Fred Matos

cangalha
jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.
gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.
mas nunca, jamais, nenhum pio.
caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.
contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.
mas não.
estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.
***
balada para uma advogada
imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário
as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face
há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo
a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.
***
entre mim e mim
“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles
não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,
mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido
***
balé
tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.
***
o verbo
a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos
e o verbo…
ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.
(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)






