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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wesley Peres

 

Foto: Magali Abreu

 

NA ORIGEM, SABIA-SE O NADA,
e saber era nada, e não havia véus,
e, por isso, tudo estava oculto.

E ocultuava-se o corpo com o corpo,
e o corpo, enrolado em papiro,
sendo o papiro feito do corpo.

Sendo o corpo feito papiro:

planura de inscrição de coisas,
das coisas, das fímbrias oscilações
constantes
da textura das águas
dos corpos, seus extratos de ares
ásperos.

Dizem que, na origem,
o corpo era todo línguas e lábios,
e havia matérias espécies, especiarias
cortantes, capazes de gravuras
sobre superfícies águas do corpo
e suas abismas quedas d’aves
estroçadas de tal modo que
até mesmo os antepassados
d’águas se arrepiavam
qual nuvem desaba do oitavo
andar d’algum sol há muito
nem servindo mais
a título de ocidentações
nem de orientações.

Na origem, sabia-se o nada,
e o destino é o outro nome para origem,
e origem é o outro nome para o destino.

 

E origem e destino são nomes outros
para esse imenso outro da palavra: o corpo.

 

 

 

***

 

 

 

ERMO DE UMA VOZ SOMENTE, O CORPO.

Inscrita no corpo
a palavra erra
os enormes abismos,
os entres do corpo:
aqueles que sim,
aqueles não
— são bocas.

Mesmo no beijo, há ínsulas,
mandíbulas sereias,
ruínas ruidosas,
pedaços, areias
de civilizações inteiras.

…….Anômalo orifício no silêncio do corpo, a boca

 

 

 

***

 

 

 

POR MAIS QUE PULSE,
a palavra,
trêmula pedra,
pulsa embaraçada na lei mosaica,
a que proíbe o derramar-se dos olhos.

A imagem denuncia o tempo no corpo,
enquanto, na palavra,
o tempo se redime,
conserva-se,
neste resinífero reino humano,
conserva-se palavra, apenas.

 

 

 

***

 

 

 

NO ENTANTO, HÁ MORTIFICAÇÃO
também na boca e na língua,
a palavra, quando preserva,
preserva porque mumifica.
Adivinha-se isso entrando
num estranho quarto
em que corpo e palavra frequentam-se
e frequenciam-se, imperativamente,
desde o final dos tempos.

Neste quarto, a lógica das paredes
— símile ao que um arquivo morto
sabe do mar —
pensa as papilas dos corpos,
pensando-as, sonha o sonho
de torná-las recortes de um sistema
nervural de conexões entre estrelas
e os ambíguos lábios do chão e da chuva.

 

 

 

***

 

 

 

AS PAPILAS DAS COXAS:
trilhamentos de vozes
chamando e soprando chamas
da carne, tremeluzindo,
como tremeu e luziu a carne
quando nela a vida soprada
qual a vela soprada pelo vento,
movendo os traços traçados
pela madeira riscando
a moura musculatura dos mares.

 

 

 

***

 

 

 

MORREMO-NOS, IMPERATIVAMENTE,
com nossas impérios de bolso,
com nossos deuses enrodilhados nos cabelos,
ou em pequenos códigos sensórios
qual um marinheiro suspenso
em dúvida
quanto a existência de céu e mar,
qual um homem indeciso
quanto a qual primeira parte olhar
do corpo da mulher que lhe
desloca a retina e as vértebras dos lábios.

 

Wesley Peres é psicanalista e escritor. Autor do romances Cartografias de um Doente dos Nervos (7letras, 2022), publicado com apoio financeiro do Itaú Cultural; Casa entre vértebras, (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo – 2008, e As pequenas mortes (Rocco, 2013). E dos livros de poesia: Palimpsestos, vencedor do Prêmio Coleção Vertentes em 2007; Rio revoando (ECA- USP, 2003); Água anônima, vencedor do Prêmio Cora Coralina 2002 e O Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo, 2019).

 

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148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O livro azul de Wesley Peres – Apontamentos sobre O corpo de uma voz despedaçada

Por Wilton Cardoso

 

 

O livro azul

 

O corpo de uma voz despedaçada, de Wesley Peres, trata-se de um pequeno e impressionante livro sobre o trágico acidente do Césio 137 em Goiânia, ocorrido em 1987. É impresso em letras azuis (como o pó radioativo) numa ótima edição da editora Martelo, que vem se notabilizando pela qualidade gráfica e poética de seu catálogo de poesia. As letras-partículas azuis remetem à irradiação da palavra e da memória, ressoando o acidente que, ao que parece, a cidade quer enterrar (recalcar) no esquecimento, como enterrados estão os seus mortos e os detritos radioativos. A tarefa do poeta é recuperar, com sua máquina tormentosa de palavras, essa incômoda memória, em luta com os mecanismos de recalque da cidade:

 

[…] É preciso dar corpo à voz eviscerada em pedaços, o corpo recalcado pelos sólidos mecanismos da cidade goiânia. […] É preciso construir a máquina palavra girândola repetitiva não de estrelas, mas de  tormentas. […] (p. 43)

 

O corpo da voz: título

 

Wesley Peres é um poeta rigoroso e experimental, que costuma torcer e distorcer a linguagem até os seus limites sonoros, sintáticos e semânticos. O título do livro não foge à regra e já apresenta ao leitor uma paradoxal construção metafórica, ao atribuir à voz, signo da palavra, da linguagem e do simbolismo, a materialidade do corpo.

O que se quer, afinal? Explorar e dar corporeidade à voz despedaçada (ao sofrimento silente, inarticulado) das vítimas? Dar corpo no sentido de recordar e expor a tragédia social e individual ou no sentido mais ambicioso de re-presentificar o vivido com a poesia?

Poesia que, costuma-se dizer, é o lugar onde a linguagem deixa de ser apenas céu significativo e se torna também terra significante, concreta e material: locus em que as alturas do sentido entram em simbiose com a matéria sonora e (no caso do livro) visual da palavra falada e escrita.

Parece-me que o poeta opta pelo caminho mais ousado de (pelo menos tentar) corporificar de fato a voz, re-vivendo a tragédia com o experimento material e simbólico do poema, mesmo sabendo que acabará num beco sem saída.

 

O corpo da voz: do livro e para além do livro

 

Este dilema entre corpo e alma, ou corpo e psique (já que o poeta é também psicanalista), que se desdobra no dilema entre vida e linguagem, não é uma questão apenas deste livro, mas perpassa toda a obra de Wesley Peres. Trata-se, portanto, de uma obsessão do poeta.

Assim, a rememoração ou re-incorporação do acidente radioativo se torna também uma oportunidade para o autor exercitar suas obsessões acerca da tensa relação entre matéria e espírito, corpo e mente, vida e palavra, existência e sentido, plenitude e vazio. Obsessão que é também a do Ocidente desde que este se define como tal, ou seja, desde a Grécia pré-socrática.

Wesley Peres é, portanto, o que se poderia chamar de poeta existencial ou filosófico, sempre pensando enquanto canta, fazendo a re-flexão no mesmo ato da flexão poética da linguagem. Outra tensão em sua obra: pensar e cantar, significar sobre a linha sonora e imagética do jogo poético. Um poeta cerebral e construtor, sem dúvida, mas que deixa transbordar um lirismo que pulsa sob o árduo trabalho de linguagem de seus poemas. O que implica numa terceira uma tensão atravessa sua obra, entre lirismo e construção.

Pode-se, então, dizer que Wesley Peres transita entre as ‘tradições adversárias’ do lirismo de Bandeira e do engenho de Cabral, mas numa linguagem que recupera uma terceira tradição, onírica e a-lógica, que é a do simbolismo e surrealismo mais experimentais e construtivos, como em Manoel de Barros. Este último, aliás, seria a ‘filiação poética’ (na falta de expressão melhor) mais próxima e visível de Peres, como pode se perceber em suas desconstruções sintáticas e semânticas da linguagem.

Manoel de Barros promove uma desconstrução da linguagem que remete a uma crítica também desconstrutiva do mundo moderno. Sua poesia é atravessada pelo desejo de uma regressão primitiva não reacionária e não autoritária à infância, à tradição popular, ao mundo animal, vegetal e até mineral; e é uma celebração desse ‘mundo puro’ dos primórdios. Puro não no sentido ascético do termo, mas concebido como um caos primordial intocado pela ordem, desmedido e sem hierarquias, prenhe de novas possibilidades de mundo. No fim das contas, a poesia do mato-grossense, sob a superfície de um regionalismo e um naturismo ingênuos e lúdicos, é uma crítica aguda à modernidade e, em consequência, ao capitalismo.

 

Palimpsesto e origami: tensão entre o sem sentido e o desejo de sentido

 

A desconstrução poética de Wesley Peres, ao contrário da de Manoel de Barros, não resgata nem celebra os primórdios e o caos como uma nova possibilidade de mundo, mas costuma se deparar com o vazio de sentido e a ausência de saídas para a ‘alma humana’ e o ‘espírito do mundo’. Exemplos desse ceticismo em relação à transcendência e até à magia são a presença de duas imagens recorrentes neste livro, e em outras obras suas, que são o palimpsesto e o origami. O primeiro remete à impossibilidade da origem e do fundamento, enquanto as complexas dobraduras do segundo nos diz que o conteúdo e o sentido não passam de puras formas, dobras e redobras de uma matéria/substância indiferente e inerte.

Palimpsesto e origami remetem, portanto, a uma poética agnóstica e desencantada, descrente das possibilidades utópicas de uma regressão aos caos primordial ou mesmo de uma ultrapassagem emancipatória das sufocantes coerções da sociedade (pós)moderna. Este agnosticismo de fundo às vezes emerge límpido no livro:

 

(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou a clareza de seus olhos implodidos densos de um imenso sol soletrado pelo calmo ninguém que habita o homem só com o seu corpo). (p. 21)

 

A poesia de Wesley Peres é, portanto, anti-mágica e anti-lírica. Mas ao mesmo tempo, as pessoas amam, sofrem, desejam, vivem, morrem e formam a teia desejante e coletiva da sociedade ou, no caso do livro em questão, da cidade de Goiânia. E a poesia cética de Wesley Peres se inquieta (se espanta, se comove?) com as paixões humanas e seu desejo de sentido.  O poeta procura, então, expressá-las contra o pano de fundo da perspectiva agnóstica, que não vê na realidade social e biopsíquica do mundo humano nenhum fundamento ou possibilidade de transcendência. É nessa tentativa de exprimir esse desejo de sentido, tão constituinte do humano quanto o seu não sentido, que o autor deixa transbordar um lirismo que o agnosticismo construtor de sua poesia aparentemente não possibilitaria.

Esse transbordamento lírico, embora intenso e carregado de afetos, não descamba para a pieguice ou o confessionalismo, nem mesmo quando o eu lírico se expressa. Talvez porque o fundo agnóstico e o rigor experimental, que constituem o pano de fundo poético do qual o lirismo transborda, tornem impossíveis qualquer espécie de derramamento sentimental. Emergindo do pano de fundo agnóstico, o lirismo perpassa todo o livro (e toda a obra que conheço do autor) e é nítido, por exemplo, no poema em prosa “1987”, um dos pontos altos do livro. Em meio a várias referências intertextuais, como à Lautréamont e Deleuze & Guattari, emerge, de forma comovente, a dor e o sofrimento das vítimas de acidente radioativo:

 

[…] Lautre, era setembro, Lautre, era o sol e era menos de duas décadas para o fim do século. era no Novo Mundo, Lautre, e o mal e o horror amoral e sem nome eviscerou a menina, era o seu cão do terceiro canto, Lautre, sob ordens maldoronianas, o cãoazul m u l t i p l i f l o r a n d o inchando as células multiplicando-as rizomaticamente em era de politicoeconomia e esquizofrenia entrelaçadas. […] (p. 36-37)

 

No trecho acima, a indiferença e o sem sentido do mundo físico e biológico, representados pelo césio em ação no corpo humano, se chocam com o sofrimento físico e psíquico das vítimas – e dos que se compadecem por elas. Contradição expressa em belas e terrificantes metáforas como “cãoazul” e “o mal e o horror amoral e sem nome”. Do fundo agnóstico e indiferente da física e da biologia que constituem o mundo e o homem, emerge o sofrimento e a dor, assim como o desejo de dar sentido a estes afetos e os compartilhar pela comoção. Os poemas do livro encontram-se, portanto, num campo de tensão que oscila entre a percepção do sem sentido da vida e o desejo de sentido, que constituem de forma contraditória o ser humano da modernidade.

O palimpsesto e o origami são metáforas agnósticas do sem sentido do mundo, como já foi dito anteriormente, mas não apenas isso, pois remetem também ao seu oposto, ou seja, ao desejo de sentido. Palimpsesto e origami são, portanto, metáforas da tensão, tão cara ao poeta, entre ausência de sentido e desejo/construção de sentido. Tensão que atravessa a vida humana, suas memórias e a própria escrita poética, que também quer significar o vivido:

 

No palimpsesto da memória fiz dobras em vértice
e horizonte.
e também: ideogramo origamis para
a linguagem que se fala nas ruas sem nome
(p. 62)

 

As sucessivas escritas sobre o pano de fundo insondável do palimpsesto e as intrincadas dobraduras da matéria inerte do origami são (desejos de) construções de sentido que o ser humano empreende, muitas vezes de forma inconsciente, a partir e contra o sem sentido do mundo e da vida. E no trecho acima o poeta nos alerta que sua escrita poética devém como palimpsesto e origami para resgatar e ressignificar a memória. Ora, como nos ensina a psicanálise e a história, a rememoração afetiva e consciente do trauma passado é o fundamento da reconstrução do sentido da vida presente, de uma forma mais sã e humana. Processo de ‘cura’ e humanização que se aplica tanto ao indivíduo quanto à coletividade.

 

Um poema palimpsesto para lembrar de Leide

 

palimpsesto nº 1 para piano e pássaro morto

Era uma vez uma menina. Era uma vez ela e um quarto. Num quarto hospital ela rodeada de bonecas. E o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora. Estava cercada de flores, e depois cercada de chumbo e pedras. Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono. (p. 29)

 

O “era uma vez” do conto de fadas se refere a fatos fantasiosos mas que, em geral, possui um fundo de realidade social, como a fome, os dilemas morais, a sexualidade etc. Ao tentar desvendar o real na origem dos contos, o exegeta se depara com essa realidade difusa que as fábulas significam e ressignificam sem cessar, como num palimpsesto de camadas sucessivas de sentido.

Mas o acontecimento do poema acima, a morte de Leide das Neves, não é fantasioso nem indeterminado socialmente, e mesmo assim o autor se refere a ele com um “era uma vez”. Talvez esse recurso à retórica da fábula denuncie um esforço da sociedade em esquecer (indeterminar) o acidente radioativo e suas vítimas, ou talvez porque mesmo o mais documentado dos fatos, quando rememorado, acaba por se turvar e se misturar à imaginação. Rememorar, portanto, não deixa de ser um ato de ressignificação, sempre, ainda mais quando se trata de uma memória traumática que se quer esquecer.

Então, o poema rememorativo é uma camada significante a mais e em meio ao palimpsesto de sentidos que todo ato lembrado (e esquecido) é. O “era uma vez” do poeta nos alerta que lembrar, mesmo que seja o fato real da morte de Leide, é fabular, ressignificar, construir sentido, um sentido a mais que se acrescenta à multiplicidade irredutível do palimpsesto do que se é narrado/rememorado. E alerta ainda que há uma enorme liberdade em fabular, mesmo sobre, fatos reais. Pode-se escolher esquecer, aludir, refratar, relatar os fatos objetivamente etc. Ou se pode optar por uma lembrança afetiva que reavive o acontecido para que ele nos afete novamente. É este tipo de lembrança que este poema (e todo o livro) procura re-construir, tornando o leitor um contemporâneo e um vizinho da tragédia, como se fôssemos testemunhas do sofrimento de conhecidos nossos.

Assim, o sentido a mais que se fabula, que constrói a partir do “era uma vez” é o da comoção e (porque não?) da compaixão por Leide, acometida do mal amoral, invisível e cego. O poema rememora os dias finais da menina, enclausurada num ‘quarto hospital’, rodeada de bonecas e cercada de flores e doença (“o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora”), e depois cercada de chumbo e pedra. A partir do contato com o césio, a vida de Leide se torna uma sucessão de dor e clausura, até o cerco final da morte, que a encerra num caixão de chumbo dentro de um túmulo de concreto. O procedimento anafórico de repetição de sentidos (num quarto, rodeada, cercada) conduz a fábula, de tom aparentemente singelo, num crescendo espiral de horror até o desfecho trágico.

Ao final do poema, há outros dois tipos de repetições, desta vez sonoras, que são a aliteração em ‘s’ e a assonância em ‘o’: “Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono” [grifo meu]. Um arremate que faz ressoar na matéria-forma sonora do poema a radioatividade do corpo contaminado de Leide e a própria morte. Mal radioativo que persiste mesmo depois da morte: “irradiaria por séculos”. E esse mesmo ressoar sonoro forma, em termos semânticos, uma bela, e trágica, metáfora para a morte: “seco silencioso som do sono”. Não é apenas a radiação, mas também a morte da menina que ressoa (irradia) de forma comovente na sonoridade final do poema.

As repetições do poema (anáfora, aliteração, assonância), bem como o ritmo e a metáfora são procedimentos que dão ao texto o seu aspecto poético, (re)dobrando a linguagem no canto silencioso do poema. Mas a repetição é também um recurso mnemônico, um artifício para o leitor, e o poeta, relembrar o poema, o que ele diz e como o diz. No caso de um poema rememorativo como o “palimpsesto nº 1” – e, na verdade, todo o livro – lembrar do texto é relembrar da vida e da morte de Leide, é explorar suas dobras recalcadas (de origami?), expô-las e ressignificá-las, acrescentando sentidos e afetos a mais no palimpsesto da memória coletiva dos fatos.

O poema (todo o livro) é uma exploração, exposição e ressignificação da memória para resgatar, compreender, se indignar e se comover com o sofrimento da menina, vítima de um mal impessoal e indiferente ao sofrimento: o Césio 137, mas também o Estado e boa parte da sociedade. Essa comoção da rememoração, que nos leva ao compadecimento (padecer junto) para com as vítimas, nos lembra que ainda somos humanos carregados de afetos, lembrança que já nos humaniza em meio à fria impessoalidade do mundo moderno e seus “sólidos mecanismos da cidade goiânia” (p. 43), que quer moldar a existência humana apenas com a razão instrumental dos seres úteis e funcionais.

 

Um livro necessário

 

Nem Goiânia nem o país querem relembrar o acidente radioativo de 1987, mas é necessário remexer essa ferida mal curada da sociedade, que trouxe dor e morte a pessoas simples e sem voz. O livro é uma tentativa de falar, não por, mas junto com essas pessoas e a partir de seu sofrimento que, afinal, é o sofrimento humano diante da doença e da morte, agravado por uma sociedade cuja mecânica fria e utilitária (“as engrenagens da cidade”, p. 24) esquece os desimportantes desde o nascimento e tenta esquecê-los ainda mais quando se tornam um problema para seu funcionamento e sua autoimagem.

Wesley Peres empresta sua voz poética, sua perícia experimental e seus dilemas existenciais e filosóficos para seus concidadãos anônimos que pereceram diante do mal invisível e amoral da radiação. Se a vida humana, em essência, não tem sentido nem fundamento, esse generoso ato de rememorar, se comover e se compadecer pelo outro, e também de se indignar com a indiferença de boa parte da sociedade diante do sofrimento alheio, ato literário-afetivo que é do poeta mas também do leitor, talvez este ato construa para a vida um significado, não metafísico, mas mundano, que faça o ser humano ter sentido não como ser em si transcendental, mas como ser social, fundado no chão histórico do mundo.

Assim, a comoção do autor e do leitor com as vítimas faz com que suas vidas não tenham sido em vão e sem sentido, assim como as nossas. Enquanto guardarmos vivamente na memória a tragédia e os que a sofreram, estaremos salvos, nós e elas, não para o Reino de Deus, mas para a humanidade ‘demasiadamente humana’ do humano, com suas alegrias e sofrimentos, sua fragilidade, finitude, contradições e imperfeições. Salvos como humanos, como seres sociais contra a indiferença da natureza e da sociedade (pós)moderna que nos objetifica e instrumentaliza e, em consequência, nos des-socializa e desumaniza.

 

Wilton Cardoso (Morrinhos/GO,1971). Graduado em Jornalismo (UFG) e doutor em Estudos Literários (UFG). Poeta e ensaísta, publica seus textos em seu blog pessoal. É funcionário público e mora em Goiânia.

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wesley Peres

 

“Angústia”: Claudio Parreira

 

 

tatuagem
sonora nº2 para
criança de seis
anos e oboé

 

……………………….O  HOMEM COISA CÓDIGO  alguma
invertebração   recifra a  angústia  substância  limítrofe
e análoga ao  silencioso  gozo  sonoro   em  sua  morte
instilada  nos poros gemidos  bordas  erógenas  fazem
vibrar os  átomos  até  sangrarem  também  o  lugar do
corpus   da    palavra    minério   inervado  resto  vivo  o
nada   dos  corpos  ancestrais, rastros ventos pássaros
passaram     alando    túmulos    de    cadáveres    vivos:
palavras.   Gerações   passadas  restos  de cotidiano  e
restos     pelos    sonhos    sonoras   vertebrações   em
vértebras  vértices   remoendo o corpo parolando com
a morte esse eutro na sala enquanto o meu pó da pele
ele                     se iluminam de objetos

 

 

 

***

 

 

 

atoms at work

para Campos de Carvalho

 

A maçã sobre a cadeira.
Uma noite, dentro da maçã.
A criança, sequer vê o vento,
senta-se, trincando a noite
da matéria
(Os cães, sim, latem —
..os únicos a escutarem o instante
..em que o mundo se torna o mesmo).

 

Um homem esperando o trem

adivinha a criança

é mais feliz do que o outro
aguardando a eternidade.

 

A chuva imóvel contém
nossos possíveis passos.

A infância é mesmo indestrutível.

 

 

 

***

 

 

 

Poema gerado de implosões  do
Levítico      e      de    impressões
deixadas por haver   acontecido
o que não acontece em Goiânia
1987

 

 

E   ACONTECEU  O  QUE  NÃO  ACONTECE  E  DESCOBRIU-SE   QUE  AS  foices
também  podem    ser      azuis  e   foi um pássaro   amitológico   mortoabertorasgado
pela invisível  lâmina  azul que simulava  cidade  vista  de   cima  e à noite no corpo nu
da mulher  de longos  cabelos   dona  do   pássaro  amitológico   mortoabertorasgado
e  foi   na  cidade  de   sol   sólido  e  em  setembro  e  o sol  sólido  da cidade  e  tudo
permanecia   quando   alguma   pessoa   tocar    em   corpo   morto    ainda   que   não
soubesse,    contudo   será   ele  imundo  e  culpado. Culpada,  esse  o veredicto dado
pelo    polvo   de   mãos   alando   e  espedaçando  lápides  sobre  o  caixão da menina
eviscerada   pelo   azul  que  não  se  vê.   Porém  pode-se  usar da  gordura  de corpo
morto,  e  da  gordura  do   dilacerado  por  feras,  para  toda a obra, mas de nenhuma
maneira   a   comereis.  Invisível   e  sem  cheirodor  esse azul  esse maldororazul  que
captura   vísceras   e   lambe-lambeu   por   dentro  o  corpo  da menina  eviscerada  e
apedrejada    por     vozes     uma    verdadeira    aletria    sonora   corpodecão   outros
vitupérios singulares e  plurais.   E  aquilo  sobre  o   que  cair  alguma   parte   de  seu
corpo morto,  será  imundo;  o  forno  e  o  vaso de barro  serão  quebrados;  imundos
são.  E  quem   comer  do  seu  cadáver lavará as  suas vestes,  e   será  imundo  até  à
tarde; e quem levar o seu   corpo morto  lavará  as  suas vestes  e  será imundo  até  à
tarde.   E   todo   o   homem  entre  os  naturais,   ou   entre   estrangeiros, que comer
corpo  morto  ou  dilacerado,   lavará   as  suas  vestes  e se  banhará com água e será
imundo     até    à   tarde   e   depois   será   limpo.   E  devorada  de  azul  e   pedras  e
vitupérios   tentaram   fazê-la   ela   a  menina  eviscerada  morrer  uma segunda  vez,
assim como Judas  morreu    uma  segunda  morte  ao  trair  Cristo  antes  mesmo  de
morrer  a  primeira.   O  corpo  morto  e  o  dilacerado não comerá, para  que  não   se
contamine com ele.

 

 

 

***

 

 

 

AGORA SÓ ELA E SUA CAMA SÓ ELA  E seu
corpo    decalcado   na   cama.  Fala  decerto a
língua dos  mortos, decerto menos deserta do
que a língua dos  vivos.   Ela,  só,  na casa-de-
receber-enfermos.    Enfermo,   essa   palavra.
Recobre  apascenta a boca da palavra ausente.
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou
a clareza  de seus olhos implodidos densos de
um  imenso sol soletrado pelo calmo ninguém
que habita o homem só com o seu corpo).

 

 

 

***

 

 

 

HOMEM, SUAS MORTES
iluminam Deus e os seus restos.
Guardo-me em qualquer silêncio.
Coleciono matérias.
O corpo é um Deus sem nome.

 

 

 

***

 

 

 

FALAR É OUVIR O VÔO DE UM pássaro que
não  há,   deslocar   Deus  de  casa  e  não dar
nome.  Falar é  experimentar  entre o olho e a
coisa dada  o  que há não há. E o pássaro que
voa, voa na  polpa seca da  chuva  que  aresta
os   sonhos.   Falar   é   haver  morrido,  tocar
outra voz.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Autor de As Pequenas Mortes (Rocco), Casa entre Vértebras (Record), Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo Casa Editorial), dentre outros. Mora em Catalão-GO

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Segredos para dormir:
ouvi um cão orando para as águas;
meditei chamas para entender o rio;
respirei águas e me parti em dois;
de fora desses dois em que me parti, flutua a coisa que sou.
Também foi ela quem me aconselhou a sonhar em terceira
pessoa.
 

 

 

***

 

 

 
Um grito ou um cisco metafísico:
nítidos lábios se pronunciam.
Úmido o olhar de quem venta,
e a carne de quem olha para dentro,
imensa de almas perdidas.
Se tenho boca, é para vesti-la,
se tenho águas, é para falar-me.

 

 

 

***

 

 

 

Quase espuma

 

Breve, poderosa matéria,
metáfora inconsútil de toda
e qualquer coisa
até o não.

Sua carne é o nada, sabe-se,
assim como de ossos d’água é
a musculatura invisível de suas cores.

O vento não a destrói não a sustenta
nem a habita, apesar de que habita
o dentro e o fora dela, pulsando
o imóvel de suas circunferências.

Limítrofe, essa mais efémera coisa eterna,
pois o que é, é da exata nervura
do tempo que a sua esfera encerra.

 

 

 

***

 

 

Não sou eu aquela máquina — sétima meditação

(sobre a Crueldade Impessoal)

 

 

VOZ 1

De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma mísera certeza, é só o que se pede.

VOZ 2

Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar, e um olhar é também a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.

VOZ 1

Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho nada sonoro, pura forma. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.

VOZ 2

Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, os átomos do corpo sangram.

VOZ 1

O corpo sangra, como sangra o cérebro de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.

 

VOZ 2

Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante — um corpo que pensa.

VOZ 1

Não sou eu aquela máquina, digo: esta. Estaquelamáquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Estaquelamáquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios orderam os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.

 

VOZ 2

Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.

Enquanto isso, dois tumores (cada um instalado no corpo de cada

uma das vozes) iniciam os trabalhos, nem lógico, nem ilógico,
…………………………………………………………….apenas iniciam seus trabalhos alheio

 

Wesley Peres, autor de ROMANCE: As Pequenas Mortes (Rocco, 2013), Casa entre Vértebras (Record, 2007), finalista do Prêmio São Paulo 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008. POESIA: Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002).É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril.  Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!

Os Leveiros

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

o que as sereias O disseram. O disseram voz, O disseram peixavesávidas palavras líquidas estruturas, lâmina dáguaçólida, O disseram inscrições no corpo dele, palimpsestensionaram sua carne de açores e penínsulas, O disseram ruídos sutis habitantes da carne do cérebro e O disseram cérberos com plumas e outras figuras de linguagem infernais convexaconcavidades de formações violíneas de mulheres anjas bestiais d´avilas santas desejando travessia da própria carne por setas e cítaras dolorosas alegrias escorrendo pelas coxas adentro aforando as vísceras até dar de beber aos pássaros e a qualquer homem de nome ninguém

 

 

***

 

 

OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM

 

Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.

 

 

***

 

 

Queira chamar esta taça de vinho de presença de Deus ou de o-nada, beba-a assim mesmo, acenda depois um cigarro ou um pássaro, caminhe por uma rua vazia ou pela constelação de letras que compõem o limiar de para-onde a mulher, na mesa ao lado, olha. Mais do que isso, se puder, deixe de lado essas coisas de Deus ou de o-nada, deixe que as palavras pensem, deixe-as em sua liberdade e seu aprisionamento que as unem e as abismam, as palavras. Fazendo isso, é possível que desista dessa história de salvação e, então, poderá beber esta taça de vinho, livrando o vinho (e a taça) de sua necrose-simbolismo-cristão, bebendo esse líquido de igual cor que os mares de Homero, sabendo, assim, que apenas ele lhe dará o gradativo sono, que imita a gradativa morte que experimentamos diariamente sem nos darmos conta disso.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. Em 2014, publicou As pequenas mortes (romance) pela Rocco. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Martelo Casa Editorial)

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

LÍNGUA PAPIRA OU O QUARTO DO CORPO

Wesley Peres  

 

Foto: Kenia Vartan

A palavra erra o corpo;
mesmo nele inscrita,
o corpo, entanto,  não
é ermo de qualquer voz.

Disso nem se adivinha o quaseabismo
entre, no corpo, o que é e o que não é boca.
Mesmo no beijo, há línguas,
o que faz da boca insular
anomalia no monastério-corpo.

Ainda que pulse toda papira
como na suposta poética cabralina
: a palavra em suspensão minéria
arranjada na lei mosaica
exigindo o não
espraiar-se dos olhos:

alguma papila pronuncia o tempo no corpo;

ainda que, na palavra papira,
o corpo sonhe de si se eximir,
conservar-se em  reino minériumano,

na mônada no sonho-linguagem,
há um silêncio irremediável,
ruidoso palatável, quasilha de carne
inóspita no na língua canavial;

disso se adivinha um estranho quarto,
minimenso e brancareia, no qual
corpo e palavra furtam-se,
mutuamente,
desde o final dos tempos.

 

(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Casa Editorial Luminara/Porto Alegre); As pequenas mortes (a sair pela Ed. Rocco))