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151ª Leva - 01/2023 Destaques Olhares

Olhares

Uma sublime travessia imagética

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre cores, impulsos e concretudes, a meta de se transitar pelas paisagens dos dias. Daí que as abstrações da vida, nosso campo intangível, parecem quase impossíveis de serem registradas como sintomas de um testemunho permanente. O que fazer com os sentimentos que transbordam no horizonte das perspectivas? Como reproduzir em imagens uma quantidade imensurável de coisas que nos invadem sem nenhum precedente sinal?

O imagético é esse mar de infinitudes a nos lembrar teimosamente que tudo pode ser representado, ainda que muito habite o campo do incompreensível. Afinal, precisamos mesmo de guias nesse percurso de signos complexos por natureza? Defender a ideia de que a Arte (propositalmente grafada aqui com inicial maiúscula pela característica de ser universo de possibilidades móveis) venha a ser desfrutada de maneira aberta talvez seja o melhor caminho para a fruição de seus dotes.

E como é fabuloso ver que cada pessoa empresta seus significados a todo o engenho criativo manejado por quem faz arte. Se a vida é um livro em construção, dificilmente as vias artísticas não o seriam também. A cada tempo, um espírito peculiar, marcas pungentes que cartografam sentidos experimentados por artistas e os receptores das obras. Nesse ínterim, talvez seja quase uma verdadeira proeza encontrar formas diferenciadas de apresentar as pulsações do cotidiano.

Desconfio que uma artista como Viola Sellerino saiba executar isso com especial destreza. Em seus trabalhos, a representação daquilo que está abrigado no dia a dia vem acrescida de um componente poético que desacomoda lugares comuns de observação. E estamos a falar de uma artista que, ao lançar atenções para a vida ordinária, retira desta os frutos diferenciados da contemplação. Na dicção de Viola, esse ato de contemplar não se baseia no foco passivo sobre certas vivências e cenários, mas lança sobre eles uma lente que redimensiona os saberes e sabores postados na jornada existencial.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Dentro dessa esfera cotidiana, o olhar de Viola parece vislumbrar as alternativas de liberdade protagonizadas pelo corpo. Assim sendo, as investidas humanas são expostas como um tributo à emancipação de corpos e mentes, tomados que estão por certo gesto sublime do ser/estar no mundo. Daí que há espaço consagrado em sua arte para enlaces afetivos, flagrantes da delicadeza, pausas, arremates sintéticos dos entreatos humanos e sua ritualística, além de acenos que sugerem mergulhos meditativos diante dos mistérios do existir.

Todos esses atributos fazem das imagens concebidas por Viola Sellerino um painel que coloca como centralidade o humano e algumas de suas epifanias. Em seu modus operandi, a artista lança mão das ferramentas ofertadas pelo digital, além de se utilizar de técnicas mais convencionais como a aquarela e a acrílica. Italiana de nascimento, Viola reside em São Paulo, possuindo formação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Napoli e, também, em Ilustração editorial pelo Mimaster de Milão.

Uma imersão mais aprofundada pelas imagens de Viola Sellerino sugere certo envolvimento dela com uma forma própria de apreensão da realidade. Nesse sentido, ao fazer o entrecruzamento do vivido com o imaginado, a artista ultrapassa as zonas de conflito inerentes a nossas humanidades. Tal escolha não faz dessa proposta um lugar de fuga, mas de conversão de perspectivas, ambiente este que, sem renunciar às tensões impostas pelo real, transforma o embrutecimento da vida numa tomada de consciência mais serena.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

* As ilustrações de Viola Sellerino são parte integrante da galeria e dos textos da 151ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.  

 

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Olhares

Olhares

Um performático bailado de vida

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Dos estados do ser. Vê-lo desfiando, dentro do tecido das horas, gestos de contemplação e inquietude. Corpo-templo é corpo-abrigo, vastidão de sonhos que atravessam o caminho concreto dos dias todos. Onde a mescla das imagens fantasiadas com a suposta ideia do real? Onde o nosso desejo de verdade naquilo que tomamos posse diante da visão primeira das coisas?

O ser que evoca o corpo denota movimentos que vêm das entranhas humanas. Nesse ínterim, as investidas reverberam como se expressassem o incontido em sua dimensão mais amplificada possível. Por vezes, o clamor das formas encerra um ato a ecoar poderosamente nas consciências. São vozes que se insurgem contra qualquer forma de encarceramento dos anseios mundanos.

Quando o corpo é porta-voz daquilo que somos, sentimos que a vida mesma se expande para todas as direções. É ele o invólucro das efusões, contemplações, dores, confusões, desvios, júbilos e toda a sorte de cotejos da alma. É ele também o mensageiro duma ancestralidade que nos atravessa a todos, permeando gerações e gerações, suas linhagens, traçado originário das rotas consagradas pelo ato não menos espantado e corajoso que é o existir.

Então, por que mencionar tamanhos contornos do humano nas linhas dos parágrafos acima? Diria que para exprimir um pouco do encantamento que a arte de Gilucci Augusto é capaz de nos proporcionar. E tal sensação se consolida à medida em que mergulhamos mais e mais nas searas propostas pelo artista.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

E falei tanto sobre as paragens do corpo que mister se faz desfilar mais razões para tal. Nas fotografias de Gilucci, a corporalidade humana transcende as dimensões tangíveis da existência. Dito isso, podemos perceber que o gesto performativo que encerra suas imagens encontra, no nível do corpo, um elo entre as esferas interna e externa do indivíduo. É dizer que, para além da matéria em suas marcações de concretude típica da sina dos nossos desígnios mortais, um enlace abstrato se agiganta e proporciona um universo expandido de apreensões sensoriais.

O resultado da coexistência do que vai por dentro e por fora desemboca no efeito poético que as fotografias do artista têm também por atributo.  É, sobretudo, uma atmosfera conduzida pelo bailado das formas, através do qual as porções femininas e masculinas traçam rotas de expressão. Durante todo o trajeto proposto pelo artista, mais parecemos arrebatados pelos mínimos detalhes ofertados. E não são poucos, diria. Desde o contraste entre luz e sombra, passando pela nudez reveladora dos sentimentos, pela mescla de cores, intervenções e hibridismos imagéticos, tudo é vontade de comunicar mundos no mundo.

Profundamente interessado pela poesia que emana do Recôncavo Baiano, olhar eivado de relações com a tradição, diversidade e contemporaneidade, Gilucci Augusto nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, e hoje reside na capital soteropolitana. Atualmente, cursa doutorado em Artes Visuais na UFBA e traz, em sua trajetória acadêmica, pesquisa sobre a poética da imagem fotográfica relacionada ao imaginário das mulheres do Quilombo Kaonge, localizado na região do Vale e Bacia do Iguape, no interior baiano. Com tais predicados, o fotógrafo se revela um alguém que possui em sua bagagem o equilíbrio entre sensibilidade e conhecimento teórico no seu caminhar criativo, feições que demonstram habilmente se complementar.

O corpo em Gilucci Augusto não é apenas vetor de signos e seus respectivos significados possíveis, mas antes é chama viva de nuances do inquieto espírito que povoa nossas humanidades. Tal travessia suscita revoluções internas do ser, modulando nossas visões rumo ao horizonte enigmático da existência. Para atingir esse efeito, é mais do que necessário ousar com as imagens, promovendo outros arranjos sobre os quais podem transitar a fértil andança das subjetividades.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

* As fotografias de Gilucci Augusto são parte integrante da galeria e dos textos da 148ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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146ª Leva - 01/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Fátima Soll

 

Por entre palavras e imagens, a tessitura da vida se anuncia. São formas e formas de se conceber o mundo em suas possibilidades de expansão dos sentidos todos. A experiência do ontem e a estimativa do futuro que não sabemos como será ao certo atravessam linhas, moldam versos, irrompem na profusão de cores abrigadas em telas e fotografias. E o agora está sempre a nos pedir atenção quando tenta nos mostrar que a pulsação da existência é algo inadiável, está bem diante de nossos insones olhos sempre ávidos pela novidade. Nesses interstícios, escritores e artistas ousam ir além, posto que tendem a captar aquilo que se abriga nos recônditos da rotina. Tais artífices nos devolvem o produto de suas inquietações, percepções sobre as andanças num solo que também pode estar compreendido em nossos domínios e expectativas. Ainda assim, a surpresa causada pelo inusitado também pode fazer morada entre nós, provocando e nos fazendo desacomodar lugares acostumados. A partir de estados de efusão, contemplação, silêncio, dor e outros tantos mais, a própria vida demanda dos criadores que movimentem suas obras. Dentro dessa lógica, não há uma ordenação fixa para o pensamento e cada traço autoral desafia sua recepção a vislumbrar significados com certa autonomia. Aqui na revista, as vias literárias não se cansam de servirem de ilustração dessas constatações que atuam à semelhança de um encontro não marcado com o outro. Abrir-se para a leitura de textos como os de Helena Terra e Gabriele Rosa, por exemplo, é desvelar o quiçá insondável território de nossas humanidades, transitando por paisagens que divisam ficção e realidade. Sob o manto da poesia, agora temos a companhia dos versos de Bruno Oggione, Jorge Elias Neto, Vitória Terra, Bianca Grassi e Duda Las Casas. Nosso sabatinado da vez é o dramaturgo e diretor Paulo Atto, que nos oferta um recorte valioso sobre a sua trajetória com o teatro. É Sandro Ornellas quem aprecia e nos apresenta “Assim na terra como no selfie”, mais novo livro do poeta e performer Alex Simões. Na sua estrada de mergulhos musicais, Larissa Mendes visita “De Lá Até Aqui”, mais recente disco do cantor e compositor Silva, que celebra 10 anos de carreira. Com suas cirúrgicas escolhas cinéfilas, Guilherme Preger analisa o filme sueco-polonês “Sweat”, obra que debate a controvertida exposição da subjetividade no universo digital. Por seu curso, Gustavo Rios empreende leituras em torno de “Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo”, livro de crônicas de João Mendonça. Retomando nosso caderno Jogo de Cena, Zuca Sardan e Floriano Martins nos ofertam um texto do seu assim batizado “teatro automático”. Eivados de sentidos de liberdade, todos os recantos da nossa atual edição foram contemplados com as fotografias de Fátima Soll, artista que sugere percursos especiais em face da simbologia do corpo. Sejam todos muito bem-vindos à nossa 146ª Leva!

Os Leveiros