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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana Paulo

 

Foto: Antonio Paim

 

Viver e morrer no facebook

 

Era uma vez ela —, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. Não sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que não, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da família, dos amigos, das viagens, esboços do que pensava sobre determinado acontecimento, vídeos engraçados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e lá encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), começou a trabalhar em uma instituição cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secretária executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Praça da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu não abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu alguém mais interessante no jantar da empresa (soube através de um comentário maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buquê de orquídeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de óculos e mais 95 fotos que eu não abri, e um vídeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o braço para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando café no Tortoni, em frente à fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu não abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sofá, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almoços ou jantares com a família, com amigos, caminhada na praia do Balneário de Camboriú, nova sandália de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, vídeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de bebês fazendo graça, de cidades estrangeiras, de lição de vida… e alguns comentários no facebook.

De repente, no meio de várias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. Não sei como ela morreu, não sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de câncer, acidente, aneurisma… Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possuía um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orquídea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela não era bela nem feia, possuía um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos até os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os lábios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no inbox. Cliquei em uma foto ou outra, em um vídeo ou outro, em um comentário ou outro. Na imagem in memoriam a família e amigos expressavam condolências. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a excluí do meu grupo. Afinal não era meu parente ou uma amiga íntima!

Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido têm a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?

Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos convençamos que não nos interessa. Não é bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Além da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opiniões, em nossas preferências, em nossa visão de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos egoístas e egocêntricos. Mas sem o outro não temos como ser egoístas. Sem o outro estaríamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos através do outro. No entanto, meu contato com ela não foi do tipo que proporcionasse esta característica. Hoje em dia não buscamos esta característica, temos preguiça de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superfície e no nunca conhecer o outro como ele é na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opiniões, vídeos, digitalizados e esporádicos, efêmeros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos —, um livro mal lido e emprestado que você esquece de não ter recebido de volta.

E sigo minha vida clicando.

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Dirk von Petersdorff

Tradução: Viviane de Santana Paulo*

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

 

No museu da história

 

Uma caixa de vidro iluminada,
no interior uma pedra cinza,
as bordas lascadas,
e assim ocorre-me ainda,

quão absorto eu sentado estava,
em Kiel, à mesa da cozinha,
quando a notícia surgiu,
quando o Muro caiu.

 

Im Museum der Geschichte

 

Ein Glaskasten im Licht,
darin ein grauer Stein,
der an den Rändern bricht;
und also fällt mir ein,

wie ich versunken saß,
am Küchentisch in Kiel,
als die Meldung kam,
als die Mauer fiel.

 

 

***

 

 

Fliperama

 

Pena! Inferno! Susto e dor!
Espasmos! Tinidos! Abismos não!
Oh rapidez! Alavanca! Torção!
Luzes! Sim! Nova cor!

Mas certamente, deve-se planejar,
pode-se apontar o alvo e é preciso adivinhar –
rio de luzes, dança eufórica,
oh, quem sabe, medo e glória.

 

Flippern

 

Jammer! Hell! Schreck und Pein!
Zucken! Klacken! Abgrund nein!
Ach vergeh! Bumper! Drall!
Leuchten! Yes! Neuer Ball!

Aber sicher, man soll planen,
man kann zielen und muss ahnen –
Lichterfluss, schneller Tanz,
ach wer weiß, Angst und Glanz.

 

 

***

 

 

O futuro começa

 

como no quadro de Rafael a Madonna
na parte inferior da obra o arranjo,
a próxima geração – anjos,
com quase um bocejo à tona.

Velha é a magia,
um sorriso principia
nos lábios, e entretanto –
o que sabem os anjos?

A cabeça apoiada na mão,
já não é tão
ao fundo da moldura
nem tanto consola a formosura.

 

Die Zukunft beginnt

 

wie auf Raffaels Madonna:
Am unteren Bildrand lehnen
die Engel – nächste Generation.
Die müssen fast gähnen,

der Zauber ist alt,
ein Lächeln wächst
auf den Lippen, und bald –
was wissen die Engel?

Den Kopf in der Hand,
schon nicht mehr ganz da
am unteren Rand
ein trostreiches Paar.

 

 

***

 

 

Eles se encontram no corredor

 

Meu filho veste camisa amarela com letras irregulares,
onde cavaleiros erguem espadas de lasers
e uma cobra dá de cara com uma pantera –
para mim são coisas já passadas nesta vida.
Mas estou na posse de vitórias antigas
como um menino na bicicleta que conquistou a glória,
porque ela, oh Deus, subiu na minha garupa,
tocou meu quadril, – corrente elétrica.
Ainda acontecerá com o menino:
o sútil, incerto futuro-flamejante,
o corar abrasador até as orelhas
e a impaciência, o pulso querendo acelerar.

………O homem tira lentamente a gravata,
………o menino passa empurrando a bicicleta.

 

Man trifft sich im Flur

 

Mein Sohn trägt gelbe Shirts mit Zackenschrift,
wo Ritter ihre Laserschwerter heben
und eine Schlange einen Panther trifft –
das ist für mich vorbei in diesem Leben.
Doch bin ich im Besitz von frühen Siegen
als Fahrradfahrer, der dem Glück erlag,
denn sie, oh Gott, ist hinten aufgestiegen,
fasst meine Hüfte an, Elektroschlag.
Das steht dem Jungen alles noch bevor:
das feine, ungewisse Zukunfts-Brennen,
die heiße Röte bis hinauf zum Ohr
und Ungeduld, der Puls will immer rennen.

……..    Der Mann macht langsam die Krawatte frei,
……..    der Junge schiebt sein Mountainbike vorbei.

 

 

***

 

 

10º andar,

 

edifício com ar condicionado, celeiro dos mortais.
Fique frio, sorria, o mais alto é o 19º,
minha guia, enfraqueço, quando
passo por um bando de secretárias
maquiadas, ménades, bocas trêmulas
….. para que a encenação?
seus pensamentos
….. chamamos de volta
surgem quando falam
….. tudo como sempre
e displicentes comem donuts
esperando a existência, e nisso acompanha
a música: tudo é bom, canta
Madonna, que quer saltar no Etna;
e em frente as janelas precipitam-se
as núvens passageiras, cinza profundo, depois a queda
de brilho no escritório espaçoso,
manchas de luzes na tela da face,
sussurro de fax, eternamente – ok, ok,
há inúmeros purgatórios, há
televisão após a morte do moderador,
se eu, por favor, pelo menos, a chave
o código, do local
o âmago – ela riu.

 

10. Stock,

 

klimatisiertes Hochhaus, Tenne der Sterblichen.
Cool bleiben, lachte, höchstens 19,
meine Führerin, schwach ich, als
wir einen Schwarm von Sekretärinnen
passierten, geschminkt, mänadisch, zappelnde
Münder
……..was soll das Theater?
ihre Gedanken
……..wir rufen zurück
entstehen beim Reden
……..alles wie immer
nebenbei essen sie Donuts u.
warten auf die Existenz; dazu
die Musik: Alles ist gut, singt
Madonna, sie will in den Ätna springen;
und vor den Fenstern rasender
Wolkenzug, tiefgrau, dann Stürze
von Helligkeiten im Großraumbüro,
Lichtflecken, auf einem Schirm Gesichte,
Fax-Surren, ewig – okay, okay,
es gibt zahlreiche Fegefeuer, es gibt
Fernsehen nach dem Tod des Moderators,
wenn ich wenigstens, bitte, den Schlüssel,
den Code, was den Laden
im Innersten – sie lachte.

 

 

* Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

(Dirk von Petersdorff (1966/Kiel) é poeta, ensaísta e crítico literário. Estudou filologia germânica e história na Universidade de Kiel. É professor de literatura alemã moderna na Universidade de Jena. Dirk também é membro da Academia de Ciências e Literatura de Mainz (Akademie der Wissenschaften und der Literatur) e do Centro Internacional de Pesquisa Clássica (Internationalen Zentrums für Klassikforschung). Em 2006, foi membro do júri do Prêmio Kleist (Kleist-Preis))

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Pintura: Sylvana Lobo

Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.

 

Os Leveiros

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

CASULANIMUS

Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo

 

descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol     faminta por entre os monturos
da tarde     surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas     o pavor diante da pilha de cenários vazios     a cidade
regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia     mas
o cansaço reveste os corpos de desamparo     e as esculturas perambulam pelas
galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas
germinando lentas     diáfanas     tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários      recolhem o movimento imperceptível
dos sentimentos
nos fios das travessias     emaranhados como um casulo na curva da clavícula
tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo     são corpos que mudam de lugar    cruzam as
artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia     escrevem os nomes trocados para
confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada     quando
revivem as imagens desfeitas     e destacam passagens incongruentes da
narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e
frágeis de nervos de folha desgastada de verão    devoram as cicatrizes
rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos     cartazes
aniquilados     detritos surpresos     orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes     tateavas um palimpsesto aqui     eu
mascava uma imagem putrefata ali     a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos

 

 

***

 

MASCARALVO

 

a noite e o problema confinado     jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas     não te conhecem as cigarras     o bafo quente
…..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu     dissolvidas as cores do dia na saliva da boca

para dizer que tudo se esvai     mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras     o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame     na ponta
…..dos espinhos
minto carnavais e feriados     noite de sexo sem a purpurina vermelha     sem a pérola
…..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar   contrariar a roupa ao vesti-
…..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato     não te vás     não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma     nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada     onde
…..as primeiras luzes surgem indiferentes     inventam o cotidiano no gargalo dos
…..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos     matizes promissoras e lembranças viajantes que
…..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Juh Moraes

Viviane de Santana Paulo

 

acredito no ocaso das tempestades no copo d’água
depois das ondas presas no mínimo oceano
dos relâmpagos azuis nas bordas das palavras
da borrasca no reverso dos gestos
acredito no zéfiro alisando o esgar dos rochedos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxno cimo do dia seguinte

 

 

***


quantas frações de instantes até o felino
abater o antílope e enfiar os dentes afiados
no pescoço macio e morno do pulsar exasperado
da fuga    curta
a liberdade que era de  um
passa a ser do outro que se satisfaz
com o andamento prescrito das coisas
com o manejo das mandíbulas
e o rosnar faminto da Natureza dualística
tanto cruel como generosa   e sempre política

 

 

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Participou, em fevereiro de 2012, do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua)