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138ª Leva - 05/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Wilfredo Lessa Jr.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Futuro do Pretérito

 

Primeiro ia tirar os sapatos. Perderia o medo dos pés sujos e entraria mata adentro, se despojando das roupas até estar nu. Enfrentado o terror da escuridão, o frio, os mosquitos, cobras e o que mais habitara sua insegurança infantil. Seguraria na Jurema, na fé antiga, e ia aprender a se perder de vez.

Viria tarde pra casa, cansado e com fome. Ansioso pelo banho e fazendo as contas pra fechar o mês e poder ir tomar umas caipirinhas na praia, dormir até tarde e lembrar qual a valia daquilo tudo. Entraria no apartamento com um sorriso, contaria uma história e colocaria as mãos nas costas dela, sentindo o cheiro do sono vindouro.

Acenderia a luz da sala. Sentaria na poltrona carrancudo. Três da manhã e ele não atendeu o celular uma única vez. Já teriam conversado longamente sobre ele. Assumiria a responsabilidade dessa vez. Não queria gritos. Queria encarar o idiota olho no olho e saber se estava bem e se tinha comido. Colocaria a sobra de almoço no prato e dentro do microondas.

Compraria seus próprios remédios. Sangue derramando no chão seria muito assustador pra ela. A cena teria de ser de sono. As despedidas e pedidos de desculpas teriam de estar escritos. Toda a operação iria se realizar de forma simples. O momento de ir tão longe quanto necessário pra escapar de si. Imaginaria o reencontro com ele e ia ter certeza que iam faltar dados e o livro do mestre, mas sempre valia mais ter um bom cenário. Teria vários planejados.

Sairia na rua sem avisar. Desligaria o celular. Andaria por horas sem rumo.

 

 

***

 

 

Coleiras

 

Fazia sol na praça. Poucas nuvens no céu, crianças correndo e gritando. Pipoca, algodão doce e aquela quentura gostosa, abrandada pelas folhas das amendoeiras que moravam ali.

Isolda detestava e amava tudo aquilo. Desprezava os guris e suas brincadeiras idiotas, mas amava o efeito que causava neles. Os olhos assustados, o modo como abriam espaço, a sensação de poder mudar o aspecto da praça inteira com sua simples presença. Dela e de Tião.

Dalila era uma linda! Alegre, brincalhona e boba. Só causava medo pelo tamanho. Era uma Fila brasileira imensa… a alegria da fazenda São Ciro. Depois do assalto, veio o medo, veio Conde, o Mastim Napolitano. Grande, severo e bem treinado. Não fez questão de ser mimado ou brincar. Seu trabalho era outro. Dalila tentou mas não conseguiu nada além da cruza. Conde era mesmo europeu.

A ninhada era apenas de três filhotes: duas fêmeas cinzentas (Loli e Poly) e um macho de pêlo negro e cara enrugada. Isolda tinha acabado de debutar seus quinze anos e vovô achou que era melhor dar um cachorro, que era de graça, do que um celular.

Isolda olhou para os cães com um desdém completo. Eram fofos, mas preferia tê-los como brinquedos da fazenda do que se encarregar dos cuidados, xixis e cocôs. Sua mãe ia encher pra que fosse ela, e não Neide, que fosse responsável pelo bicho. Ponderava a desculpa ideal pra se manter nas graças de vóvis e conseguir ao menos metade das parcelas do iPhone, que dinda cobriria o resto. Foi quando percebeu que Tião rosnava para as irmãs. Pegou ele no colo e foi amor derramando no chão.

Isolda treinou Tião com afinco naqueles três anos. Na disciplina cruel que só uma adolescente é capaz. Carinhos imensos e punições geladas. Era como se Tião tivesse de agradar duas donas diferentes, mas que cheiravam do mesmo jeito. Tião se tornou assustador, feroz e tenso. O corpanzil parecia ainda maior com a pelagem e os dentes brancos que brotavam da boca negra eram saídos de um conto de lobisomem.

Nem a mãe, nem o pai e nem Neide eram capazes de cuidar de Tião, mas era Isolda chegar e Tião se derretia em pulos e rosnados. Isolda permitia exatamente vinte segundos de afagos. No olhar, num simples olhar, Tião ficava teso. Estático e firme, sentado nas patas traseiras, olhando em súplica. Babando e esperando.

Tião ouvia os passos dela pela sala. Já havia compreendido todo o ritual. Podia sentir o cheiro dela mesmo do quintal. Ela tomaria banho e sairia com a coleira na mão. Era uma peça de couro firme, grossa e com três fechos de metal prateado e polido. Ligado a ela, uma corrente fina mas muito sólida. Não importava o quanto fosse difícil, tinha de se conter e esperar que ela prendesse a coleira no seu pescoço. Toda aquela ânsia de latir, morder e correr precisava ficar presa até a praça.

Isolda segura Tião com pulso firme. Sabe que ele jamais se afastaria dela pra morder ninguém. Mas eles não sabem, e é uma delícia. Tião rosna e ruge. Suas ameaças estrondam pela praça e todos os olhos estão em Isolda. Vestido florido, cabelo de presilha e óculos de menina estudiosa. Um contraste adorável. Tão adorável quanto a ausência da calcinha.

Isolda tinha mesmo algum poder.

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

ADRIANA CALCANHOTTO – SÓ

 

 

A ano era 1992, eu voltava de Itabuna de carro para Ilhéus. A recém-lançada Morena FM tinha se tornado minha predileta por trazer uma “nova música brasileira”, ou seja, me apresentava  novas vozes em faixas não necessariamente de trabalho, com cuidado e boas sacadas. Os primeiros acordes de “Esquadros”, do disco “Senhas”, invadiram o carro e numa era pré-smartphone você tinha de ouvir a música e pedir a Deus que o locutor dissesse o nome do autor/faixa ao fim do bloco, e não no início (doces angústias). Adriana Calcanhotto se tornou uma das musas dos meus 90 e de quatro discos que nunca deixei (Senhas, A fábrica do poema, Marítimo e Partimpim). Esse ano me vi reencontrando naqueles discos um alento, doses de nostalgia contra a ansiedade.

Adriana lançou recentemente o disco “Só”, e aborda a solidão, a política e agruras desses dias. Um trabalho minimalista e marcado pela voz, ora suplicante, ora contemplativa que flutua e traz à tona muito daquilo que me fez manter “Esquadros” em todas as minhas playlists.

Faixa a faixa:

Abrimos com “Ninguém na Rua” – tambores fazendo ponto, leves, eletrônicos e aludindo ao mesmo tempo ao funk e à marcha, ruas desertas, saudades e a dor da distância de quem se quer.

“Era só” – balada agridoce, piano bar, luz incidental e doses fortes de dor on the rocks. “Gostar de gostar de gostar de você” é o tipo de indulgência que só é possível pra quem tem cotovelo dolorido.

“Eu vi você sambar” – como que para desfazer a fossa da faixa anterior, essa tem aquele típico samba/pop que faz as perninhas mexerem por baixo da mesa, clima solar, e uma história de paixão fulminante e esperançosa. Devia vir com a caipirinha pra mesa na mesa.

“O que temos” – faixa que traz o papo sobre o agora pra frente “… o que temos são janelas/panelas…”, beat seco, piano, guitarras e sample de panelas sendo batidas. “Janela indiscreta” de Hitchcock encontra “Pelas tabelas” de Chico Buarque. Necessário.

 

Adriana Calcanhotto / Foto: reprodução instagram

 

“Sol Quadrado” – partido alto, também muito próxima de Chico, principalmente na construção, faixa sem nome aos bois que refere até o gado. Quem planta, colhe.

“Tive notícias” – mais uma balada, voz e violão numa intimidade de pé de ouvido. O tema da distância (“… coração de quarentena.”) traz o amor partido e que escondemos até de nós mesmos.

“Lembrando da Estrada” – foxtrot de bongô e guitarras no molho que nos joga na saudade das estradas, da mobilidade e também na viagem interna advinda da reclusão, as estradas que elevam pra dentro e nos forçam a abandonar as bagagens que já não cabem nas nossas vidas.

“Banda Lê Lê” – funkinho divertido, que seria uma dessas “bônus” nos antigos cds. Deu vontade de ouvir um disco inteiro dela com base eletrônica (funk, trap e house).

“Corre o Munda” – muito legal que num disco tão intrinsecamente atual, AC escolha uma homenagem a Coimbra, essa Europa possível vista como fuga para tantos de nós.  Presos em nossos apartamentos, batendo panelas e cheios de medo e saudades.

Este é um belo trabalho, com as sacadas inteligentes e sentimentos que vão se tornando mais visíveis a cada audição. Senti falta de arranjos e de riscos, coisa que ela sempre teve. É uma dose homeopática de uma grande artista. Te faz bem, mas também te faz perguntar: “Só?”

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

PEARL JAM – GIGATON

 

 

O grunge morreu. De overdose, de velhice, de Boy Band. Ainda assim, permanece imantado a nossa realidade cultural, seja na imagem de Cobain, seja nas playlists de Rock n’ Roll (onde virou clássico, que horror!).  A única banda dessa geração que nunca parou foi o Pearl Jam. Cada vez mais longe dos  seus próprios clássicos (Ten, Versus e Vitalogy)  e mais próxima de New Young, tanto na excelência quanto  no desapego ao passado, em se tratando dos discos. Só por isso eles já merecem palmas.

Gigaton (2020) é um disco que se aproxima muito de Bruce Springsteen fase “Lucky Town” (1992). É um disco de 12 canções em que Eddie Vedder fala sobre tudo (política, machismo etc.) sem abandonar um certo messianismo e aquela autoanálise autoindulgente que pode soar totalmente mala, mas também vale pra boomer se sentir o próprio (quem? eu…?).

Faixa a faixa:

1- Who ever said – se você já ouviu PJ, você já ouviu essa, tem todas as convenções, mudanças melódicas e tals . Traz já de cara uma letra olhando pra dentro. Num mundo de incertezas e inércia, de verdades distorcidas e doloridas, pra que o Rock? Resposta, pra ter “Satisfaction”.

2- Superblood Wolfmoon – essa pra mim deveria abrir o disco, rápida, agressiva e um tanto polêmica. É a faixa “me too” dos caras, onde Eddie não só faz uma autocrítica, mas também manda descer do pedestal. Ele fala de um homem acuado, irritado e culpado, que ainda não sabe como lidar com  a “loba” na lua cheia.

3- Dance of the Clairvoyants – faixa de lançamento, causou uma comoção entre os fãs que acharam muito “eletrônica”, mas a mim veio “Cannonball”, do Breeders,  e  “Ulysses”, do Franz Ferdinand, no refrão. Mais temas de confusão e angústia em relação a uma modernidade que não veio pra resolver, mas pra piorar.

4- Quick Scape – fazia tempo que eu não ouvia uma faixa tão Zeppelin dos caras, seja nas guitarras, na cozinha ou no refrão. A letra,  bem anti-trump, justifica sua “saída rápida” pra arrumar as ideias no meio dessa lama. Sugiro umas cervejinhas ou um chá.

 

Foto: divulgação

 

5- Alright – Essa é tão neo hippie que exala patchouli. Discursinho tirado a U2 tentando mostrar que se importa. Não, obrigado!

6- Seven O’Clock – Bruce Springsteen devia cobrar direitos autorais por essa. Panfletária (Trump escroto!), funciona muito porque o estribilho faz tudo soar sincero.

7- Never Destination – outra das minhas preferidas, direta, reta e energética. Muito legal pensar que uma banda com esse tempo de estrada ainda soa tão crua quando quer.

8- Take the Long Way – tem um riff quebrado muito interessante, me lembra  “Life Wasted” na melodia, desce redondo e não desanima.

9- Bucle Up –  faixa passável, passe pra próxima.

10- Comes then Goes – melhor balada do disco, de longe. Violão de cordas de aço, sempre roqueiros. Influência Country sem soar mala, uma das coisas que o PJ sabe bem.

11- Retrograde – aposto que essa foi encomendada para o vídeo do Partido Democrata, messianismo embalado a vácuo. Boa pra Ioga de manhã cedo. Amanhã eu começo, tá?

12- River Cross – segunda faixa roubada do “Boss”, última do disco, uma súplica por luz em tempos sombrios, não funcionou pra mim, mas talvez vire a sua “música da crise”.  Se cuida. Tamo junto.

O disco funciona, seja pra quem é fã, porque não foge muito do som deles, seja pra quem quer ouvir um disco de rock que trate do estado atual das coisas sem querer lhe dizer o que fazer, mas perguntando por que fazer. Pearl Jam ainda me causa um certo orgulho, boomer nostálgico que sou.

 

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

KANYE WEST – JESUS IS KING

 

 

Kanye West é o mais importante artista para compreender o nosso tempo, uma controvérsia ambulante, o supremo idiota, gênio multimídia, trendsetter supreme, traíra, tudo ao mesmo tempo. Ye é o hip hop (dividido entre ativismo e o bling), é  o “palmiteiro mor” que pegou a Kardashian  da sex tape e casou. É o cara que pulou de Nike para Adidas e criou a percepção da Sneaker Culture pro mainstream. Sem ele não haveria Drake  e dezenas de outros. O rapper não gangsta que dividiu um disco com Jay Z e o traiu, o homem negro que admite seus problemas mentais, que chora em praça pública, que se diz Deus e põe o boné do Trump. Judas, Exu e Hermes ao mesmo tempo. Kanye é o troll  do século.

No meio de mais uma reinvenção, ele volta à sua Chicago natal e começa a fazer missas cantadas nas igrejas locais. Cercado de ótimos músicos e um coral, vai  de  Gospel (raiz da música negra americana, fonte de Aretha e Sly, entre tantos outros), atitude recebida com cinismo e desconfiança por parte dos  fãs e críticos (me incluo aqui). Resisti a ouvir Jesus is King, mas a curiosidade venceu o ranço e o disco é tão gostoso, tão… pop que tocaria em qualquer lugarzinho “muderno” sem que se note sua temática, afinal, gospel por aqui soa chato e careta.

 

Foto: : Kevin Winter

 

O álbum abre com “Every Hour”, a faixa mais típica do Gospel, uma “abertura de terreiro” com o coral e a vibe da Igreja negra dos Blues brothers, faixa curta e que te coloca no mindset das intenções do disco. Em seguida, temos “Selah”, com seu órgão, e onde Kanye começa seu sermão com a frase “… God is king, we the soldiers…”, evocando grandeza e a beleza clássica. Quando o coral entra nos “Aleluia! Aleluia!”, esperei o beat dropar e a gente cair num house. Mas ele vai de colagem e deixa esse crescendo tomar conta, faixa poderosa.

Em “Follow God”, um rap com um flow estrito e direto, daqueles pra tocar no carro ou no fone saindo para a batalha, daqueles que movem o peão.  “Closed on sunday”, canção leve com cordas, baixo pesado e aquela sensação de oitenticidade que Ye capta desde faixas como “Get by”, que ele produziu para Talib Kweli, citando o Chick a Filet, rede fast food de donos evangélicos (polêmica calculada), na qual o tema é  o amor e a família. “On God” é mais uma faixa altamente influenciada pelos 80 com seu tecladinho fazendo uma base e bateria eletrônica, caberia no Arcade Fire fácil.

“Everything we need” (com Ty Dolla $ign e  Ant Clemons), outro rap com lindos vocais de Clemons e  Ty, é curtinha (uma característica do disco, que foge da estrutura do Gospel e se integra ao déficit de atenção do nosso ambiente hiperconectado), tem batida trap e uma mensagem de gratidão. Em “Water” (com Ant Clemons), Kanye se utiliza da imagem da água, tanto como símbolo da uma pureza batismal, como da nossa busca com o cloro (elemento externo) por essa mesma pureza, faixa que evoca  e reafirma o disco como pop fundamentalmente. Por sua vez, “God is” remete ao início do disco, a canção é um soul puro, soa como  “Crazy” do Gnarls Barkeley, podia ser cantada pela Amy Winehouse e tocada pelo Dap kings, básica e focada na emoção tosca da voz de Ye.

 

Foto: Rich Fury

 

Em “Hands On”, voltamos ao ano de 2019, com o vocoder e Ye soltando os versos calmamente, indiciando os supostos “cristãos” que julgam primeiro. Mas na suave, claro. Na canção “Use this Gospel”, Ye reforma os mesmos teclados e convenções do seu último disco, com Pusha T tacando os versos com força em contraste com o minimalismo. É “Jesus is Lord” que fecha o disco numa coda imensa, hora dos abraços.

Gospel é Bob Marley, Bob Dylan (fase linda) e Take 6. Kanye traz o gênero pro século 21, explorando os temas que já trabalhava desde seu disco passado (insegurança emocional, solidão no sucesso etc.) e resolve seus medos tão nossos, com uma simples fórmula: Louvor + Humildade = terapia.

Não sei se essa fórmula funciona, se é um golpe de pastor, mas sei que funciona nos ouvidos e que o Papa é pop…

 

 

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

THE CHEMICAL BROTHERS – NO GEOGRAPHY

 

 

A palavra “nostalgia” tem a sua origem no grego “NOSTOS”, “volta para casa”, acrescido ao vocábulo “ALGOS”, que por sua vez significa “dor”. Na Grécia Antiga, a palavra designava a dor que atingia aqueles que realizavam longas viagens.

Atualmente, entende-se por nostalgia “o estado de profunda tristeza causado pela falta de alguma coisa”. Essa definição encapsula minha relação com a música eletrônica produzida nos 90. The Chemical Brothers lançou Dig your own hole em 1997, eu tinha 23 com cabeça de 19 e o futuro era ditado pela Inglaterra, não mais no senso de um império econômico, mas na ponta da inovação musical. Jungle, Trance, Trip Hop e a cultura rave (Peace, love and unity, novas drogas, piercings na sobrancelha e noites sem fim) apontavam para um futuro hippie cínico, movido por fora do establishment que seria muito mais inclusivo, uma revolução sem violência, em que as individualidades eram respeitadas e os beats surpreendentes. Toda “dance music” fora desse escopo era “poperô” (uma brincadeira cruel com os versos de “Pump it up” do Technotronic), o velho, o chato e passado como a danceteria de anos antes. O Chemical tinha os melhores clipes, que aludiam às sensações de consumo de ecstasy, cheios de referências e com gente linda vestida para ditar um padrão estético que significava inconformismo e fofura (muito Adidas e temas infantis). A internet engatinhava no Brasil, mas o ICQ já era febre do povinho e o senso de globalismo batia em nossas portas. Tudo prometia.

Claro que tudo mudou, melhorou muito, piorou muito e 2019 tem cara de retrocesso para quem ama liberdade nessas plagas. Nesse roteiro, me senti intensamente interessado em descobrir se o novo álbum do The Chemical Brothers, No geography, seria capaz de achar minha rave de 97 ou propor uma nova.

 

O duo The Chemical Brothers / Foto: divulgação

 

O disco abre com “Eve of destruction”. A faixa tem vocais femininos modulados e robóticos e uma sensação retrô, mas não aquela de 1997, mas de 1992, a la Change on me de Cynthia. Poperô roots, ao menos a transição para a segunda faixa, “Bango”, é feita numa colagem que parece uma das famosas mega mix da rádio Manchete RJ (salve, Dj Lúcio!). O breakbeat de “Bango” é puro desperdício, mais uma colagem, e entramos em “No geography” com uma voz masculina coberta em phaser que avisa que se quisermos deixar tudo para trás, eles no levam. Com esse som tocando no carro de fuga, eu prefiro ir sozinho. Faixa autoindulgente e sem nenhuma surpresa, me vi na esteira da academia. Chega “Got to keep on”, que me lembra “Get Lucky”, do Daft Punk, pelo beat e vocais baseados em disco, mas sem nenhum brilho próprio. A rave vai cada vez mais ficando com cara de poperô de festa de debutante.

“Gravity Drops” acontece trazendo electro em beat sincopado que tem um clima de doce batendo e graves profundos. Ainda não dá para esquecer o início frau, mas já abre um pouco a mente. Peço que São Keith Flint nos traga melhores faixas daqui para frente. Sou prontamente atendido por “The Universe sent me” na voz de Aurora (cantora Norueguesa), e uma house com cordas é pontuada por uma mistura de colagens que traz melancolia e tensão num equilíbrio que só a música eletrônica é capaz. A faixa se expande e respira num crescendo doce. Aurora tem razão: “… I cave in”. Agora bateu. Dali andamos para “We’ve Got to try”, que soa como o Crystal Method (duo americano de música eletrônica, sempre considerado uma versão poperô do Chemical), ironia level hard.

“Free yourself” traz Beth Orthon e, apesar de não haver nada de muito novo acontecendo, é o tipo de faixa que o Chemical faz há 20 anos, sessão de power ioga com muito açaí. Dali pulamos para MAH (Mad as Hell), com outras das marcas dos caras, vocal black 70 remodelado para um beat frenético e uma transição para a house europeia, indo e voltando. Funcionaria em qualquer set para o DJ pegar mais uma água. O álbum fecha com “Catch me i’m falling”. Parece algo que David Guetta faria tentando ser o Chemical, com seus vocais cheios de emoções forçadas e de falsa sensibilidade, além do clichê nos beats. Bom, recomendo que você ponha Dig your own Hole de volta na playlist. Foi o que eu fiz.

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.