Mohamed Mbougar Sarr: o gênio senegalês e o novo compasso literário
Por Viviane de Santana Paulo
Mohamed Mbougar Sarr é um escritor nascido no Senegal, ganhador do Prêmio Goucourt de 2021, o mais prestigiado prêmio literário francês, com a obra A mais secreta memória dos homens (se bem que, nos dias de hoje a palavra homem para definir toda a humanidade deveria ser substituída por humanidade, ou seja, A mais secreta memória da humanidade). O romance trata do racismo no meio literário e da paixão pela criação literária, além de aspectos sobre a imigração e o colonialismo africano, e é uma crítica ferrenha contra o meio literário francês. Mas sendo este meio nada diferente de outros, nos quais rege a classe dominante de homens brancos provenientes de países ricos, a crítica de Mbougar Sarr é válida para a maioria dos meios literários mais influentes do planeta Terra.
O enredo é complexo, narra a Odisseia do protagonista, estudante senegalês de filosofia em Paris, chamado Diégane Latyr Faye, e a sua obsessão em torno do romance fascinante intitulado O labirinto do inumano, publicado há setenta anos, que conta a história de um rei sanguinário que através do Mal absoluto pretende alcançar o poder. Com a ajuda da polêmica escritora senegalesa, sexagenária, Maréme Siga D, o protagonista inicia uma pesquisa sobre T. C. Elimane, o autor do livro, que foi acusado de plágio nos anos trinta, em Paris, e sua obra retirada de circulação. Por consequência, o escritor desaparece, transformando-se em numa lenda. Mbougar Sarr inspirou-se na verdadeira história do escritor maliano Yambo Ouologuem, que em 1968 publicou o romance Le Devoir de violence (O Mandamento da Violência), com o qual ganhou o Prix Renaudot.
As referências a Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, são óbvias em vista das muitas reflexões. Aliás, o enrendo é repleto de diversas referências culturais. Como, por exemplo, T.C. Elimane procura o assassino de seu editor Charles Ellenstein, na América do Sul. Ellenstein morreu em um campo de concentração denunciado e torturado pelo literata nazista Joseph Engelmann. Neste trecho, Sarr menciona autores como Ernesto Sábato e o exilado Witold Gombrowicz. A busca pelo misterioso autor da fantástica obra dá-se em vilarejo senegalês, na Paris contemporânea e na Argentina pós-guerra.
No decorrer do enredo, Mbougar Sarr levanta questões controversas sobre o meio literário e seus vícios e limitações, como, por exemplo, na voz da personagem Siga D., ao indagar se alguma coisa mudou no meio literário: Fala-se sobre literatura, sobre valores estéticos, ou fala-se sobre a pessoa do escritor, sua cor da pele, sua voz, sua idade, seu cabelo, seu cachorro, sobre o pelo do cachorro, sobre a decoração do apartamento, da cor de suas meias? Fala-se sobre a escrita ou sobre a identidade, sobre o estilo ou sobre a imagem midiática do/a autor/a? Fala-se sobre criação ou sobre sensacionalismo e culto ao/a autor/a? Mbougar Sarr confronta-nos com a dúvida: deve a literatura estar imprescindivelmente encarcerada na nacionalidade, na cor da pele, na idade, no meio social, no gênero do/a autor/a? Ou devemos interpretar estas características como um aspecto adicional?
Mohamed Mbougar Sarr / Foto: Bertrand Guay
Segundo o crítico literário alemão Tilman Krause, no jornal Die Welt: “Sarr refere-se inteligentemente aos discursos mais atuais sobre identidades e políticas de identidade, por exemplo, transformando um romance fictício de 1938, escrito por um senegalês fictício, em um “campo de batalha ideológico” onde, ao invés de questões sobre qualidade, são negociadas ou discutidas questões sobre a identidade do autor. Sarr não está preocupado com qualidades particulares, mas com o que significa ser humano.”
Igualmente, o escritor argentino Juan Jose Saer trata sobre este tema em seu ensaio La selva espesa de lo real, no qual ele menciona: la narración no es un documento etnográfico ni un documento sociológico, ni tampoco el narrador es un término médio individual cuya finalidad sería la de representar a la totalidad de una nacionalidad. Saer repudia a tendência dos críticos europeus em interpretar as obras de autores latino-americanos exclusivamente através do olhar folclórico e colonialista e indiretamente esperar que autores latino-americanos escrevam estritamente sobre temas relacionados à cultura e política de seus países, ou seja, escritores de nacionalidades e procedência não europeia, não branca, estariam condenados a escrever somente sobre questões sociais, culturais e políticas de seus países de origem. Caso contrário, a autenticidade desta obra estaria prejudicada.
Em A mais secreta memória dos homens o personagem Stanislas, tradutor do polonês trabalhando na nova tradução de Gombrowicz Ferdydurke, está convencido que os autores devam ter permissão para escrever o que quiserem, independentemente de onde moram, de onde venham ou da cor de sua pele, e que a única coisa que você tem a exigir dos autores é talento.
Mbougar Sarr, como escritor negro, africano, imigrante, denuncia esteticamente esta falha no meio literário. O fato de a crítica trazer à tona termos generalizados como emigração e exílio sempre que se trata de autores não brancos e não nacionais é um de seus equívocos, como aponta o protagonista Diégane. Sarr antecipa e responde a muitas destas críticas no próprio romance. Além disso, parte da obra é sobre ativistas políticos e a manifestação pela democracia no Senegal.
A mais secreta memória dos homens possui gêneros e temáticas diferentes, e é uma reflexão poética e metafísica sobre a escrita e a literatura em geral – a literatura em geral.
Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetasda década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Seus poemas têm sido publicados em várias revistas e jornais na América Latina e Europa. Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Atualmente, vive em Berlim.
E eis que o mundo parou em março de 2020! E precisamos manter distância uns dos outros e permanecer isolados dentro de nossas casas como em prisões domiciliares. As ruas estão sem os automóveis, as calçadas sem os transeuntes, o comércio sem os compradores, os escritórios sem os executivos, os restaurantes sem os fregueses, as escolas sem os alunos. A imobilidade e o silêncio despencaram em pingos grossos e rápidos sobre as cidades e o vento morno sopra tranquilo.
Estou sentada a uma minúscula mesa, na pequena sacada do quarto de uma pensão simples, em uma capital qualquer dos cento e noventa e três países deste planeta. De pijama, tomo um café e escrevo no computador. Os voos foram cancelados, não sei quando conseguirei marcar um de volta para o Brasil. Vim a trabalho. Alguns países evacuaram seus cidadãos. Mas existem pessoas, como eu, que tiveram azar e permaneceram encalhadas em alguma cidade, sem a possibilidade de regresso. Ou porque as cidades estão fechadas, isoladas, e elas não conseguem chegar até o aeroporto. Ou porque os voos foram cancelados. Ficar presa em um quarto de pensão, em frente a uma larga avenida, com o verde fresco das árvores farfalhando, não é desesperador. Mas a morte que ronda à minha volta. A sorrateira e silenciosa morte que arranca de nós nossos entes amados.
Nenhum veículo transita na avenida. Ambulâncias são vistas solitárias nas ruas. Choveu anteriormente. Neste instante o sol brilha morno às dez e quinze da manhã, a luz atinge os vínculos e as superfícies, e as sombras são mais escuras quando a claridade é mais intensa. O céu está limpo sobre a cidade sórdida, a cidade que não trabalha. Da sacada, se eu olhar para leste a rua é chata, sem comércio. Para oeste, as lojas e os escritórios estão fechados. Alguns metros adiante o Mercado ergue sua cúpula sobre as barracas vazias que possuiriam mercadorias à venda, as carnes, os legumes, os peixes, as especiarias nacionais e internacionais. Caminhando para o ocidente encontrariam-se muitas pessoas nos restaurantes, bares e teatro.
O mundo parou e, você sabe, Noa, não foi porque a Humanidade finalmente reconheceu aquilo que fazia de mais errado e imobilizou-se para recomeçar, corrigindo as desnecessárias injustiças e construindo união! Inclusive, especialistas alegam que devemos aproveitar esta interrupção involuntária e abrupta e tentar realmente diminuir as injustiças, buscar a cumplicidade e a irmandade. Alegam que o capitalismo infrene adoece as sociedades, cada vez mais. Prejudica a Natureza. Que deveríamos criar uma nova forma de crescimento e redistribuição de riquezas e de garantias de recursos básicos para todos. Que necessitamos desenvolver uma economia renovável e humana, para não disseminar injustiças sociais.
Mas sabemos, não foi por causa da conscientização dos povos que o mundo parou! As nações conheciam os seus erros e continuaram desenvolvendo ávidas produtos de consumo descartáveis e inúteis, e incentivavam o irrefreável crescimento econômico à custa de determinada camada da sociedade e de certos países.
E, além disso, querido, a vida moderna com os amplos meios de comunicação, também incentivava as amizades como a nossa: somente pelo whatsapp e facebook. Sem tempo para o encontro pessoal e para a conversa profunda sobre a vida, as conquistas, as decepções, os planos e os desejos. Você é um dos meus inúmeros amigos superficiais que orbitam na minha vida como satélites que enviam constantes mensagens supérfluas: vídeos, dizeres, piadas, fake news.
Nós nos conhecemos em uma festa. Lembra? Conversamos, dançamos juntos, comemos. Combinamos sair para jantar e fomos ao cinema e saímos de novo para jantar e, naquela noite, acabamos na minha cama. Lembra? Eu poderia ter te amado quando minha boca sugou a carne de teus lábios, minhas pernas cruzaram o teu quadril, quando nossos corpos se encaixaram. Você a chave eu a fechadura. Lembra? Fomos a troca de carinhos e segredos, instinto e espírito. Naquele momento, permiti que você entrasse na minha vida como se você pudesse ser a outra metade de mim, me refazendo, me protegendo. Querido, eu quase te amei, mas você não viu nenhuma vantagem no doar-se.
Desde então, nos comunicamos pelo whatsapp. E você já deve ter se dado conta que nos encontramos apenas raras vezes, casualmente, em algum evento ou em bares frequentados por amigos em comum. Trocamos sorrisos e frases sucintas sobre temas irrelevantes. Claro, somos adultos! Estou com trinta e quatro anos e continuo trabalhando para uma indústria farmacêutica, como representante de medicamentos para hospitais, e viajo muito – quer dizer, viajava. E você, com trinta e oito, deve ainda estar trabalhando na área de informática. E sem poder viajar. Era comum as pessoas viajarem a trabalho dentro e fora do país, viajavam por tudo quanto é canto o tempo todo! Não é?!
Antes de o mundo parar, ninguém possuía tempo, não é verdade? Havia uma força maior que nos obrigava a usar o nosso tempo livre para fazer compras, ir a bares e restaurantes cheios de gente e postar as fotos no facebook, Instagram, twitter.
Agora o mundo parou e somos obrigados a refugiarmos no interior de nossas casas. Como se aceitássemos o convite da Pampinéia, em Decamerão. Estamos confrontados com esta realidade que nos proporciona tempo e silêncio, mas não somos capazes de desenvolver uma narração honesta e substancial para os nossos dias e para o nosso futuro. Creio que precisamos de um novo vocabulário que inclua todas as boas características humanas.
Agora a ordem é isolar-se, como se tivesse existido a proximidade entre nós. Como se tivesse existido o diálogo. Como se cada um não lutasse por si. Como se, de novo, o nacionalismo e o egoísmo e a ganância não estivessem se expandindo rápido.
Está proibido o amontoado nas praças, nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, nas festas, nos concertos e shows, nos estádios de futebol…
Vivíamos amontoados, mas não vivíamos realmente uns com os outros. Vivíamos sufocados nos congestionamentos, nas filas, submetidos aos ruídos, ocupados com inúmeras futilidades.
Antes de o mundo cessar era difícil respeitarmos a Natureza, conhecermos nossos verdadeiros amigos, nos dedicarmos aos nossos parentes. A lei era trabalhar e consumir. Vivíamos incorporados na massa, conduzidos pela massa, auto-protegidos e aliviados na massa. Cegamente obedientes e multiplicáveis na massa.
Porém, você me dirá: “Márcia, somos seres sociais e necessitamos dos outros, da multidão, do ruído, da confusão”. E eu te respondo: Mas de que maneira? De que maneira eu preciso de você? Penso que poderíamos realmente dialogar e nos conhecermos a ponto de nos importarmos um com o outro.
Agora estamos solitários, cada um consigo mesmo, e não existe nada mais solitário do que estarmos sem o outro de nós, sem o outro semelhante, sem o confronto com o diferente.
Os animais aproveitam a falta de humanos espalhados e invadem as cidades. Leio nos jornais, na internet, sobre casos de raposas passeando nas praças, no final da tarde. Cabras, que se limitavam nas montanhas, excursionam pelas calçadas e ruas desabitadas e experimentam a culinária das plantas nos jardins das casas. Golfinhos curiosos fazem turismo nos canais de Veneza. Gansos e flamingos banham-se nos lagos urbanos. Leio sobre o ar purificado do planeta. A alta emissão de gás carbônico sufocava a Terra. A camada de ozônio igualava-se a um casaco velho, rasgado e cheio de buracos. Já não servia para nos proteger dos raios ultravioletas.
Recebi vários vídeos mostrando os vizinhos cantando nas sacadas dos prédios. Você também deve ter recebido! Alguns são cantos improvisados, outros verdadeiros concertos acompanhados de instrumentos.
Vocé me dirá: “Márcia, isso é um gesto de solidariedade indispensável neste tempo. Revela que somos unidos também em momentos difíceis e procuramos consolar uns aos outros!”. Eu te pergunto, por que não podemos ser sempre assim solidários? Há muitos vizinhos que nem sequer se cumprimentam! Não é verdade que todos nós possuímos nossas dificuldades e precisamos, em algum momento, de gestos de solidariedade e consolo e não recebemos? Em vez disso somos demitidos, humilhados, recebemos salários insuficientes, estacionamos na vaga de idosos ou pegamos a vaga de alguém, furamos a fila, cobramos mais caro…
Não me entenda mal, Noa, apenas desejo que os gestos sejam sinceros e frequentes, mesmo depois de não existir mais razão para o mundo parar!
Faz dez dias que o mundo parou e a primeira medida tomada pelos países ricos foi adotar a pronta retórica bélica e fechar as fronteiras: estamos em guerra contra um inimigo invisível, disseram os políticos.
O trabalho em conjunto é difícil. Unir-se diante de uma ameaça comum e apátrida, diante de um inimigo microscópico que não faz distinção de nacionalidade, fronteira, cor ou classe, parece ser difícil. Surge a desconfiança do outro, o outro passa a ser o disseminador de um vírus mortal. Eu te pergunto, não é estranho que, quando se trata de acordos econômicos, o mundo se torna internacional. Por outro lado, quando se trata de acordos humanitários, as fronteiras se fecham e logo adotamos o vocabulário bélico?
As máscaras caíram e as máscaras que nos protegem estão escassas. Tão escassas que logo se tornaram uma razão para a pirataria e a corrida vertiginosa pela aquisição do precioso artigo. Um país acusa o outro de pagar mais pelas máscaras e respiradores cujo contrato de compra já tinha sido fechado. Outros roubam no trajeto de transporte. A Guerra das Máscaras provocou tensões até mesmo entre países aliados tradicionais. Quem oferece uma soma maior, ganha!
Entramos na era das máscaras. Agora somos obrigados a usar máscaras nos supermercados, consultórios médicos, dentistas… mas estas máscaras são diferentes daquelas que jamais deixamos de usar. Nunca deixamos de ser um animal racional cheio de máscaras apropriadas para distintas situações. Até mesmo máscara para proteger ou ludibriar a nós mesmos possuímos. Somos seres de máscaras diversas na nossa fisionomia, no nosso espírito. A maioria serve como revestimento da nossa fragilidade, uma espécie de pele grossa que nos protege dos outros e os outros de nós. As nossas máscaras, que alternadamente usamos, são diferentes destas. Elas não são visíveis, embora algumas pessoas as enxerguem, em alguns casos. As nossas imanentes máscaras invisíveis conduzem-nos a crer que não as usamos.
Penso que não precisamos de máscaras, que a nossa inteligência pode ir além, que podemos nos desfazer dos instintos primitivos e evoluir em conjunto.
O inimigo possui a chave e entra sem dificuldade para furtar informação e refazer-se, reproduzir-se e destruir a célula. E o corpo torna-se um universo em desequilíbrio. O inimigo nos lembra que somos nada mais do que corpo e alma, limitados e perecíveis. E não somos peça substituível dentro de um sistema de produção, embora há quem tente nos fazer ser. Somos seres humanos em tudo o que fazemos e podemos — diz Confúcio — não se deve tratar o ser humano como se fosse ferramentas.
As indústrias farmacêuticas ainda não criaram um remédio contra esse mal. Ela própria é hipócrita e cínica em algumas circunstâncias. Sei bem do que falo, trabalho para uma! Transformamos as doenças em algo lucrativo. Na lei do mercado capitalista tudo pode ser convertido em compra-venda-lucro. Sem as indústrias farmacêuticas, no entanto, não teríamos os medicamentos. Ela e os investimentos em pesquisas científicas são fundamentais. Somente a ganância e a desvalorização da vida humana acima do alto lucro são imorais e antiéticos. Se os medicamentos são feitos para salvar vidas, pessoas não deveriam morrer por não possuir meios financeiros para a aquisição de medicamentos.
Como a Humanidade aprende com as catástrofes? Eu diria que depende das sociedades. Algumas procuram mudanças propícias. As sociedades instáveis sucumbem à má organização, à arraigada corrupção e à falta de recursos. A Humanidade não é homogênea, ela é composta de diversas sociedades heterogêneas em concorrência umas com as outras. Até que ponto esta concorrência é primordial? Você já pensou nisso? É realmente imprescindível o crescimento econômico irresponsável? Ou haveria um outro tipo de crescimento, um crescimento horizontal, regularizado? Um crescimento baseado no respeito, na solidariedade, na proteção, não seria a chave para o futuro promissor?
Sei que não é possível responder estas questões aqui, Noa, sem tocar no nome de Adam Smith, na falsa verdade de que o mercado é livre e deve ser livre e regulariza-se por si só. Sem mencionar a economia peculiar dos povos denominados primitivos. Sem mencionar a destruição destas economias em nome do “mercado livre”, que de livre só possui a obediência na vontade e no poder dos mais ricos. Sem mencionar a colonização e a escravidão e o imperialismo. Sem mencionar Karl Marx e as ditaduras de esquerda e de direita. Sem mencionar Keyne, Hayek, Ricardo e Friedmann, Polanye e Piketty.
Não tem espaço aqui para toda a evolução e as falhas do capitalismo, a sacada é pequena.
Ouvi na rádio, agora há pouco, que as pombas estão passando fome nas praças e nas ruas desertas. Não há mais restos de alimentos caídos no chão. A voz fazia um apelo para não deixarmos as aves definharem assim cruelmente. Coloquei alguns pedacinhos de pão no chão da sacada.
E as pessoas que estão morrendo de fome nas favelas, definhando de fome nos países pobres? Passando fome porque o mundo parou em razão de um vírus que circula propagando nossa mais expansiva fragilidade. Chamam-no de coronavirus, e é originário provavelmente de um mercado de animais selvagens, em Wuhan, na China. Existem animais que não devem ser devorados pelos seres humanos. As pessoas estão confinadas em suas casas para se protegerem, para combater a disseminação do vírus. Mas há aqueles que não possuem casa, que precisam sair de suas pobres moradias para trabalhar, senão morrem de fome.
Há os mais frágeis que os frágeis nesta Humanidade frágil!
Sentada à mesa na sacada, não canto. Passarinhos cantam. Estou aqui só, neste minúsculo espaço, captando o mundo através da internet. Penso na minha família, nos meus amigos, nos meus amores, e escrevo para você que muitas vezes não me responde, muitas vezes não lê o que escrevo, para te dizer que: precisamos tomar conta também de quem toma conta de nós. Talvez um dia você entenda isso!
Longe do meu país, distante de minha família, possuo a internet como um transporte no tempo e espaço. Com a internet alcanço as pessoas próximas de mim, aquelas que me fazem falta. Com a internet leio sobre os acontecimentos no mundo e as estratégias para a desinformação, me informo e combato as desinformações que determinados grupos procuram tenazmente inserir em nossa mente para dominar nossas células e a partir daí propagar-se doentiamente.
Chamam-no de coronavirus, porém, tantos outros vírus convivem conosco e nos matam, sem que indetifiquemos a verdadeira causa. O vírus do preconceito, do racismo, da ganância, da avareza, do ódio, da desonestidade, da inveja. Matam sem que notemos. Humanos morrem como formigas sob a pesada sola da sandália deste gigante obeso e horrendo. Esses gorgones – meio humano, meio monstro – sempre dispostos a liquidar os mais frágeis sem a mais ínfima compaixão.
Meu colega de trabalho está na UTI, ele tem 39 anos e é pai de três filhos. O mais novo tem dois anos. Torço por ele! Estou preocupada com a minha família e amigos e triste com todas estas mortes.
Ah, tá bom! Você dirá que é natural pessoas morrerem de doenças. “É bom, Márcia, porque o planeta está superpulacionado”. Não é? Não podemos tirar a vida do outro, mas a doença pode fazer isso por nós, para que haja equilíbrio no planeta. Você acredita nisso realmente?
Trabalho para uma indústria farmacêutica, vendo medicamentos que salvam vidas, que liquidam doenças. Medicamentos criados pela inteligência humana. Você certamente considera natural que a inteligência humana crie medicamentos potentes! É natural que lutemos pela sobrevivência e que busquemos formas dignas de vivência e convivência. Por que então crer que seria natural permitirmos pessoas morrerem para um suposto equilíbrio da Natureza? Desta mesma Natureza que destruímos?
Alguém bate à minha porta. Deve ser o pessoal de limpeza. Deixo a sacada e sigo a abrir a porta. O jovem de pele escura e olhos negros brilhantes deseja limpar o quarto. Conversamos mantendo distância de no mínimo um metro e meio. Vejo sua boca se mover por trás da máscara azulada e suas mãos enluvadas segura um pano. Bom dia, senhora! A senhora quer que eu limpe o quarto?
Sim, por favor! Permito que entre e me refugio de novo na sacada.
Ele faz parte daqueles que não podem se dar ao luxo de ficar em casa. Ele é obrigado a se expor ao risco. Sua vida vale menos neste mundo antropofágico.
Há muita incivilização neste civilizado mundo aporofóbico!
Depois que a limpeza do quarto terminou, tomei banho, me vesti e almocei na sacada.
As horas se esvaíram, a claridade do dia está minguando, e me sinto asfixiada. Não é de hoje que esta Humanidade me asfixia! Pretendo me mascarar e fugir para o ar livre, passear no quarteirão sorrateiramente. Mas não encontro a chave, a bendita chave!
Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
Creio que eu tinha vinte e dois, vinte e três ou vinte e quatro anos. Eu pulava do trampolim de cinco metros, pulava e voltava, competia com os garotos, ficava na fila e pulava de novo. Eu estava me divertindo, nunca aprendi a nadar direito, nado do meu jeito, sem controlar a respiração, mas mergulhar não é problemático pra mim.
Então, ele me disse, “se você consegue pular do trampolim de cinco metros, você também pula do de dez metros.” Ele estava deitado na toalha, em cima do gramado.
“É mesmo?! Tem certeza?”
“Claro!” Fiquei alguns minutos na dúvida e, sentada ao lado dele, mirei a prancha de dez metros.
“Então vou pular. Por favor, fique olhando, se acontecer alguma coisa, se eu demorar muito pra emergir, você já sabe, estou me afogando, e você tem que vir me salvar.” E lá fui eu pular do trampolim de dez metros. Subi as escadas, subi as escadas, subi as escadas. Esta foi a primeira diferença que eu percebi: havia bem mais escadas para subir. Cheguei lá em cima e me dei conta da segunda diferença: não havia ninguém ali. No trampolim de cinco metros eu tinha que ficar na fila esperando os moleques se jogarem. Na fila era uma algazarra, falatório, risos, e minha paciência. No trampolim de dez metros eram apenas eu, a solidão e o silêncio. Estranhei! Mas agora eu estava ali, naquele lugar alto e vazio, como se não pertencesse à piscina, como se fosse um território proibido. Algo perigoso e ameaçador pairava no ar, mas eu não sabia identificar ao certo. O vento era mais forte e arrepiava a minha pele molhada. Ao caminhar pela prancha e chegar à ponta, olhei para baixo: tudo havia se transformado em pequeno e notei o quanto eu estava no alto, distante deles lá embaixo. Um frio suscitou no meu ventre e não era o vento. Pensei em voltar, se me recordo bem, cheguei a dar alguns passos para trás e parei. Continuei estudando a minha possibilidade e tentando captar de onde vinha aquela ameaça que pairava naquele exato ponto do planeta. Acreditei que poderia ser simplesmente porque eu estava só, lá em cima, ouvindo o silêncio. Voltei a caminhar para a ponta da prancha, meus dedos dos pés ficaram agarrados à beirada. Lá embaixo a voragem azul me mirava e eu mirava o azul da voragem. Olhei para a frente: metade do céu, alguns chumaços brancos de nuvens, as árvores verdes e a lanchonete da piscina -, pequenos e distantes. Olhei para baixo, comecei a me preparar para saltar. Pensei nas competições olímpicas, nas mulheres pulando e se rolando e virando no ar, e caindo n’água. Como elas fazem isso? Abri os braços, elas começam abrindo os braços. Me encarnei em uma nadadora olímpica. Eu mergulharia de cabeça, com os braços levantados para o alto, e ao mergulhar, eu logo faria a curva com o meu corpo para dar impulso para a subida. Mas eu ainda estava com os braços abertos me sentindo a estátua de Cristo Redentor, com a pele arrepiada do vento passando pelo meu corpo.
Levantei os braços para o alto, tomando cuidado para não tocar o céu.
Respirei fundo e me joguei.
A queda foi rápida e nada percebi do espaço, senti apenas quando meu corpo rompeu a membrana da água e a velocidade me empurrou para o fundo. Logo curvei meu corpo para o impulso. Comecei a subir sossegada. Eu tinha os olhos abertos e apreciava a luz na imensidão azul suave. E subi… e subi… e subi, mas eu não chegava. Eu nadava e nadava e não chegava lá em cima onde a membrana me separa destes dois planetas: o líquido e o gasoso. Aí, percebi qual o perigo de se pular do trampolim de dez metros: você afunda demais e precisa ter fôlego o suficiente para subir. Eu não tinha, meu ar estava acabando. Assustada, estiquei mais o meu corpo, me esforcei mais, aumentei a velocidade, me concentrei, reforcei os meus esforços e segui em direção à luz. No fundo da piscina, o silêncio continuou, como se tivesse pulado comigo, assim como a solidão. Eu movimentava as pernas e os braços o mais rápido que eu conseguia, empurrando a massa líquida pesada à minha volta e me concentrava para não perder a calma. Meus pulmões queimavam de tanto segurar o ar e por falta de ar. É assim que se afoga, pensei! É assim que se morre! A solidão e o silêncio, que me acompanhavam desde o alto do trampolim, me proporcionaram uma estranha tranquilidade azul celeste. A luz que se movia e cintilava no avesso da membrana, parecia uma entrada redonda para a salvação. Era apenas o sol distorcido pela cor e pelo movimento d‘água.
Eu movimentava as pernas e os braços me esforçando ao máximo. Quando, finalmente, consegui emergir, eu estava sem ar e sem forças, e no primeiro aspirar pensei que fosse engolir o mundo -, o reverso do trampolim solitário e mudo lá no alto, as pontas das árvores, as nuvens brancas, o azul do céu inteiro, o sol estrelado… Eu necessitava engolir ar, respirar, simplesmente respirar, mas meu corpo amolecido pelos esforços, meus braços e pernas não podiam mais e, sem forças, eu podia afundar de novo. Boiei. Sempre que estou nervosa e prestes a naufragar, eu boio. De novo meus braços abertos, como um Cristo crucificado. Sob mim o ciano do céu.
Eu normalizava a minha respiração, apreciava o oxigênio. Se algum moleque passasse por mim nadando estabanado, eu perderia o controle e afundaria. Um recém-nascido demanda cuidados, ele é frágil e indefeso. Eu era uma recém-nascida. Mas eu não podia explicar isso aos moleques desastrados, eu precisava agora encher meus pulmões. Por sorte, nenhum deles passou por mim, rindo e espirrando água para os lados, agitando a superfície. Eu estava sozinha neste trecho da piscina, a água lisa me sustentava como no leito de um berço.
Aos poucos consegui movimentar os braços e nadar de costas quase até a margem. Com os pulmões cheios me virei e dei algumas frouxas braçadas: alcancei a beirada, me segurei e atingi a escada, subi e saí da piscina caminhando insegura e meio tonta.
Me aproximei dele e o repreendi veementemente, “que grande irresponsabilidade a sua me falar que eu podia pular da prancha de dez metros, eu quase morri!”.
Ele, que esteve o tempo todo deitado na toalha, e nem me viu pular, apenas disse: “mas você está aqui. Você conseguiu!”.
***
No meio do inferno
Ele e seu primo foram passear no final da tarde, nas férias de verão, na trilha à margem da floresta avacalhada porque estava sendo desmatada para construírem um balneário. A trilha fazia parte da antiga rua, agora havia a autoestrada logo mais acima e a mata tomou conta do caminho de terra. Eles gostavam de caminhar nesta parte selvagem, desabitada, onde somente alguns raros automóveis passavam na estrada de areia e terra. Andavam descalços carregando as sandálias nas mãos. À volta, os pássaros piavam, os insetos zuniam, os sapos coaxavam e o verde escuro deixava transparecer os raios de sol fraco. As árvores não eram altas e cresciam intactas em um trecho; em outros, elas tinham sido desmatadas. Na mata densa, cobras, lagartas, aranhas e borboletas podiam ser vistas escondendo-se. As formigas formavam longas fileiras na areia fofa. Outros insetos desconhecidos habitavam aquele mundo. De vez em quando eles se deparavam com um corpo no solo e interrompiam o passeio para buscar um pau e mexer no morto. Virava para cima e para baixo, observavam a estranha couraça ou a pelugem, as antenas, as asas, as patas esticadas, e seguiam. Alguns répteis faziam ruído na folhagem ao saírem correndo assustados quando eles passavam falando alto. E eles se assustavam com o susto dos bichos.
Chegaram ao trecho onde ficava a antiga ponte. Mas ela não estava mais ali, apenas o seu esqueleto. Eles acreditaram que podiam atravessá-la. Assim cortariam caminho pela praia e chegariam em casa antes da tempestade. No canto esquerdo do horizonte nuvens escuras confabulavam. Ele foi na frente. No começo da ponte a madeira estava boa, quase no meio, quando ele passou com o primo atrás de si, a madeira rompeu-se. O primo não pôde continuar e regressou. Ele ficou no meio da ponte, entre um buraco e o outro mais adiante, que ele só viu agora. Lá embaixo o rio negro passava com as tranças da correnteza veloz. Do outro lado do buraco havia uma estreita estrutura de cimento dando seguimento à ponte. Ele tinha treze anos e não sabia nadar. Estava preso no meio do esqueleto da ponte.
— Você precisa pedir ajuda! berrou para o primo parado na margem.
— É, eu vou pedir ajuda! Mas primeiro eu preciso cagar! O seu primo gritou de onde estava.
— O que? Eu estou morrendo aqui e você precisa cagar? Ele retrucou irritado.
— Eu preciso cagar! O primo repetiu agitado e se escondeu atrás da moita ali perto.
Ele ficou sozinho, e não sabia se o seu primo precisava cagar porque estava nervoso ou porque não entendeu a gravidade da situação e tanto fazia quanto tempo ele permanecesse em cima da ponte. O melhor seria não contar com o primo para sair do apuro. Olhou novamente para o outro lado da ponte. Não podia olhar para baixo, a correnteza o deixava zonzo e o sugava. A tarde findava-se, a claridade do sol diminuía rapidamente, e as nuvens escuras se intensificavam e aumentavam. Reprovou a sua coragem. Nos passeios pela mata ele sempre saía andando na frente, enfrentando os répteis e os lamaçais. Agora parado imóvel sobre a frágil madeira ele chegou à conclusão que até o primo chegar em casa e pedir ajuda, já teria escurecido. Não havia luz elétrica ali. Seria breu puro mesclado ao ruído dos insetos. Além disso, os morcegos voariam raspando em seu corpo. Ele acreditava que não sobreviveria. Ele não sabia nadar, tinha medo daquela correnteza negra, do breu da noite e dos morcegos invisíveis.
Ele imaginava o seu primo chegando esbaforido em casa: “o Daniel está lá no meio de uma ponte quebrada sem poder ir para a frente ou voltar”.
— Que ponte, menino? Explica as coisas direito! A mãe diria. E depois da explicação confusa seus pais e seus tios sairiam em seu socorro, todos dentro do carro, munidos de faroletes, e seu pai dirigindo com dificuldade no caminho de areia. Talvez tarde demais! “Não. Eu não vou morrer”, pensou. E observou novamente a construção de cimento do outro lado, cogitando pular. Seria um risco de vida, ele sabia que precisava manter a calma e se concentrar e pular antes que a noite caísse como chumbo e então ele não enxergaria mais nada. Lá embaixo a correnteza passava indiferente. Mas ele podia morrer se pulasse tanto para o lado da viga de cimento quanto para a parte de madeira fragilizada. Talvez pular fosse mais perigoso do que se concentrar para permanecer em pé algumas horas, no escuro, esperando ajuda. Quem sabe os morcegos voassem essa noite para outro lado! E os insetos em solidariedade a ele zunissem mais baixo. Mas também o silêncio seria assustador no qual somente o murmúrio das tranças negras lhe chegaria ao ouvido. Era desesperador ter que escolher entre os diferentes caminhos ruins. Por que o seu primo precisava de tanto tempo? E se fosse o contrário, se fosse seu primo parado no meio da ponte e precisasse de ajuda? Como ele reagiria? O primo não seria tão sensato como ele; desesperado, ele provavelmente já teria caído na água. Mas por um momento ele pensou que em vez dele poderia ter sido o seu primo a estar ali. Ele tinha os mesmos treze anos e sabia nadar.
— Onde você está? Ele gritou para o primo e não recebeu resposta, apenas um pássaro gralhou e levantou voo por trás da copa de uma árvore.
Passados alguns minutos o primo finalmente saiu de trás da moita gritando:
— Eu vou buscar ajuda. Espera aí!
— E para aonde você acha que eu vou? Eu estou preso aqui. Ele respondeu irritado.
— Eu sei.
— Isso é muito sério. Vai correndo pedir ajuda. Eu não posso ficar aqui por muito tempo.
— Não se preocupe, eu estou indo. E a figura do primo desapareceu por entre as árvores e o matagal da trilha. Ele ficou só, ouvindo o ruído da água negra murmurando ameaçadoramente sob seus pés. Os pássaros haviam se calado e não mais voavam. Quanto tempo ele precisaria permanecer assim?
Ele precisava pular, sabia que era esse o único caminho. Seria uma questão de concentração, pensou ele, se se concentrasse livre e profundamente, conseguiria. E fixou o olhar na extremidade da viga de cimento, calculou exatamente onde pousaria o pé.
Durante alguns longos minutos ele pensou o que poderia acontecer, imaginou todas as possibilidade: bater a cabeça e morrer com a cabeça rachada ou cair na água e morrer afogado. O rio levaria o seu corpo para desembocar no mar. Ali na desembocadura o rio era raso e seu corpo permaneceria boiando na água escura misturada com a água clara e cheia de espuma do mar.
Ao longe, no horizonte esquerdo, na retaguarda, nuvens escuras já tinham se juntado em uma manada para desabarem em tempestade. E uma tempestade naquela região litorânea, depois de um dia quente, no meio do verão, significava vento forte, trovões ensurdecedores e inúmeros relâmpagos que se iluminavam intensos e tortuosos no azul cinzento do céu e toda a nervura das nuvens poderia ser vista no plasma sobreaquecido.
Ele precisava pular e sobreviver.
Concentrou-se em alcançar a viga de cimento com um pé (ali cabia somente um pé de cada vez), de forma nenhuma podia olhar para baixo. Seu olhar se mantinha firme para a frente, onde à sua volta as árvores, a montanha adiante, o horizonte acinzentado e uma risca de mar formavam a paisagem. O vento soprava cada vez mais forte. Em pé, sem ter onde se segurar, ele fitou mais uma vez as nuvens obesas marchando em sua direção. Pensou em se sentar, assim não se cansaria tanto e não ficaria tonto com o vento lhe compelindo o corpo. Mas imaginar as suas pernas penduradas em direção àquele negro vertiginoso passando lá embaixo lhe causou aversão. A correnteza maligna poderia criar braços ofídicos e lhe puxar pelos pés. Não, não podia se sentar.
Ele precisava pular.
O rio estava cheio e alargara-se, por causa da chuva dos últimos dias. A grossa correnteza fluía rápida, assustadora. O negro da água parecia com um rio de coca-cola, e, conforme o raio de sol e a profundeza da água, ele adquiria um tom avermelhado. A sua nascente ficava nas montanhas cujas silhuetas ele podia ver de onde estava. E ele não acreditava que a cor escura originava-se das raízes das árvores. Para ele aquilo era a urina daquelas árvores na montanha.
Ele precisava pular.
Escurecia muito rápido. Ele não conseguiria permanecer ereto e imóvel na escuridão. E os morcegos vinham à noite. Quantas vezes ele sentiu as asas de um passando rente ao seu braço nu ou ao seu rosto, quando estava sentado no muro do jardim, tarde da noite quente. Ele se assustava. A mãe lhe dissera para tomar cuidado, os morcegos mordiam, podiam transmitir doenças. Ele tentaria enxotá-los com os braços levantados e perderia o equilíbrio caindo na escuridão do rio.
E a tempestade o mirava. Os primeiros pingos grossos começaram a cair e explodiam em sua pele. Mas ele não podia se desesperar, o medo atrapalharia a sua concentração. Como em um alvo, os pingos lhe acertavam, molhavam a camiseta e o short.
Um sentimento forte de arrependimento lhe enjoava o estômago. Por que ele tinha que ter pisado nesta ponte? Por que ele foi o primeiro?
E de repente os pingos cessaram, também o vento forte parou de soprar e se transformou em uma leve brisa morna. Às vezes, isso acontecia, era o intervalo antes do dilúvio.
Ele precisava pular o mais rápido possível antes que chovesse ou escurecesse. Não podia esperar mais. Enrijeceu o corpo, fixou o olhar na ponta da viga de cimento, calculou a queda de seu pé direito exatamente ali. Convenceu-se de que conseguiria e concentrou-se.
Concentrou-se novamente.
E pulou.
O pé direito pousou no cimento duro, o corpo balançou desequilibrado, ele abriu os braços para recuperar o equilíbrio, e olhou para o horizonte a sua frente. A sensação de alívio transcorreu pelo seu corpo. Mas ele ainda não estava fora de perigo. E de forma alguma poderia olhar para baixo. Estava no começo da viga estreita de cimento, com os braços abertos como um Cristo Redentor caminhando com um pé meticulosamente atrás do outro, mantendo a máxima concentração.
E no final da viga havia mais um buraco entre a margem e a ponte.
Depois de toda a coragem e o risco para chegar até ali havia mais um obstáculo, faltavam poucos passos para ele estar a salvo e de novo o perigo a sua frente. Uma moleza de desânimo abateu o seu corpo, mas ele não podia vacilar.
A margem era um barranco escorregadio cheio de plantas gosmentas, e a água estava parada, suja de lama, de pólens e restos de plantas. Ele não podia cair ali, seria fatal, as raízes das plantas embaraçariam em suas pernas e o puxariam para o fundo lamacento. Mesmo que se segurasse nas plantas escorregadias, o breu da noite o mataria de medo sob o murmúrio da correnteza no meio do rio escuro como o inferno.
Ele precisava pular.
Novamente necessitava da concentração e do sangue frio. As taboas e as folhagens sussurravam com o vento. Repensar as chances que ele já tinha refletido até ali ele não queria e também não havia mais tempo. A penumbra cobria tudo de cinza. Ele precisava pular. Era assim que podia ser morrer, concluiu, apenas ir passear em uma trilha, na natureza, nas férias, em um final de tarde quente e cair em um rio. A morte não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ele precisava pular. A tempestade estava no seu encalço, se chovesse enquanto ele estivesse caído na margem lamacenta, a correnteza alargaria-se e o atingiria levando-o consigo. Concentrou-se, ele precisava pular. Não cairia naquela água nojenta. Não podia cair ali. Daria o máximo de impulso. Ordenaria o seu corpo a voar alguns ínfimos metros, esticaria as pernas como um sapo na hora do salto. Nada o impediria de atingir o barranco e fincar os seus pés na terra firme. Concentrou-se. Esperou mais um momento e concentrou-se mais ainda.
Concentrou-se novamente.
E pulou.
E sentiu o pé carimbar a sua marca na parte seca e segura da margem, logo fincou o outro pé mais adiante e mais um largo passo. Estava salvo, nem sequer olhou para trás. A penumbra o envolvia e uma trilha seguia em direção ao mar. Estava livre, estava vivo, pensou correndo feliz naquele trecho descampado, de braços abertos para ele. Aspirou fundo o cheiro salgado da mata mesclado ao da terra e vislumbrou a silhueta escura da imensidão do mar. Estava salvo, estava livre.
Ao chegar em casa, encontrou o primo na varanda conversando com o tio. Tudo estava na sua ordem habitual. Seu pai e seus dois tios tomavam cerveja à mesa na varanda. O calor amolecia os gestos e a noite já tinha engolido as cores e os contornos. Nada revelava que eles tinham sido avisados, ninguém se mostrou contente ou aliviado em vê-lo.
Com um olhar intimidador, ele fitou o primo e o seu primo lhe revidou o olhar com expressão indecifrável.
Ele entrou na casa. As suas irmãs e os outros primos estavam na sala. A mãe e as tias terminavam de preparar a janta, na cozinha. Ele foi para o quarto onde se deitou de costas na cama e, com as mãos cruzadas embaixo da cabeça, mirava o teto no escuro, pensando que provavelmente aquela não seria a única ponte quebrada que necessitaria atravessar ao longo de sua vida.
Neste instante a tempestade desabou derramando gotas pesadas de água, o vento soprava veloz assobiando por entre as frestas de madeira e batendo na janela fechada do quarto, os relâmpagos iluminavam seguidos dos trovões estrondosos e ensurdecedores. Dentro da casa foi uma correria para fechar as portas e as janelas. O pai, os tios e o primo entraram carregando copos, garrafas e pratos de petiscos.
Do lado de fora a tempestade uivava como um monstro feroz, soltando raios e batendo a forte cauda de ventania.
Viviane de Santana (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
Descobriram uma bomba da segunda Guerra Mundial ao fazerem uma obra na proximidade do meu prédio. A polícia passou convocando os moradores, pelo alto-falante, a deixarem suas casas. Na Alemanha, as bombas estão por aí, enterradas inertes no fundo da História, mas chega o momento no qual desabrolham como a gigante semente de uma flor nefasta, despontam da terra como uma enorme melancia enferrujada e repleta de crostas de lama. Mesmo depois de setenta e poucos anos podem explodir. Bombas são assim, não possuem prazo de validade como o pão, o leite ou a nossa vida. Enquanto ela estiver protegida por uma camada de terra como o embrião maligno da morte, ela fica ali, esperando a sua vez de espocar e despedaçar tudo a sua volta. Ouço os passos dos vizinhos descendo as escadas, os automóveis, antes estacionados na rua, deixam o local. O cinza do dia é escuro e chove. O eco do megafone funde o final da tarde. Não sei para aonde ir assim rápido, espontâneo. Devo ir a algum restaurante – longe – e ficar jantando a noite toda? Será que eu seguirei o chamado da polícia para evacuar ou ficarei em casa como aqueles teimosos que não abandonam os seus pertences mesmo com a chegada de um furacão, permanecem implacáveis junto de suas coisas como se pudessem salvá-las com sua presença flutuável, quebradiça?
Com repulsa visto o casaco, calço os sapatos, pego a bolsa, meu livro e o caderno de anotações. Na calçada, pergunto ao policial: quanto tempo isso demora? Talvez até amanhã de manhã! Até amanhã de manhã?! Penso perplexa. A polícia nem disponibilizou tempo para eu fazer uma mochila com a escova de dente, creme antirrugas, uma toalha e o pijama. Tocou a campainha de casa em casa ameaçando: deixe o apartamento imediatamente! Voltei. Regressei para o meu apartamento. Sentei-me no sofá da sala e escuto a mudez de tudo ao meu redor, como se o mundo tivesse se esvaziado. Não posso acender a luz, para não descobrirem que transgredi a regra. Será que sou a única a contrariar as ordens? Vejo a pantomima do vento farfalhando as folhas da árvore diante da minha sacada. Isso me leva a pensar naqueles que vivenciam a guerra, que sentem os tremores da explosão sob seus pés, ouvem o ruído ensurdecedor, que perdem as paredes de sua casa ou o teto, perdem os móveis e os que sobram são cobertos pela grossa camada de cimento pulverizado e seus pedaços, e perdem seus pertences – quando não perdem um braço, uma perna, — a vida.
Não é a primeira bomba a ser encontrada e não será a última. Há milhões enterradas nesta terra e nas regiões mais afetadas pelo conflito bélico daquela época, também são encontradas ossadas de civis mortos plantadas debaixo da cidade, por várias décadas. Eles renascem tão inocentes como morreram. Os ossos são resgatados e levados para um laboratório ou para o cemitério. Suponho que façam um teste de DNA para saber quem é. São tantos ossos ainda dormindo, esperando alguém libertá-los e lhes dar um rosto e uma biografia, e os levar aos seus parentes que agora fazem parte do futuro.
Os artefatos são desativados com sucesso, com exceção de alguns poucos. Acontece de trabalhadores da construção civil depararem-se com um dispositivo, cavando a terra com a escavadora, e ele explodir. Geralmente, são encontrados em terrenos baldios. O governo de Berlim comprou documentos e fotografias pertencentes aos arquivos dos Aliados para a busca de artefatos, e criaram um mapa com as regiões mais afetadas. Será que o piloto de um dos seiscentos aviões que jogaram mais de cinco mil bombas nesta cidade imaginou que ele poderia me acertar? Eu, que não vivi a guerra, não nasci neste país, vivi muito tempo longe daqui, e setenta e poucos anos depois, uma bomba da segunda Guerra Mundial pode me atingir como se a guerra fosse ontem.
Certa vez, o artefato explodiu e escutei na rádio: três especialistas em armamento morreram, as vidraças de alguns prédios se espatifaram, brotaram rachaduras nas paredes. Deixaram mulher e filhos. Quando explodem, apesar de antigos e enferrujados, é com os mesmos vigor e iniquidade, como se todos esses anos a força de destruição da guerra tivesse incubada ali.
Há pouco eu ainda ouvia o chiado das rodas dos automóveis passando ligeiros pela autoestrada lá adiante, o som undíssono dos pneus no asfalto encharcado ecoava alquebrado até a janela da minha sala. Agora nada, apenas o silêncio, parecido com o primeiro de janeiro quando todos dormem de ressaca.
E então, depois de algumas horas, na meia-luz, anotando palavras ilegíveis, a fome me surpreende e vou à cozinha, comer o resto da batata-frita que eu fiz para o almoço. Semelhante aos condenados à morte que fazem a sua última refeição. A bomba pode explodir agora, comigo comendo batatas-fritas. No banheiro, fazendo xixi, torço para que ela não exploda agora que estou com as calças abaixadas sentada na privada. Não é assim quando se está em guerra? Nem ao banheiro podemos ir em paz, as mínimas e insignificantes ações podem se tornar as últimas e tudo é perigoso. Percebemos o quanto as mínimas coisas são essências e o quanto podemos ser felizes com elas, como simplesmente jantar em casa com a família, ouvir uma música na rádio, guardar a louça no armário, tomar banho…
Ando como uma intrusa no interior do meu próprio apartamento. Não há mais alto-falante lá fora, não há mais polícia perambulando pela calçada. A rua está deserta, o prédio está abandonado. Não vejo mais o xadrez das janelas acesas e apagadas, que aparece todas as noites, somente o breu indecifrável resplandece na fachada das casas. E quando a taciturnidade é mais pesada do que aquilo que escrevo, a sensação de fim de mundo me advém, me sobressalta, logo em seguida, desaparece de novo. E depois? Devo pensar na vida eterna? O que vem depois da destruição, do fim? Não sei, só sei do não existir mais neste apartamento, neste corpo, nestes pensamentos. Só sei da abrupta interrupção de mim com esta vida, com as coisas deste mundo material. Talvez eu me torne somente pensamentos gasosos que flutuam no ar, uma espécie de névoa que se evapora ou se transforma em chuva e cai na terra, no cimento, nos telhados, no vidro dos automóveis. Pois não é assim, na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Nós nos transformamos em quê depois de mortos? Não sei para aonde vou quando eu deixar de ser eu incorporada nesta armação de carne e ossos, sangue e órgãos. No fundo, morrer é simples, basta um segundo e, às vezes, nada percebemos; outras vezes, a vida é um morrer constante, repleta de dor e desespero.
Reflito nos especialistas em engenho explosivo trabalhando ao redor do artefato. Certamente precisaram cavoucar cuidadosamente a terra, na região onde o dispositivo se encontra, para liberá-lo do lamaçal. Presumo que armaram uma cabana com cobertura de plástico sobre esta área, para que os pingos de chuva não caíssem sobre o rosto dos especialistas e em suas mãos, atrapalhando a concentração. E também de luz eles precisam, deve haver um grande farolete doando claridade. E no instante decisivo, os especialistas precisam ficar sozinhos, completamente solitários, e assim poucas pessoas morrerem se algo der errado.
Imagino um único especialista enfrentando este artefato de duzentos e cinquenta quilos, enterrado a cerca de meu prédio. Tudo a sua volta foi evacuado, a autoestrada está vazia, os edifícios, o supermercado, o asilo de velhos, a estação de metrô, os prédios, as calçadas. Apenas ele e o silêncio absoluto, ele e a afonia que caiu sobre esta parte da cidade como um manto negro, ele e o isolamento, ele e a solidão, ele e o pipocar dos pingos de chuva sobre o plástico, ele e o suspense, ele e a obscuridade do futuro.
Durmo no sofá da sala. No meu quarto, a cama fica muito perto da janela, e se o artefato explodir o vidro se espatifará em cima de mim, cortando meu corpo, furando minha carne. A sala fica do lado onde a pressão levaria os cacos a caírem para fora, deduzi com os meus parcos conhecimentos de física. Meu prédio localiza-se à margem do perímetro dos quinhentos metros de evacuação.
Tenho o sono leve, meu sonho é uma mistura de vizinhos invadindo meu apartamento, me acusando, me ordenando a sair, e o amarelado claro e forte do sol se derramando na escada. No meio da madrugada, desperto e cogito se seria agora que ele separa a concha entre o impulsor de ignição e o explosivo, com o cortador de granulado de água — e fomos salvos. Meus olhos arregalados vislumbram o escuro como se pudessem atravessá-lo feito um raio. Esse escuro nada me responde. Não é possível eu saber, pode ser agora, daqui a meia hora, duas horas, ou já foi. O que ele pensa neste átimo de tempo preciso com o bafo da morte na sua nuca, instante no qual o seu corpo pode vir a ser despedaçado e pedaços voarem e como um bando de pombas pousarem no chão. As partes espalhadas como em um quebra cabeça imontável. Sentir ele não sentirá, nada disso ele sentirá. Mas possui a consciência. Talvez ele reze, se for religioso, talvez ele pense em sua mulher e filhos, em seus pais, em sua namorada ou apenas se concentra porque a rotina – são mais de setecentas bombas que ele desativou – a prática o fez esquecer que ele é a pessoa que executa um trabalho que toda vez pode ser a última. Como se eu, ao assinar um documento no escritório, corresse o risco de explodir. Pego a caneta, observo o papel profundamente, calculo minha assinatura no espaço exato, preparo a caneta, a minha mão, respiro fundo, concentro-me, penso nos meus entes queridos e — desejo viver e — assino.
Não há como eu saber o lance de tempo exato no qual ele cala a bomba, corta a sua aorta e o monstro morre para nunca mais, — vencido, agora inofensivo, semienterrado na terra como um estranho alienígena de ferro, sem olhos, sem ouvidos, sem membros, somente com a boca fechada, esta boca que ao abrir engole construções e vidas. Não há como eu saber, mas creio que esta bomba não me alcança, esta bomba não me alcançará.
Viviane de Santana é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, publicação independente, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.