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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DA DOR AO AMOR À LIBERDADE

 Por Vinicius de Oliveira

 

 

Dentro da gramática dos tambores das escolas de samba, existem, em geral, três surdos que marcam o ritmo binário do samba. O surdo de primeira marca o tempo forte do segundo tempo do compasso; o surdo de segunda marca o tempo fraco no primeiro tempo do mesmo compasso. Como o samba é um ritmo sincopado, o surdo de terceira preenche o espaço entre o primeiro e segundo tempo, conferindo o balanço sincopado que move o corpo.

Na década de 30, as escolas de samba, que eram comunidades predominantemente negras, contavam a história de gente branca. Isso porque o regulamento previa enredos de interesse nacional, os quais eram compostos por temas de grandes personagens pátrios, de feitos extraordinários do Brasil e de natureza exuberante, todos eles dialogando com a história oficial.

O historiador Luiz Antônio Simas chama o fenômeno do surdo de terceira de “adequação transgressora”.  O enredo contado através da palavra, que narrava a história de “gente branca vencedora”, era contraposto pela gramática dos tambores, que entre a normalidade da primeira e da segunda batida, surge o surdo transgressor que vai estabelecer contraponto entre os sons previsíveis. Um outro exemplo de transgressão é o toque de base da Portela, que enquanto o enredo exaltava os grandes vencedores, a bateria tocava o Aguerê, que é a marcha para Oxóssi.

É nessa disputa de vozes que Levante, de Henrique Marques Samyn, nos fornece versos potentes que narram a dor de um período da nossa história que parece que ainda não passou.

O livro é composto por 75 poemas, dividido em cinco partes: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resistência, Herança e Liberdade, todas dialogam, a um só tempo, com o passado e com a contemporaneidade, e também com o projeto gráfico do livro, que começa com tons escuros em desterro, vai clareando até atingir tons amarelados em Liberdade.

Em Desterro, Samyn conta em versos o horror da travessia do Atlântico. Se os livros de história e pesquisas arqueológicas contam, documentalmente, que o continente africano exportou, durante séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para o mundo, o poema Cria penetra no horror do subsolo imprimindo luto ao verso. “Embarcai também as crias: as de peito e as de pé. Pouco é o espaço que ocupam. Pouco valem – estas, de peito, costumam morrer facialmente; as outras, que podem andar, talvez sobrevivam. Que seja: pouco é o espaço que ocupam. Pouca a nossa despesa”.

Talvez o termo mais correto para falar da história do povo negro é o silenciamento. Termo mais adequado do que apagamento. Se a história oficial não conta, não significa que um determinado fato não tenha existido. Nesse sentido, não há de se falar em dar a voz, mas sim em dar visibilidade. Henrique faz mais do que isso: ao dar visibilidade, reverencia aqueles que transformaram a dor em direcionamento para seguir. “Não mais somos vossos cativos, mas nada esqueceremos – nossa memória é profunda: fazemos da nossa dor nosso alento”.

Na terceira parte do livro, intitulada Ancestralidade, o poeta homenageia nomes que fazem parte da resistência do povo negro ao longo de cinco séculos. Samyn, que é professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Grupo de Estudos Letras Pretas, abre e fecha a parte Ancestralidade, homenageando Aquatune, a princesa africana e avó de Zumbi dos Palmares, sem a qual não existiria Zumbi dos Palmares. “No início estavas. E sem ti, rainha, que seríamos nós? Por isso, agora, a teus pés prostramos: nossas vidas a ti devemos. Ouve, nesta hora”.

O poeta lança mão do horror como matéria poética, para nos lembrar da dor de quem experienciou a escravidão. Mas não apenas.  A potência dos versos do poema Senzala mostra, como talvez não se encontra em nenhum livro de história, espaço de geração de vida, de amizade e de resistência na senzala, espaço onde só deveria haver dor e sofrimento. “Nessa casa sem janela, com as portas bem trancadas, habitam muitas famílias – muitas vidas amontoadas. Aqui se houve muitas línguas, aqui histórias são narradas, amizades são tecidas, aqui vidas são geradas”.

A última parte do livro, intitulada Liberdade, é composta por poemas que são numerados: se nas partes anteriores cada poema era identificado por um título, seja para nomear personagens importantes, seja para dar pistas do que o leitor encontrará ao longo da leitura, agora, os nove poemas que compõe a seção Liberdade são apenas numerados, indicando tempo presente que, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, constrói o futuro. “No deserto que nos deixaram, verdejaremos – dos espinhos que nos rasgaram, floresceremos”.

É nesse diálogo temporal que o livro Levante conta a história do povo negro, do desterro imposto pelo horror do tráfico negreiro, passando pela resistência de heróis negros ao sistema escravista, até ancorar na contemporaneidade, apontando não um repouso, mas sim para a permanente memória dos que deram vida por liberdade e apontando, também, para a luta por libertação.

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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144ª Leva - 04/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Do sentimento à ação: um olhar sobre a prática amorosa

Por Vinícius Gaudêncio de Oliveira

 

 

As relações amorosas, sejam elas românticas ou comunitárias, têm sido impactadas diante do enfrentamento de males estruturais e estruturantes da sociedade, como o racismo e o patriarcado, elementos que operam através do domínio exercido pela força.

O combate ao racismo e a luta por igualdade de gênero, lutas legítimas e temas da ordem do dia, encontraram nas redes sociais um novo espaço público. Nesse sentido, as divergências entre amigos, familiares e até mesmo entre casais que vivem uma relação amorosa estão cada vez mais expostas, trazendo para o debate público a necessidade de uma autocrítica enquanto seres dispostos a abrir mão de relações opressivas, de maneira que o amor se manifeste de forma autêntica.

Nesse contexto, “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, de Bell Hooks, dá uma substantiva contribuição ao debate, colocando o amor na centralidade das relações humanas: “Nós nos tornamos completamente humanos até que nos entreguemos uns aos outros no amor”.

O livro, primeiro da Trilogia do Amor, seguido de Salvação: pessoas negras e amor e comunhão: a busca feminina pelo amor, traz no capítulo 1 a importância de saber nomear o amor. O encaminhamento narrativo, sempre quando se referir a palavra amor, vai sugerir, para além de um forte sentimento, que o amor é a ação de comprometimento que promoverá crescimento mútuo. A autora, na sua busca pelo entendimento da palavra e pela palavra, traz definições intertextuais decisivas para formulação da sua tese, ao citar o psiquiatra M.Scott Peck, que vai dizer, no seu livro A trilha menos percorrida: uma nova visão sobre a psicologia e o amor, que o amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa”.

Desesperança, medo, solidão e desamor são elementos constitutivos e condicionantes da vida humana. Bell Hooks vai dizer, a partir da observação minuciosa do desespero de seus alunos, que a espiritualidade ajuda na superação de sentimentos de isolamento, proporcionando mais uma ferramenta na busca pelo amor, uma vez que ele, o amor, proporciona também elevação espiritual. “Todos precisam estar em contato com as necessidades de seu espírito. Essa conexão nos chama para o despertar espiritual para o amor’.

O capítulo 4, intitulado “Compromisso: que o amor seja o amor-próprio”, foi, segundo a autora, o mais difícil de escrever. Isto porque se faz uma confusão ao atribuir ao amor-próprio ideias equivocadas. “Precisamos parar de igualar covardemente o amor-próprio a egoísmo ou egocentrismo”. Não é difícil perceber nas redes socias essas ideias equivocadas. Basta observarmos páginas de influenciadores digitais de público majoritariamente feminino – que até formam redes positivas de acolhimento, de sororidade – mas por não saberem nomear o amor e entenderem que a base do amor-próprio é a prática amorosa, acabam passando uma mensagem distorcida e egocêntrica, desconsiderando que o amor-próprio genuíno é quando nos conhecemos e reconhecemos no outro aquilo que transborda da gente.

A autora de Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra faz importantes considerações sobre a baixa autoestima, uma vilã da busca pelo autoconhecimento. Para isso, o livro aborda as seis dimensões para elevar a autoestima, dimensões propostas por Nathaniel Branden, no livro Autoestima e seus pilares. Chamo a atenção para a primeira delas, “a prática de viver conscientemente”, que vai significar pensar criticamente sobre si e sobre o mundo, nos ajudando a entender as transformações sociais ao longo do tempo e, fundamentalmente,  buscando entender qual o nosso papel diante delas, nos aceitando e nos reconhecendo enquanto seres em permanente mudança e constituídos por dores, perdas e tristezas, mas também com capacidade de reinvenção e superação: “O coração ferido aprende o amor-próprio começando por superar a baixa autoestima”.

Após reconhecer as origens que levou a baixa autoestima, como socialização negativa, abusos e traumas, Bell Hooks fala da importância da atividade laboral na busca pelo amor-próprio, afirmando que, ainda que trabalhando com o que não gostamos, a única forma de lidar com a insatisfação é executar bem aquilo que nos é confiado, como melhor forma de lidar com as dores. A narrativa segue discutindo a relação entre vocação e dinheiro, e como podemos tirar proveito de situações as quais não nos agradam. Para isso, ela cita como o seu trabalho de cozinheira, do qual ela não gostava por odiar o barulho e a fumaça, se tornou uma oportunidade para realizar o seu sonho: “Trabalhar a noite me deixava livre para escrever durante o dia. Cada experiência aprimora o valor da outra”.

Autora de O Feminismo é para todo mundo, Bell Hooks, ao falar de amor, dá uma consistente contribuição para o movimento feminista. Isso porque, embora militante fervorosa, a autora não cai no radicalismo de afirmar que o feminismo é um movimento que exclui o homem do debate, ao contrário, vai afirmar que a luta das mulheres por igualdade de gênero é, ao mesmo tempo, uma luta que vai combater a masculinidade tóxica que acaba por afetar também os homens: “A masculinidade patriarcal distancia os homens de sua identidade”.

Como o patriarcado é historicamente atravessado pelo desejo de poder, o feminismo é também, em última instância, a luta pelo resgate do amor genuíno. “Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente”. Nesse sentido, a honestidade diante da pessoa amada e o desejo de desconstrução de padrões machistas, nos quais os homens rigorosamente se inserem, são condições fundamentais para que o amor possa penetrar e encontrar terreno fértil, livre de opressão, fazendo com que o encantamento pela pessoa amada seja maior que o encantamento pelo poder.

Em geral, quando falamos de amor, facilmente incorremos em clichês do tipo “felizes para sempre”, o que não ocorre em “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”. Com uma linguagem simples, porém contundente, o livro assume a sua potência na medida em que define o amor sem apelar para uma autoajuda barata – e aponta caminhos consistentes para alcançarmos o amor, seja ele romântico, familiar ou entre amigos.

Na minha última resenha publicada nesta revista, falei sobre livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Bell Hooks e Henrique conversam entre si e, através da palavra, concordam que é decisivo, se quisermos viver o amor genuíno, romper com padrões eurocêntricos de opressão, como o racismo, sexismo, exploração e preconceito religioso. Se a autora diz ser possível viver um grande amor sem ao menos ter contato com a pessoa amada, bastando que a prática amorosa eleve a si e o outro, por que os seres humanos, nas diversas relações de sociabilidade, ainda não são capazes se se abrir plenamente para o amor?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 Amém e Axé: o diálogo que emana afeto

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Em agosto de 2014, oito traficantes cariocas foram presos por ataques a terreiro de candomblé, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Na investigação conduzida pelo delegado do caso, identificou-se que a ação foi coordenada pela Facção Terceiro Comando Puro, chefiada por um suposto pastor.

Parece um contrassenso falar de traficantes evangélicos, porém, o fundamentalismo religioso em ascensão no Brasil, com sua face mais exposta na Cidade do Rio de Janeiro — tendo em vista a entrada política de líderes religiosos neste cenário, desacredita toda e qualquer forma de espiritualidade diferente do cristianismo, além de produzir um discurso de ódio e de morte.

Nesse sentido, o livro  O amor como revolução, do pastor Henrique Vieira, é esperança em meio à brutalidade e um convite para o exercício permanente do amor nas nossas relações: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”.

Quem lê a “Oração da felicidade”, que funciona como o prólogo do livro, terá noção daquilo que vai encontrar ao longo da obra. À exceção do leitor dogmático e fundamentalista, o livro, por falar de diálogo e do poder renovador do amor, pode circular com tranquilidade por leitores de todos os credos, tanto que na capa temos relatos da Jornalista Flávia Oliveira, cuja fé é professada na Umbanda.

Pastor, escritor e militante de direitos humanos, Henrique Vieira conta que sua experiência com Deus ganha maiores contornos aos 16 anos, diante do desamparo da vida, condição que, segundo o autor, acomete a todos, independentemente de credo. “Nessa solidão há um drama existencial que atravessa todas as pessoas, uma comunhão universal na condição do desamparo”. É nessa busca pelo encontro consigo mesmo e pelo autoconhecimento que, em geral, os seres humanos procuram uma experiência transcendental que proporcione a superação do desamparo, sem deixar de perceber que também no sofrimento é possível evoluir como cidadão e como ser.

Diante do seu desamparo, a fé. Ao chegar ao oftalmologista para fazer um exame de vista, constatou que sofria de neurite óptica bilateral: “Voltei chorando para casa enquanto minha mão ligava para outros médicos pedindo orientação. Nos olhos da minha mãe, via minha dor sendo compartilhada; meu pai com semblante sempre sereno, me transmitia calma e confiança. Mais tarde, chegaram meus irmãos mais velhos, Ghilherme e Marcele, e todos juntos começamos a orar naquele quarto”.

O amor é definido como uma atitude revolucionária, que tem uma relação direta com a inconformidade, capaz de provocar comoção e reação diante de uma cena tão comum e naturalizada nas ruas cariocas, que é a da mendicância, e em muitos casos em ruas de áreas nobres e com grandes concentrações de templos evangélicos. Diante da sensibilidade do olhar afetuoso e do amor como prática diária, o autor afirma que ser cristão é se comover perante um mendigo, um detento, um jovem negro sendo sufocado, uma criança morta em uma favela ou por um assassinato motivado por orientação sexual: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”. Diante disso, pode a igreja se calar perante a morte de Marielle Franco? Ou da morte de Maria Eduarda dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari? É inaceitável que na Cidade do Rio de Janeiro lideranças religiosas dialoguem com um tipo de segurança pública forjada na lógica do extermínio, ignorando que Jesus foi preso sem culpa, torturado e morto pelo império romano, em uma sucessão de absurdos cometido pelo Estado.

Durante toda a obra, Henrique Vieira parece se vestir de palhaço para quebrar hierarquias e criar um ambiente de afeto e livre de preconceitos. O autor encaminha a narrativa para uma abertura espiritual que rejeita o dogmatismo e o fundamentalismo religioso, desconstruindo mentes machistas, apurando o olhar para entender que toda forma de amor é justa, aguçando a sensibilidade para nunca naturalizar desigualdades sociais e, fundamentalmente, apostando na convivência e respeito entre as religiões para desconstruir a noção de exclusividade de fé, que encoraja traficantes a agirem violentamente contra templos de religião de matriz africana: “Precisamos construir juntos um amém e um axé pela paz”.

Em tempos em que líderes disciplinam a experiência com Deus e criam uma agenda em que na segunda-feira Deus tem que dar uma bênção material; na quarta-feira uma cura e no domingo uma resposta para algum problema, crianças, expostas nas calçadas de caminhos de templos religiosos, seguem pedindo esmolas e desamparadas pelas famílias, pelo Estado e pela igreja. Da Sara Nossa Terra à Cara de Leão, seres humanos com cara de fome seguem ignorados nas suas individualidades e nas suas necessidades básicas, não respeitados em seus desejos sexuais, e quando são presos, torturados e mortos, agora pela máquina do ódio e pelo fundamentalismo religioso — não mais pelo império romano — a igreja silencia. E agora, Pai, que eles sabem o que fazem?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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135ª Leva - 02/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Do corpo surrado ao corpo encantado: um drible no precário

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Talvez se vivencie no Brasil um dos períodos mais difíceis e contraditórios da história do país. Difícil por conta dos ataques sistemáticos à cultura, à educação, às religiões de matrizes africanas, sem falar na precarização da vida, acentuada pela expropriação do trabalhador, esta materializada na ideia de que se virar para ganhar a vida é empreendedorismo; contraditória porque os ataques vêm de governos instituídos democraticamente. Tudo isso toma proporções maiores na cidade do Rio de Janeiro quando o chefe do executivo estadual diz que vai passar de helicóptero por cima de uma favela atirando em quem portar fuzil, desconsiderando que uma boa parcela da massa de trabalhadores lá reside; ou as absurdas afirmações do chefe do executivo municipal quando diz que investirá em creches ao invés de investir no carnaval, como se uma coisa anulasse a outra.

Os problemas de ordem estrutural da cidade do Rio de Janeiro, como a falta de vagas em creche na rede municipal, na qualidade da água fornecida pela CEDAE, na mobilidade urbana, na qual os moradores da Zona Oeste da Cidade são os mais prejudicados, tendo que levar três horas para chegar ao centro da cidade, ou ir espremido no BRT (ou nem mesmo conseguir entrar) para trabalhar na Barra da Tijuca, passando pelos ataques a terreiros cada vez mais frequentes e pela “milicianização” da vida, desenha as linhas de uma Cidade doente e mítica. Diante deste cenário caótico, como pensar a Cidade sem romantizar o precário? O corpo encantado das ruas, de Luiz Antônio Simas, faz isso ao narrar a história de gente miúda que faz “da chibata de surrar o lombo a baqueta de bater no coro”.

Com o título inspirado no livro do João do Rio, A alma encantadora das ruas, que discute as contradições da Cidade com olhar sobre os tipos humanos e sobre a desigualdade social no início do século XX, o autor de O corpo encantado da rua flaina pelas ruas do Rio de Janeiro observando aquilo que contrasta com o modelo de Cidade que se quer europeia. Enquanto João do Rio fala sobre pequenas profissões, músicos ambulantes, mulheres mendigas e pessoas encarceradas, Simas narra história de “capoeiristas, malandros, sambistas, chorões, vendedoras de comida de rua, mãe de santo, coveiros, empregadas domésticas, caçadores de rato” e, não se limitando apenas a isso, conta como essa gente miúda inventa a vida na fresta “dando um nó no rabo da cascavel” e como ela produz cultura “onde só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa”.

Com um baralhamento de linguagem, ora historiográfica, ora literária (ou encantada?), o autor de Pedrinhas Miudinhas fala de fé, de encruzilhadas e intuições que perfazem caminhos que nos transportam de uma situação aparentemente precária e de desencanto para caminhos de riquezas de saberes e modos de vida geralmente entendidos por alguns como desimportantes. Através de seus 42 ensaios, todos começando por “As ruas” e terminando com “rua”, o craque Simas vai inserindo na gira todo tipo de gente massacrada pelo projeto colonial, pensando a Cidade a partir do mito de origem da Umbanda, que consiste em um culto no qual pretos e índios poderão dar sua mensagem, criando, assim, uma “história a contrapelo”, na qual gente miúda vai contrapor o projeto de identidade nacional de cunho eurocêntrico.

Grosso modo, Simas discute de que forma se dá o movimento do Corpo nos espaços, que são as ruas. Corpo aqui entendido como os elementos menores da sociedade carioca, que não fazem parte da cultura oficial. As ruas são entidades representativas, são lugares nos quais acontecem manifestações diversas. O autor, no ensaio que fala da “Arenização da cidade”, cita a morte simbólica do Maracanã, que teve  extintas a geral e a arquibancada, acabando com “espaços coletivos de movimentação imponderáveis, soluções criativas do ato de torcer, lugares de abraços suados e eventuais porradas”. Porém, cita também uma disputa que mostra que o debate continua vivo ao observar faixas reivindicando justiça: “As faixas para Marielle mostram que o jogo não acabou. Tem gente disposta a continuar disputando as arquibancadas, e consequentemente, a cidade”.

A cidade em disputa, tensionada, que “ama e odeia carnaval”, está o tempo todo nos dando amostra desse embate. Assim como o Maracanã, o Sambódromo, local no qual acontecem os desfiles do grupo de acesso e do grupo especial das escolas de samba, sofre com a “arenização”, tendo sido invadido pela “cultura do evento”, onde se formam camarotes com preços altíssimos que abrigam gente que não está nem aí para o “evento da cultura”. Mas as escolas de samba sabem driblar o oportunismo e preservar suas bases comunitárias. Assim como fazia em épocas de letras de sambas-enredo que falavam da história oficial, mas a batida da bateria era para Oxossi, no carnaval de 2020, o desfile das campeãs teve enredos sobre as Lavadeiras da Bahia, sobre Joãozinho da Goméia, sobre Exus e o Povo da Rua, sobre Elza Soares, sobre Benjamin de Oliveira e sobre um Jesus pobre e negro, todos eles dialogando com a cultura de matriz africana no meio de um lugar “arenizado”, porém “terreirizado”.

Nessa esteira do carnaval de 2020, no exato momento em que a Escola de Samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, situada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, passava na avenida, caía uma chuva torrencial no bairro de Padre Miguel, e em grande parte da Zona Oeste, que fez estragos no bairro. Qual a relação entre os dois fatos? Simas diria a máxima de Beto sem Braço: “o que espanta miséria é festa”. Isso é cultura de síncope. O povo precisa gingar para escapar do precário; precisa ter a inventividade do surdo de terceira para sair da previsibilidade. No último carro da escola, passa Elza Soares, homenageada com o enredo “Elza Deusa Soares”, com os punhos erguidos e com os dizeres na parte traseira do carro alegórico: “Nós não vamos sucumbir”. Ao ver a escola passar e o bairro alagar, um delírio duplo tomou conta de quem vos escreve: o do encantamento da Elza Deusa Soares na avenida e do desencanto de quem precisou atravessar a outra avenida (a Brasil) para chegar até a Zona Oeste. Num Rio cheio de contradições, a Escola de Padre Miguel deu o recado: não vamos sucumbir, ainda que tenhamos um ano cheio de quartas-feiras de cinzas, e com ela a dureza da travessia de caminhos submersos pelo descaso.

Embora apenas um ensaio cite um lugar inserido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Vila Kennedy, as formas de reivindicar saberes e visão de mundo são genéricas. A Zona Oeste do Rio de Janeiro se configura como um subúrbio com características diferentes como em outros. Nela, conjugam-se favela, milícia, rural com o pior do urbano, que são os engarrafamentos. Com uma linha de metrô no final da Barra da Tijuca e uma estação ferroviária em Santa Cruz, estes dois ramais polarizados são “ligados” por um BRT que contraditoriamente significa Transporte Rápido por Ônibus, do inglês Bus Rapid Transit. Os usuários do transporte público sentem diariamente a precariedade para trabalhar e, registre-se, para se divertir também, visto que aos finais de semana o número de veículos é drasticamente reduzido. Com isso, cria-se um lugar exclusivo para dormitório, no qual brincar é proibido.

Num lugar em que surgiu a “liga da justiça”, que teve apreendidos 117 fuzis em um condomínio de bacanas e com um número cada vez mais expressivo de evangélicos fundamentalistas, surge na “fenda da pedra” o Instituto Onikoja, localizado em Sepetiba, cujo objetivo é preservar e difundir a cultura de Matriz Africana, solidificando os saberes da herança africana. No local, são ministradas aulas de capoeira, oficina de percussão e uma oficina de bonecas africanas Ahosis, “terreirizando” Sepetiba e mostrando que lá tem um exército de guerreiras dispostas a combater a intolerância religiosa. Surgem também rodas de samba nos bairros dominados pela milícia, como em Cosmos, com o samba da Casa Velha Verde, Samba da Aurora, Samba Fulô e Samba da Ingrid, estes em Campo Grande. Com isso, há um resgate da ancestralidade da região, pois “nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidade comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão”.

Samba, futebol, macumba, festas, brincadeiras e Cidade são temas tratados pelo neto da Dona Deda, uma mãe de santo versada no xambá, jurema e encantaria. O babalaô não se acovarda diante de uma Cidade à beira do precipício. Suas reflexões encantadas sobre ela traz à tona não a resistência para dias difíceis, mas a reinvenção da vida precarizada, através de saberes, práticas e visão de mundo daqueles relegados ao nada, fruto da lógica de uma Cidade, que, como diz o autor, foi fundada para expulsar franceses, mas que um dia resolveu ser francesa para esconder suas africanidades.

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.