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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Wellington Amâncio da Silva

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre as penas, samambaias

 

“[...] a maldade dos homens não teve outra origem senão nas suas 
calamidades.”.  
Giacomo Leopardi

“Você testemunha injustiça, mas segue adiante em silêncio. 
Que falta de sorte a sua, nesta noite estrelada, 
presenciar certas coisas e agora ser culpado de passividade.”.  
Neguinho Dantas

“Eu quando saio/Pelo mar afora/Faço de conta/Que já vou embora...”. 
Antônio Marcos, Gaivotas


“Filho da pólis [1], como é fruto das tuas ausências a comichão da procura. O tédio é uma dor aveludada. Por isso, não se foi ainda o que havia de brutal no homem primevo (nos sufoca, nos toma em demasia e nos leva às obscuridades) — essa violência que engole a palavra, que faz calar, há o pó na garganta, as alimárias e as iras nas entrelinhas da vida, quando o diálogo falha e os homens latem, por isso o Coliseum de cada dia como paliativo. Nesta mesa de bar, olho ao redor da multidão e quase não vejo vivalma, exceto dentro do meu copo americano. Um menino noturno estende a mão para mim e me pede uma moeda para um suposto pão, um suposto pão também noturno, porque também não conhece Chopin; resta ao filho da pólis as migalhas noturnas. Eu não nego uma moeda a ninguém. Os homens são filhos das circunstâncias, porque em algum momento de suas vidas alguma coisa externa os toma de surpresa fazendo-os comuns, trêmulos, seus semblantes como de palhaços falhos. E o dia lhes é indiferente e o filho da pólis boceja muito, porque não encontra convívio entre os filhos da esculhambação, e ninguém entende uma palavra dita, neste estado febril em que se encontram as coisas; seu corpo é invertido, não haverá redenção. E se Jesus disse “Filho do homem”, eu digo hoje “filho da pólis, porque a vez de falar agora é minha! E Priscila Richardson, amicíssima, pintadíssima, descolada, num sempre salto alto, questiona: “Que porra é o filho da pólis?”; eu digo que não sei ao certo que porra é o filho da pólis, que talvez deva ser, quem sabe, alguma coisa lá para as bandas da Grécia Antiga, que no fundo acho bonito dizer “filho da pólis”, porque eu leio filosofia nas horas vagas, porque eu tenho graduação em História, porque eu não odeio este corpo onde habito, porque eu gosto de falar difícil. Priscila Richardson pula à janela, salta e voa anu-preto ao firmamento, novas paragens e tal. O caso é muito sério, nosso Homo sapiens é nascido em berço de tumulto, como não sabe nada do Começo é um desencontrado — Homo sapiens sapiens humanitas, ou Homo sapiens sapiens bestialis. Eu disse que olhe para as próprias mãos e me diga a que pertence. Vejam adiante, no chão, o sobejo da civilização muito apreciada pelos roedores, e para aqueles que não suportam seus caprichos, hão de lascarem-se, ao final da reta! Ao meu redor, bandeiras variegadas, ferros em múltiplos formatos, fumo e fogo e cinzas, muitos dedos em ristes, muitos espadachins e espadados… é a vida que temos hoje. Aqui mesmo, neste bar, vejo o universal, uma repetição de gestos, de sensos de causas e efeitos, e os melhores homens dentre os outros, aqui dentro, são como seres héteros a desfilarem sisudos com o archote de Prometeu dentro do orifício monossilábico, dentro do rabo. Na beirada da calçada, à sombra profunda de uma frondosa árvore, comporta-se dócil o corpo inerte de um bebum. Tal imagem deveria ser posta no centro da bandeira nacional. Em sua boca dócil e aberta uma mosca é acolhida, por isso ainda há alguma bondade neste município de coronéis analfabetos; ele parece indiferente à visitante, assim como um porteiro de edifício, que apenas quer cumprir o seu dever. Será que o bebum sonha, ou há dentro dele apenas um branco vácuo? E se há este espaço zerado dentro dele, então, como poucos neste mundo, encontrou Jeová. Tão imóvel e tão desnudado de humanidade, não sei se é ainda um homem ou tornou-se uma pedra, ou um anjo mesopotâmico. Nunca vi no rosto dos que dormem um sono bom e profundo tamanho desprendimento e abandono de tudo. O seu rosto não é o de um morto, nem de um vivo, aliás. O seu rosto é puro como o de um santo. Em seu semblante eu vejo aquela absoluta ausência de expressão, típica das coisas que não têm rosto, como uma nuvem ou uma cachoeira. Imediatamente, ao observar o bebum inerte, um jovem que passa se contorce numa rajada de gargalhadas — a trágica música de Antônio Marcos roda na radiola, e me parece que tal gargalhada acentua uma espécie de dor que soa sob as notas graves do violão. Não percebi (porque o inconsciente rege nossos interesses) o fundo rascado da calça do bebum em que se via as nádegas, seu Manifesto. Apesar de tudo, escrevo. Eu escrevo como quem mostra assentado o rego do rabo. Por sorte, o melhor de perder tempo sempre arrasta junto um pouco de paixão. Escrevo para não me transformar em uma pedra e não perdoar meus clichês. Não tenho muitas ferramentas, não posso ter muitos livros. Às vezes eu os roubo. A moça da biblioteca da Universidade me olhou de cara feia quando passei por ela sentada e um aparelho emitiu um som estridente; eu não sabia que colado à orelha do livro que eu trazia dentro da calça jeans havia um dispositivo que acionava aquele aparelho sonoro; não houve consequências para aquele meu primeiro roubo, além de olhares desconfiados; aprendi a retirar as etiquetas com o dispositivo atrás da orelha dos livros, como fazia a nossa Josete Londa, e nunca mais fui incomodada pelo som estridente do aparelho à mesa da bibliotecária. Roubar, todavia, apenas para matar o tempo (dos poucos que abro para sondar as páginas, dentre os livros roubados, há muitos que não entendo uma vírgula, nem quero). Exceto a minha casa, há somente dois tipos de lugares onde estive todos esses meses: este bar e as pequenas bibliotecas, a deste município, a de Pariconha e a de Água Branca. E aqui, nesta mesa, minhas pequenas leituras, impregnadas da música de Antônio Marcos, se misturam aos vultos caóticos de bêbados que adentram à minha retina. Se leio um verso de Byron percebo que cada frase está impregnada deste suor etílico, deste cambalear sem norte, sem sorte, destas mãos ensebadas de fumo, destas faces de olhos confusos. Isto ocorre porque sempre o leitor coloca suas asneiras dentro do texto do autor. E arrisco-me demais para não escrever. E o escritor não é outra coisa senão um ostentador da própria sujidade interna, destas mãos ensebadas, destes olhos que olham sem querer curar o mundo; o escritor de ficção hoje no Brasil é um incendiário sem isqueiros, seu fogo é imaginário, porque se ele escrever críticas verdadeiras e não tendenciosas as pessoas vão dizer: “Ah, que escritor triste e problemático!” (e se ele escreve boas mentiras ele se acha Deus). Há um bálsamo na transparência sorridente de uma garrafa de vinho — do seu contrário, não haveria força que pudesse carregar-me, de um bar a outro, de uma estante de livros a outra, de um sonho a outro, de uma leitura muito superficial a outra. Eu mesma não sei se de fato devo estar… [2] Eu sei que todos os sentimentos arcaicos são perturbadores, porta de saída de si, um descontrole que explode na cara e no final, perde as estribeiras nas imersões alcoólicas; chora a musa que não se pode possuir, e eles pensam que suas próprias as lágrimas soam em fá sustenido, sibilando como cobra carente à vulva atônita e encrespada e até o âmago extático da alma da musa imaginária. É por isso que estes filhos da pólis se embebedam e morrem, mas não antes de chorarem tanto para as garrafas, até ao rés do chão do patético, até chorarem dez vezes mais os litros de pinga que bebem todos os dias; esses bêbados todos nunca deram no couro de verdade, sempre brocharam ou desconversaram em tolices após suas ejaculações precoces, por isso foram abandonados ou traídos, porque brochões verde-amarelos, os murmuradores durante o coito, se justificam acusando a parceira de frigidez, e transam ligeiramente e em viés, clamando em pensamento por Stalin, Adam Smith, Marx e Jeová. Este lugar fede a esperma frustrado. A estes filhos da pólis, assim como Onã [3], o capado, nunca será possível lembrar seus rostos — isso porque desaparecem, enquanto ainda pensamos neles. A vida é bela tal como o cio, um bocejo, um surto, tal e qual a descoberta por demais passageira de que Darwin estava certo! Quem não entende a vida se fode, se lasca, se arromba. Logo o afoito acha que sabe das coisas e bebe. E se há alguma beleza nessas vidas de boteco, esta se esconde fundo nos recantos de uma vida aos farrapos, quando o bebum, sempre dramaticamente machista, se lembra do seu amor impossível, da imaginária traição da amada, da falsa castidade desvelada em trágica lua de mel, no ciúme que o corroeu por dentro, da fixação a estas coisas todas tolas, e de somente poder enfrentar, enfim, o seu destino quando a pinga ofusca este destino. Por isso, numa metáfora, todo bêbado que se preze tem o cu à mostra. Não me embriago às quedas, ainda que eu mostre o rabo; qualquer coisa bela dentro de mim somente funciona quando escrevo, eu já disse, e a escrita é o ópio dos vaidosos, o pior dos vícios, porque aí a gente mostra toda a nossa intimidade a partir do buraco em que Jeová nos empalou. Veja aquele homem, ali, num recanto. Parece-me não ter ainda quarenta anos. Mas, já o rosto lavado de lágrimas, desde que começou a tocar Gaivotas, de Antônio Marcos. Todo mundo o conhece: é o filho do pastor, aquele, você sabe, que me visitou duas ou três vezes no passado. Nos primeiros acordes o bar se transforma — ali um moço tenso balançando a perna esquerda, uns abaixam a cabeça em reverência, talvez, e outros respiram fundo, mas, aquele filho de pastor, soluça sozinho, ali, num canto, e ele sabe que seu soluço é fingido, mas precisa deste soluço, porque é tudo o que ele tem; é por meio de tal soluço que se lhe ativa um fogo e toda uma arte de se emocionar; soluçando fingidamente lhe advém um transe e estando em transe consegue chorar de verdade, tendo como tema do seu choro a mulher que tanto ele mesmo traiu e maltratou e que depois foi por ela abandonado. Flagro um jovem apontar dizendo: “Olha o corno chorão…”. Na multidão que agora se choca, ombro contra ombro, há um apagamento de veredas com os próprios pés, porque ninguém mais ali sabendo para onde ir descobre nessas “ausências de lugar” um ombro imaginário e existencial para se recostar, enquanto anda cambaleante e pendido. São bárbaros os sentimentos. E tais são que nunca param de nos invadir. Pergunto àquele homem pelo motivo pelo qual chora? “É que a vida é tão grande, senhora, que até me sinto acuado, às vezes”. Descobrimos que fora dentista bem-sucedido, até cair no vício. Mesmo bêbado ele me confirmou: “Eu fui dentista. Altamente profissional! Já implantei molares de jegue em boca de lobisomem.”. Escrever. Na verdade, nunca entendi plenamente a palavra, quando igual aquilo mesmo que ela diz e que não pode se tornar o que ela diz (são os bárbaros!). “Eu fui dentista.” — ele disse —“Hoje, diante das circunstâncias, elegi este modo existencial”. Vinte anos de casado, dois filhos; o divórcio. Não quero me debruçar sobre a sua vida — eu pensei —, ou escutá-lo se rememorar da sua convivência familiar. Não haveria explicação a certas coisas. Elas acontecem, apenas (e por não poderem falar acerca do impossível muitos deles escolhem chorar, ouvindo Antônio Marcos). Ora, querer dizer mil coisas sobre um acontecimento pretérito é o mesmo que não ter o que dizer. Ofereço-lhe meu ombro para recostar. Ele relaxa por um momento e soluça, talvez para pensar com dificuldade acerca da ideia de pegar em minhas coxas, o que de fato acontece; eu lhe nego e ele insiste; um bêbado total não merece o toque da pele suave de uma coxa feminina, por isso deixo-o subir um pouco mais por minha coxa depilada e ele apalpa num susto os meus testículos. O susto! Sai às pressas cambaleando, os olhos redondos; eis mais um bêbado do interior, típico dos pequenos vilarejos sertanejos — ainda que esteja péssimo, discerne bem com o tato o que no fundo eu sou em parte. Acho que este velho dentista não acredita mais no feminino. Talvez, a condição de alcoólatra não lhe permita pensar que hoje uma mulher como eu pode ter testículos. Não tenho preconceitos contra bêbados, ou ojerizas. De qualquer forma, a gente roda e roda sem jamais poder entender e explicar o turbilhão de acontecimentos desta vida — por causa disso, talvez, ele escolhesse chorar ouvindo Gaivotas, de Antônio Marcos. “Eu fui dentista! Me respeite, seu viado!” — apontando o dedo para mim ele braveja do outro lado da mesa. A sua cara tem a dignidade confusa de um capitão num naufrágio.

 

[1] Encontrei este texto num boteco. Escrito em papel de embrulho, letras miúdas, duas folhas escritas, frente e verso, dobradas em quatro partes. Assinou-se “Aline” à caneta vermelha, à esquerda e embaixo. Digitei seu texto e o modifiquei bastante, para deixá-lo mais confuso.

 

[2] Nesse trecho há uma mancha escura de “tira-gosto”, isto é, de gordura de toucinho, pelo cheiro rosado. Infelizmente não consegui transcrever toda a frase.

 

[3] “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. Gênesis 38:8-10

 

Wellington Amâncio da Silva é sertanejo nascido e criado no interior das Alagoas, Delmiro Gouveia. É formado em Filosofia e mestre em Ecologia Humana. É membro do editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca, entre outras. Publicou livros de ficção e ensaios em lugares interessantes.

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Wellington Amâncio da Silva

 

Foto: Gilucci Augusto

 

O homem invisível

 

Mas Onã, que sabia que essa posteridade não seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade. — Gênesis 38:9

O beijo de um tempo frio em minha testa/ Alguma luz na água/ O reflexo do meu rosto/ A poesia é meu único amor sincero/ A poesia é meu último amor sincero... — João Maceno

 

Estive envolvido profundamente com a literatura. Li muitas obras importantes e também escrevi umas coisas, por influência dessas obras, como quase todo mundo. O que fiz com tudo isso eu ainda não sei. Confesso que não me importo muito pelos resultados, porque os processos, os métodos, me envolvem sem que deles possa sair; estes me levam para longe, e qualquer trabalho finalizado se perde no horizonte distante. Sobre o ofício? Ah, dia após dia, sentava-me para escrever, até anoitecer; não saía de casa sequer para comprar um pão. Com esse exercício medonho aprendi a fazer umas coisas. Todavia, logo que me aperfeiçoei um tanto me deparei com aqueles velhos problemas inerentes à ficção. Minha terrível agrura: as personagens se misturavam muito às minhas histórias pessoais e com boa parte do meu caráter — o que é péssimo… porque verdadeiramente, no final das contas, eu não sabia em quem bater primeiro, se neles ou em mim mesmo. Com o tempo, me especializei nesta arte de me perder no universo das personagens, de modo que eu não pude nunca mais desvencilhar uns dos outros, isto é, eu deles. Como escritor eu trabalhava demais, digo, no sentido de não parar nem para comer um brioche de geladeira! Neste universo, a minha imersão era tamanha, eu trabalhava tanto! que estive sempre indiferente às demandas fisiológicas do meu corpo e à família — era o espírito da literatura que regia minha existência para não sei onde, noite e dia —, todavia, depois me apareceram sérios problemas… Não posso me culpar, eu já me perdoei, hoje eu pago por isso e assumo minhas culpas, estou quite com meus personagens e comigo mesmo. Porque para alguns escritores, sua relação com a literatura se configurava tal a uma condição de “aprofundamento singular” — este termo é de Ludwig Vaander-Stelmmer — porque a literatura, devo dizer, é o grande culto! Em outras palavras, eu nunca me preocupei com o tempo do meu corpo, enquanto estive convicto da importância do tempo do espírito. A realidade exterior apenas tem sentido quando incorporada sem pretensões, quando a deixamos perambular pelo labirinto da memória, para em seguida reescrevê-la, não em busca dos “fatos”, mas em busca do “como se” — esta é a nossa salvação… Eles disseram, depois do ciclo de palestras: “Vai com calma, João!”. Eu retruquei (muito embora não estivesse de todo convicto): “Eu sei o que faço, meus colegas… eu sei o que faço…”. Escrevi uns versos e quase os publiquei em livros, a experiência de escrevê-los ficou para sempre, mas a obra se perdeu. Eu vivo tentando… Vivi um tempo de livro quase concluídos, em eternas revisões — é isto o escritor, não se engane! No final das contas eu carregava sempre alguma dúvida se os publicaria ou não, visto que daí em diante eu poderia ser elogiado ou difamado; não me animava a possibilidade de tornar-me reconhecido enquanto houvesse o precedente da difamação, que é aquele estigma que mesmo após a morte perduraria (meus filhos teriam vergonha de mim). Eu escrevia, mas carregava as minhas dúvidas — e por causa destas eu não parava de escrever. Porém, dúvida boa é aquela que possui uma cratera tão grande em seu arcabouço, que pensamento incomodado infla, e se torna maior que a cratera. Hoje, gostaria demasiadamente de precisar alguns pormenores sobre a minha vida — se é que interessa.

Nasci na cidade de Penedo, nas Alagoas, em 12 de janeiro de 1962, sob o nome de Roberto Rabocha dos Santos, e não de João Maceno, meu pseudônimo.  Aos 22 anos resolvi enfrentar o destino em São Paulo, e por lá, em alguns aspectos, me dei bem. Aos 32 anos tornei-me profissional da comunicação, redator de uma revista considerada e arrisquei-me pela literário da mesma revista. Neste ambiente de papel e de letras encontrei a mulher que me tolerava e que enxergava alguma beleza em mim — não vi nenhum feito em seu caráter. Casamos em 1996, e em 14 anos de casados e tivemos duas filhas — Clarisse, 05 anos; Alice, 11 anos. Vivemos como num sonho bom, porém, de súbito, aos 48 anos eu estava sozinho num quarto meio mofado de casa alugada a pouco dinheiro; sim, eu fiquei sozinho, porque sem a esposa as filhas escolheram, obviamente, morar com a mãe ou com a avó… (não quero tratar de detalhes do fim do meu casamento, mas adianto que há uma temática trágica, sobretudo “patética” envolvida, e da minha parte…). Ora, sinceramente não tenho ódio ou mágoas contra ninguém. O ódio sem destinatário é arte. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: por outro lado, nós amamos e sabemos que amamos, examinamos nossos pensamentos e atos sobre a pessoa amada e cremos que amamos, todavia ela pensa que ainda é pouco, ou desconfia que é bobagem ou enganação. O que nós sentimos é tudo o que temos para aquela pessoa, e ela acha pouco ou inútil…

Após o divórcio, desvencilhei-me da maioria dos compromissos domésticos, ainda bem. Resolvi me debruçar, com o devido empenho sobre o que me restou de fato, aos meus textos. Certo dia, ao acordar disposto, explorei o velho armário cheio de papéis, de algumas traças e ácaros; tentei dar ordem ao que reencontrei. Seis sacolas de supermercado contendo manuscritos velhos, seis possíveis livros que eu abandonara. Muitos papéis, e ao folheá-los, de imediato retomei ao fio da meada daqueles anos passados; eram quase livros, ali, e somente eu estava ciente de que sabia o que escrevera, porque quando se diz a verdade ninguém acredita. Mas, não eram ainda livros, antes de reuni-los, sob a ordem de temas correspondentes. Havia certa desconexão (mesmo as melhoras frases, as que soavam bem, ainda não continham uma verdade). Grandes obstáculos enfrentados, num trabalho interminável, tentei encontrar ou inventar liames. Para alguns textos escrevi coisas que depois chamei de “emendas” e lutei em vão contra outros tantos. Às vezes temos frases aparentemente perfeitas, mas que não passam, no final, de um engodo. Os manuscritos “não aproveitáveis”, aqueles que por si só não forneciam saídas, eu os comi, os umedeci com água ou refrigerante, pus pimenta calabresa e os comi; o texto impossível não me dava outra saída senão trazê-lo para dentro de mim por simbiose, incorporá-lo pelo estômago, já que não sedia ao intelecto.

No final de 2013, eu os tinha organizado todos e atribuído títulos chamativos, tais como, “Diurnos”, “O Caso 64”, “As Aspirações de um Equilibrista”, “Âmago Translucido”, “A Paixão Segundo Margarete”, “Manto Frondoso” e “Piramundo”.  Editar tudo me custou muito caro. Trabalhar pelas madrugadas me adoeceu. Emagreci em demasia, houve queda de cabelo e tornei ainda mais impotente. Cara caveirosa e olhos fundos, os lábios descorados, sem brilho. As calças caiam um tanto, as camisas folgaram-se. Neste período, eu pensava ter desenvolvido diabetes.  A sorte é que depois de um tempo de folga e de paz — digo, não pensar em nada, não fazer nada — melhorei sobremaneira. A saúde se restabeleceu e se estabilizou. Eu estava grato pela saúde aparente. Pensei em me casar novamente, mas desde sempre fora casado com a literatura; na verdade, fiquei sozinho, ainda bem; eu não queria dar trabalheira a mais ninguém. Eu quis resolver de uma vez por todas, aquela tendência incômoda à vida a dois. Me lembrei de Kant, solteirão, quem sabe apaixonado pela Filosofia. Me lembrei do padre Simão, solteiro, quem sabe apaixonado pela fé. E eu, talvez pudesse estar solteiro, quem sabe, para escrever, porque escrever toma tempo e é a boa solidão.

Em grande medida, meu casamento acabou porque vivia para o trabalho e para a escrita autoral, e foi por causa destes dois universos que me lasquei. O primeiro, abandonei, já que perdera algo mais importante: a presença da minha esposa e filho. Acabei aposentado por invalidez. E o segundo? Não tive forças para abandoná-lo, devido “ao tamanho absurdo e a densidade insustentável da sua inerência dentro em mim” — tal frase parece clichê, mas na verdade eu nunca quis deixar a literatura; a violência sem destinatário é arte… Literatura, deste ofício não se despede; vive-o até o fim, e quem sabe, depois (mas não sou religioso, não penso o “depois” para além de um gracejo). Diante deste quadro, resolvi radicalizar alguns aspectos da minha vida; havia algo dentro de mim que me “roubava” certa parcela da minha concentração. Disse a minha mãe que iria morar sozinho e que cuidasse das meninas com o auxílio da maior parte do meu dinheiro (o que não era suficiente); as meninas gostam mais dela do que de mim e da mãe — digo isto sem mágoas pela opção delas; também não acho oportuna tal opção. Por conseguinte, comprei uma bela chácara em Araçoiaba da Serra (por sinal, mal-assombrada, mas eu ignorava visitantes de toda sorte). Por lá me aperfeiçoei ao meu gosto. Escrevi novos sonetos, escrevi odes, sáficos, gaitas galegas, e outras dezenas de decassílabo; escrevi alexandrinos e bárbaros, enquanto os pardais tentavam chamar minha atenção à janela; reinventei a métrica e a diluí em anarquias criativas que me faziam gargalhar pelas altas madrugadas, sem que as corujas noturnas, pousadas num galho à janela, me compreendessem. Mas percebi, com o tempo, haver em meu corpo uma demanda, que mesmo sendo menos indômita que a fome e a sede, e estando ao largo, ainda me incomodava; era uma ansiedade genital, a maldita libido: ora, eu a sentira muito sutilmente e difusa, muito de longe, muito de leve, porque estava enceguecido pelos versos; mesmo pela manhã, ao acordar eu notava sua presença e a sentia tal a um leve incômodo, que mobilizava dentro de mim certos pensamentos luxuriosos (e eu nem escrevia sobre o tema…). Antes, aquela coisa volátil, sem nome e sem nexo, reverbera vapor dentro, no calor cego da virilha, sem diretamente percebê-la, até que uma noite, devo dizer, depois de algumas perscrutações, me incomodou, porque eu me alegrei com a lembrança voluptuosa de antiga amiga da universidade. Imaginei-nos em mil e uma manobras sensuais, e por causa de pensamentos persistentes enfrentei duas semanas sem escrever um verso, até me libertar razoavelmente. Desde muito cedo, entre outras pulsões medianas, a sexualidade me era enfadonha; casei-me porque me vi obrigado, coitada…; eu muito jovem quis experimentar, me apaixonei e amei, todavia, acabou…. Para o sexo, nunca uma mulher me atraiu, nem homem, nem quaisquer outras das variantes… sempre tive medo desse calor exótico e testicular, desse exercício medonho sobre superfícies macias, colchões sofredores. A libido sem destinatário é arte, eu sei, mas eu não tenho este dom, nunca quis arriscar de fato, na cama fui um fingidor. Para mim, o sexo era a prática dos bichos que espumam pela boca, dos cães e das aves, em oposição à escrita, algo muito lento e calmo e que se faz sobre superfícies duras, escrivaninhas felizes. Quando casado, me cansava muito deste exercício — seus jogos, as caras e bocas, as mãos bobas, os sons monossilábicos incompreensíveis, os lábios derreados, as convulsões momentâneas, a dedicação ao gosto do outro, às frustrações das precocidades, minhas insuficiências, e a traição que ignorava, porque, como disse, o sexo e suas variantes me eram enfadonhas — na verdade, eu gostava quando minha esposa voltava feliz, porque ela sinalizava discretamente que somente neste aspecto eu não me tornara um suficiente. Sei que mesmo a pequena relação se constitui numa dívida de monta, e as asas daquele que voava sozinho se desfaz pelo caminho do matrimônio — me perdoem por usar esta metáfora tão felpuda. Ah, só mais uma coisa: a cama é tudo! Não é à toa que falam tanto da cama quando se fala de relacionamento. Na cama ocorre o “efeito da presença”, eu já disse uma vez, de quando dormindo ou acordado a gente sente a presença forte do outro, a gente acorda para olhar o outro dormindo, ouvir sua voz e sua respiração, olhar seu rosto sempre inédito, dormindo… isto é o amor. Porém, quando o outro desaparece na cama, se torna parte da cama, tal a uma almofada grande com pés e mãos, e nos sentimos como quem dorme só, acabou o amor.

De todo modo, tomei uma decisão definitiva, porque a literatura era a minha vida. Era o ofício! Sim! Até o final da minha vida, como dizia o pessoal do Romantismo europeu. E, um tipo de prescrição para a existência — e eu achava melhor considerar coisas do tipo do que a vida doméstica. Na verdade, a literatura é um modo de existir, é um horizonte, um portal em aberto, um plano existencial cujo alcance é infinito e maior do que a mente. “A literatura é mais extensa do que a natureza” — uma vez nos disse Eleanor Mannoir. A literatura é um plano extensivo, enorme, onde o mundo recosta a cabeça em busca de algum alívio. E é aí, neste orbe imenso, que eu queria viver e morrer. Deste modo, decidi conversar sobre o assunto com o meu médico; já a minha psiquiatra concordou de imediato. Como é de imaginar, o assunto demandou muitas outras reuniões (e a psiquiatra fartava a sua curiosidade…), porque aí, no âmbito de uma longa confrontação, que se enredou entre eu e o médico, havia um aspecto ético que ele denegou por um tempo; somente a muito custo consegui convencê-lo. Ora, é bom saber que em todo tempo da minha existência eu me reconhecia não sendo heterossexual ou homossexual, ou qualquer outra condição sexual. Na verdade, relativamente ao sexo, como prática eu não tinha gênero, eu nunca tomei gosto pelo ato em si, embora de quando em quando meu corpo “se aquecesse”…, e, íntegro desta minha apatia por mim conhecida e compreendida, ainda que no meio desse “fogo”, perseverei; tempos depois, consegui do médico o que queria — a castração, que é parecida à vasectomia, porém, com extração testicular; eu não queria ficar simplesmente infértil, eu queria ser como um Castrato italiano ou um Eunuco judeu e me libertar da libido, ter paz de espírito, enfim. Tal escolha seria para mim um gesto de violência? O que é a violência? A violência sem destinatário é arte. Aliás, meu pai falava que a natureza nos acha uns idiotas: para manter o ciclo da espécie, pela fecundação, ela nos obriga a copular a preço de esmola, o gozo. Mas eu não quero falar sobre isto.

Ora, pesquisando, eu não encontrei nada sobre castração humana nos dias atuais; num dicionário comum, está escrito que “A ‘castração’ no Brasil é um dos procedimentos mais realizados em pequenos animais. Evita diversos problemas de saúde, melhora o comportamento, e é das medidas mais importantes para controle populacional de cães e gatos. O procedimento não costuma ser complicado, porém exige certos cuidados antes e após a cirurgia”. Apresentei este pequeno texto ao meu médico e ele riu; disse que precisava pesquisar… confessou que nunca realizara tal cirurgia. Duas semanas depois, estava eu em seu consultório; me despi ali mesmo e vesti uma camisola hospitalar aberta nas costas. Numa sala pequena e branca, cerâmica até o final da parede, deitaram-me numa maca estreita. Uma enfermeira aplicou Clonazepan na entrada de um cateter na venosa do braço, porque eu estava um pouco hipertenso e nervoso. Um homem grande me pediu para sentar, ordenando que não me mexesse e aplicou a anestesia raquidiana em algum lugar da minha coluna serviçal. Logo eu estava paralisado da cintura para baixo. O doutor Aristóteles, meu médico, estirou uma pequena cortina, lado a lado à minha cintura e eu não vi mais meus pés, até ele erguer as minhas pernas sobre dois pedestais. Os três começaram a conversar sobre coisas banais, ou seja, era o sinal, a cirurgia havia iniciado. Em vinte minutos ele me mostrou meus testículos na palma da sua mão, e eu não pude segurar as lágrimas, num choro copioso, porque me senti como se houvesse perdido o elemento ancestral da minha existência e que me fez ver ali os rostos saudosos do meu pai e do meu avô. O médico disse que eu deveria parar de chorar, porque aquelas convulsões em meu ventre poderiam desencadear uma hemorragia no local da cirurgia, durante o processo. Ele me costurou por baixo, enquanto eu enxugava minhas lágrimas; realizou seu último ponto e me disse: “Missão cumprida, meu caro… De hoje em diante você será para sempre um homem indiferente ao sexo”. A enfermeira me olhava triste. Por questões éticas talvez o médico mantivesse segredo quanto ao meu caso, por isso ela me olhava triste. Se manteve segredo eu ainda não saberia entender aquela expressão de tristeza nos olhos impecáveis da enfermeira. Nos dias seguintes acordei taciturno demais, de modo que levantava tarde da cama e não conseguia realizar a menor tarefa em meu cotidiano. Meu consolo foi ouvir Pink Floyd e os álbuns Zeit e Alpha Centauri do Tangerine Dream, o dia inteiro, semanas a fio, até sarar. Nos quinze dias seguintes à cirurgia, eu não pude beber vinho e isto me foi aterrador, torturante, porque a embriaguez em momentos decisivos sempre me foi uma grande salvação, quase uma salvação escatológica. Eu sentia uma tristeza persistente e difusa, que estava não somente dentro de mim, mas em tudo ao meu redor, como quando se perde um ente querido; a minha tristeza estava nas paredes, nos móveis, na voz dos transeuntes, na réstia empoeirada que riscava o chão, no chilrear dos pardais, no cinzeiro de latão, nas cuecas sujas dentro do cesto de plástico, na reprodução de um nu artístico de Toulouse-Lautrec em minha parede, na forma quadrada da janela, sobretudo no encarnado soturno do arrebol de fim de tarde. Eu pensei que ia morrer de tristeza. Não havia ombro amigo nem outro consolo, porque ninguém sabia do meu caso, e o médico não me ligou nem para desejar boa sorte. Somente Deus sabia da minha situação, mas Ele talvez não gostasse da minha literatura.

Nos meses seguintes me sucedeu uma calmaria. Meu lar tornou-se mais claro, no espelho meus olhos tornaram-se mais inocentes, meu rosto rejuvenesceu-se uns dez anos, e minhas mãos tornaram-se mais dignas. Minha concentração nas coisas era precisa, meus pensamentos tornaram-se irrepreensíveis, minha autoestima subiu, as ideias fluíam em enxurradas (e eu anotava tudo!); eu conseguia articular pensamentos e conceitos complexos com grande coerência, e mesmo um ser de luz, um homem vestido de branco, rosto luminoso, olhos esfogueados, de uns dois metros e meio de altura, conversou comigo a noite inteira, em minha sala, sentado em meu sofá, e até tomou um chá de boldo comigo — disse-me coisas inefáveis que deveras não é lícito narrar agora. Meu corpo tornou-se como corpo de menino; meus ombros se encolheram, minhas pernas afinaram-se, meus pelos caíram, minha testa ampliou-se para cima e para os lados, minhas rugas desapareceram, meu maxilar tornou-se harmonioso e gracioso, meus incisivos retraíram-se dentro da minha boca, e brotou uma flor em meu peito, deixei de ser carnívoro. Meu pênis tornou-se ainda mais “sanfonado”, de modo que encolheu até quase desaparecer abaixo do umbigo, sobretudo nos dias frios (e como não me restaram testículos, minha virilha era tal a virilha lisa, sem protuberâncias, de um inocente boneco de brinquedo, ou de um andrógino). Passei a realizar enemas em mim mesmo, com o intuito de me libertar um pouco mais dos processos mais baixos do metabolismo animal inerentes a este corpo. São arte os empenhos sem destinatário.

Foram três meses de inoperância total, após a castração; emergi lentamente na escrita e nas leituras, isto de um modo quase sobrenatural, elevando estas duas ao patamar da mais leve e pacifica religião — confesso que eu estava eufórico, excitado de espírito; nunca uma libertação física me trouxe tamanha graça espiritual. Vivi uma mística nova, para além de qualquer recalque freudiano. A um só tempo estava liberto do pudor religioso e do cio dionisíaco. Me arrebatei às nuvens do vernáculo, e era tudo que eu queria, e lá encontrei o divino, o numinoso, o plenamente suficiente, e escrevi bastante. Descobri que a maior emancipação de um homem é perder os instintos. Hoje o alvor dos versos de camões está plenamente apreendido em meu ser. Posso dizer que vivo um nível outro de existência. Estou absolutamente convencido que as pulsões do animal no corpo do humano (sexo, pavor da morte, medo do imprevisível, agressividade, excreção) são um terrível estorvo diante do alto nível de humanidade que se descortina no tempo presente, e do qual sou o primeiro e único representante. Eu sou o übermensch de Nietzsche. Amigo, é preciso elevar nossa humanidade até patamares nunca antes imaginados — e tal libertação somente se fará pela libertação das pulsões, e o sexo é a pior delas! Todas as guerras e todos os males têm sua raiz na transa, têm seu aspecto corrupto também nas pulsões diversas! É preciso elevar o logos aos planos antes inimagináveis! Libertemo-nos a nós mesmos da velha sentença aristotélica do “humano como animal”! O “bicho” no corpo é uma cifra diminuta no calcanhar da existência, e o humano é todo o cosmo! Podemos ser como os santos anjos. Um dia nos aproximaremos daquilo que os antigos orientais denominavam de deuses (e os ocidentais de Sofia)! A busca sem destinatário é arte. E, que todo homem se castre por amor a si e ao devir, e escreva belos poemas, no intuito de libertar a Natureza dos nossos equívocos milenares.

Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).   

 

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Wellington Amâncio da Silva

 

Foto: Lu Brito

 

Por que o editor sumiu?

 

Um sonho. Lá está ela, nos dias de Junho, durante o auge do solstício de inverno. Lá está ela, no mais alto plano do hemisfério austral, próxima à constelação de Órion. Liúna é uma galáxia, para quem pode vê-la. A mais estrelada do universo. Espiralada, cinco linhas circulares, paralelas, mas que se tocam de leve. Predominam o dourado, o anilado, o prateado, e tons de ardósia nas bordas. Sua figura se consolida no dodecaedro. Veste-se de seda inconsútil, imaculada, e apenas disto se veste. Possui o poder universal de suster os luminares, por isso nenhuma contristação sente, e não há o mais leve sinal de que ela não sinta demais outros sensos. Diz-se que no centro do seu alvor reside a mais fulgurante estrela, que se observada através de um prisma especial, contar-se-á oito pontas, e cinco ao centro. Seus olhos de âmbar transparente e claro transfixam-nos constantemente (por isso a impressão de que somos observados e ao mesmo tempo protegidos). As entidades mágicas de variegados domínios e graus podem pensar, voar, pairar, andar, circunvagar, existir, morrer e reexistir como queiram, quando e onde, segundo os auspícios de Liúna. Debruçam-se sobre as esferas, clarificam certos âmbitos, domínios, e administram certos campos, segundo o que apraz Liúna. E ela estende as mãos e nos toma para si — sua miração primeira possui dois ângulos abertíssimos, e no centro, o adentramento e o anelo. E pode transmutar-se ao coração do homem em dura gnaisse, ou em matéria vaporosa e volátil. Eis a porta aberta, o fogo, irresistível umectância! E ele, o Carlos, abriu uma das mãos, ao máximo, até as pontas dos dedos curvarem-se para cima; desceu as mãos sobre a coxa lisa e dura, perto da virilha dela; parecia tocar em brasas (não porque estivesse quente como o fogo — muito porque a perna, a coxa, em que se toca, muda a sina das mãos, embaralha a ordem das coisas, desfaz o sossego da mente, e eriça alguma coisa dentro do peito — perdição); bordeou a orla da fundura de Liúna, e caiu, de corpo penso, ao fundo. Sentiu estremecimento antigo. Lançou-se, num ímpeto, imerso, e atravessou-se para lá. E em Liúna o editor sumiu. Um sonho.

 

 

 

***

 

 

 

Formação

 

Alceu Vivalma compositor de samba das antigas! Reverenciado, ainda que “dissidente” da Portela. Do tipo “raciado”, porque trazia os sinais supremos do autêntico e do febril criador. Ébrio-de-cara-inchada e pálpebras caídas, ao modo do equilíbrio entre o sadio e o patológico, do fígado não muito cirrosado, porque só no final, tal e qual o auge, amadurece no ser do boêmio aquele horizonte trágico, apaixonado, entre a indiferença do artista diante da proximidade do fim e o seu mais inspirado e fervoroso momento de criação (certamente evidente no último disco lançado). Isto quer dizer — como pensam alguns radicais — que a obra póstuma, por vezes incompleta, é a obra máxima do artista, “a obra de porta aberta”, em que os críticos têm pano pra manga. E a obra-prima é aquela que nos lega espaços vazios e brancos, suscetíveis a enchimentos interpretativos, e aos questionamentos de todos os tipos, sem os quais a conversa não se prolongaria, nem a crítica se lamberia, e a rodada de cerveja vai que se acaba em breve. E é preciso que digam alguma coisa e sempre, nos jornais, na roda de samba, na esquina cotidiana, dentro dos lares, dentro do pensamento de quem curte a coisa toda, porque se se acabar o converseiro sobre o artista quando morto, ele pode ainda morrer novamente. E é essa “segunda morte”, o silêncio da boca do povo, que o artista tem medo de morrer.

Diziam que os “iniciados” o reconheciam em qualquer lugar, sem requerer dele nenhum imperativo de palavras de apresentação. Era necessário o silêncio para que reverberasse o som. Cantava ao violão Di Giorgio 1979. Voz de barítono levemente alcoolizada e rouca. Alguém batucava de leve num pandeiro deitado sobre a mesa — “A vida é assim/ Eu sou assim/ Não me leva a mal…”.

Após, Alceu Vivalma ainda recebia os aplausos, quando Safiro do Borel cochichou no seu ouvido. Em seguida, num canto do bar, ambos conversavam.

— Alceu, meu amigo, agora é a tua hora, o teu primeiro disco. Por favor, não diga não desta vez! A oferta é irrecusável. Fubica disse que ele mesmo produzirá o teu disco! Aceita, homem! Fubica é gênio de mixagem, e Aloísio um mestre do merchandising, das rádios, da tevê. Aceita, homem! Ou vai morrer cantando em bares? Compondo música para tocar em mesa de boteco? Teu repertório, bicho, está fadado ao sucesso! Vai estourar! Fubica é um mestre! Aloísio é um mestre! Você é um mestre! Vai tocar em todo mundo.

Alceu, com ar de pensativo, disse, pondo a mão direita sobre o peito:

— Não me vendo, meu amigo. Tu sabes porque resisto. Tu sabes…

Safiro se aperreava.

— Homem! Eu sei das tuas filosofias. Mas, seja um pouco mais flexível. Seja sábio desta vez! Ou prefere mofar naquele barraco?

Alceu enrugava as sobrancelhas, como se estivesse zangado:

— Ninguém é sábio, rapaz!  Essas gravadoras todas não iriam desvirtuar minha imagem e minha música? Eles gostam de meter o dedo em tudo. Lembra-se que modificaram a minha capa?

— Águas passadas, meu amigo. Pode crer. E os caras da OMD são imbatíveis, profissionais!

Alceu o encara, põe a mão no ombro dele.

— Quanto custará sua comissão por esta empreitada? Me diga!

Safiro do Borel ajeita a gola da camisa.

— Homem, isso é de menos… o teu sucesso é o que importa.

Alceu o encarou por um instante.

— Me fale a verdade: lembra-se que modificaram a minha capa?

Safiro coçou o topo da cabeça e olhou de lado.

— Sim, sim. Há vinte anos atrás? E tu ainda se lembra disso, bicho? Deixa de orgulho, meu irmão! Aquela capa estava mais para disco de música clássica, ou caipira… do que para o teu disco de samba raiz.

Alceu descansou a mão direita novamente sobre o ombro de Safiro, e disse em voz demasiadamente pausada:

— Além da capa, eles regravam os batuques, mudaram o ritmo, descartaram nosso partido alto, tiraram os graves do som.

Quando ouviu a expressão “Partido Alto”, Safiro respirou fundo e calou-se. Tremeu-lhe o queixo. Encheu-se os olhos d’água, ainda encarando os do Alceu. Baixou a cabeça e foi-se.

Em seguida, Abelardo e a esposa chegaram junto do Alceu.

— Ouvi a conversa to-di-nha! — cochichou Abelardo, num tom assisado, e continuou — Novamente, Alceu!? Vai negar até quando a oportunidade de ouro? O tempo passa, meu irmão. E o nosso disco? E o nosso disco?

— Ah… Disso eu sei, Abelardo. Um dia eu gravo. Agora, não.

— Compadre, compadre, tome jeito! — disse Lurdinha, esposa de Abelardo.

— Não sei o que dizer… — finalizou Alceu de cabeça baixa.

Lurdinha o encarava com aquele semblante de zangada, de quem exorta um amigo ou um parente.

— E o senhor não dá a mínima para registrar a sua obra? E o nosso disco?

Alceu passou a mão no rosto, de cima para baixo.

— Do fundo do meu peito, vocês sabem que não minto. Digo o que penso. De verdade: quem quiser me ouvir, que venha até aqui me escutar tocar e cantar. Eu amo este bar, as pessoas, vocês dois… não porque vocês sejam os proprietários… eu amo este bar… há décadas nos reunimos aqui. E isso já me basta. Encontro paz e sossego, aqui. E eu acho, aliás, que a fama é exigente demais, sufoca o artista em demandas impossíveis.

Os três detiveram-se em silêncio por um instante. Lurdinha e Aberlado reconheciam sua genialidade, sua sinceridade, por isso o olhavam-no com orgulho e apreço.

— Como pode cantar canções tão belas?… — perguntou Lurdinha depois de longo silêncio. Os clientes observavam de longe.

Com esta pergunta, os olhos de Alceu encheram-se d’água:

— Vou te contar algo que nunca antes disse a ninguém — ele falava entoado, com aquela rouquidão típica de sambista, que brota do fundo da garganta, quando se expressa e se expira desde o ventre —Sou íntimo de mim mesmo, quando não tem alguém por perto. Parece óbvio, mas não é.  Assim, me debruço em mim mesmo e passo um tempo nisto, só cavando. Desço às profundezas do Alceu de verdade e reconheço a sua face de homem que nunca desistiu no meio das lutas, e vou buscar por lá, no fundo da alma, umas poesias, uma canções, o meu jeito mais particular de ser. Depois, apresento o que tudo naquela mesa, ali, aquela… sim, a minha mesa, a mesa que me basta. Mas, apresento porque… é o dever do artista, vocês sabem como é…. Depois descanso. Depois, missão cumprida. Depois, volto para casa. Fico por lá por alguns dias, olhando as paredes e as telas pintadas que os amigos me deram de presente. Leio umas coisas… leio Drummond, Bandeira e João Cabral e outros, e choro, mas ninguém vê, graças a Deus, porque lágrima verídica na cara de artista pode ser sinal de fraqueza, pode ser seu sim, dar em má interpretação. Se vissem as lágrimas que choro todo dia, meu samba perderia a graça, viraria um “caldo ralo”, porque só se pode ver a boa lágrima, com a poesia e tudo, no próprio samba, ali, naquela mesa, onde cada nota do violão e verso cantado é suada e chorada, mas o artista não pode chorar pra o mundo ver, somente no samba, eu já disse. Quando escrevo eu tomo um baque e a boca do mundo vem me visitar, me fazer sofrer, aí eu não suporto o seu peso — daí eu penso nas crianças jogadas, eu penso nos velhinhos… eu penso no amor negado a uma mulher fiel que por sofrer demais caiu na vida, eu penso no cara que morreu de tanto tomar pinga por causa de amor não correspondido, eu penso nessas coisas e penso no próprio samba, na coisa em si, tá entendendo? E após, eu lembro dos grandes que antes de mim cantaram, e a sua música fica tocando o dia todo dentro da minha cabeça, eu lembro da paixão de cada um deles, e as minhas pálpebras começam a pesar abaixo da testa, meus olhos ficam vermelhos, meu nariz se enche d’água e eu começo a fungar e a garganta dá um nó. Tudo isso que digo, a intimidade do artista, é cafona, apelativo, fora de moda? É. Mas sem essa matéria-prima não pode haver samba. Por isso gosto de ficar sozinho.

 

Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).