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78ª Leva - 04/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.

 

Os Leveiros

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Vítor Nascimento Sá

 

Foto: Rosa De Luca

 

POÉTICA

 

I

 

Ser capaz de colher,
na árvore de Mallarmé,
um punhado de sementes,
transformá-las em estrelas negras
e compor uma constelação
sobre o céu branco do papel.

Entre o barulho e o
……………………….silêncio

Deixar o vento amalgamado
num móbile
……..da
………..sala
……….de
………….estar.

 

 

II

 

Nesta mesma escrivaninha,
um texto por encomenda:
angústia.

Prazo, quase findo,
lugar marcado,
papel em branco.

Um amigo, ao telefone,
questiona a validade,
a importância das
digitais sobre o teclado.

Mais uma gota de suor,
mais uma xícara de chá amargo,
mais litros e litros
de vazio até a escuridão entrar pela janela.

E, mais, uma vez,
adio a primeira linha
para o dia seguinte.

 

 

III

 

de pronto dilata-se
……..    minha ideia
e me faz maior
que o universo
então tudo se aquieta
……..    em mim
estrelas
……………..soar de sinos
……..    fundos mares
verbos de outras
terras
……………..virgens
são minha alma
sob o manto enviesado
a empreender mantras
tudo absolutamente tudo
em minha poesia

ou em mim
quiçá até o inexistente
o que equivale dizer
que é ela também o nada

para além do que se sente

minha poesia é um desmentido
……..    em jornais de folhas rotas
………………guardanapos nos bares da esquina

é quase tudo
inda
é muito

porque é arte de tudo dizer com o mínimo possível

é o limite entre os sons e os completamente silentes

para o resto ela é só uma porção de dúvida
diante da certeza dos que se pensam contentes

 

 

IV

 

Muito antes deste poema,
fui forçado a escrever o meu braço,
sustento de mãos, colegiado de dedos e sonos.

Muito antes deste poema
a saliva estava para teu corpo
assim como o rio está para o barco
ou para o cão a observar o seu curso.

Jamais entenderás a solidez
de minha primeira água.

Ainda não liquidada,
a energia devorou
meus dedos de escuridão,
abismo, ausência.

Foi esse então o primeiro facho.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011))

 

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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Juh Moraes

 

 

GÊNESE DO DIA

Vitor Nascimento Sá

 

Hoje, dia de feras,
xxxxxProcusto me arrasta à sua senda,
xxxxxestrada de aparar arestas.
Hoje, dia de feras,
sou devorado pelo
xxxxxxxxxxxxxcéu
xxxxx– Urano e seus velhos vícios –
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o pai
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o tempo.
Hoje é dia de feras.
xxxxxE eu, vítima de Minos.
E o fio?
Em algum ponto se perdeu entre feras
Em algum ponto se desfez
xxxxxE como não ser eu agora
xxxxxa carne de alimentar os deuses
xxxxxdragões famintos, febres?
Eu e minhas pernas podres,
eu e o meu pouco fôlego,
eu e minhas doenças,
únicas verdadeiras propriedades.

Eu, fera de mim mesmo,
eu, auto-rei, auto-deus,
autófago, autômato, arauto.

 

***

 

TEORIA GERAL DA GUERRA

 

Sangue e terra:
na olaria da morte,
o barro inconcreto do nada.

Diante do abismo,
o fim diagramado dos mapas
sobre a mesa de generais aquartelados:
cada centímetro noturno
arrastado em mil fios,
entesados e enrodilhados,
dentro da trincheira imersa
no fosso da alma do soldado.

Sangue e terra:
barro nos pares de coturno,
morte dificultando a marcha
com todos os medos sufocados
na garganta do inimigo degolado.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011). Os poemas acima fazem parte do seu primeiro livro, intitulado Escapulário (no prelo)