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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

André Mellagi

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Vestígios

Entrei novamente na casa e investigo o silêncio que retorna após trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mobília da sala intocada. Desde que você foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores já não ecoam mais seus passos descalços. Foi inútil tentar recuperar a petúnia; há dias suas mãos não dosavam a água e a entrada da luz que evitariam uma outra presença sua a se despedir da casa. A sua música, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo mágico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferográfica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava próximo à cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de almíscar, mas que agora atravesso despercebido até abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma peça arqueológica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anotação pelo telefone. Foi uma explosão que acendeu, um trovão que uivou; agora são sombras que avançam, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrelaçando dois rostos a sorrir numa praça desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembrança amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.

***

 

 

O Testamento de Ícaro

 

De volta à mesma esquina por onde Ícaro passou, estava novamente defronte à loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidraçadas dos prédios domesticavam sua visão nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. Às vezes, estes olhares irrompiam em desejo e violência, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma saída do labirinto. Ícaro olhou para o prédio mais alto. A maior lembrança de sua infância, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a Dédalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstraíam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapatória. Queria ter a visão de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase científico, sua colônia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. Ícaro subiu o elevador do prédio mais alto, e do último andar olhou ao redor o continente de titãs de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o céu; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilhão urbano teria a percepção daquela imensa mancha viva de cimento, metal e plástico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreensível. Precisaria içar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o braço para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lançar o olhar em direção aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! Dê-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o quão pequeno é seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! Não se preocupe, pai, voo alto para não ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ouço dizer-me sua extensão. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!

 

 

 

***

O Jardim do Éden

Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao chão já não mais guardavam os resquícios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destroços da cúpula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antiaérea. No jardim, apenas a extensão do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, oásis que subitamente foi envolvido pelo deserto à marcha das cargas deflagradas. Uma árvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a gás mostarda e rodeada de ossos espalhados ao chão como folhas secas. A tempestade de areia e pólvora devastou a paisagem onde já não mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petróleo. Pois se a vida ainda estava lá, empreendeu-se com a razão e o conhecimento os meios de se apoderar dela; “haja luz”, disseram no princípio os criadores que manejavam o bastão, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escuridão abriam caminhos passando por cima de si próprios até alcançar o fruto que faltava. Os anjos já não tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais já sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em mútuas decapitações. Estava para começar o inverno mais quente do ano.

***

 

 

Encontro

De manhã ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as peças de um sonho. Ele tomou o café sem açúcar e amargou as notícias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de pétalas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado à massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua música na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados até o meio-dia e uma sequência de três ace na quadra de tênis à noite. Ela queria a notícia do pai de Gisela e um bom capuccino à tarde. Ele entrou no escritório, ligou o computador e coçou a testa. Ela chegou no consultório, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava espátulas. Ele sacramentava resmas de papéis e ela vasculhava bocas. Parágrafo único do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposição legal; inventários ortodônticos.

Pausa para o almoço. Só um processo protocolado e Gisela ainda não chegou. Saem do escritório e do consultório, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do chão e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o grão-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma criança. Sentam em mesas separadas. Chove hoje à noite e chegarão tarde em casa.

André Mellagi, nascido em São Paulo, é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, tais como a primeira edição da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patuá em 2017.  

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lucia Fonseca

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Manhã

 

Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:

“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.

Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.

A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”

Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.

Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.

Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.

Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.

Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.

– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover?  O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.

E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”

Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.

Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.

 

E então era o Sol no horizonte.

 

Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Eduardo Lacerda

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Pomba-gira. ou do Apocalipse

Para Alessandra Cantero
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)

Não me lembro bem

quando cruzei

as pernas

pela primeira

vez.

/Talvez os corpos

aprendam

com

os seus extremos:

É impossível

(pedindo)

cerrar os punhos

cruzando os dedos./

Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma

habilidade.

Cruzar.

O corpo é indeciso
com seus vários

defeitos.

O corpo, e seus
muitos medos

contraindo-
se sobre
-si

mesmo.

Este é o momento final

(apocalipse

do corpo)

a que chegamos

em pecado:

cruzar o amor

ao corpo

do ser

amado.

 

 

***

 

 

A Última Ceia

 

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi

a olhar de lado
e sair por baixo.

 

 

***

 

 

Desistência

 

Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.

Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro

: o ódio

, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre

ossos

que a vida é quem nos indaga:

– Ainda haverá sangue?

/ a tristeza

é que

na vida não se

pode,

como no jogo

o roque /

 

 

***

 

 

Por um Fio

Para Aline Rocha

 

Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.

Ela não vê, está cega.

E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma

não se enxerga.

ela esconde, de sua retina
que se arregala,

e brilha (como cortina
que uma festa encerra)

tudo aquilo

ao que se destina.

O seu destino.

(ela está presa, pele
cárcere que se repete

Sísifo.)

/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:

tímida como quem reza. /

Cruza os dedos, arranca os cílios.

Ela realizará à força

o que é pedido,

mas parece promessa

Chora?

É um cisco.

 

 

(Eduardo Lacerda, autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá), nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor da Editora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)