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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Yasmin Nigri

 

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Foto: Milton Boeira

 

Mais forte que o açoite dos feitores

 

Uma sombra vespertina me contagia
Não se trata de mandar ou não notícias
O único modo de governar cada brecha
Desse tempo falho é interrompendo-o
Minha boca é morada ácida
Quero uma figueira sem pássaros
Para gozar dos frutos e anseios
De querer ser grande
A colher já não cabe no bule
Sua espada já não cabe em meu ventre
E atravessa cortando sua manhã
Perpassa grades
Parte chaves
Assim invisível incorpórea
Vou ao termo
Posto de pé o próprio amor inflamado
Vai a pique
Você se queima
Mas sou eu quem sai ferida

 

 
***

 

 

Até que a fenda desabe

 

Movida por invisíveis galopes
Busca agônica pelo divino
Dentro de mim tudo é tão apertado
Espaço de mundo imenso
Onde me sinto cercada
Você carvalho e seiva
Labaredas em trânsito
Fogo incontido lambendo o peito e tudo
Ripa seca enquanto seus gumes
Inscrevem em mim o impossível:
Aquele que não para de se não inscrever

 

 

***

 

 

De algum modo próximos de algum modo isolados

 

“Onde não puderes amar não te demores”

 

Cada um demonstra amor
À sua maneira
Se o meu ressoa em você
Como trovoada
Inverno noite ou relâmpago
Então me amar não deve ser
Trabalho fácil
Enquanto você se esforça
Quero apenas me demorar
Na sua pele
Celebrar nossa fertilidade
Inventar novos modos
De ser no mundo
Lado a lado
Assistir aos teus cabelos secarem
Compartilhando planos e projetos
Imagino que o futuro a dois
Seja uma felicidade irrecusável
Sentimento doce
Que ressoe azul
Solar e morno
Meu amor,
Aproxima-se e vê
Ou as coisas são claras
Ou não são

 

 
***

 

 

Gaslighting

 
I
Hoje é dia de festa no céu do útero
Ser deposta do trono
Eletrocutada
Catapultada
De mim

 
II
Esse amor
Um luxo
Agua translúcida de Bora Bora
Acalenta e aquece
Enquanto me afogo à deriva
Nessa vista linda e estéril

 
III
Por vezes confiante
Outras tantas catastrófica
Nesse terreno inóspito

 
IV
Nada me consola e seu toque me causa repulsa
Engulo a colher de sopa levada à boca
Sequer gosto de sopa
Talvez eu goste e não saiba
Talvez odeie
De todo modo permaneço engolindo

 
V
Contemplo as ilhas da Polinésia
Lágrima após lágrima
Endureço
Seu sorriso me quebra
Até quando?

 
VI
Me posto exausta em seus lábios
Prenda de gosto agridoce

 
VII
Se ao menos a língua rompesse a barragem desse oceano
Permaneço inavegável

 
VIII
Nesse desejo
Reside a promessa
Vindoura
De um gozo
Que a cada vez
É negado

 
IX
O que em mim se fecha ao seu mais leve toque se te amo?

 
X
Nem sempre o não demarca o fim
Acendo a lamparina
E permanece escuro

 

 
***

 

 

Síndrome de Manoel de Barros

 

Começou no vigésimo quarto aniversário
Apequenei-me de imensidões
Deu furo o meu vazio
Repleta de imanências
Passei a desperdiçar fala
Ocupei-me em desconhecer coisas e seres
Desletrei-me
(Ainda assim chamejava luxúria)
Colecionei desutilidades
Varada de acúmulos
Imprestável para o silêncio
Pessoa apropriada para nadas
Abandonada por dentro e por fora
Preteri ser gente
Pra andar com os bichos
Devotei-me às borboletas que devotam túmulos
Quis ser túmulo
Não sendo pessoa subterrânea
Tentei árvore
Depois ninho
Também não funcionei pra madeira
Ou verso de folha
Tentei pedra
Não fui comum com pedras também
Assumi compostura de água
Me acomodei incolor que é mais que infinito
Haveria de ficar no concluir das águas
Que pra mim tinha sentimento longínquo
Ampliava solidão
De coisa esquecida na terra

 

 

***

 

 

Um poema para Angélica Freitas

 

Uma mulher sem qualidades

Cozinha em tramontinas descascadas

Especialista em largar panelas no fogo

Foi abandonada

No 109º dia de casamento

Ao jogar água fervente com sapólio

Na cara do macho escroto

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos audiovisuais e performance.

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109ª Leva - 03/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

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Arte: Helena Barbagelata

Anda nas bocas ultimamente a palavra democracia. E ficamos a refletir em que medida o exercício da liberdade de pensamento encontra real abrigo nesse estado de coisas. Nossas mazelas são históricas e remontam à origem da nação? Está tudo tão definitivamente entranhado em nossas práticas cotidianas a ponto de ser difícil extirpar os equívocos? Afinal, temos verdadeiramente um rosto? São indagações que permeiam o momento presente da nossa conturbada nação de proporções continentais. Embora um sistema democrático não esteja livre de falhas e imperfeições, ele ainda parece um caminho bastante razoável no que se refere ao perseguido equilíbrio entre direitos e deveres. Nesse ambiente, a não uniformidade das posições é um elemento que impulsiona o funcionamento das relações. O antagonismo de opiniões é necessário na medida em que nos auxilia na busca pela afirmação de uma identidade. Do mesmo modo, determinismos em nada parecem contribuir para a evolução de uma dada sociedade. Nada é absoluto, nem mesmo os tão consagrados direitos que se pretendem fundamentais. Do convívio com nossos pares é que se materializa a necessidade dos equilíbrios. É quando as diferenças afloram e só são realmente valiosas se aproveitadas num sadio debate de ideias. Eis o melhor combate: o das palavras. No território das ações culturais, pensar diferente também encerra sua devida contribuição. Vejamos, pois, quantas são as mais diversificadas acepções de conteúdos. Seja na literatura e nas artes em geral, criadores e receptores podem se entender mesmo quando adotem modos opostos de vivência das obras. E é justamente essa não conformidade que faz com que as experiências tidas, a partir das searas culturais, sejam tão importantes. No seu ideal de diversidade, nossa revista sempre procurou, dentro da percepção de critérios de qualidade, conceder espaço às mais distintas e variadas vozes. O resultado é notadamente significativo, tendo em vista que hoje agregamos um vivo coletivo de expressões. Tudo isso posto, os caminhos editoriais aqui continuam a perseguir a pluralidade. Assim sendo, vêm à baila as intervenções poéticas de José Carlos Brandão, Adriana Versiani, Yasmin Nigri, Rodrigo Melo e Patrícia Laura. Expondo um pouco de sua trajetória entre a prosa e a poesia, o escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues é nosso atual entrevistado. Renato Tardivo escreve sobre o novo livro de poemas de Valerio OliveiraLarissa Mendes traz até nós o resultado das escutas do mais recente disco de Clarice Falcão. Nas alamedas da prosa, estão os contos de Tom Correia, Priscila Merizzio e Herculano Neto. Para falar sobre a mais nova investida cinematográfica do diretor Quentin Tarantino, o filme “Os Oito Odiados”, Guilherme Preger divide conosco sua aprofundada análise. É o texto de Sérgio Tavares quem nos apresenta o romance de estreia de Caco Ishak. E em meio a tantas rotas por aqui agora apresentadas, a arte da portuguesa Helena Barbagelata harmoniza espaços feitos de realidade e imaginação. Por tudo isso, vale a pena lutar. O ambiente democrático que se deseja no prisma cultural é todo aquele universo no qual faça morada a multiplicidade de epifanias. Feita especialmente para você, caro (a) leitor (a), eis a 109ª Leva!

 

Os Leveiros

 

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109ª Leva - 03/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Yasmin Nigri

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Sobre isto, meu corpo não cansa

 
Contornando trilhos que nunca cicatrizam
Nessa eterna manobra

Descubro que se lhes torço
O cenho com ar zombeteiro
Suas lanças caem

Por isso não mais desvio dos gatos pretos
Inquisidores
Ou desse Outro por quem vocês se passam

Escrevo como quem ruma a país distante
E dá meia volta

Só minhas irmãs entenderão

As que se sabem condenadas
À solidão do próprio útero

Que em torno dessa fogueira
Deram as mãos

E hoje rodam com pés emprestados
De nossas ancestrais

 

 

 

***

 

 

 

Não há mais lugar sem ecos

 
Nessa ânsia por decompor imagens
Lanço a mágoa em plano véu

Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem

Continuo percorrendo as estações
Cada uma me impele às alturas

E precipito a queda
Vertigem de abismos mancos

Nem as plantas de tão seca fibra sentem sua ausência

Despedaço livros
Arremesso louças
Parto colunas

Para irromper meu mundo do seu corpo
Em mundo menos restrito e mais amplo

Se ao menos pudesse estar onde não mais venho ouvir sua voz

Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem
Não há mais lugar sem ecos

 

 

 

***

 

 
Este obscuro objeto do desejo

 
Não bastasse entrelaçados
Você desata

Tentei manter a testa imóvel
Não franzir o cenho

Dar de ombros
Soltar um longo suspiro

Nada que pudesse revelar
Este assombramento

À espera do sono
Onde sonho e realidade convergem
Para que se repare o dano

Antes que assente fundo
Antes que os perseguidores possam reclamá-lo

Preciso fosse, escreveria ao mofo das paredes, preciso fosse,
__________.

Então você chega
E traz consigo tudo que a aurora dispersou

Envolve meu ventre com
O delicado manto que sai da sua pele
E deita ao meu lado o segundo astro que veste a cidade

 

 

 

***

 

 

 

CID 10 – S91.3

 

Em delírio fui copo

À espera do teu juízo

Fui esquecida

Largada no quarto

Durante sua festa

Virei cinzeiro

Estive imóvel e atenta

À espera do seu chute

Cortei seu pé

Fiz sangrar

Causei toda sorte de infortúnios

Da dor

Ao tétano

Nem cruzes ou credos puderam dar cabo

Até seu pé ser amputado

 

 

 

***

 

 

 

Escrevo para te dizer que não tem acontecido nada e passo os dias tomando café ao som do Estrangeiro e tenho procurado emprego e não recebido resposta e tenho prorrogado comprar uma garrafa térmica porque derrubei a antiga e faço aqui uma pequena ressalva: tenho tomado café frio. Quem virá com a nova brisa que penetra pelas frestas do meu ninho quem insiste em anunciar-se no desejo? Toda semana decido ir diante da tua árvore para conversarmos a sós e lembro que tal árvore não existe apenas em algum poema que li e pensei que seria útil se você também tivesse uma e eu pudesse usar uns tempos verbais antiquados pra falar da tua árvore e como me prostro diante do teu signo e sinto tua vida pulsando na sola dos pés. Escrevo para anunciar o desejo que me mandes um mapa ou pergaminho falso para que o tempo aqui passe menos vagaroso e tenha algo para me entreter, tal como Sísifo.

 

Yasmin Nigri (1990), carioca, é graduada em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense. Cursa atualmente o mestrado na linha de Estética e Filosofia da arte. Feminista, cofundadora e integrante do coletivo DISK MUSA, grupo de mulheres que alia poesia e ativismo na produção de conteúdo áudio visual e performance. Montou sua primeira exposição com o coletivo DISK MUSA no final de 2015. É membro da Oficina Experimental de Poesia, que acontece toda quarta-feira, no Méier. Tem poemas publicados nas revistas mallarmargens, escamandro, germina e jornal relevO.