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93ª Leva - 07/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Jorge Elias Neto: breve panorama

Por Marcos Pasche

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

Em A ideia de Brasil moderno (1992), o sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) diagnosticou com rara acuidade um dilema central do País: o todo é desarticulado de suas partes. Passadas duas décadas, a observação do sociólogo paulista permanece atual, tornando-se até mais expressiva, pois há pouco o Brasil alcançou o patamar de sexta economia do mundo e agora assiste à pior seca das últimas seis décadas que mumifica a região Nordeste.

Diferentemente do que se possa imaginar a partir do exemplo, a desarticulação vai além das vetustas antíteses de riqueza e miséria, centro e periferia, sul e norte. Mesmo no Brasil metropolitano há distâncias simbólicas inimagináveis para a contiguidade geográfica. Essas considerações me ocorrem ao pensar no Espírito Santo, uma das quatro unidades da região mais rica do Brasil (a Sudeste), que parece pagar pelo pecado onomástico de integrar um Estado laico. Para se ter ideia de sua dissonância em meio à região, basta verificar que o Espírito Santo é desprovido de universidade estadual, e que foi o único dos “sudestinos” a não receber jogos da Copa do Mundo. Pelo vínculo com Minas, Rio e São Paulo, o Espírito Santo está no Centro, sem, com isso, possuir centralidade.

O efeito disso para a cena literária é bem conhecido: uma nuvem encobre escritores de real interesse, os quais precisam fazer malabarismos diários para ter vez mesmo em sua região, quase sempre condenados ao apressado carimbo de provincianos. Só que autores como o ficcionista Reinaldo dos Santos Neves, o poeta Waldo Motta e o ensaísta (também poeta) Wilberth Salgueiro (nascido no Rio e radicado em Vitória há mais de vinte anos), dentre outros, demonstram que a produção literária local em nada deve ao que de mais representativo se publica no País, e isso se aplica igualmente ao poeta Jorge Elias Neto.

Capixaba, médico cardiologista e membro da Academia Espírito-Santense de Letras, Jorge Elias é autor de três livros: Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010) e Os ossos da baleia (2013). Conjuntando variação formal e temática, o poeta vem desenvolvendo um trabalho que requer atenção, seja por aquilo que o associa a significativas linhas de força da contemporaneidade, seja pelo que o coloca em certo afastamento, quando as linhas da mesma contemporaneidade revelam fraqueza e desinteresse.

Já em Verdes versos, o volume de estreia que agrupa quatro livros (Versos verdes, Viajante lunar, Vegetariano e Querença), esse movimento de pertença e refração se torna visível quando, por exemplo, alguns poemas fazem referência à verdade, essa palavra-conceito tornada tão espinhosa com a emergência do pensamento moderno. Tomado pelo caráter problematizador próprio do discurso poético, o poema “Desejo” não dá à ideia de verdade qualquer chancela de firmeza, o que corrobora um princípio intelectual contemporâneo: “Grito enlouquecido as minhas trôpegas verdades,/ para que se faça cruel o teu destino.// Imagino e sorrio como o falso profeta,/ para te ensandecer com verdades distorcidas”. Entretanto, noutros momentos não haverá titubeio para afirmações convictas, como se nota em “Pau a pique”: “Na alucinação de minhas necessidades,/ encontra-se a verdade”.

E qual será a verdade do poeta? Ele não o declara abertamente, o que induz à procura de pistas. Arrisco-me a dizer que a verdade de Jorge Elias Neto é a poesia, o que em tese é algo óbvio demais ao se falar de um poeta. Mas o que destaco na ideia da poesia como verdade é que, diferentemente do que se banalizou na pós-modernidade, a poesia de e para Jorge Elias Neto não se afigura um amontoado de palavras inócuas e inúteis, e por isso os poemas carregam o verdor consciente do que pode e deve significar o verbo para o mundo. Assim, o poeta aposta no sonho alvissareiro de estrato familiar e artístico em “Vó Bela” –

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

 

–, e, mesmo que desapegado de ícones tradicionais, reitera sua crença no afeto: “Cérebro ateu,/ em minhas mãos já/ não cabe uma cruz./ Mas em meu coração/ insisto em manter uma rosa” (“Oração de um urbanoide”).

Um olhar unilateral e incauto poderia apontar nos destaques exemplos de pieguice, derivados “naturalmente” de um poeta provinciano. Mas os olhares unilaterais e incautos não enxergam nos outros senão aquilo que caracteriza sua estreiteza de visão. Dito isso, verifica-se em Rascunhos do absurdo a confirmação da tônica dual da obra em análise, obra essa construída pelo olhar crítico que não prescinde da candura, pelo tom fagueiro avizinhado à abordagem do que fere e destrói. Assim, se “Régua quebrada” traduz uma arte poética singela e crente – “Insisto na ingenuidade da metamorfose/ (só sei transformar sapato em borboleta)” –, “Céu de bombas” evoca a realidade terrivelmente atual da Faixa de Gaza: “Em cada criança morta, sacrificada,/ um objetivo insano.// Despeço-me do dia/ sob flashs e bombas”.

Em nenhum momento a escrita de Jorge Elias Neto privilegia o formalismo, mas em Os ossos da baleia é evidente a meditação constante acerca da estrutura dos poemas, pois todos, embora nem sempre concisos, são grafados em discurso enxuto (Cf. “Uma carteira e seus sentidos”). O objetivo é dizer apenas com “O liso da casca”, para “despertar do torpor…/ A linguagem” e, além, “Revolver o leitor/ no espaço-tempo” (“Poema justo”). Como estamos procurando destacar, em Jorge Elias a afirmação de algo não ocorre sem que também se afirme um “outro algo”, até mesmo contrário ao afirmado anteriormente. Assim, se a economia verbal é a intenção do discurso preciso, não deixa de ser também a constatação de um impasse aflitivo para os poetas, isto é, o referente aos limites da linguagem e à impossibilidade de dizer: “Trago interrompidas/ as melhores frases” (“XXIV”, 2ª parte).

Como estamos traçando um breve panorama da poesia de Jorge Elias Neto, percorrendo a bibliografia que, até o momento, simboliza começo, meio e fim, convém rematar com um dos mais interessantes textos do último livro, justamente aquele que o encerra: “Dispo-me dos pés./ A liberdade essencial/ se aproxima…/ Finalmente,/ me chamarei:/ ninguém” (“XIV”, 3ª parte). Só que, dessa forma unitária, poderíamos incorrer em inconveniência, obstruindo o diálogo de crítica e poesia. Portanto, o espaço do fim faz-se o do começo e o do recomeço, e é por essa razão que retorno a Verdes versos – livro primeiro – e ao início desta intervenção – com seus comentários sobre o Espírito Santo – para evocar o alto canto de comunhão entre o poeta e sua terra – canto que, menino, denuncia a dissonância no presente e, maduro, faz coro com a fé no futuro:

 

Ilha, tua essência é verde;
teu maciço é verde;
a maioria de teus séculos foram verdes.
Verde é a esperança de teu ressurgimento.

 

Marcos Pasche nasceu e vive no Rio de Janeiro. É professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e crítico literário, autor de “De pedra e de carne” (Confraria do Vento).       

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


SILVA – CLARIDÃO

 


O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, pop e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), Claridão, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no Sónar São PauloFestival Internacional de Música Avançada e New Media Art – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.

Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de Claridão pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via web, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em Claridão, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.

 

SILVA / Foto: divulgação

Se a apocalíptica de batidas modernas 2012 abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (gosto mesmo do incerto/pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), a ritmada Falando Sério reitera sua ambivalência (não curto o tédio/mas ele é tão “cute” em você). A eletro-erudita Cansei, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas Ventania e Posso. Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de Mais Cedo, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante Claridão, que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de 12 de Maio lembra os americanos do Beirut. Acidental e Imergir, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa Moletom (não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e ukulele, a bela A Visita, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra Claridão de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.

Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que Claridão é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)