Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.
Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de A palavra que resta, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.
Foto: Carolina Spork
Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.
É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.
Foto: Carolina Spork
É preciso dizer que o espetáculo A palavra que resta cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre A palavra que resta e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.
Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.
O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.
É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.
Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.
Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.
Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?
VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.
DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?
VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.
DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?
VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo?
VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.
DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?
VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.
DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?
VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?
VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.
DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?
VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.
DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?
VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.
DA – Afinal, por que escrever?
VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
Ruído nos dentes. Embora, no título, a provocação seja à minha arcada dentária e ao meu maxilar que, volta e meia, expressam minha pulsão de vida e, volta e meia, meus picos de raiva e desconforto, quem, de verdade, se exalta diante dos versos e da prosa deste livro, estranhíssimo no melhor sentido, da Vivian Pizzinga, são os meus olhos.
E o que leem os meus olhos que embaralham os meus pensamentos como se eu estivesse sem óculos ou dentro da dissonância de um sonho permeado pelos poemas e histórias que leio e que, então, recrio e reescrevo enquanto durmo? Sim. Reescrevo o que me absorve, quase sempre com as mesmas palavras que suas autoras e autores, nas horas que eram para ser de repouso. Horas destinadas a regeneração do meu corpo que acabo por usar em favor da minha imaginação.
Imaginação. Eis algo que se multiplica e transborda em grande escala e ressonância no Ruído nos dentes. Imaginação construída em cima da linguagem, dos versos em ruptura com sua própria natureza e em conluio com a prosa, híbridos e livres além do conceito de versos livres. Insubordinados. Desobedientes.
E imaginação construída também em cima da vida no que ela tem de trivial, com suas repetições quase necessárias, no ato de se tomar um café e de pegar o metrô e de tirar a remela dos olhos porque a rotina tem encanto. “A rotina tem seu encanto”. Adoro essa frase. É o título de um filme do Ozu. E falo sobre um filme aqui porque o Ruído nos dentes é muito visual e entrou em cartaz no meu cérebro faz semanas.
Faz semanas que escuto e vejo os seus poemas. Todos em movimento. Em várias sessões. Os meus favoritos são aqueles à beira da crueldade, um tanto malignos, que se movem rasteiros pelo lado mais de dentro de tudo que há de mais inquietante no meu lado de dentro. E que aí me machucam enquanto transformam as minhas percepções em memórias e em elaboração e resistência estéticas. O Ruído nos dentes é um livro sobre resistir. Resistir de verdade.
“A verdade raramente é compreendida por pessoas sem imaginação”, uma personagem de um outro filme, Os inocentes, dirigido pelo Jack Clayton, diz. Livros também raramente são compreendidos por pessoas sem imaginação, eu digo cá com o meu teclado testemunha das tempestades que atingem os meus neurônios. O livro da Vivian Pizzinga é uma. O Ruído nos dentes é uma rota elétrica, de energia. Quanto mais a gente o lê, mais forte ele se torna e indecifrável e inalcançável como devem ser as obras de arte.
Helena Terra é de Porto Alegre. É jornalista, criadora e coordenadora do Grupo de leitura e escrita A palavra tem nome de mulher, dentro do presídio feminino Madre Pelletier, com as mulheres privadas de liberdade. Faz leitura crítica de originais e mentoria de escrita com escritores iniciantes. Cursou a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e frequentou os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E lançou o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, em 2021.
coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. Há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. Coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. Coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. Na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solilóquios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer época do ano.
Coleciono ecos.
***
miasma
isolada. exilada. asilada. arrasto um nó górdio no epicentro do corpo. vômito acumulado (volumoso líquido miasmático com espessura em centímetros) ou fome de muitos dias. o nó górdio deu cinco voltas ao redor do pâncreas, associou o fígado no bolo visceral e arrebanhou estômago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do nó adelgaçou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o céu da boca rebaixar seu pé direito: língua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em exílio. pode ser que não me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insistência. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.
***
erro de cálculo
devastação. sintoma. erro de cálculo. entre o desejo, o amor e o encontro, larguíssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associação de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anotações e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ninguém entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. às vezes, contêm espiral. não levam ninguém a nada, só à última página. 98 folhas. lá estão anotadas as pegadas sujas desse erro de cálculo, desse cálculo errático, dessa margem sem borda. é sintoma errante o que trago nas mãos, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. é glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que não se desborda. o amor é erro e é cálculo sim, acolho as advertências, sequer uso o artifício da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devastação a céu aberto, erro de cálculo numa equação sem começo, mesmo assim pergunto, minha voz um murmúrio acovardado: mas, vida, e se aí, quem sabe, eu for feliz?
***
repousa a cabeça larga na colcha do fracasso. de bruços, pensamentos disléxicos, afetos dislálicos, paixões tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o lençol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem mãos. afunda no colchão rugoso, ponte entre o nada e coisa alguma, toca de silêncios distraídos.
desiste.
abandona a memória de si encorpada de atributos rasos. é melhor esvaziá-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das vísceras em levante. desaprende a língua pátria, os gestos hábitos, os gestos rápidos, os gestos dádivas. repudia os verbos vagos. persegue o juízo último, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora não.
adormece sem argumento.
prefere não ter razão.
***
quando eu quase morri
quando eu quase morri, havia pessoas à minha volta, elas não disseram nada, não fizeram nada, e não pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era áspero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) não sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a tocá-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhecível, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgarçou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser território, nunca foi lar. quando quase morri, ninguém me reconheceu, e o último a sair não se preocupou em apagar a luz.
Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos pés (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lançou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participação em coletâneas diversas, como Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psicóloga em Saúde do Trabalhador e na clínica.
“eu me declaro marido e mulher”: a festa poética de Francisco Mallmann
Por Vivian Pizzinga
Se eu quisesse tratar de modo lúdico minha relação com o texto poético de ‘haverá festa com o que restar’ e, por hipótese, resolvesse que uma das regras desse jogo seria a de escolher um dos versos de Francisco Mallmann que sintetizasse seu livro de capa vermelha – belíssimo, belíssima – talvez eu escolhesse este:
“eu me declaro marido e mulher, eu me declaro o que eu quiser”
Voltando passos e pandemias atrás, descobri a poesia de Francisco Mallmann em 2019, em um evento, no Rio, que a Livraria da Travessa de Botafogo, através da batuta do escritor e livreiro Leonardo Marona, promove. O “Poetas de 2 mundos”, que acontece pelo menos desde 2016 e vinha se tornado mensal antes da pandemia, reúne poetas das mais diversas regiões do país (ou seja, não apenas cariocas, nem mesmo sudestinos), no fundo da livraria, sempre às sextas à noite. Tive a sorte de ir a alguns desses encontros, onde sempre se esbarra com alguém conhecido que não se vê há tempos ou se conhece alguém com quem se interagia pelas redes sociais. O evento oferece a oportunidade de conhecermos autores e autoras e, claro, socializar. Aglomerar, essa saudade.
Foi numa dessas noites que descobri o poeta, autor curitibano nos honrando com sua visita a esta cidade que tem pouco de maravilhosa se olhada por inteiro, para além da orla e da maquiagem. Ele trouxe seu livro, ‘haverá festa com o que restar’, publicado pela Editora Urutau, em 2018, obra que foi 3º lugar na categoria Poesia do Prêmio da Biblioteca Nacional e finalista do Prêmio Rio de Literatura e do Prêmio Mix Literário. Quanto a mim, encolhida em algum daqueles degraus do fundo da livraria, onde livros e mais livros de literatura infanto-juvenil coloriam a cena, fiquei muito impressionada com alguns dos poemas que leu, e agora, depois de um ano, quando o mundo é inteiramente outro e inteiramente o mesmo, debruço-me novamente sobre a obra.
É bom que se diga: Francisco Mallmann não está parado. O poeta é “artista e pesquisador transdisciplinar” e atua, segundo informações próprias, “na interseção entre poesia, dramaturgia, artes visuais, performance e crítica de arte”, tendo estudado jornalismo e artes cênicas, além de ser mestre em filosofia pela PUC-PR. Publicou também ‘língua pele áspera (7Letras, megamini, 2019) e AMÉRICA (Urutau, 2020). Entre outras atividades e como se não fosse pouco, Mallmann é coordenador do departamento de exposições temporárias e itinerantes do Museu do Holocausto de Curitiba.
A referência à cidade aparece em alguns dos poemas do livro: “o amor é história para se viver com pele/vá tirando os casacos”. Só quem esteve em Curitiba em janeiro e sentiu frio, usou casaco e viu muitas outras pessoas, provavelmente curitibanas, também usando, poderá compreender na pele esses versos do poema cujo nome é Curitiba.
Assim, uma leitura inicial da obra de Mallmann já evidencia que o poeta é, acima de tudo, e sem perder o lirismo, irreverente e dono de um humor característico. O que encontramos nas páginas de ‘haverá festa com o que restar’ é ousadia e muita poesia: se é que se pode dizer isso, eu insistiria que Mallmann é muito poeta. É demasiadamente poeta.
A forma como trata as questões de amor, mas também as questões políticas, ligadas à LGBTQfobia principalmente, são sempre perpassadas por essa irreverência, quando não pelo espanto, e muitas vezes por certa falta de paciência, bastante bem-vinda aliás. Senão, vejamos. Na terceira parte do livro, ‘trinta bichas vivas’, que contém apenas esse poema, o poeta nos traz uma espécie de lista variada de bichas em cenas e situações as mais diversas, algumas corriqueiras, outras inimagináveis, e cheias de precisão: “uma bicha periférica três horas de deslocamento até o centro/uma bicha prefeita fazendo coisas de prefeita sendo prefeita/uma bicha preta um turbante cores coloridas brinco grande/uma bicha religiosa ave maria meu deus minha nossa senhora/uma bicha roubando chocolates nas lojas americanas/uma bicha ruim bem maldosa bem metida bem nervosa/uma bicha pai sendo chamada de pai casada com outro pai/uma bicha eu”. Esse poema, que é uma homenagem à poeta Angélica Freitas, após nos conduzir por essa variedade de cenas, termina de modo brilhante: “dessas bichas nenhuma delas pedindo sua permissão/dessas bichas nenhuma delas pedindo sua autorização/dessas bichas nenhuma delas pedindo sua aprovação/dessas bichas nenhuma delas quer saber sua opinião”. O recado foi dado.
E Mallmann vai cultivando o exercício de nos surpreender e nos empurrar para a lembrança ou a pergunta ou a imagens muito vívidas. Eis o responsável pela minha captura: “a bicha morre, outra vez, ao som de alguma música brega, ela chora antes de ir, ela se arrepende por muita coisa, ela não se arrepende da própria vida, ela chora pelo modo como a vida foi inscrita no espaço que lhe coube (…)”. Esse, que é um dos 31 poemas da primeira parte do livro, foi um dos textos lidos naquela noite fria de junho.
A julgar pelo breve trecho acima reproduzido, se pode dizer que o livro também trata da violência. Ao fazer referência à LGBTQfobia usando o recurso da imagem e da cena, ao falar de morte, de armas e de sangue, ao falar de uma “bicha que morre” e que não há “nenhum motivo para parar o trânsito, solicitar luto, cogitar políticas, reformar sistemas, mudar mentalidades, alterar culturas”, mas também ao se referir a “trinta bichas vivas”, é de uma violência insidiosa que o poeta fala. Uma violência que é muitas vezes brutal e escancarada, outras vezes se dá de forma um pouco camuflada. E Mallmann trata dessa violência multifacetada por caminhos impregnados de um lirismo impactante, desses que capturam o olho que lê, e que fazem com que esse olhar não possa se dirigir a outro campo que não o da página, o dos versos recém-lidos. Ler um desses poemas significa estatelar-se no verso e dali não sair: “a bicha morre e alguém diz que pena elas são tão divertidas”. E finaliza: “a bicha morre e só dá pena medo e nojo, a bicha se morresse de amor ninguém saberia”. Quando, mais à frente, o poeta refere-se a trinta bichas vivas, não é à toa que não fala meramente de trinta bichas, mas trinta bichas vivas: é de vida e de morte que se está tratando, é de uma violência que não tem sido digna de luto.
Sobre a estrutura do livro, trata-se de uma publicação concisa (101 páginas), com oito partes, em que cinco delas só têm um poema cada. A primeira parte do livro, ‘a história de amor’, tem uma quantidade maior de poemas curtinhos, e a segunda, ‘se trocássemos nossas feridas’, conta com dez poemas mais longos. Vamos a um deles.
O poema começa dizendo “eu devo ser um ser do meu tempo/acho que sim/eu provavelmente já compartilhei/mentiras na timeline já chorei na timeline/eu faço meu próprio pão/uma receita que aprendi na televisão/eu digo tudo vai mal e curto/a fotografia do perfil/de alguém que quero beijar” e continua iniciando todas as estrofes com o verso “eu devo ser um ser do meu tempo” (com exceção das que estão entre parênteses). Acompanhar esse passeio poético sobre as imagens e o que está envolvido no fato de ser um ser de seu tempo (reflexão que sobrevoa gestos e hábitos) pode nos levar a algumas indagações: desses gestos, desses feitos, desses lances, o que faço e o que já fiz?, e em que medida então sou um ser do meu tempo por tê-los feito? Ser-um-ser de seu tempo evoca quais imagens, corresponde a que palavras? Mais à frente, encontramos: “eu devo ser um ser do meu tempo pois/eu leio as previsões das eleições as previsões/do futuro as previsões de 2020”. A pandemia que ora nos ocupa torna esse verso curioso, e também o fato de, já em 2020, após as eleições, vivermos agora aquilo que foi previsto (ou não).
Os nomes das partes nas quais o livro se divide parecem versos por si sós. A quarta parte chama-se “o que faremos com ele” e é seguida pela quinta, ‘cartografia do desaparecimento’, composta de 9 poemas. Há ainda a sexta parte, “sem chaves de casa”, a sétima, “dramaturgia do mundo” e a oitava, “depois do fim”, nome adequado a tempos de pandemia (impossível não fazer referências constantes à crise humanitária que vivemos – eu, Mallmann, você, todo mundo – é tudo o que restou e não sei se dá em festa).
O livro de Francisco Mallmann é, enfim, inesgotável. E, entre o lirismo, a crítica inteligente e a saudade sem solução, encontramos algumas joias, como: “o combinado era mil dias sem reclamação e o plano consistia em anotar os sinônimos do amor”. Quais seriam esses sinônimos? Encontramos também: “eu gostaria de dizer que todas as coisas que me doem já tiveram ou vão ter o desenho do teu rosto”. E imagens incríveis, que atravessam os poemas, como esta: “desculpe por calçar os sapatos quando havia correntes de água invadindo o quarto”. Sim, esse parece um pedido de desculpas necessário para um gesto leviano (ou desesperado) e ler esse verso me captura novamente em uma pausa em que só vejo pés, tênis, cadarços e água corrente, e nenhuma pegada.
Por fim, nunca é demais lembrar (à guisa de me desculpar) o quão difícil é escrever sobre uma obra (literária, poética) quando ela tem muitas qualidades: não só não estamos à altura, como não é fácil a tarefa de selecionar o que gostaríamos de enfatizar. Fica faltando coisa à beça, mas a recomendação ‘leiam Francisco Mallmann’ não poderia faltar. E lanço mão da poética do autor para a minha própria conclusão, escolhendo outra parte do poema que emprestou um de seus versos à abertura da resenha. O verso diz:
“queria ter acordado e escrito um bilhetinho dizendo: já não estou aqui, não me procure, fui ruminar o rancor no exterior”.
Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Na escrita, lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos, 2013), A primavera entra pelos pés (contos, 2015) e um romance epistolar com Igor Dias, Extravios (2018), todas pela Editora Oito e meio. Na psicologia, atua na clínica psicanalítica e com saúde do trabalhador, e tem mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).
Nastácia: notas sobre a emblemática personagem de Dostoiévski
Por Vivian Pizzinga
Foto: Guto Muniz
Nos palcos do Teatro III do CCBB está em cartaz um espetáculo de fôlego e de suma importância. No ano em que dados mostram um aumento nas taxas de morte por feminicídio no Brasil, Miwa Yanagizawa dirige Nastácia, peça teatral e instalação artística que traz dramaturgia de Pedro Brício. A peça é baseada na personagem Nastácia Filíppovna, cujas violências sofridas e silenciamento imposto por uma sociedade amplamente sexista são abordadas por Dostoiévski em ‘O idiota’.
No palco, a idealizadora do projeto, Flávia Pyramo, interpreta uma Nastácia acima de tudo sarcástica, segura de si, convicta de seus próximos passos, corajosa para mudar o destino que a vida dedicou a si e a se reinventar, dentro do que era possível na cultura da época. Ao lado do sarcasmo, da segurança, da disposição para a ruptura, encontramos a tristeza, a mágoa, o ressentimento. A dor. Ao seu lado, Julio Adrião interpreta Totski, o tutor proxeneta de Nastácia, e Odilon Esteves encarna Gánia, o pretendente da protagonista em um casamento-negociata que está planejado para ser firmado na festa do aniversário de Nastácia e que estabelece em 75 mil rublos seu valor. Apesar de um tema pesado, a peça intercala os momentos mais densos com outros mais leves, engraçados até, conduzidos em geral por Gánia, que vai mostrando aos poucos certa gaiatice no decorrer do espetáculo.
Para começar, os espectadores entram na sala já imersos em um clima que se inicia nos corredores, com uma iluminação vermelha que parece preparar a atmosfera densa em que acontecerá a peça. Mais tarde poderemos entender um pouco mais a respeito do motivo da cor vermelha no corredor, pois voltaremos a ele, o que não comentarei com mais detalhes aqui para evitar spoiler. Essa é a parte instalação da peça, uma surpresa concebida de forma original e que espera a todos. De qualquer modo, o clima criado no corredor com uma solução simples que transforma a iluminação original em uma luminosidade rubra faz bastante diferença na promoção de um clima psicológico naqueles que vão assistir à peça, lembrando-nos as razões pelas quais ouvimos que o teatro é um mundo mágico. A direção artística de Ronaldo Fraga e a iluminação de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal são responsáveis pela composição desse clima.
Foto: Guto Muniz
O cenário é deslumbrante. As cadeiras estão dispostas em três lados do retângulo do teatro, e nelas nos distribuímos, como se fôssemos convidados de Nastácia. Ela conversa conosco, dirige-se a nós, nomeia alguns dos espectadores e a participação do público, aqui e ali, também tornam o espetáculo mais leve, pois essas se tornam passagens engraçadas. No alto, uma miríade de molduras de quadros e retratos, em sua maioria vazios, mas alguns deles com cenas e personagens em posições de morte. No centro da cena, as mesas com os quitutes da festa – os acepipes – cadeiras e alguns objetos curiosos. Nastácia está se preparando para a festa que, logo mais, irá acontecer.
É possível dizer que o sumário da trama acontece quando a personagem é trazida em um carrinho puxado por um dos outros personagens, que a exibe e a descreve como se de fato estivesse tratando de um objeto a ser comprado. Agora com um belo vestido roxo, com uma grande etiqueta à mostra, fica mais evidente que Nastácia está ali para ser vendida, trocada, negociada. A mulher não passa de uma mercadoria. A etiqueta simboliza seu preço.
E é em torno desse aspecto e das demais violências que Nastácia sofreu ao longo da vida que os diálogos e jogos da festa irão girar. Gánia diz querer se casar com Nastácia e parece servil em relação, mas confessa seu interesse financeiro na jogada. Totski, que a tornou sua concubina durante toda a vida, desde a infância, pede desculpas sem, no entanto, reconhecer verdadeiramente sua culpa, cindindo-se entre razão e volúpia, em que a segunda domina todo o resto com facilidade. Tenta convencê-la de que não podia controlar seus impulsos voluptuosos, não parecendo ter real arrependimento ou vergonha face ao cativeiro em que isolou Nastácia. Por outro lado, segue tratando-a como um objeto cuja posse é sua e de mais ninguém. Nastácia serve aos seus prazeres ou aos seus caprichos, a depender do momento. Pode, inclusive, dela se desfazer quando julgar que não lhe serve mais.
Foto: Guto Muniz
Uma das escolhas interessantes da equipe são as referências constantes ao Rio de Janeiro ou ao ano de 2019. As semelhanças mostram o quanto de 1869 para cá – ano em que a obra foi finalizada – a violência contra a mulher não mudou tanto. Há um momento em que Nastácia aponta paras as molduras de retratos que, em conjunto e do alto, emolduram o cenário da peça, e vai enumerando nomes de uma série de mulheres afetadas por atos de violência. Cita, ao lado de outros diversos nomes, Maria da Penha, que deu nome à lei que busca punir os diversos tipos de violência perpetrados contra mulheres. Não poderemos nos esquecer de que são muitas as histórias de mulheres que passam por situações de violência física e sexual, algumas dessas levando-as à morte. O tom do espetáculo, embora não seja o de militância, parece voltado a isso, a esse lembrete, à recusa de que nos esqueçamos desses nomes e dos atos violentos que os atingiram. À recusa de que nos esqueçamos da vereadora Marielle Franco, executada em março de 2018, mulher preta, lésbica, mãe e favelada, como ela própria se denominava.
Há um outro momento interessante, digníssimo de ser mencionado e que não configura spoiler: é quando Nastácia irá se casar e precisa da ajuda de algumas pessoas para vestir o tradicional vestido de noiva. Ela chama três homens da plateia para que a ajudem. Esse simples gesto, que parece desprovido de qualquer significação, é, entretanto, genial. Estamos acostumados a situar as pessoas em determinados locais e funções conforme o gênero (e também a raça, embora essa dimensão não tenha sido trabalhada na peça). O que normalmente acontece em uma situação como essa é a de mulheres ajudarem a noiva a se vestir. São elas que vão ajeitar o véu, colocar o vestido, aprumar a barra da saia, rodear a noiva, talvez auxiliá-la na maquiagem, no penteado. Mas a Nastácia de Flavia Pyramo recorre aos homens da plateia. Eles é que irão fazer tudo isso, por mais atrapalhados que pareçam, à primeira vista. Sim, serão atrapalhados, tanto quanto uma mulher que nunca tenha ajudado uma outra a se vestir de noiva poderia sê-lo. Não está dado que eu, por exemplo, no lugar de um daqueles homens, me sairia melhor (e certamente não me sairia!). Sendo algo inaugural para uma mulher e para um homem, todos poderiam estar claramente pouco familiarizados com os gestos a serem escolhidos para que o vestido entre na noiva. E se esses homens sempre fizerem isso e tornarem tais gestos seu ofício frequente, eles estarão em casa quando chamados ao palco para ajudar uma noiva a se preparar para seu casamento. O interessante dessa cena aparentemente sem importância no conjunto da peça é que se Nastácia tivesse chamado mulheres para ajudá-la, nem eu nem as outras mulheres da plateia estranharíamos. Ou, pelo menos, não a maioria de nós. A cena me salta aos olhos e me leva a trazer ao texto como comentário importante porque eu também estranho, eu também me surpreendo, e me surpreendo positivamente. Nastácia, ao chamar os ajudantes de palco, não especifica para o que é, diz apenas que precisa de homens para ajudá-la, e de fato eu esperava que fosse algum trabalho pesado, como talvez arrastar algum dos objetos para ampliar o espaço para a próxima cena, por exemplo. Em verdade, é uma dupla surpresa: primeiro, com a cena, instigante em toda a sua sutileza, e, em segundo lugar, comigo mesma, por estar surpresa com a escolha, por ter esperado mulheres para aquela função, por ter achado que, quando ela pediu a ajuda de homens, seria para outra coisa, e não para algo delicado como a preparação de uma noiva.
Foto: Guto Muniz
Mesmo que o resto da peça não tivesse trazido nada de interessante, essa cena já teria valido todo o espetáculo. São camadas e mais camadas arraigadas de patriarcalismo e sexismo (além, claro, do racismo) sedimentados em todos nós, mesmo que sejamos feministas, anti-sexistas ou adeptos de qualquer política social e de luta. Mesmo que sejamos progressistas e lutemos por isso, ainda caímos em nossas próprias normativas culturais, em nossas armadilhas sociais. E às vezes sequer nos damos conta disso. Para as mulheres, é mais fácil perceber as violências mais ou menos sutis promovidas pela cultura patriarcal e sexista, os destinos impostos de antemão, a falta de flexibilidade de papéis que afeta uma mulher. Para os homens, isso não é sempre percebido, ou não o é em sua profundidade, e eles muitas vezes silenciam as mulheres, por não viverem na pele o que o patriarcalismo e a violência do sexismo causam. Nem todos o fazem por mal. Assim como para pessoas negras é mais fácil perceber o racismo estrutural, institucional e cotidiano de nossa cultura, enquanto que para mulheres e homens brancos, por mais antirracistas que supostamente sejam ou acreditam que sejam, tampouco é tão imediata a percepção de gestos, falas e atitudes racistas. O silenciamento também acontece aí. E com frequência. Muitos não fazem por mal, mas já passou da hora de aprendermos a escutar o outro melhor.
No entanto, como diz bell hooks, a escritora negra norte-americana, é preciso “erguer a voz”. Ela se refere às mulheres negras vítimas de violência racial. Mas podemos estender o seu exemplo a outros grupos, certamente. Mulheres brancas, pessoas negras, grupos LGBTQi, refugiados, pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves, quaisquer pessoas em situação de vulnerabilidade social precisam erguer a voz. E todos nós precisamos ampliar a escuta. Neste sentido, Nastácia é uma ótima opção de espetáculo teatral para assistir no Rio. Além de excelente dramaturgia, de qualidade na produção, de ótimas interpretações e momentos engraçados e de reflexão, o espetáculo é mais um produto cultural que nos permite erguer a voz. E quanto mais se ergue a voz, mais se pode mudar alguma coisa, mais a violência pode ser vista e ouvida e, por conseguinte, dirimida.
O único porém que eu colocaria é que a peça poderia ser um pouco mais curta. Uma vez que já possui a densidade característica de um texto russo, ainda que salpicado de leveza e humor, mereceria alguma edição em algumas partes (talvez o começo, principalmente, e alguns momentos das cenas que se encaminham para o final, excessivas), para que não se torne cansativa ao fim e ao cabo.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Em Dinamarca, peça apresentada pelo grupo de teatro Magiluth, direto de Pernambuco para o Teatro de Arena do SESC COPACABANA, no Rio, a plateia é recebida como se se compusesse de convidados chegando para uma festa de casamento. Mas não parece chegar em um momento qualquer da festa, e sim naquele período entre o começo e o auge, difícil de delimitar mas fácil de intuir, quando a euforia começa a engrenar em alguns e não demorará a chegar em seu apogeu. Os atores da peça, à guisa de anfitriões, distribuem espumante em taças de plástico para todos que quiserem, oferecem mais aos que já beberam, e há até quem, dentre eles, que comente, com leve amuo de quem não gosta de desfeita, para um dos convivas: “vocês bebem pouco, hein”. O som está no volume máximo, alguns deles dançam, estão todos aparentemente bastante felizes e nós, agora, somos parte da cena.
Esse é o começo da peça, que, com direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano Castro, estreou em 2017, foi apresentada em algumas cidades brasileiras como Salvador, São Paulo e Porto Alegre, e parte de uma inspiração em Hamlet para levar a cabo a proposta de discutir aspectos relevantes da contemporaneidade. A ideia da montagem trazida pelo grupo recifense é a discussão das bolhas sociais, tema tão em voga ultimamente, sobretudo em época de divergências políticas acirradas e de estilos de vida e concepções de mundo que são questionados no cerne dessas divergências. O tema é também assíduo nas redes sociais entre os que fazem a crítica dessa maneira de se relacionar com o outro, exatamente por evocar a restrição do campo de relações e contatos sociais a que cada um de nós tem acesso, o que leva à possibilidade de que interpretemos o mundo, as políticas públicas, os fenômenos sociais, a função das novidades tecnológicas, as atividades e manifestações culturais, dentre outras coisas, a partir de uma perspectiva uniforme, totalizante e aparentemente exclusiva, sem espaço para a diferença e a alteridade.
Foto: Danilo Galvão
A Dinamarca possui a noção de hugge (ou higge), que, ao que tudo indica, evoca uma espécie de vida boa, incluindo tempo para lazeres simples, sofisticados e agradáveis, isto é, incluindo a posse do tempo pelo sujeito, em oposição a ser possuído pelo tempo. Pesquisando um pouco pela internet, vê-se que não é tão consensual o significado do conceito, já que específico do país nórdico. No entanto, é possível entender que a noção abrange o conforto, o oposto da correria, o aconchego, aquilo que acalma e aquece, em suma, a segurança. O status quo parece fazer parte também dessa ideia e, no espetáculo, percebe-se que, para eles, nada ao redor do grupo de anfitriões e amigos mais chegados está à altura dessa forma de vida.
Esse é outro ponto que a peça aborda, quando todos se juntam como se superiores fossem ao resto do mundo, sem problemas, sem dificuldades, sem mau gosto, uma casta que pode se dar ao prazer, por exemplo, de beber como se não houvesse amanhã, entornando uma garrafa de cerveja inteira em uma só golada e depois mais meia garrafa, como podemos ver, agoniados, no começo da peça (não sei os outros, mas fiquei pensando, realmente encafifada, capturada por esse momento inicial e repleto de estranhamento que parece não acabar nunca, se o amargor da cerveja, tomada em grande quantidade num curto intervalo de tempo, e logo no comecinho do espetáculo, não traz ao ator algum tipo de desconforto físico do tipo refluxo ou azia que possa atrapalhar seu desempenho na peça; é interessante também notar que a observação desse momento demorado, infinito, em que o único elemento iluminado do palco é o ator engolindo, gole a gole, a cerveja das garrafas, exerce certo poder de sentir o gosto da cerveja na boca e o enjoo de tomá-la sem pausa nessa quantidade absurda, como se fôssemos nós, e não o ator, que a estivéssemos bebendo). Voltando à relação do núcleo social com o que há ao seu redor, os convidados estão lá, dançando, envolvendo-se uns com os outros, falando de coisas, mostrando habilidades em línguas estrangeiras, e há o resto. Não há como não pensar na elite em suas diversas e possíveis gradações, nas celebridades com canais de YouTube que fazem vídeos e mais vídeos mostrando suas salas enormes e cada objeto que nelas há, seus pares de sapato, seus quartos, sua vida glamorosa que mescla elementos de sofisticação de difícil acesso e arranjos relacionados a uma vida boa e saudável, onde o corpo é bem tratado e pode se dar ao luxo de descansar. Talvez hugge esteja um grau abaixo disso, e o momento em que o grupo se explica o que é, eles estão entrando no ritmo de uma música agradável, alegre e sincopada, que não se caracteriza pelo excesso, mas que é extremamente atraente ao corpo. Pode ser que seja mesmo só com o corpo e o som que possamos explicar o que é hugge e o que é pertencer a uma bolha social.
Foto: Jorge Farias
Dinamarca, que tem no elenco de atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Mario Sérgio Cabral, traz momentos de angústia, com repetições de diálogos em grande velocidade e movimentações agitadas, além de relatos tensos, e momentos hilários, como quando o dono da festa manda que recolham os copos e a bebida da plateia, incomodado com sua suposta ingratidão, e exige que tais copos sejam reunidos de uma forma sistemática a seus pés, no momento em que é desagradado, espécie de birra exagerada e fora do tom a que todos aquiescem.
Há também um belo momento, aí para os menos tímidos, em que algumas pessoas da plateia são convidadas a dançar, retiradas com delicadeza pelos atores, momento em que o palco vira uma verdadeira pista de baile, onde os casais rodam como se celebrassem de fato um casamento. É interessante refletir um pouco sobre essa noção de hugge, estranha a nós, brasileiros, e que, apesar de evocar o bem-estar e a leveza, não descarta a tensão, as discussões e o medo que, necessariamente, permeiam as relações sociais, como se vê no espetáculo. Esses picos de tensão e ansiedade, que pipocam aqui e ali, que sempre interrompem a leveza, levam ao questionamento sobre se há, de fato, a possibilidade de uma bolha social completamente apartada do que há à sua volta, se há como conceber formas de relação social que, como ilhas cercadas de gente comum com problemas comuns por todos os lados, nunca estivesse suscetível de ser engolfada por angústias que dizem respeito a todos, a despeito da especificidade de sua inserção social.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby,Tiago Herz / Foto: Rai Junior
“O quereres e o estares sempre a fim/ do que em mim é de mim tão desigual/ faz-me querer-te bem, querer-te mal/ bem a ti, mal ao quereres assim”, como diz Caetano Veloso, em O quereres, poderia ser uma música que logo nos vem à cabeça quando assistimos ao espetáculo encantador Contos partidos de amor. Isso porque o espetáculo vai tratando, de modo cheio de beleza, perspicácia, filosofia e humor, das incongruências, dos encontros-desencontros-reencontros e novos desencontros, do vaivém de afetos em que o amor se dá, em que se cria, mas no qual se esvai, por ciúme, por “carência” (novo sinônimo de ciúme), controle, insegurança e outras palavras que nem fazem parte do texto do espetáculo e são especulação da autora da resenha, mas que, certamente, fazem o recheio das histórias que ali se passam.
O sedutor e, em alguns momentos engraçadíssimo, sobretudo no começo e nos percursos em busca de uma fita azul perdida, Contos Partidos de Amor é um musical infanto-juvenil de 60 minutos para mães, pais, tios, avós, irmãos mais velhos, crianças, meninada: o texto, eu diria (e gosto de texto), é absolutamente genial. Não vai ter adulto que não o ache sensacional, pelas fantásticas jogadas de palavras que traz e que explicam tudo, ou melhor, permitem que a plateia se aproprie do que está sendo dito sem, necessariamente, precisar conceituar cada coisinha (que talvez fosse o mesmo que explicar uma piada ao final). Aliás, fala-se disso na peça: a metalinguagem que é típica de um casal discutindo sobre a sua discussão ou sobre sua (in)capacidade de comunicar-se. Sobre a conversa interrompida ou interrompendo-se no diálogo para situar cada senão, cada vírgula, cada silêncio, cada detalhe que gere detalhes que gere interpretações de detalhes e que, infinitamente, leva a desvios enormes de comunicação.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Luciana Balby, Tiago Herz e Isadora Medella / Foto: Rai Junior
O texto, que é de Eduardo Rios, inspira-se na obra de Machado de Assis (1838-1908) e, associado à belíssima direção e ao roteiro de Duda Maia, fica à altura do criador de Capitu e o ciúme terrível de Bentinho, no paralelismo possível entre dramaturgia e literatura. Encantamento é o que acontece logo que o espetáculo começa, com a iluminação excelente de Renato Machado, que faz toda a diferença na peça inteira, dando cor e vida às cenas e às temáticas (mais avermelhada nos momentos de apaixonamento, mais amarronzada nos momentos de tensão, e às vezes azulada, outras, esverdeada), o figurino de Kika Lopes, que se utiliza do branco para dar mais vigor à luz e aos corações apaixonados que se colam no peito dos personagens, além de algo infantil que permite a identificação com o público mais jovem, fazendo referência, ao mesmo tempo, a certo eterno aprendizado do amar, do relacionar-se, do desapegar-se, do respeitar-se etc, e, finalmente, o belo cenário de Diogo Monteiro. Para não perder o fôlego (isso que peça e atores têm de sobra e demonstram logo de início), começo nova oração para dizer que o cenário se utiliza de grandes corações acolchoados (ou dando essa impressão), feitos de fuxicos, que, pendurados dos lados direitos e esquerdo do palco, somando 6 em cada lado, dão a atmosfera de paixão que o espetáculo requer e dando livre espaço para a rica movimentação dos atores e a presença de rosas e instrumentos musicais no palco. A trilha sonora original e arranjos de Ricco Viana e as canções de Eduardo Rios e do próprio Ricco são belíssimas, dando humor, lirismo e certa descrição de momentos embaraçosos das emoções, da falta de comunicação e dos sentimentos. Contos Partidos de Amor até poderia também se chamar Contos Partidos de Ciúme, temática que permeia as histórias que se imbricam na peça, a partir de dois contos de Machado de Assis.
O espetáculo esteve em reestreia no Rio de Janeiro, tendo passado pelos CCBBs de SP, Brasília e BH, ficando em cartaz até 16 de dezembro. Foi premiado nas categorias de Melhor Direção e Melhor figurino no 12º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil – 2017/2018. As inspirações principais para a dramaturgia de Eduardo Rios foi o poema Círculo Vicioso e os contos “A história de uma Fita Azul” e “To be or not to be”, este último da coletânea Contos de Amor e Ciúme, que Gustavo Bernardo organizou, pela Editora Rocco.
Contos Partidos de Amor: Isadora Medella, Tiago Herz, Luciana Balby, Diego de Abreu / Foto: Rai Junior
Já o elenco polivalente (a polivalência, na arte, é sensacional, mas em outras profissões é um horror, que fique o parêntesis) está muito bem e ensaiadíssimo, porque erro, nem que eu quisesse encontrar, não haveria (como não houve): Diego de Abreu, impagável nas apresentações do início da peça, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz, que são também, os quatro, cantores e músicos. Ricco Vianna, com sua trilha sonora ora instrumental, ora de músicas cantas e tocadas ao vivo pelo elenco, tem, em uma delas, inspiração no poema “O Verme”, em que Machado descreve o ciúme como “um verme asqueroso e feio”, publicado em Falenas (1870). Nem tão bom na poesia como foi na prosa (ficcional e crônicas sensacionais), Machado de Assis não deixa de ser memorável até mesmo no campo literário que não lhe era o melhor. Para quem gosta do autor, é possível perceber palavras que permeiam a obra do escritor e que ficaram famosas, como o uso do adjetivo “oblíqua” para descrever, no caso do espetáculo, uma boca, “na verdade torta, cheia de porquês”, como diz a personagem. Alguns diálogos de briga são tão bons que suscitam aquela vontade de reler Machado ou ir até os teóricos da comunicação de Palo Alto, que escreveram a Pragmática da Comunicação Humana, livro de 1973 de Watzlawick, Beavis e Jackson, que poderia ser traduzido artisticamente por essa obra. A pesquisa dos autores mostra que tudo é comunicação, toda linguagem comunica, e é disso que trata Contos Partidos de Amor e é também desse saber que qualquer boa dramaturgia se utiliza ao fazer seu espetáculo. É possível notar o quanto a comunicação (ou sua ausência ou fragilidade) é fundamental para que um relacionamento engrene ou não engrene, continue ou termine, volte ou dê adeus. O espetáculo encerra com uma ideia simples, que pode complicar o outro, porque, como assinala o texto, às vezes é simples ser complicado e é complicado ser simples: deixar o amor amar significa não alimentar o verme asqueroso do ciúme. Simples? Complicado? Nem Freud saberia abordar a questão tão bem.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Sobre contradições, mentiras e confissões demasiadamente humanas
Por Vivian Pizzinga
“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar
Aqui jaz Henry (Here Lies Henry), obra de Daniel MacIvor, com idealização, concepção e, frisando-se agora, brilhante atuação de Renato Wiemer, é espetáculo obrigatório para os que amam teatro, para os que apreciam e se emocionam com textos excelentes, para os que têm ruminações filosóficas e psicológicas incessantes e, last but not least, para os que gostam de um humor leve salpicado aqui e ali em um texto denso formado por indagações fundamentais.
A tradução de Renato Wiener faz adaptações interessantes (e bem sutis, em alguns momentos) para o contexto brasileiro, incluindo menções políticas recentes, sem partidarismo. A direção artística de Kika Freire, por outro lado, impulsiona um espetáculo que, de saída, pelo texto, já tinha tudo para ser ótimo. O cenário de Teca Fichinski merece muitas menções honrosas, porque é delicado e repleto de beleza, com velas e rosas espalhadas no chão (elementos que, eu ousaria dizer, fazem referência à morte, que está presente no título e no texto). A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é primorosa, salientando momentos ímpares e sublinhando as escolhas de cenário. E a trilha sonora do polivalente (aqui, no bom sentido, pois a arte costuma e deve ser assim) Renato Wiemer, sem exageros, sem atropelos, com toques de genialidade inclusive na duração variável em que é executada, fecha um conjunto que não tem erros, só acertos.
Para mim, que não sou do teatro mas, enquanto não me aventuro a escrever dramaturgia, pertenço à escrita e zelo pela psicanálise (e pela democracia), além de amar cada vez mais o teatro, sempre fica um pouco difícil escrever texto sobre espetáculos por causa dos atores. Confesso agora – e depois me calo para sempre – que se trata de um sofrimento. A questão é: como escrever sobre atuação e interpretação sem magoar um ou outro, sem reforçar a clássica disputa de egos e vaidades que existe em todos nós e que, desculpem, no meio artístico (assim como no acadêmico) é uma constante? E pior: está realmente difícil encontrar espetáculos em que a atuação seja, de fato, boa. Convincente. Hoje, porém, escrevendo sobre Aqui jaz Henry, isso não será difícil: o monólogo é sensacional também por causa do arrojo da interpretação de Renato Wiemer.
“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar
Vamos às razões em um novo parágrafo, ainda que permaneçamos no mesmo assunto: o ator sabe respeitar os tempos. Não se afoba. Não se intimida. Faz parecer fácil essa rara arte da atuação. Faz a gente acreditar que todo mundo poderia estar ali, no lugar dele, só que não, não poderia, são poucos os realmente bons. É engraçado quando tem que ser. Remexe os nós da garganta quando tem que remexer, e não os desata, porque os nós da vida e da garganta são sempre muito apertados e emaranhados. É claro que ele tem um bom texto na mão para ajudá-lo e uma excelente equipe que o auxilia, é evidente que ele tem Kika Freire na retaguarda, mas poderia colocar tudo a perder, ofuscar a genialidade do texto de Daniel MacIvor com um atuação frágil. Mas não. Ele não. Felizmente não. Ele não faz isso. Ele não não não. Mas ele, Renato Wiemer, sim. Nada disso acontece para a sorte do público e daqueles que apreciam um bom texto literário e dramatúrgico. Gostaria de ter aplaudido de pé o seu excelente trabalho, mas, na sessão a que fui, ele não aparece no fim de tudo, única dúvida que restou e permanece boiando dentro de mim: por quê?
Mas vamos ao recheio do espetáculo: sobre o que mesmo o texto fala? Tentando escolher os percursos textuais escolhidos por MacIvor e que mais me chamaram atenção, eu diria que fala sobre as contradições que habitam em cada um de nós, os chamados seres humanos, demasiadamente humanos (para lembrarmos de Nietzsche). E, nesse sentido, as mentiras (aí a hipótese é minha e, como toda hipótese, é provisória e sujeita a comprovação científica e posterior refutação ou corroboração) talvez sejam o canal privilegiado de expressão das contradições humanas, desmesuradamente humanas. E as mentiras podem ser tão convincentes que nos perdemos nelas, a não ser que, ao final, mostremos que nem tanto assim. Logo, mentiras sinceras nos interessam.
A peça, portanto, é cheia de surpresas, as mais variadas, do início ao fim. Piadas bobas que ficam engraçadas, porque a crítica é exatamente a elas. Dicotomia explícita e despudorada entre a felicidade e a verdade, e a difícil escolha que temos de fazer entre uma ou outra (mas talvez pode ser que andem juntas, e isso o Henry, filho de Henry, personagem do nosso monólogo, não nos diz, sou eu que tento ser otimista enquanto escrevo no dia das eleições). A historinha sapeca que coloca a mulher como uma mera costela de outro homem (já ouviram essa história muito louca?) e a troça que o texto faz disso, quando indaga se alguém quer ser servido de costela com batatas. Os trejeitos que insinuam a dificuldade que é a espontaneidade na vida e nos círculos sociais, porque falar em público é um desafio para a grande maioria de nós, e mais ainda se for para falar mentiras ou omitir as questões centrais da vida e de nossas biografias humanas, extremamente humanas. A tosse histérica que sempre acompanha a menção a um familiar de Henry. A interlocução com a plateia, constante e respeitosa, sem invasões violentas que nem todos suportam e que não são obrigados a suportar (respeitemos a timidez do público; cabe aos artistas a sensibilidade de compreender também que nem sempre os envergonhados são os menos tocados pelas propostas dramatúrgicas que assistimos por aí). A lista é extensa, vale conferir por si só.
“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar
E, no final das contas, Aqui jaz Henry é também um espetáculo sobre reflexão a respeito do que fazemos com as nossas vidas, que escolhas tomamos diariamente, os desdobramentos que essas escolhas geram, a capacidade que temos de seguir adiante e voltar atrás, de lutar pela democracia ou não. É um texto que visa, também, fazer com que sejamos honestos conosco, que sejamos francos diante do espelho, sendo essa a franqueza mais difícil de arrancarmos de nós mesmos e que, às vezes, muito às vezes, com o psicanalista no divã, de costas e deitados, conseguimos expressar sussurrando, para que nem o analista sagaz nem nós próprios ouçamos o que acabamos de falar; sussurramos nossas mentiras sinceras com um timbre de voz quase inaudível porque talvez não queiramos escutar as verdades escrachadas que empurramos para debaixo do inconsciente diariamente. A psicanálise mete medo tanto quanto o teatro. E por isso são menos frequentados do que deveriam ser. Ser franco com a gente mesma significa falar de nossos equívocos. De nossas raivas. De nossa inveja. Das fantasias mentais que fazemos por causa de ciúme. De desejos de vingança que cultivamos na calada da noite e das insônias perturbadoras. Ser franco com a gente mesma significa verbalizar finalmente as inúmeras omissões perigosas e falar das alianças espúrias que visam objetos espúrios e que às vezes nós fazemos ou almejamos fazer. Parece lição de moral? Não. É lição de ética esteticamente conduzida.
Finalmente, Aqui jaz Henry é um peça, digo mais uma vez, obrigatória, sobretudo para aqueles que são tocados pela sensibilidade do texto literário, quando tem consistência e substância. Para encerrar o presente texto, menciono um dos momentos finais, em que Henry, nosso protagonista, refere-se à esperança que retira do fio da espinha dorsal, quando está no sofá vendo televisão, e Renato Wiemer, de costas para a plateia, faz uma bela descrição imagética que nos dá a convicção de que Daniel MacIvor é um escritor de mão cheia, convicção que construímos mesmo sem ter lido o original. O excerto e a dramaturgia desse momento a que me refiro neste parágrafo derradeiro são o que há de mais fantástico no espetáculo. Palmas de pé!
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
O espetáculo Rose tem texto de Cecilia Ripoll e foi eleito como a melhor dramaturgia escrita durante as atividades da turma de 2017 do Núcleo de Dramaturgia SESI cultural (Rio de Janeiro), coordenado por Diogo Liberano. A direção de Vinícius Arneiro, excelente, e a atuação do elenco, à altura do texto, dão vida a esse drama que tem um viés político com moderação, no que diz respeito às questões mais abrangentes de distribuição de renda e desigualdade social (sem ser panfletário, sem ser chato, sem ser didático e sem ser raso) e a fatos específicos da política nacional. É sempre o ato, o gesto e o acontecimento que norteiam o viés político que a peça carrega, necessário e na justa medida, com lances de humor que os atores, conferindo personalidade e trejeitos a seus personagens, ajudam a construir (vide Ângela Câmara e sua afetação para sentar na cadeira, ou Márcio Machado e a voz empostada quando interpreta o deputado ou seus falsos brios quando assume a função de novo diretor da escola a moralizar o espaço escolar onde a protagonista trabalha).
Rose é merendeira de escola pública e sofre vendo que a comida não é suficiente para as crianças que lá estudam. Além disso, a comida que vem é inconsistente, o feijão é ralo, a qualidade não é boa. As crianças sentem fome. Então, ela começa a adoecer e tira licença, indo trabalhar na casa de dona Celina, sem carteira assinada, protegendo o filho da patroa e mantendo sua filha escondida no quarto. Rose é um mistério para esse filho, curioso com a porta fechada de seu quarto e com as banhas da funcionária. Maria Juliana, a filha de Rose, interpretada por Natasha Corbelino (cheia de carisma), é uma figura à parte. Sua indignação por ter de ficar escondida e pelas desigualdades que observa com perspicácia, como a comida que sobra e vai fora após as festas no apartamento e a comida que falta na escola onde Rose é merendeira, expressam-se em uma mistura engraçada de sarcasmo e cinismo. Para completar o elenco, há ainda o diretor Renato, que expressa a contradição entre o legal e o legítimo, ou a moral e a ética: nem tudo o que é legal é ético ou legítimo e vice-versa. Isso fica evidente no diálogo que ele tem com Rose sobre a estratégia (clandestina) utilizada pela protagonista para resolver o problema da merenda na escola.
Rose / Foto: Paula Kossatz
O espetáculo vai num crescendo, como se um percurso para que os absurdos explodam e aconteçam fora do terreno da sutileza e se escancarando como deve ser necessitassem mesmo de um processo, de certo metabolismo: há várias relações acontecendo paralelamente, núcleos de tensão e afeto são despertados como se pequenos mundos que ora se afastam, ora se tocam e diversas vezes se interpenetram durante a trama. Há certo hipnotismo do menino (atuação de Thiago Catarino), que tem medo de descansar e morrer, pela filha de Rose, e todas as emoções que transbordam desse afeto inédito para ele. Há a estratégia de Rose para fazer justiça e levar comida da casa de dona Celina para a escola e o desconforto moral (e desprovido de ética) do diretor da escola, que usa todas as oportunidades para exercer e demonstrar porções fartas de demagogia, dramas tolos e falsos dilemas. Há a incomunicabilidade de dona Celina com seu filho, o pavor do toque e do abraço, a distância que se alarga entre eles e, por outro lado, encurta entre ele e Rose. Há o ciúme da filha de Rose e, finalmente, a preocupação de dona Celina em agradar o deputado que desvia merenda, na festa em sua casa, em paralelo ao ódio de Rose em relação a ele.
Entre outras possibilidades que a peça oferece para discussão e produção, temáticas variadas que margeiam a questão principal, o cerne é mesmo de doer: afinal, ninguém acha ruim o suficiente o desvio de verbas públicas que seriam destinadas à merenda escolar, mas se torna questionável uma funcionária levar a comida que sobra da festa da madame para as crianças da escola. Ninguém acha ruim o suficiente porque, se fosse suficiente, já não seria possível continuar acontecendo. Mas Rose, a quem Dida Camero empresta brilhante atuação, protagonista que não tem papas na língua, acha ruim o suficiente e não espera que outros venham resolver o problema da forma que se apresenta diariamente diante de seus olhos, em um sofrimento ético capaz de adoecer qualquer trabalhador que estivesse em seu lugar.
Rose / Foto: Paula Kossatz
Os paralelismos desdobram-se: num apartamento de 400 metros quadrados, o quarto da empregada tem 4 metros e é ali que a filha tem que ficar o dia inteiro. Esse é o território que lhe é destinado: o espaço é escasso, a comida é rala, há uma classe que recebe sempre menos (e não se trata de maniqueísmo barato, a realidade é exatamente essa). O aluno da escola pública não pode provar salmão e a empregada não pode querer fazer curso de inglês: isso poderá soar absurdo (o salmão na boca do pobre) ou se tornar risível (o inglês na boca da trabalhadora doméstica).
Finalmente, o cenário é também ótimo e simples: diversas carteiras escolares são posicionadas como numa sala de aula, e é por entre elas, sobre elas, por baixo delas, desviando-se delas e as embaralhando que as cenas vão acontecendo. A maneira como as cadeiras são posicionadas e reposicionas e ajustadas e novamente deslocadas se torna uma pequena expressão do caos e do cinismo que se alternam no palco.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.