cada silêncio
uma janela onde pousa a ave branca
flores de arame guardam a paisagem
rosas em chamas trancam a passagem.
Nas pontes escorregadias
desliza o nome pronunciado no bosque
plantado dentro da fome.
Atravesso com os passos cansados
a praia do silêncio
estendo as mãos feridas
escavo
dentro da pedra existe um lírio branco
dentro dos olhos uma estrada esquecida.
As palavras grávidas semeiam lâmpadas
desejam parir um caminho
arder a solidão em outra solidão
fazer crescer um jardim por dentro da fome.

 

 

***

 

 

Navegantes

“Desveladas correntezas para aportar”
Roberta Tostes Daniel

Desértica palavra veste o meu canto
tenho sede
cobertores de areia envolvem meus lábios.
Agacho os ouvidos
tento ouvir os sussurros de Deus
agasalhando meu cansaço
é inútil
ele se nega a dizer o meu nome
enquanto isso
o fogo consome meus passos
as tábuas da vida queimam lentamente
um pouco de mim escoa sem rumo
tenho pouco tempo
a chuva tarda em beijar os meus lábios
meu coração rachado não comporta flores
espero ansioso chegar o jardineiro
plantar as ramas da luz na escuridão
cultivar lírios brancos
onde crateras empoeiradas avançam.

 

(Sandrio Cândido (1991), reside em Curitiba (PR) onde cursa Filosofia. Possui poemas publicados na Mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea, Zunái Revista de poesia e debates e em outros espaços virtuais. Edita o blog A alma e a rosa. Email: sandriocp@yahoo.com.br)

 


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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Eduardo Lacerda

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Pomba-gira. ou do Apocalipse

Para Alessandra Cantero
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)

Não me lembro bem

quando cruzei

as pernas

pela primeira

vez.

/Talvez os corpos

aprendam

com

os seus extremos:

É impossível

(pedindo)

cerrar os punhos

cruzando os dedos./

Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma

habilidade.

Cruzar.

O corpo é indeciso
com seus vários

defeitos.

O corpo, e seus
muitos medos

contraindo-
se sobre
-si

mesmo.

Este é o momento final

(apocalipse

do corpo)

a que chegamos

em pecado:

cruzar o amor

ao corpo

do ser

amado.

 

 

***

 

 

A Última Ceia

 

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi

a olhar de lado
e sair por baixo.

 

 

***

 

 

Desistência

 

Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.

Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro

: o ódio

, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre

ossos

que a vida é quem nos indaga:

– Ainda haverá sangue?

/ a tristeza

é que

na vida não se

pode,

como no jogo

o roque /

 

 

***

 

 

Por um Fio

Para Aline Rocha

 

Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.

Ela não vê, está cega.

E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma

não se enxerga.

ela esconde, de sua retina
que se arregala,

e brilha (como cortina
que uma festa encerra)

tudo aquilo

ao que se destina.

O seu destino.

(ela está presa, pele
cárcere que se repete

Sísifo.)

/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:

tímida como quem reza. /

Cruza os dedos, arranca os cílios.

Ela realizará à força

o que é pedido,

mas parece promessa

Chora?

É um cisco.

 

 

(Eduardo Lacerda, autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá), nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor da Editora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)