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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcio Leitão

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Avesso

 

Na luta feita de pó
Todos os dias
Prometo cura
Por sobre meus ombros

Todo dia contagio
A liga delicada
Dos sonhos e dos dentes
Mas a tontura do corpo
O sol se franzindo
Devagar
Os ossos roendo
A carne
As carnes
Cavando
Os ossos
E o zumbido
Vívido
De marte
Não silenciam nunca.

Adoecer
É como rasgar o ventre
No meio
Da vida
Tentando escorrer
Por sobre a falta
Cotidiana
Dos sentidos.

 

 

***

 

 

Coro

 

Perfilados
Artífices
De notas
Que roem
Cada caule
Nosso
Que cospe
No céu

Embriagados
De perfeição
Cantam
As pétalas
Anoitecidas
Sem nenhum
Gole
De um tempo
Gordo
E moído.

Só líquidos
Inundam o ar
E os estômagos
Pás se levantam
E cobrem
Os cortes
Sem capuz
Que só lambem
O Canto do mármore
E das costelas.

 

 

***

 

 

Se duas toalhas…

 

Se duas toalhas
se entrelaçam
Molhadas com o prazer
das sombras que enxugaram
Nelas há algo de carne e espuma
De resto e de rosto.
Nelas convergem-se olhares
Perdidos de seus olhos,
Caídos de seus ventres.
As toalhas completam o balé
Das formas
Assim como um talho humano
Completa as almas.

 

 

***

 

 

Como?

 

Como prever a medida das distâncias
sem que ande por algum caminho?

Como perceber as luzes que brilham pouco
se a nova lua que não se faz redonda,
se faz presente no mistério?

Como chorar procurando um desabafo de cores
se todos os choros são vestígios
que reconstroem o triste arco-íris?

Como encontrar a direção
se todas as direções são ilusões,
miragens de caminhos solitários?

Como perder as amarras
se todos os passos tocam o chão
e sentem o perfume das correntes?

Como envolver os pássaros
que ainda pousam
se pensam eles ser livres?

Como contar os degraus
se os desníveis estão nos olhares?

Como desperdiçar os segundos
se cada segundo que contas
perdes, apenas, seu tempo?

Como responder essas perguntas
se perguntam para dizer
e não para perguntar?

Como?

 

 

***

 

 

Silêncio na Boca

 

Palavra torta
embaixo da língua
contorce o dorso do céu
palato perdido e surdo
pedido de arranhão velar
pedido de toque ligeiro
de língua sem sapatilhas
dançando no véu inquieto, no céu duro
e no macio dos alvéolos
fazendo chão
o som da minha carne.

Márcio Leitão é professor de Linguística, pesquisador em Psicolinguística (UFPB); tenta entender os processos mentais relacionados à linguagem. Poeta e escritor de livros infantis, escreve pra poder imaginar como é ter liberdade, respirar sem amarras. Escreve também pra se divertir com as palavras e com o que pode construir com elas. É editor da zonadapalavra, onde também publica, geralmente, aos sábados.

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Alberto Bresciani

 

Arte: Cristina Arruda

 

CHOICE

 

Um corpo arrastado
pelo rio
Ainda vivo
esbarrando nas pedras
atravessando a trama
de raízes das margens
Ainda vivo
como se tivesse
guelras

Toca o fundo
Corta os pés o sexo
os joelhos os lábios
Aceita quase o fim
Ouve o chamado
pra voltar
– “entra
tá na hora
já vêm te buscar” –
Vê outra vez
os livros no chão
descrença
brinquedos quebrados
o preto e o branco
Cruz
em cada perda

Então sobe
engole ar arranca ar
Aceita exércitos
invisíveis
palavras de gente distante
curativos nas datas
velhas
Sobe sai da água
tem asas tem forma
tem chave uma porta

E pode
abrir

 

 

***

 

 

FANTASMA

 

Dobrar o lençol
acalma
mas não mata
o fantasma

O abstrato
de seu corpo
é composto
de lembranças

Como líquido
infiltrado nas trincas
paredes

Descendo
pelas torneiras
É rio
É mar

: não se apaga
a memória
da água

 

 

***

 

 

PAZ

 

Atados
à aridez
de fendas rochosas
cactos respiram
sem receio
seus espinhos
sua flor

 

 

***

 

 

AVENTURA

 

Esta é a história
Sim o traçado é sempre
irregular
sobe e cai sem aviso
tudo entre lacunas emboscadas
ou a sorte de um desvio bom

As vozes muitas vezes
são de anjos
(não estranhe desalinho
cabelos revoltos)
Já as unhas outras tantas
de demônios
(atenção a relógios de marca
um certo ingênuo rubor)
Estão todos juntos
sem crachás
na mesma calçada

Assim
muito cuidado
ao escolher o botão
do elevador
O inferno não está mais
só no primeiro
andar

 

 

***

 

 

DEUS DISFARÇADO

 

I

Não seremos
os nomes na árvore
Nem as palavras a lápis
na página do livro

O gosto que sobra
é o silêncio
rasgando a garganta

 

II

É preciso contar
da fuga imensa
pra dentro do corpo

 

III

Esperamos

Quem nos dê um poema
crença alguma alegria

Como um filho
que nasce

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. Poeta e ficcionista, tem trabalhos publicados em jornais e revistas impressas ou virtuais, em portais e blogues da internet. Publicou “Incompleto movimento”, poesia (José Olympio Editora, 2011). Integra a antologia “Hiperconexões – realidade expandida”, poesia (Editora Patuá, 2014). Escreve em Nóstres e em Zonadapalavra.