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148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

POEMA SEM FIM

Por Sandro Ornellas

 

 

1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (2021) é o mais recente livro de W. J. Solha, publicado pela editora paraibana Arribaçã, e é o quinto poema de uma série projetada para seis livros do poeta, romancista, cordelista, artista plástico e ator (cf. O som ao redor). Dos cinco volumes publicados até agora, conheço outros três – Trigal com corvos (2004), Marco do mundo (2012), Esse é o homem (2013) –, mas comentarei apenas esse quinto, embora o diálogo com os demais esteja claro desde o início, por exemplo, na montagem do texto através de referências históricas, culturais e artísticas que fazem da série um grande painel intertextual da história.

Não me parece, no entanto, esta a sua vontade primeira – ser um painel –, mas o resultado da sua organização discursiva (ou “poético-filosófica”, como afirma). Todos os quatro volumes que li são longos poemas costurando referências que formam uma malha dramática de personagens, eventos e reflexões representando nosso esgotamento contemporâneo. De um lado, esgotamento da possibilidade de se fazer algo de novo em arte; de outro lado, esgotamento do próprio discurso histórico, esgotamento do futuro. Em 1/6 de…, à contemporaneidade só restaria repetir a história moderna como farsa, tragédia ou, como é dito a certa altura, comédia chapliniana (p. 46). Mas, nesse texto, o motor da história parece ser mesmo a farsa, particularmente no entrecruzamento desses diálogos dramáticos com a narrativa e as interrupções líricas.

É também como farsa que o discurso começa e termina re-citando-se ab ovo – “Perfeito desde o começo, / ab ovo, / o poema não teria um primeiro versículo como o do Velho Testamento…, / mas do Novo” (p. 09). Desejando-se perfeito, no poema de Solha – na longa viagem inventariando referências, eventos, obras e nomes – tudo não passa de desastre, erro e decepção na busca de uma impossível perfeição humana. Isso é percebido principalmente como falência da ideia de progresso, que se insinua sub-repticiamente, tanto em certos instantes do seu discurso, assim como na própria discursividade do poema.

A ideia de progresso é transformada em mito falido na impossibilidade do poema fazer seu próprio discurso progredir e avançar, mesmo quando de modo não-linear. Todas as dezenas de referências históricas e estéticas parecem repetir o mesmo princípio de impossibilidade, ilusão e falha de um discurso que conduza a história para um futuro melhor, mesmo como profecia: “Tudo / …velho / …como o evangelho” (p. 42), ou “Poeta / não é / P(r)o(f)eta. // Mas em tudo / há uma meta” (p. 43), ou “Tudo… anseio puro / de adiamentos do / …futuro” (p. 54). Não há no poema futuro melhor. Nem passado. A sua narratividade não avança, mas vai e vem, perdida entre referências labirínticas de uma história exemplar em decepções e catástrofes. Diferente da burguesa forma do romance, 1/6… descrê de qualquer aprendizado possível, de qualquer retórica aquisição de consciência – o que se deduz do arco histórico e geográfico que ele abrange e do modo como costura liricamente tudo.

O texto, portanto, ratifica essa falência do discurso também pelo que possui de lirismo poético. Por exemplo, o modo como as rimas são compostas – como aparecem em versos de grande oscilação rítmica – reforça a inércia do discurso. Rimas associando palavras, ideias ou nomes que parecem girar em falso, não por mero gosto de ludismo verbal, mas de uma sequência gaguejante, de interrupção em interrupção do que poderia ser dito, refirmando a crise do progresso do discurso e da ideia de progresso. Exemplo: “travellings… em Toda a Memória do Mundo, / glória do cinema francês, / de 56, / nos… desfiladeiros – entre estantes… da Bibliotheque Nationale – com o final … em nada transcendental, / tipo A idade da Razão ou Finnegans Wake: / numa pilha de / … Mandrake” (p. 14-5). Solha espalha rimas como pequenas bombas que vão explodindo ao longo, à medida em que caminhamos por seu texto. São rimas que impedem o discurso de avançar ou recuar, mantendo-se suspenso entre repetições fonéticas e diferentes referências, como pede qualquer lirismo forte. Eles chamam muitas vezes mais a atenção para si do que para o que se diz, roubam a atenção, vão para o primeiro plano. Isto é: a discursividade se encontra interrompida por um lirismo antidiscursivo nas rimas: “e a mente, / a que nada, / jamais, / diz “Basta!” / se verá, / então, / …vasta, // … como o fundo falso das poças rasas, / com o céu, o sol e a lua, / estrelas, / nuvens, / e tudo que tem / … asas // coisas que …persistem, / mesmo que se saiba que – em sua transmissão ao vivo, quase / … subjetivo – apenas de certo modo / existem” (p. 58-9). Esta última passagem é também exemplar de outro recurso que reforça o ímpeto interruptivo: as reticências, que parecem nesse livro carecer de maior funcionalidade pelo seu uso excessivo. Embora o excesso também esteja nas referências, nas utopias, nas rupturas e nas esperanças e nas frustrações, que a certa altura impõemRemover imagem destacada um “etc etc etc” (p. 36) para se referir a Picasso, como se o excesso de informações na contemporaneidade exigisse do poema apenas o ato de dar a referência, sem precisar de maiores reflexões. Nada mais. Nada além.

O poema vai, em sua progressão narrativa, sofrendo todo o tempo com quedas líricas que põem por terra qualquer maior ordenação de sentido. O texto sempre parece retomar essa ideia de falha no progresso. Aproximando a arte moderna da bomba atômica, Solha explicita: “ou entre as… obras… de cubistas… e abstracionistas / do século seguinte, / o XX, / em que essa… premonitória desintegração… culminaria em sua obra-prima: / Hiroshima, // depois da qual / a arte / de Picasso, / perderia espaço” (p. 61). O mito do progresso estético precede o real progresso técnico e prepara a destruição potencial do fato da vida humana. Qualquer semelhança com a pandemia não é mera coincidência.

Mas se tal raciocínio sobre o progresso como mito conduziu vários contemporâneos nossos ao reacionarismo que vimos brotar na última década brasileira, ele conduziu o poeta justamente à constatação do fim dos anseios modernos, não à sua conservação ou, pior, regressão política. Qualquer projeto moderno hoje (da “democracia” à “individualidade” ou à “autonomia”) é uma gigantesca “work in progress” que nos mantém programados e engajados em metas impossíveis, mas que simulam desejos divinos na criação humana: “mas… o que seria, / então, / a soma dos objetivos, / que nos mantém / vivos / … no engajamento… programado, / compulsório, / … a um work in progress permanentemente / … provisório? // Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito… coisas dignas de Dali: / que Deus teria feito o homem do barro, / como o oleiro faz o jarro / …e a vida, / em nós, / teria sido inserida – por uma das generosidades divinas – através do sopro nas …narinas, / ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado, // […]” (p. 26-7). Aqui o poeta enuncia com todas as letras o progresso e o destino humano como mitos, a exemplo de Prometeu buscando propósitos em se estar vivo. Disso, só teria restado um discurso religioso laicizado na forma de um progresso histórico que nos legou a bomba atômica, o controle tecnológico e a catástrofe ambiental.

Paro por aqui, e sem concluir, pois que comento apenas o quinto dos “seis tratados poético-filosóficos” de W. J. Solha. Se 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite é de 2021, falta o sexto e último livro a completar a série e apontar para algum fim. O próprio pensamento do poema não se conclui, pois o texto se fecha como começou, “ab ovo”, cobra mordendo o próprio rabo e girando em falso pela história como poesia, história cujo impasse hoje percebemos com clareza cristalina diante de nós. Pedimos apenas ao poeta que o fim da série chegue antes do fim do mundo, já que o poema não tem fim.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma pequena-grande amostra da condição humana: o originalíssimo impacto do conto “A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço”, de Mário Baggio

Por W. J. Solha

 

 

O ancião que acaba de receber o Nobel de Literatura vai dar entrevista na TV, pelo que, antes, é encaminhado à maquiadora do canal. “Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, ´porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa´”.
Ponto pra ela: lembro-me – e o velho escritor também deve se lembrar – de que Nixon começou a perder a eleição pra Kennedy , em 60, pela pele oleosa, o descuido da aparência num debate em que teve de enfrentar o outro . Os que acompanharam a coisa pelo rádio acharam que ele fora o melhor. O outro foi eleito pelos que viram o confronto pela TV.

Bem.

Colocados Nobel e maquiadora em cena, Mário Baggio dá um show no diálogo.

– Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?

– Perdão?

Você, como eu, vê surpresa e ironia na resposta à pergunta infame. Mas é apenas um problema de audição do gênio. Ela capricha na dicção:

– Qual será o tema da entrevista?

– Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho – e sorri, embaraçado.

– O senhor vai vender bastante, esse programa tem muita audiência.

Quando ela quer saber quantas obras ele já publicara, ele, pra simplificar a coisa, diz “muitos”.

– Mais de quatro? Mas então o senhor é profissional. Como se chama?

– Alberto – gagueja – Gerber;

– Gerber, Gerber. Acho que já ouvi falar.

O conto já nasce curta-metragem. Um bom ator maduro e uma grande atriz ainda jovem matariam o público de rir, a princípio, de emoção, em seguida. Principalmente porque tudo é extremamente real, convincente. José Saramago soube que ganhara o Nobel por uma TV de aeroporto. Olhou em volta: ninguém – fora ele – prestara atenção na notícia.

– Agora um pouco de blush – diz a maquiadora -. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade.

Ela é uma figura antológica.

Mas vamos ao final, que só conto por que é um dos 63 do volume e já está no título. Como já vira até degola de crianças, nos outros, eu esperava, qualquer um esperaria algo na mesma linha – mas Mário Baggio mereceria estar no lugar do Alberto Gerber, por ele.

– Agora vou maquiar um pouquinho as mãos. Pode arregaçar as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.

– Ah, sim, claro – o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.

– Ah, olha só. O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?

– É só um número… – o escritor responde, com um fio de voz.

Baggio resume toda a tensão do Nobel com aquele “tem as mãos trêmulas” ao arregaçar as mangas e, agora, ante a total desinformação da moça a respeito de uma enorme tragédia humana, ainda com sobreviventes: “É só um número… – responde, com um fio de voz.”

Depois do punhal enfiado, o contista revira-o no peito do leitor e do personagem:

– Um número. Que original! Eu também tenho uma tatuagem, pequenininha, no ombro – afasta a alça do sutiã e mostra a ele.

Batido o prego, o reviramento da ponta:

– Se eu fosse o senhor, faria uma igual, no braço esquerdo, pra ficar simétrico.

 

W. J. Solha nasceu em 1941. Escreveu romances e poemas longos premiados nacionalmente, trabalhou em filmes como O som ao Redor, pintou cento e tantos quadros, montou peças de sua autoria, foi parceiro de grandes compositores, continua na ativa.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Os Trezentos curtas de Wilson Guerreiro

Por W. J. Solha

 

Comemorando seus 70 anos de idade com estes haicais de Grãos de Esperança – 300 haikais guilhermianos, que acaba de sair pela editora Chiado, de Portugal, ele me lembra que em 2011, seis integrantes do grupo COMPOMUS, da UFPB, criaram – em comemoração dos meus mesmos 70 – a Cantata Bruta,  a partir de curtíssimos contos meus sobre a violência contemporânea.

Estou me exibindo?

Não.

É que, nesse concerto, um trecho particularmente me deslumbrou. De quem, caramba?!

– Wilson Guerreiro!

Estes haicais foram, pra mim, nova surpresa. Daí que parti pra Wikipédia, para saber, afinal, “com quem estava lidando”! E… meu deus!

Wilson Guerreiro nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1945. Em 1959, mudou-se com a família pra Campinas-SP, e em 66 ingressou no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, como Engenheiro de Eletrônica. Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da UFPB, Campina Grande (1973), Master of Science (M.Sc.) em Eletrônica pela University of Southampton, Inglaterra (1975), e Ph.D. em Eletrônica por essa universidade (1979), atuou como professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPB no período 1971-1999,

E o que tem isso a ver com haicais? Calma. Prossigo de Wikipédia:

Teve sólida formação musical em cursos de composição, harmonia e instrumentos, tendo estudado com renomados professores, entre os quais Eli-Eri Moura, Marco César de Oliveira Brito e Liduino Pitombeira. Sua produção inclui peças para diversas formações camerísticas, orquestra sinfônica e trilhas sonoras para teatro e vídeo. Recebeu o Prêmio de Melhor Música no VI Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, Espírito Santo (2005), e no XIII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará (2006), pela trilha sonora, composta em parceria com Marcílio Onofre e Samuel Correia, do monólogo gogoliano Diário de um Louco, dirigido por Jorge Bweres e André Morais.

Wilson Guerreiro se descreve no haicai 282, desta edição:

Vivo sem conflito,
na calma, mas a minh’alma
busca sempre o agito.

Genial!

E vamos aos haicais. Guerreiro assume, no subtítulo de seu livro, que os seus são guilhermianos. Como Guilherme de Almeida (poeta paulista, 1890-1969), estabeleceu para si tercetos de 5, 7 e 5 sílabas, rimas do primeiro com o terceiro verso, o segundo com rimas internas na segunda e sétima sílabas. Também assimilou o espírito guilhermiano da coisa:

Haicai é um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas pura emoção colhida ao voo furtivo das estações, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno.

 Sobre essa base… técnica surge o estilo Guerreiro, cuja primeira característica é a preocupação social. E outra: paixão pelo sertão nordestino brasileiro, patético e, muito mais: estético. Tanto, que as grandes obras de arte do país são todas dessa região ou sobre ela: Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, bem como os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e novamente Vidas Secas, agora de Nelson Pereira dos Santos. Destaque para A Pedra do Reino, do Ariano, e Dom Sertão, Dona Seca, de Otávio Sitônio Pinto. A Portinari essa área rendeu a impactante série de quadros Flagelados ou Retirantes. Ao poeta João Cabral de Melo Neto, deu Morte e Vida Severina, grande poema tornado popular pela música de Chico Buarque. E bombou na Globo, a novela Velho Chico. Mas eu falei de duas características marcantes destes haicais. Uma terceira: rigor. Músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba, Guerreiro – metaforicamente – confessa:

Sustento meus filhos
com canto. A viola, portanto,
deve andar nos trilhos.

Quarta: no espaço tão exíguo do férreo terceto de cinco-sete-cinco sílabas, próprio pra poucas imagens, ele às vezes nos entrega uma bela natureza-morta:

À mesa, moqueca
com coco e pimenta, e um pouco
de chá na caneca.

Mais fotógrafo que pintor – pelo rápido clique – colhe cenas da caatinga, a selva selvaggia de exclusividade brasileira, aspra e forte, como nesta série de cinco haicais, que tiro da ordem, numa atrevida “montagem”:

Sertão. Descampado
sem sombra. A todos assombra
a morte do gado.

No pequeno aterro,
exposto ao tempo, ali posto
já morto, um bezerro.

Sofrida imburana
insiste, mas não resiste
à seca tirana.

No bruto sertão,
carcaças e mais carcaças
dispersas no chão.

Nunca se viu tanta
carência. Uma consequência:
o nó na garganta.

Veja a força disto:

No rosto, a dor muda
de quem tem sede e também
passa fome aguda.

E isto, que nos espanta pelo último verso:

Lar de massapê:
janela, porta, cancela,
antena e tevê.

Claro, nem tudo é trágico. Ou, bem: é, mas – se não desconcertante – deslumbrante:

Solitária flor,
num sulco do solo inculto,
em pleno esplendor.

Guerreiro, porém, supera o fotograma e ousa, quase sempre, um breve… cinema.

A mãe chama o filho
à mesa posta. Surpresa:
só cuscuz de milho.

Põe movimento até para o que não o tem:

Os dedos aflitos
dos galhos de alguns carvalhos
buscam o infinito.

O que tem a ver com outro espetáculo triste que se vê em todo o Brasil:

Entre as grades de aço,
mil mãos suplicam em vão
por mais ar e espaço.

Aqui, a curta ação é promovida por três verbos:

Maitaca chilreia,
quati treme. Sucuri
no chão serpenteia.

Como aqui:

Vento rodopia,
avança mais forte e alcança
frágil moradia.

Ou aqui, em que um dos verbos – queimar – implícito, é limitado pela expressão latina do segundo verso, e se solta, implicitamente, no terceiro.

Seca. Cai a tarde.
Um foco de fogo in loco,
e toda a mata arde.

Aqui, Guerreiro parte para quatro verbos, que são como claquetes no poema:

O sapo coaxa.
A cobra dá o bote e… sobra:
ao sapo não acha!

Take 1 – o sapo coaxa.
Take 2 – a cobra dá o bote.
Take 3: e… sobra.
Como?
Take 4: ao sapo não acha.

Esses… filmetes prosseguem num momento em que ele – abandonando o campo, já no final do livro – parte pro que vê nas cidades. “Estiremos” os haicais, e… cinematograficamente… montemo-los também:

O povo se atiça em becos, ruas, botecos: clama por justiça. // Nas ruas, na praça, país melhor, mais feliz, reivindica a massa.// O povão audaz protesta e se manifesta sob bombas de gás!// Um estampido alto e seco ecoa no beco. Corpo jaz no asfalto.// O Estado recua diante da voz vibrante do povo na rua.

– Atenção: Luz! Câmera! Ação!

Take 1: Árido sertão.O cacto floresce em pacto co’a essência do chão.
Take 2: Tragédia anunciada: grotesca seca, dantesca; gente em retirada.

Bem, isto é uma espécie de trailer. Cabe ao leitor, agora, puxar o freio de mão e, em câmera lenta, usufruir – de um a um – estes belos achados e centenas de outros. Guerreiro, ao contrário do sertão, é tão generoso quanto muito farto.

W.J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013. Em 2015, lançou “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” pela Editora Penalux.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Juca
Arte: Juca Oliveira

 

O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo.  Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!

Os Leveiros

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de diálogo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combustível para a criação, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.

Há uma avidez de mundo na obra de um alguém como W. J. Solha. Estamos diante de um autor que tem apetite por conexões quando a atenção se volta para a vida. Toda a sua trajetória está marcada por uma valiosa referência a outros campos do conhecimento, a uma desperta e explícita menção a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensações e observações diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.

Em meio ao que vislumbra da existência, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considerações, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a memória como um precioso guia de suas incursões criativas.  Tem uma vida dedicada não somente aos livros, mas também às artes plásticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memoráveis, como é o caso de livros como “Israel Rêmora” (Romance), “História Universal da Angústia” (Novela) e “Relato de Prócula” (Romance). Com “Trigal com Corvos”, enveredou-se na elaboração de poemas longos, o que se seguiu em “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” e, mais recentemente, “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No cinema, atuou em filmes como “Era Uma Vez Eu, Verônica” e “O Som ao Redor”, dentre outros.

Nascido no interior de São Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Paraíba por razões profissionais e lá foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, há reflexões pungentes sobre eixos não somente literários, mas também filosóficos. Uma conversa que evidencia o espírito invencível de um criador que, mesmo diante das intempéries tão próprias do seu ofício, resiste tanto pela manifestação explícita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Seu novo livro sugere uma verdadeira intersecção entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida é uma equação que não se resolve?

W. J. SOLHA – Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus “brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados”, dez dos quais você pode conferir aqui – , todos os romances, peças de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limitação imposta aos criadores dessas áreas, segundo a qual isso seria de domínio exclusivo da ciência e filosofia. Até o final do ano, por exemplo, estreia meu “Édipo no Terceiro Milênio”, em João Pessoa, em que coloco a tragédia original de Sófocles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equação que me parecia mal formulada. Sófocles, absolutamente genial, foi vítima de seu tempo, mas sinto que ele tentou superá-lo. Já em “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” discuto esse binômio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas/problemas. Expedito Ferraz Jr., no prefácio, diz que se trata de um conjunto de escritos de natureza híbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflexão que é, ao mesmo tempo, memória,estéticahistóriateologia. Fui feliz nisso, não fui? É o mesmo que me perguntar se é válida a fórmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo já com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente poético – e arriscado, lógico – fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual faço os autores do Novo Testamento “fecharem” o Livro – a Bíblia – até então em aberto, ao contrabalançarem o Gênesis com o respectivo e necessário Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade platônica, numa montagem cinematográfica. O curioso é que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.

DA – Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, você também comunga desse pensamento?

W. J. SOLHA – É tão estranho ouvir essa frase numa canção, que Lennon diz “I’ll say it again” (espertamente rimando com “our pain”) e a repete. Ao contrário dele, porém, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles.  “I just believe in me”,  ele afirma cartesianamente, e – freudianamente – se corrige: “Yoko and me”. Em meu primeiro romance – “Israel Rêmora” – faço meu protagonista dizer que “o Penso, logo existo, é de uma lógica extraordinária, mas deixa o resto fora de cogitação”. Quando, no título de meu novo livro, escrevo “DeuS”, inspirado na logo da revista Mother & Child, em que o “&” se insere no “o” de “mother” como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse núcleo acrescento “e outros quarenta PrOblEMAS”, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John  e Yoko, ao tempo em que assumo que esse “DeuS” (Não crês que Eu estou no Paie que o Pai está em mim? – Jo 14:20) é, também, PrOblEMA”. E se é problema, dor. Sua pergunta é mais profunda do que imaginei à primeira vista, Fabrício. Lennon realmente disse tudo. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” é um livro que tenta medir a minha – logo nossa – dor,  a partir dessa relação feto-e-útero, feto, no caso, que tenta ser dado à luz, livrando-se do provisório abrigo que, no caso evangélico, é  o deus tribal dos judeus;  no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero também absolutamente insatisfatório, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele não é cristão, porque – se fosse, mesmo -, estaria perdido.

 

DA – Não sabemos lidar com aquilo que nos transcende?   

W. J. SOLHA – De modo geral, não. Há um fascínio dominante pelo mágico. Porque ele deslumbra e é de fácil assimilação. Certa vez – há muitos anos – um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de “Eram os deuses astronautas?”, “O 12o. Planeta” e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Taí o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem são, o que são, de onde vieram e para onde vão, fazem como as crianças: ouvem os contos de fadas. O Alcorão é um, a Bíblia é outro, e há os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Difícil é convencer que a vida, por si só, com seus prazeres, sofrimentos e mistérios, já é o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Difícil é convencer que nenhuma religião tem coerência. Embora eu tenha ​- além do “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” – ​vários ​outros ​livros explicitamente abordando isso, como os romances “A Verdadeira Estória de Jesus” (Ática, 1979) e “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009)  ou o poema longo “Esse é o Homem” (Ideia, 2013), não discuto religião. Porque não adianta, por exemplo, lembrar aos que veneram São Jorge – patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Etiópia, além de, extraoficialmente, do Rio – que não existem dragões.

DA – É curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema é o da espiritualidade. O agravante aqui é que há uma espécie de institucionalização secular do olhar, cujos artefatos prediletos são a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito? 

W. J. SOLHA – Espantam-me as multidões – em que pesa à informação cada vez mais acessível – que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente é, na verdade, o Consciente, a vontade, frequentemente, é de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

 

DA – Em seu “Notas do subsolo”, Dostoiévski discorria sobre o que ele chamava de consciência exagerada (ou amplificada) versus a consciência do homem comum. Com certo tom sarcástico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda opção, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percepção das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como você pensa tal contraposição?

W. J. SOLHA – Certa vez, nos começos da informatização em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, Édson e Einstein, havia uma chamada curiosa: “O que eles têm que v. não tem?” O texto respondia: “Software. Enquanto você e a maioria contam apenas com hardware.” Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt – como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre – e me lembro de algum, meu.  Ou quando leio “el otro poema de los dones”, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoiévski só poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu não poderia querer ser como ele quando criou “Crime e Castigo” e, mais ainda, como Tolstói quando fez “Guerra e Paz”, ou Aristóteles ao escrever a “Poética” e a “Política”? Ou como Shakespeare, Virgílio, Homero, quando produziram “Hamlet”, “A Eneida” e “A Ilíada”? Deve ser uma delícia ter “uma excessiva percepção das sutilezas da vida”. Felizmente a informática – como na propaganda – vem se desenvolvendo e está dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informações que disponibiliza, facilitando-nos as associações de ideias. Mas continua sendo extraordinário ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ninguém antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. “Consciência amplificada”. É a maravilha humana em ação.

DA – DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um traço característico de sua obra, que é o de apresentar o mundo a partir de seu repertório pessoal, utilizando-se de referências artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Diga-se de passagem, é uma característica inconfundível de seus escritos. Quem é essa ferramenta chamada memória? Conseguimos driblar suas artimanhas?

W. J. SOLHA – Meus romances, poemas, libretos pra balé e ópera, peças de teatro, quadros, são, todos, PrOblEMAS, Fabrício, principalmente esse, o de nenhuma dessas áreas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um camponês abrutalhado em “A Canga”, ou um empresário com obscuras raízes de sua fortuna, em “O Som ao Redor”, o que me custou, sempre, esforço tão desesperado quanto o de uma sessão mediúnica, daí que tive de desistir dessa atividade ou – sem exagero – sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao “Era uma vez eu, Verônica”, que se eu participasse de um “Tropa de Elite”, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. “Quem é essa ferramenta chamada memória?”, você, me pergunta, curiosamente não dizendo “o que?”, mas “quem?” Claro que ela somos nós, pois sem sua presença – no Alzheimer, por exemplo – deixamos de existir, ficando de nós – tristemente, para os que nos cercam – algo como zumbis. “Conseguimos driblar suas artimanhas?”, você quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em “O Salário da Morte”, ou o tenente Maurício, em “Fogo Morto”. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de criação – descrito em meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos” -, que consiste, primeiramente, em formar um “banco de frases” elaboradas em intensas “leituras” de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebastião Salgado, ou de livros de Ciência ou Arte. A cada vinte, trinta páginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, já eliminando as descartáveis. Aí vou buscar combinações entre elas. É onde surgem – depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas – os meus versos. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, portanto, como “Esse é o Homem”, “Marco do Mundo” e “Trigal com Corvos”, não vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que não foi construída, mas escavada na rocha. Só aceito essas “artimanhas da memória” – como você as chamou – porque elas me dão livros que julgo maiores que eu.

DA – Logo no início do mais novo filme de Godard, “Adeus à linguagem”, há uma passagem que diz: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não pensamento contamina o pensamento”. O que dizer diante disso?

W. J. SOLHA – Isso já foi muito discutido em artes plásticas. De repente a Grécia clássica passou a perder de longe pra África, que compareceu com força no Demoiselles D´Avignon, quando Picasso tentava pôr a Teoria da Relatividade, então bastante recente e chocante, pra tela. Há um belo livro, Beyond Impressionism – The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, “o escândalo do impressionismo” já apagara um outro grande movimento artístico de sua mesma época, o naturalismo, que – influenciado pela literatura de Zola – usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injustiça social que havia (e há) por toda parte.  Em meu romance “Arkáditch”, transfiro pra meu protagonista Zé Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experiência que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolução de Mondrian e Kandinsky até o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Cristóbal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo – na moda em sua juventude – pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma síntese do trajeto do século XX, centúria vítima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegração nuclear, desintegração que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a fórmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devastação. Diante disso, parece-me que a realidade não seja um refúgio, um não pensamento. Van Eyck e Velásquez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa questão me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sertão da Paraíba, onde eu era o subgerente da agência do BB, recebi pelo ônibus que vinha de João Pessoa (pois a cidade não tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fascículos de Gênios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios à minúcia de sua reprodução da realidade, seguindo-se a isso o segundo fascículo, com iguais elogios às breves e densas pinceladas com que Cézanne “reproduzira” suas frutas. “Como pode?” Acabei por formular uma teoria a respeito: o gênio está em se sair com brilho de um problema estético, qualquer que seja. As realíssimas naturezas-mortas holandesas do século XVII – que chegaram ao trompe l´oeil – são tão fascinantes quanto as instalações de José Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes.  Daí que é tão bom ver um filme de Almodóvar ou Kleber Mendonça Filho, quanto um Godard. 

DA – Todo escritor é, no fundo, um exibicionista?

W. J. SOLHA – Se é, não sou escritor. O que busca exibição é sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer faço sessões de lançamentos, com autógrafos e tudo mais. Feiras literárias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. Há pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o prefácio para os haicais de Saulo Mendonça. Um de meus trabalhos publicados é “Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contemporâneos que eu gostaria de ter assinado”, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edição paga por mim, coisa que, aliás, vem acontecendo com tudo meu que está por aí, inclusive com este “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes – “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho – teve forte repercussão, meu trabalho idem, acimentado pelo prêmio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Brasília pelo “Era uma vez eu, Verônica” (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evidência semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, porém recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para séries de TV, todos recusados, porque resolvi não mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televisão local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em João Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: “Solha, você conseguiu, com 30 segundos de TV, o que não conseguiu com 30 anos de literatura.” Exibicionismo, portanto, não é um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.

 

DA – Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas operárias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espaço a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como você avalia esse panorama?

W. J. SOLHA – Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant´Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos”, elogiou-o imensamente, mas me avisou: “Você não vai encontrar editor pra ele”. E não encontrei. Banquei uma edição de 500 exemplares na Imprell – daqui de João Pessoa -, e os mandei – à minha custa – a quem os pediu. O mesmo se deu com “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” – ambos pela Ideia, também daqui, e, agora, o “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, pela Penalux, de São Paulo – este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama é que se fica sem a distribuição nacional que as grandes editoras – mesmo com má vontade – empreendem. O pior é que minha ficção já estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha “História Universal da Angústia” pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o prêmio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Arkáditch, foi-me dito que sua publicação apenas aconteceria quando a História cobrisse suas despesas. Aí ganhei o prêmio da Funarte de incentivo à literatura com o projeto do romance “Relato de Prócula”, mas a obra só saiu pela A Girafa porque paguei por isso.  E,  uma coisa triste: sempre, depois de cada prêmio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, “Israel Rêmora”, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna crítica, mas jamais conseguiu uma segunda edição. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com “A Batalha de Oliveiros”, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribuído. O mesmo se deu com “Shake-up”, lançado pela editora da UFPB. “Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia” saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A Ática me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de “A Verdadeira Estória de Jesus”, depois que eu fechara negócio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa também faliu, logo após o lançamento do “Relato de Prócula”. Daí que ontem – 15 de 10 de 2015, um número bonito – parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse “Chega”. Parei, Fabrício. Estou com 74 anos e isso torna a decisão definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.

W. J. Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Essa tendência maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?

W. J. SOLHA – Comecei a ler por influência de minha mãe, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos,  sem qualquer alívio de cozinheira, faxineira, babá, lavadeira  e ainda costurava calças para o escritório e macacões para os operários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. Não há equivalentes àquela dona Ermelinda entre meus leitores. Ô, mas nem ela me lia, por me achar muito difícil. Exclusividade minha? Não. Já no tempo de Cortázar se sabia que os escritores não eram mais os mesmos. Mas ele foi e é muito lido, como Guimarães Rosa e James Joyce. Logo, o problema não está em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.

DA – Foi a Paraíba quem lhe deu régua e compasso?

W. J. SOLHA – Especificamente Pombal, no alto sertão paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcionário da agência do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agrícola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolescência. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte à noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossuficiência, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas calçadas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes clássicos – gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse período, tudo com livro emprestado, pois na cidade não havia nem livraria nem banca de jornais. Isso também aconteceu com os colegas do banco. Por influência do escritor José Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influência de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira peça de teatro e trabalhei nela como ator. Com José Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, lá na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de ficção, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo documentário “Aruanda”. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Zé Bezerra, já em João Pessoa, escreveu e dirigiu a peça “O Mundo Louco do Poeta Zé Limeira”, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de criação sem fronteiras, que acabou sendo também minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e artística muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, só com retratos de página inteira de grandes nomes da Paraíba, como Assis Chateaubriand – fundador do MASP e dos Diários Associados -, José Américo de Almeida – fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Américo – o do Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Zé Lins do Rego, etc, etc, além de Marcélia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme “A Hora da Estrela”, o maestro José Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irmãos cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Zé Ramalho, Sivuca e Chico César – a lista não tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Paraíba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio, agora, sendo um dos convidados,  o terceiro mais votado pela comissão, na hora de decidir quem receberia os contratos para  apresentação de obras inéditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincidência, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narração de um documentário sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.

DA – Enquanto atividade, ainda há espaço para o Cinema e as Artes Plásticas na sua vida?

W. J. SOLHA – No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que está grande, mas na primeira tentativa já deu pra ver que não tinha cabeça, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de saturação, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansaço e fui dormir, isso às 10 da manhã. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel “Homenagem a Shakespeare”, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que não foi isso. É que não estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terrível. Quando você pinta, as palavras somem, você pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Você funciona… noutro  canal. E isso, caramba, dói. Quanto ao cinema, eu já decidira parar quando fui convidado para “O Som ao Redor”. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. Aí fui fazer o “Era uma vez eu, Verônica”, levado pela empolgação de trabalhar com o Marcelo Gomes. Aí emendei com dois curtas paraibanos… e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar só uns seis meses depois, quando já decidira parar com o cinema. Não só por não ter estrutura para ser alguém diferente de mim, sem me arrebentar. Também pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Brasília, São Paulo, Salvador e até Montevidéu. Sou sedentário – daí a literatura, a pintura. Quem sabe eu não encontre algo novo, um dia destes?

DA – O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?

W. J. SOLHA – Ao resenhar o último livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presença, nele, do que ele foi, menino, lembrei o início do “El sentimiento de no estar del todo”, de Cortázar:  

Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo. 

Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial – “Epopeia”, da Ebal – deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha mãe me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois números atrasados – como “O Correio do Czar”, ou “Aquila Maris”, cito dois deles – que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os últimos dez anos como funcionário do Banco do Brasil sem almoçar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que não encontrava nisso. Daí meu primeiro romance, “Israel Rêmora” (Record, 1975) ser tão autobiográfico, como também foram “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) e “Arkáditch” (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo – “Trigal com corvos” (Imprell, 2004). Foi o velho “Conhece-te e conhecerás os deuses e o universo” funcionando. Mas Hamlet, Édipo e Cristo me tiraram – personagens enormes – desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, fascinado pela descoberta de que “A Bagaceira” do José Américo de Almeida – que rompia com a influência da literatura inglesa no Brasil – era uma adaptação do Hamlet, o próprio romancista vivendo, dois anos depois de lançar seu famoso romance, o papel do príncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um palácio, o da Redenção, na capital paraibana. Já em 1979 eu lançara “A Verdadeira Estória de Jesus”, pela Ática. E até o final do ano deverá estrear, aqui em João Pessoa, meu “Édipo no Terceiro Milênio”, direção de Jorge Bweres. Conheço, inclusive, meus limites. Meu último livro começa com estes versos: “Gênio não tenho. / Me empenho”. Isso sou eu.

 

 

Paixão Judaica
Paixão Judaica (Acrílica sobre tela 80 x 100 cm) / Pintura: W. J. Solha

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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Aperitivo da Palavra

TETELESTAI -sobre GLACIAL, o novo livro de Jorge Elias Neto

Por W. J. Solha

 

Glacial

 

Como diz T.S.Eliot, no meu começo está meu fim e em meu fim está meu começo, daí otítulo acima, que encontrei encerrando a obra em pauta, como se o volume editado pela Patuá fosse resultado de muito sofrimento:

Tetelestai *

João, 19:30,

………*Está consumado!

Descobri, ali, o fio da meada: a fé e sua perda estás empre ostensiva ou dissimuladamente presente em todo o GLACIAL. O poema “Paisagem”, por exemplo, tem como epígrafe trecho de um poema de Luís García Montero:

Cada tiempo de dudas
Necesitaunpaisaje

O céu se fecha.
Nuvens se entrelaçam
― íntimas .
Onde encontrar
um caminho sem cruzes?

Vê a montagem?:“Cada tempo de dúvidas”, “O céu se fecha”. E, com “Nuvens se entrelaçam – íntimas”, percebe-se que há no estilo de Jorge Elias uma certa combinação de palavras à maneira de Lorca: Árbol de Sangre, la tristeza sinojos, méduladel alma, Verde viento, silencios de goma oscura,  rosa de lacircuncisión, etc. O surrealismo – movimento a que o espanhol pertenceu – foi fortemente influenciado pelas teorias de Freud, enfatizando a função do inconsciente na atividade criativa. Justamente como uma reação a uma arte que estava destruída – olha a pedra no sapato do poeta capixaba – pelo racionalismo. O tom, aqui bem leonardesco – todo non finito e sfumato – se torna mais poético, fala mais.

“Onde encontrar/ um caminho sem cruzes?”

O trágico é que o poeta sabe, todos sabemos, que isso não existe. Passei minha mui distante infância ouvindo Orlando Silva cantar:

Sou um covarde e bem sei
que o direito é levar
a cruz até o fim,
mas não posso,
é pesada demais
para mim.

Há um poema de GLACIAL,“Rês”, em que Jorge Elias assume o papel da vítima, já que o dito uso da razão lhe é doloroso, uma cruz. Como se tivesse nascido em local demarcado pela estrela de Belém, diz:

Eis o meteoro /da impaciência / que destrincha a carne,/que fratura/o tempo e/me descobre/tenro,/palatável,/em meio/aos estilhaços/da urgência.

“Tenro” e “palatável”, porque está pra virar hóstia na própria Ceia. Por que, se perdeu a fé? Justamente porque resfriado nas /evidências da razão / – que não basta.

A razão não lhe basta. E ele diz em “Reinício” – entre mensagens cifradas:persigo sua imagem,/ Deus dos homens. Daí que ficamos com um poeta… relutantemente… místico, feito um Eliot, William Blake, um San Juan de la Cruz … “gauche”, como que por ordem do mesmo “anjo torto” de Drummond. No poema ‘Cronópio”, inclusive, ele se diz – contrariando Cristo – serfiel depositário de um torrão de açúcar, mas termina concluindo que Caronte – o barqueiro o inferno – aguarda o sal da terra. E aí, curiosamente, entramos no clima que justifica o título do livro:

O inverno é longo,
o bastante
para que a neve
reaja a esses
rudimentos de liberdade
extinta.

Que inverno? Suponho que seja o “inverno do nosso descontentamento”(the winter of our discontent, conforme diz Ricardo III na peça homônima de Shakespeare ). Seguem-se poemas que falam em desandada tristeza, desespero (“Simetria do Caos”), condenação de loucura (“Assim & Assado”) e, doutoralmente, concluo que – parece-me – nosso Doutor Jorge Elias Neto já sofreu muito, viu sofrer… e talvez tenha feito sofrer muita gente…

– Havia uma alternativa / em alguma gaveta / queimada para não morrer /de frio.// Uma aspirina /entre duas torturas.

Ele diz, no poema “Matilha”:

Nomeados
os lobos,
desembainhei os caninos
………..– incógnitos –
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.

A vida, já dizia Voltaire – maniqueísta – quando não é complicação é “Tédio” – título, por sinal, de outro poema tenso, onde O nada /é um cansaço/que dá sono.

E eis aí outra forma do branco eterno, de GLACIAL: o nada. Jorge Elias fala, em “Fração do indizível”, numa …biografia/ de renúncias /e equívocos.Fala de solidão: Minha distância / não é exercício de retórica,/ apontamento /de um ególatra.

Mas por que é tão racional?

Não me cabe
o sedentarismo da crença,
o fervor
no púlpito.

Não me envaidece,
não me encoraja
(…) escovar os pelos
que agasalharam
erros.

Isso faz dele um dos “desterrados Filhos de Eva” – como diz a antiga oração –“gemendo e chorando neste vale de lágrimas”

Amanhecer

É setembro.
escorrem
as primeiras lágrimas
das montanhas dos Andes,

Veja – no final do poema “Sobre anjos e blasfêmias” – o Gênesis numa versão conto de fadas:

Só que um toque atrevido,
por delicado que seja,
faz desabar o enigma
(Chamam a isso: pecado.)

Enigma = pecado. Isso nos leva à velha estória:

E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás;

Há uma culpa – máxima culpa, talvez- em jogo. E Jorge Elias diz, em Portal dos anjos:

Anjos …
Dou-lhes de presente
minha sanidade.
Sei o que me custará
rolar a cabeça no acaso …

Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.
Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.

Anjos …
Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.

“Esvaem-se da cabeceira / da cama do menino”. Ah, caramba, eu mesmo tinha, em minha… cabeceira de menino…, um quadro em que um belo anjo da guarda acompanhava um casal de garotos atravessando uma decrépita ponte de madeira sobre o abismo, numa tempestade!

Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.

Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.

Ele sente isso. E o que faz?

Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o patibulum e a culpa.

O que tem o apóstolo da epístola com isso? Creio que Lacan tem parte na estória. Em 1960, em seu Seminário sobre a Ética da Psicanálise,

retoma textos antigos, como a Epístola aos Romanos, de São Paulo, “tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, transgredindo a lei”(…) “porque pelas obras da lei não será justificado nenhum homem diante dele. Porque, pela lei, vem o conhecimento do pecado”.

Aí está, novamente, o pecado, o enigma que faz o poeta se sentir perdido no

gelo intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.

Adam Smith disse em A Riqueza das Nações, 1776:

…não é da benevolência do padeiro, açougueiro ou cervejeiro que se pode esperar o jantar, e sim do empenho deles pelo que irão… lucrar.   

Luis Büchner,em O Homem Segundo a Ciência, 1869, sobre o comunismo:

– Todas as tentativas do gênero têm falhado vergonhosamente e afirma-se que, por causa da fraqueza, da insuficiência da natureza humana, falharão sempre.

Insuficiência. Em GLACIAL, de Jorge Elias Neto, há um poema chamado “Insignificância”, em que ele fala:

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

Insignificância, é o título do poema. Insuficiência, diz o também médico Büchner. E veja isto, em “O Arco e a Lira”, de Octavio Paz:

– A necessidade de expiar, como a não menos imperiosa da redenção, brotam de uma falta; não no sentido moral da palavra, mas em sua acepção literal: somos pouco ou nada diante do ser que é tudo. Nossa falta não é moral: é insuficiência original. O pecado é ser pouco.

Temos aí, portanto, uma bela correção ao Gênesis, que tem a ver com a “insignificância” de Büchner e Jorge Elias.

Veja, mais uma vez, o começo do mundo, no primeiro poema de GLACIAL:

Compondo o sitio arqueológico

A vastidão
é uma pedra
redonda e fria.
Grande esfera
onde deslizam
e desabam as criaturas.
O horizonte ‒ gelo
intransponível.
Daí esse tatear – essa procura.
A obscura arqueologia de esconder-se.

E, no silêncio,
no cu
desse branco profundo,

aguarda,
e se expande,
e fulgura,
o jardim das epifanias.

Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo. E com a última estrofe, Jorge Elias cria, de cara, um choque estético. Mas, curiosamente, no poema “Insignificância”, repete a cena com outro palavreado:

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

O que faz o Inconsciente! Substitui no cu / desse branco profundo, pelo Self do poeta, ponto / sujo no útero / da neve.

A faca yanagui
despregou da glande
a gota de sêmen.

Resgatou da solidão
o vicio cuspido.

“Solidão”, “Vício”, “faca” – é difícil não pensar em “vício solitário” – masturbação, como também em castração. Mas estamos… dissecando um poeta, e – segundo seu colega Paul Valéry – A meditação é um vício solitário que cava no aborrecimento um buraco negro que a tolice vem preencher.

“Tolice”? Ou… “epifanias”? Ficamos pasmos, sempre, com o inter-relacionamento de tudo que é humano. Voltemos aos poemas: eles falam em “gélidos desfiladeiros ladeando avenidas”, “enormes geleiras que sentenciam à morte os que ignoram a cronologia do desespero”, “cristais, cristais e mais cristais desabam e lancetam a alvura”, um caos, enfim. E aí lemos:

No caos, chupando manga

O poeta se debruça no caos
chupando manga
e a Lei suprema
se mistura

         — indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.

Daqui do Nordeste, de onde escrevo esta resenha, saiu a avó de Jorge Elias, a quem ele passava horas ouvindo cantar e recitar cordéis, como ele diz numa entrevista a Hilton Valeriano. Pois bem: “cão chupando manga”, aqui, significa alguém muito especial no que faz. “Ariano Suassuna? É o cão chupando manga!”“No caos, chupando manga”, portanto, é uma volta por cima, num hábil jogo de palavras. Porque se trata do desprezo pela fonte de seu tormento:

e a Lei suprema
se mistura

         — indissoluta —
às fimbrias que teimam
em persistir
agarradas
entre os dentes.

E tudo termina como se houvesse, por fim, um acomodamento. O poeta está produzindo… e basta. Será?

Inércia

(…)

O gelo conservou os corpos.
Os gestos
 ….— consumidos pelo desespero —
permaneceram.

Mas nem Baudelaire, Poe, Augusto dos Anjos… ou Jorge Elias – como todos nós – permanecem o tempo todo “pra baixo”. O que os faz, o que nos faz assim? A vida. C´estlavie. E isto é um belo poema:

Um resto de sol no desalento

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir do descomunal
segredo da vida …

Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.

Eis a última pele ― a palavra ―
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013.

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82ª Leva - 08/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Esse é o homem: um tratado do homem – rente ao chão

Por Jorge Elias Neto              

 

 

Comecei a ler o livro Esse é o Homem – TRACTATUS POÉTICO-PHILOSOPHICUS do poeta WJ Solha, pensando: uma trilogia de poemas longos é algo de difícil concepção. Se um compositor acaba se repetindo, tornando-se previsível e monótono, fazendo com que nos lembremos mais de suas primeiras músicas em detrimento das mais recentes, como poderá um poeta não resvalar nesse mesmo sortilégio da criação?

E isso não é bom, pois estabeleceu uma prioridade: a busca das semelhanças. De início, observei as rimas que se repetiam e fiquei desconfortável. Lembrei-me de quando conversamos sobre meu poema Ode à bandeira, e Solha criticou o fato de eu ter rimado Solha com poalha como se a palavra somente estivesse ali para rimar. Casa de ferreiro espeto de pau?

Não satisfeito, interrompi a leitura.

Por ser livro para mergulho de apneia (já havia constatado isso em seus livros anteriores), busquei um recanto e reiniciei o livro.

E inicia-se o livro com a criação das palavras, a corporificação e socialização do objeto; e tudo se inicia pelo fluido, o mesmo fluido que, ao longo das 98 páginas do poema, nos levará e nos percorrerá e persistirá com a nossa partida.

Todas as interjeições já foram ditas e não se incorporam ao poema.

Depois veio o osso que virou arma, a dualidade bem e mal a nos olhar, o nosso olhar (olhar humano – demasiadamente humano), desde os primórdios de nossa existência. Vejo a odisseia de 2001 viva, estabelecendo quem é o verdadeiro Homem, sem firulas e dissimulações. E diz-nos o poeta que existe a arte, e existe a guerra, e existe uma retroalimentação, um feedback positivo renegado, mas legítimo.

E vão surgindo os nomes, cada vez mais complexos (na criação e multiplicidade de usos, finalidades estéticas e atrozes). E aí – repetindo o poeta – a suprema criação da consciência humana: surgem os deuses com os quais não se lida com conforto, os quais são temidos, pois trazem a morte.

E, ao longo do poema, o homem se desencontra, se repete, cria, procria, nomeia bem e mal, traduz toscamente imbuído da tonta ideia da literalidade. E faz a arte, cria a metáfora e dribla a realidade numa tentativa de destrinchar a vida. E é bom e é mau.

Vou esquecendo as rimas, mergulhando em tudo de história que me traz o poema. E, como leitor, estabelecendo as conexões (está aí um bom poema para manter ocupadas as sinapses cerebrais) necessárias para ver no homem de Solha, o mesmo que vejo com meus olhos miúdos. Vou entendendo que as palavras e as rimas contidas no poema não existem apenas para manter uma musicalidade: elas são um mote, um sinalizador de percurso do homem Solheano. E esse homem, após nomear a natureza, nomeia suas crias, suas buscas, achados e desespero.

De uma forma sutil, um certo menino nos conta histórias breves que cruzaram com seu olhar. E é do olhar do poeta que falo, aquele olhar envolto pelas circunstâncias. Aquele olhar da consciência de um poeta que representa em seus poemas o Universo e o Homem. Pois o olhar do poeta é mais que antena, o olhar do verdadeiro poeta, parafraseando o grande poeta baiano Ildásio Tavares, tem a humildade de se reconhecer homem e nos dizer estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte. Eis aí o homem e o poeta.

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

O Som ao redor. Brasil. 2012.

 

Em que ponto de nossas existências é possível atravessar as situações sem que nelas deixemos vestígios? Como entender a nossa quase incapacidade de ouvirmos genuinamente a nós mesmos? Certamente, são indagações por demais complexas que atendem tanto a demandas externas quanto as que derivam dum processo consciente. O exercício da individualidade frequentemente encontra obstáculos, sobretudo quando o horizonte a ser vislumbrado reflete intervenções paralelas e, ao mesmo tempo, alheias à nossa vontade.

Tal sensação parece também costurar a narrativa de um filme como O Som ao redor. Com um olhar sobre a rotina de um bairro de classe média de Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho expõe muito mais do que uma mera sucessão dos dias na vida de seus moradores, fazendo-nos perceber o quanto estamos imersos num fluxo de eventos paralelos com os quais dialogamos impensadamente.  Aos poucos, uma infinidade de sons, que normalmente são pano de fundo da realidade acostumada, aparecem propositalmente evidenciados. Barulhos de construção, de carros, pessoas a gritar, latidos de cachorro, ruídos de eletrodomésticos, dentre outros tantos, configuram uma sinfonia que mais caminha para a dispersão do que qualquer outra coisa.

A incapacidade humana e urbana de concentração, dada a variedade de coisas que nos abraçam incessantemente, aparece elevada à enésima potência. E isso tanto pode estar no plano meramente sonoro como também na forma como interagimos com o outro. Daí, também, pensarmos na questão da alteridade dentro de um mosaico de cenários que permeiam o cotidiano de quem quer que seja.

São muitos os objetos de interferência que passam despercebidos com frequência, banalizados que estão pela força da repetição. Com notória habilidade, o filme pinça os recortes da rotina sem insinuar vanguardismos estéticos. Basta amplificarmos a orquestração dos sons que estão no mundo para percebermos que, involuntariamente, dialogamos com o externo, o alheio. Ao mesmo tempo, o crescimento desordenado da grande cidade deixa claro que a grande presa do progresso continua sendo o próprio homem, na medida em que amarra, em nós bem cegos, a possibilidade de achar-se livre de fato.

Mesmo se tratando de um cenário ambientado em Recife, mais precisamente no bairro onde o diretor mora, o filme abarca sentimentos e características bem peculiares a qualquer cidade do país e quiçá do mundo. A valorização de uma cultura local com seus usos e costumes não aponta para um cinema que mira o próprio umbigo. Ao passo que expõe os efeitos descontrolados da urbanidade, é capaz de redimensionar seu foco para uma gama de assuntos comuns a um país de proporções continentais como o nosso.

Cena de O Som ao redor / Foto: Divulgação

O patriarca Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha, é algo contundente quando assinala uma transição de uma sociedade originalmente agrária e que agora demarca seus territórios em pleno panorama desordenado duma metrópole em crescimento. O latifúndio aqui é o do concreto, principalmente porque, em meio a um mercado imobiliário predatório, Francisco detém uma quantidade significativa dos imóveis do bairro em questão. Mesmo assim, as memórias flutuam na trajetória desse personagem, sobretudo quando as lembranças apontam para um ambiente rural que não mais existe em sua magnitude histórica. A passagem dos engenhos para a selva de pedra pernambucana também não apaga a manutenção das relações de poder. Assim, patrões e empregados continuam protagonizando uma secular dissonância de expectativas e desejos.

O contrário de O som ao redor é o silêncio. E este, se pensarmos numa perspectiva de provocação, pode gerar mais incômodos do que supomos, principalmente se levarmos em conta a ausência do alheio e, por conseguinte, a duríssima condição de nos encerrarmos em nós mesmos. Nesse sentido, quem resistiria à presença teimosa de um silêncio pleno, cujos embates propostos fossem apenas os da consciência? Mesmo não tendo a onisciência precisa de tudo o que nos rodeia, é possível imaginar que a inexistência absoluta dos sons externos produziria, por si só, um efeito capaz de dimensionar o quanto somos curiosamente dependentes da tresloucada sinfonia de uma rotina urbana.

Recife é algo recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho, cineasta cujas marcas apontam para um cinema autoral e orgânico. Ao mesmo tempo em que critica o tecido sócio-econômico que atravessa a cidade, o diretor também deixa entrever a sua paixão por ela. Isso acontece em Recife Frio, por exemplo, filme que, ao submeter a capital pernambucana a um inexplicável e incessante inverno, acaba pondo em xeque toda a forma de pensar de uma sociedade, notadamente gerando reflexos do ponto de vista comportamental.

A quem verdadeiramente interessaria um cinema que se volta para o exercício do senso crítico e dum olhar mais aprofundado da realidade? Parece uma indagação pertinente se considerarmos que, mesmo tendo sido exibido e aclamado em diversos festivais dentro e fora do país, O Som ao redor ficou restrito a parcas salas de exibição no contexto nacional.

Mesmo engendrando discussões complexas, a obra não enaltece posições ideológicas inflamadas. Aos poucos, envolvidos que estamos por ruídos de toda ordem, somos tomados pelo reconhecimento de coisas que, estranhamente e pela via cíclica, são íntimas de todos nós. Se, como diz Chico Buarque numa de suas canções, a dor da gente não sai no jornal, imaginemos só como o turbilhão do cotidiano por vezes aniquila toda e qualquer tentativa de dar sobrevida à pessoalidade. O tempo dirá se soubemos resistir.

 

 

 

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Mercedes Lorenzo

Erguer uma nova edição é, de certa forma, deixar-se conduzir pelos imperativos de um fluxo especial de comunicações. Nessa perspectiva, dois pólos mostram-se intimamente relacionados: a manifestação espontânea dos criadores, através do interesse em terem suas obras apreciadas e, do outro lado, a busca própria da revista pelo conjunto de expressões que melhor se identifiquem com sua linha de publicações. Desse equilíbrio de ações, surgem descobertas significativas as quais reforçam o valor dos encontros, aspecto tido como essencial em nossa jornada editorial. Não haveria sentido em tocar o projeto adiante se, diante de tais convergências, não fosse possível estabelecer uma conexão de linguagens múltiplas e consistentes. Mais do que uma proposta supostamente ordenada de resultados criativos, estamos sempre à procura de epifanias que permitam a transgressão. E transgredir sugere um algo muito além de uma mera quebra de barreiras. Aponta também para a capacidade que uma determinada obra possui de deslocar nossas leituras de mundo para lugares desabitados de obviedade e inércia. Basta observar detidamente a verve poética de gente como Carla Diacov, João Filho e Carolina Caetano para percebermos que o “modus operandi” da criação reflete um teor singular. Contribuem também para o ambiente onde os versos denotam um cuidado valioso com forma e conteúdo as manifestações de Diego Tardivo e Silvério Duque. No campo das imagens, as fotografias de Mercedes Lorenzo retiram da matéria cotidiana os vestígios deixados pelas complexas andanças humanas. Há substância, entrega e domínio textual que roubam a cena na prosa de Alice Fergo e Yara Camillo.  Na Pequena Sabatina ao Artista, o poeta e editor Floriano Martins estabelece um diálogo musical vigoroso com o cantor e compositor Graco Braz Peixoto. Em sua resenha sobre o filme argentino “Elefante Branco”, Larissa Mendes pontua o denso apelo social presente na obra. W. J. Solha nos propõe um percurso pelos ensaios e poemas dispersos em “Psi, a penúltima”, livro de Soares Feitosa. Outro valioso convite à leitura nos é apresentado pelo escritor Geraldo Lima, quando discorre sobre o novo rebento literário de Vera Helena Rossi. O dramaturgo Paulo Afonso de Souza Castro expõe reflexões e perspectivas em torno do teatro. Em nosso gramofone, giram as canções do segundo disco de Tulipa Ruiz. Eis uma nova Leva, caro leitor, coberta de signos e outras tantas vias por descortinar.  


Os Leveiros