{"id":10119,"date":"2015-07-07T16:20:01","date_gmt":"2015-07-07T19:20:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10119"},"modified":"2018-12-12T12:27:55","modified_gmt":"2018-12-12T15:27:55","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-36","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-36\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 a inf\u00e2ncia da vida e a inf\u00e2ncia da mem\u00f3ria. A primeira cabe aos vivos, a segunda cabe aos mortos. Todavia n\u00e3o a morte do corpo, a decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, e sim o cumprimento de um est\u00e1gio, o tempo incinerado de uma exist\u00eancia, onde as lembran\u00e7as perdem tiras da sua pele original que s\u00e3o preenchidas pela inven\u00e7\u00e3o. \u201cLugar comum\u201d, seleta de contos com a qual a escritora Nara Vidal estreia na literatura adulta, est\u00e1 repleta dessas recorda\u00e7\u00f5es entretecidas pelo novelo do encantamento que, paradoxalmente, ao se metabolizarem em fic\u00e7\u00e3o, passam a ser os registros mais fi\u00e9is do olhar de uma menina, a que ainda corre descal\u00e7a pelos quintais com cheiro de bolo no interior de Minas Gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconstruir esse mundo, portanto, \u00e9 a forma poss\u00edvel de enxergar o presente, mesmo que o olhar dependa do filtro da escrita, pelo qual a vida vai incorporando detritos de fingimento que desgastam o verniz da realidade. Olhar al\u00e9m de si, al\u00e9m do territ\u00f3rio, al\u00e9m da concretude. Interiorizar-se para ocupar espa\u00e7o. O escritor n\u00e3o deve ser produto do seu meio, mas criar um meio que seja produto da sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nara sabe e trabalha muito bem isso. H\u00e1 cerca de quinze anos residindo fora do Brasil, compreende que a literatura \u00e9 o seu elo com a p\u00e1tria-m\u00e3e. As palavras, que se estrangeiram cotidianamente aos seus ouvidos, resistem em portugu\u00eas no papel, onde tamb\u00e9m ganham relevo dissabores e constata\u00e7\u00f5es despraz\u00edveis da na\u00e7\u00e3o pret\u00e9rita que sequer o desterro pode relevar. Assim, o livro se desenvolve sobre dois eixos de significa\u00e7\u00e3o. As narrativas da crian\u00e7a, edulcoradas por la\u00e7os familiares, pelo passeio por reminisc\u00eancias dotadas de cheiros, sabores e quimeras, e as narrativas da adulta, embebidas por tonaliza\u00e7\u00f5es mais retintas, ora melanc\u00f3licas ora \u00e1speras, o travo do desenfeiti\u00e7amento natural ao caminho rumo \u00e0 finitude, pontuado por perdas, autoenganos e certezas incontorn\u00e1veis. A qualidade liter\u00e1ria, contudo, \u00e9 singular em ambos os casos. O requinte da linguagem, o dom\u00ednio t\u00e9cnico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecida autora de livros infantis, Nara tem plena no\u00e7\u00e3o de que a \u00fanica maneira de conquistar o leitor \u00e9 dizendo a verdade; de modo que entrevist\u00e1-la \u00e9 a oportunidade de ouvir verdades, de todos os tipos e tamanhos. Sem condicionantes e com uma \u201cmineirice inglesa\u201d, ela fala sobre a transi\u00e7\u00e3o do olhar pueril para o adulto, as visita\u00e7\u00f5es \u00e0s mem\u00f3rias, o uso da literatura nas escolas, o conflito entre educa\u00e7\u00e3o e leitura, o mercado e os pr\u00eamios liter\u00e1rios, a import\u00e2ncia do conto, a rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e maternidade e a percep\u00e7\u00e3o estrangeira sobre a literatura brasileira. \u201cExiste interesse, mas at\u00e9 onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como ex\u00f3tico\u201d. Um papo sem lugar-comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15137\" aria-describedby=\"caption-attachment-15137\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15137 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15137\" class=\"wp-caption-text\">Nara Vidal \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na apresenta\u00e7\u00e3o de &#8220;Lugar comum&#8221;, o escritor Alonso Alvarez chega \u00e0\u00a0conclus\u00e3o de que o livro tem &#8220;o gosto de vida&#8221;. Entretanto, \u00e9 uma ideia de vida constru\u00edda atrav\u00e9s de um mosaico de lembran\u00e7as, de pequenos registros de um olhar infantil que naturalmente mistura realidade e fantasia. Voltar a esse tempo n\u00e3o seria mais contar hist\u00f3rias de uma personagem que a da menina Nara?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Gosto muito da ideia embaralhada de fic\u00e7\u00e3o. \u201cLugar Comum\u201d \u00e9 muito pessoal, mas \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Quis muito provocar o meu leitor com esse conceito de sonho, mem\u00f3ria, mentira. Eu sou uma contadora de mentiras. Acho dif\u00edcil relatar um fato sem que ele adquira acess\u00f3rios no meio do caminho e vire uma baita inven\u00e7\u00e3o. A aleatoriedade das hist\u00f3rias no livro tem esse prop\u00f3sito de confundir at\u00e9 certo ponto. Falo muito de mim e falo de quem inventei, essa menina t\u00e3o recorrente dentro da narrativa. Alguns contos escapam claramente da mem\u00f3ria infantil. Foram esses que me deram mais condi\u00e7\u00f5es criativas, feito &#8220;A caminho&#8221;, &#8220;A not\u00edcia&#8221; e &#8220;Vida de escritor&#8221;. Mas mesmo elementos relatados da minha inf\u00e2ncia v\u00eam revestidos do distanciamento do tempo e do lugar. Eu n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de criar esse mosaico de lembran\u00e7as, ao qual voc\u00ea se refere, se n\u00e3o tivesse sa\u00eddo da origem. Falo de um lugar comum mas que n\u00e3o existe mais pra mim porque \u00e9 todo feito de mem\u00f3ria cada vez mais apagada, mais distante, que adquire, portanto, certo romantismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um lugar comum no qual a menina, na casa da av\u00f3, v\u00ea os primos chegarem &#8220;feito torneira aberta&#8221; e, ao lado da irm\u00e3 mais velha, mostra que est\u00e3o ali &#8220;pra brincadeira. Da s\u00e9ria&#8221;, como lido no conto &#8220;O t\u00e1xi&#8221;. A maioria das narrativas \u00e9 mobilizada por esse circuito de passagens, de toques, de cheiros e de sensa\u00e7\u00f5es. A leitura aparece l\u00e1 para o final, contudo focada numa experi\u00eancia marcante, um encontro com um &#8220;livro de gosto ruim&#8221;. Como a literatura surgiu para voc\u00ea e qual foi o grau de contund\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> N\u00e3o sei se sua leitura \u00e9 incrivelmente atenta ou se foi uma coincid\u00eancia levantar o fato do conto &#8220;A leitura&#8221; ser o pen\u00faltimo do livro. Ningu\u00e9m havia notado isso ainda, eu acho. O posicionamento daquela hist\u00f3ria ali, no fim, tem o significado particular e expressa o meu atraso para com a literatura. Enquanto crescia, durante a ditadura dos anos 80, n\u00e3o tive livre acesso aos livros da escola, da biblioteca. A figura da bibliotec\u00e1ria era feito um obst\u00e1culo a ser quebrado. Nada ficava nas nossas m\u00e3os. Escolhas aleat\u00f3rias n\u00e3o eram permitidas. Faixa et\u00e1ria era seguida rigorosamente. Uma professora contava um cap\u00edtulo de um livro uma vez por semana e me lembro disso com gosto. Meus pais, professores, estavam sempre envolvidos com as Letras, mas demorei a pegar gosto, seguir o exemplo. Fiz Letras porque gostava de escrever. Lembro-me das provas e dos livros de provas. Tudo era muito rigoroso, com prop\u00f3sito de notas. N\u00e3o gostava daquele limite. N\u00e3o conseguia sentir prazer naquela rigidez. No entanto, havia ali, do lado de fora da minha casa, no passeio, os casos. De adultos a crian\u00e7as, todos n\u00f3s cont\u00e1vamos hist\u00f3rias e era ali que eu me envolvia com a literatura, com as f\u00e1bulas das quais gostava muito. A hist\u00f3ria, o conto, sempre me interessaram. A leitura da literatura chegou tardia, talvez no segundo grau, quando tinha relativa escolha, mas sempre com o prop\u00f3sito do teste, nunca pelo prazer, pela arte s\u00f3. Na Faculdade de Letras, a literatura veio com for\u00e7a e de maneira irrevers\u00edvel, quando me deparei com professores como Edimilson Pereira, Godofredo de Oliveira Neto, Eucana\u00e3 Ferraz, Ana Cristina Meirelles, Ronaldo Lima Lins e Gloria Sydenstricker. Tudo foi muito impactante para mim e foi ali que disse sim para a literatura com comprometimento, com prazer, com at\u00e9 certa maturidade, j\u00e1 que antes a imposi\u00e7\u00e3o me distra\u00eda e me exclu\u00eda desse envolvimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea cita um equ\u00edvoco que penso preponderante para entender o desinteresse de muitas crian\u00e7as pela literatura: a obriga\u00e7\u00e3o da leitura com o \u00fanico prop\u00f3sito de fazer prova. Isso \u00e9 devastador para a rela\u00e7\u00e3o entre livro e leitor, para o tempo de sedu\u00e7\u00e3o que cabe ao texto. Outro caso \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de obras que n\u00e3o fazem parte do universo da crian\u00e7a, com uma linguagem erudita e temas alheios ao contexto em que vive. Voc\u00ea n\u00e3o acha que, ao inv\u00e9s de fomentar essa ladainha conveniente de que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds de n\u00e3o-leitores, n\u00e3o deveria se repensar o programa escolar, dar-se conta de que autores como E\u00e7a de Queiroz, Alu\u00edsio de Azevedo e Jos\u00e9 de Alencar, embora not\u00e1veis e imprescind\u00edveis, n\u00e3o s\u00e3o os mais adequados para implementar o processo de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura nas escolas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Falar desse assunto \u00e9 o mesmo que mexer numa caixa de marimbondos. \u00c9 um tema pol\u00eamico porque, no geral, a qualidade da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e muitas vezes a particular, \u00e9 prec\u00e1ria. Sem d\u00favida h\u00e1 professores que, al\u00e9m de qualificados, s\u00e3o comprometidos e apaixonados pela sua fun\u00e7\u00e3o. Mas isso \u00e9 raro. Uma profiss\u00e3o maltratada e vista com descaso por todo governo que entra e sai n\u00e3o tem como oferecer qualidade. Esse \u00e9 um dos pontos fundamentais, b\u00e1sicos. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da literatura especificamente, muitas vezes isso ocorre com falhas que s\u00e3o passadas feito heran\u00e7a, feito tradi\u00e7\u00e3o. Eu me lembro muito claramente do dia que fui apresentada a Jos\u00e9 de Alencar e sua Iracema. Batia muito sol na sala e senti uma vontade incontrol\u00e1vel de dormir. Nada do que era dito fazia sentido algum. N\u00f3s, alunos, n\u00e3o t\u00ednhamos refer\u00eancia de nada que se relacionasse com o texto. N\u00e3o sab\u00edamos nem mesmo o que era uma gra\u00fana! Foi uma experi\u00eancia penosa, n\u00e3o menos solene. Eis um dos grandes problemas: a grande literatura \u00e9 apresentada de uma maneira t\u00e3o preciosa, t\u00e3o erudita, que ali mesmo, naquele in\u00edcio j\u00e1 cria distanciamento e exclui muitos leitores. \u00c9 como se aquela experi\u00eancia fosse para poucos e raros. Minha filha, que estuda numa escola p\u00fablica da Inglaterra, j\u00e1 ouviu falar de Shakespeare, Roald Dahl, por exemplo. Mas voc\u00ea veja que nada \u00e9 apresentando de maneira cerimoniosa. Os livros e as hist\u00f3rias desses autores s\u00e3o naturalmente inseridos no dia a dia e identificados e aplicados em assuntos diversos. Depois, mais na frente, v\u00e3o ouvir de novo sobre os mesmos autores e, quem sabe, at\u00e9 ler suas obras na \u00edntegra. A\u00ed, j\u00e1 ter\u00e3o outra bagagem e poder\u00e3o identificar uma leitura diferente daquela de in\u00edcio.\u00a0 H\u00e1 iniciativas no Brasil que tentam implementar planos assim e sinalizar uma mudan\u00e7a. J\u00e1 \u00e9 um passo e tanto pra frente. Eu acredito que seja poss\u00edvel introduzir gentilmente as nossas literaturas brasileira e portuguesa cl\u00e1ssicas aos leitores iniciantes. Mas \u00e9 preciso faz\u00ea-lo com democracia. \u00c9 necess\u00e1ria uma vis\u00e3o al\u00e9m do texto. Propor discuss\u00f5es e temas que cercam &#8220;Iracema&#8221;, por exemplo. Podemos falar do &#8220;descobrimento\/invas\u00e3o portuguesa\u201d. Podemos falar de tribos, l\u00ednguas e culturas ind\u00edgenas. Podemos atrair o leitor e indicar que aquela literatura, mesmo sendo grande e rica, \u00e9 uma leitura acima de tudo e pode ser compreendida porque \u00e9 embasada por elementos que podemos reconhecer no nosso cotidiano. Mas fazer isso sem reconhecer os professores atrav\u00e9s de sal\u00e1rios altos, ou pelo menos justos, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Concordo plenamente. Sem um embasamento contextual, a identifica\u00e7\u00e3o torna-se alheamento e, da\u00ed, as consequ\u00eancias s\u00e3o o desinteresse e o trauma. Contudo, assim como ocorreu comigo, essa experi\u00eancia ruim n\u00e3o arrefeceu a chama da escrita. De onde vem esse desejo de contar hist\u00f3rias, e qual \u00e9 a primeira lembran\u00e7a de ter escrito algo que lhe desse orgulho ou, ao menos, coragem para tornar p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Tenho escrito cada vez mais contos. Tenho muitos na &#8220;gaveta&#8221;. Nos contos gosto tanto da hist\u00f3ria embrulhada neles quanto da passagem de palavra por palavra at\u00e9 o fim. \u00c9 uma atividade que me d\u00e1 muito prazer, escrever contos. Com o livro &#8220;Lugar Comum&#8221;, eu senti vontade de compartilhar as hist\u00f3rias e criei uma p\u00e1gina no Facebook com o mesmo nome. Foi interessante observar as leituras que eram feitas. Mas voc\u00ea mencionou uma palavra importante pra esse processo de escrita e leitura: coragem. Falta-me certa coragem na maioria das vezes e vou te contar que j\u00e1 enviei muito material com pseud\u00f4nimo. O motivo disso \u00e9 inseguran\u00e7a. Inseguran\u00e7a que \u00e9, ali\u00e1s, poderosa ferramenta do escritor. Sem ela n\u00e3o h\u00e1 melhora, n\u00e3o h\u00e1 procura, n\u00e3o h\u00e1 investiga\u00e7\u00e3o nem releitura. J\u00e1 publiquei coisas movidas por pura ansiedade e que n\u00e3o publicaria hoje. Mas n\u00e3o me castigo por isso. Tudo faz parte de um processo e esse \u00e9 o meu. E h\u00e1 coisas que escrevo que sinto vontade de contar. Com coragem, compartilho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Mas voc\u00ea concorda que um autor nunca caminha sozinho? H\u00e1 um dado momento do percurso liter\u00e1rio que a presen\u00e7a de alguns autores consagrados passa a ser fundamental, n\u00e3o como destino, mas feito b\u00fassolas com as quais o texto vai adquirindo compatibilidade, fei\u00e7\u00f5es estruturais, e todo novo livro, de alguma forma, acaba por fazer parte desta gesta\u00e7\u00e3o abstrata, uma am\u00e1lgama de refer\u00eancias de maior ou menor intensidade. Em qual momento voc\u00ea encontrou os escritores que caminham contigo at\u00e9 hoje, e quem s\u00e3o eles?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> De certo! Antes de sermos autores e escritores, somos leitores. Pelo menos deveria ser assim. Eu li uma entrevista do Milton Hatoum em que ele dizia que a meta di\u00e1ria dele era escrever dez linhas e ler cinquenta. Faz todo sentido, n\u00e3o? H\u00e1 muita confus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o escrita, mas continuo achando que a prepara\u00e7\u00e3o para um bom texto precisa ser a leitura, n\u00e3o necessariamente a pr\u00f3pria! Eu tive um per\u00edodo muito ambicioso na faculdade de querer escrever poesia. Lia Baudelaire, Mallarm\u00e9, Florbela Espanca&#8230; Sou apaixonada por Shakespeare, particularmente seu material menos conhecido: os sonetos. Na conclus\u00e3o de qualquer texto meu, tento achar algo aproveit\u00e1vel de forma atemporal. Mesmo que limite per\u00edodos hist\u00f3ricos, o que geralmente acontece, gosto de procurar uma leitura que independa de condi\u00e7\u00f5es. Sou louca por Macbeth. Aquela trag\u00e9dia nunca saiu de moda. H\u00e1 tantas interpreta\u00e7\u00f5es para os personagens, que uma releitura \u00e9 poss\u00edvel com frequ\u00eancia. O alfinete de Shakespeare espeta em todos os defeitos do ser humano dentro daquela pe\u00e7a. A ambi\u00e7\u00e3o, a covardia, a fam\u00edlia, o papel dissimulado e manipulador da mulher por tr\u00e1s do homem, a vingan\u00e7a, a loucura, a vaidade. Ainda dentro do teatro, que tanto gosto, Moli\u00e9re, assim como Shakespeare, me interessa profundamente. O disse-me-disse, os desencontros c\u00f4micos, s\u00e3o elementos que tentei empregar, claro, dentro da minha capacidade, nos meus dois livros adolescentes.\u00a0 E claro, h\u00e1 autores que eu leio e admiro, aprecio seus estilos, suas t\u00e9cnicas, suas narrativas de for\u00e7a, impacto. Rubem Fonseca \u00e9 um deles. Gosto particularmente dos seus contos. Guimar\u00e3es Rosa me envolve com sua narrativa po\u00e9tica, com seu neologismo feito de terra batida. Gosto do Jo\u00e3o Carrascoza pela delicadeza do simples. Gosto do Godofredo de Oliveira Neto pelo refinamento nos seus romances. Lydia Davies pela narrativa extra curta e humor. Neruda e Bilac para falar de amor do\u00eddo e\/ou plat\u00f4nico. Sylvia Plath me intriga. Confesso que n\u00e3o consigo ler nada dela sem, de imediato, relacionar \u00e0 sua vida breve e tr\u00e1gica. Tenho lido alguma coisa do poeta ingl\u00eas Philip Larkin, coisas escandalosas para uma para uma mo\u00e7a de passado cat\u00f3lico! Ivan Lessa tem sempre minha leitura. Temos em comum, Londres, a Inglaterra. Seu sarcasmo, humor e certa melancolia nas cr\u00f4nicas sempre me fisgam. Sinto-me em boa companhia quando fala da sua desist\u00eancia e impaci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil. Agora, aqui no final, me dei conta de que voc\u00ea me colocou num mato sem cachorro, j\u00e1 que falar dos escritores preferidos e que nos acompanham \u00e9 algo t\u00e3o injusto quanto imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Pois \u00e9. Mas, al\u00e9m da armadilha, fica essa bela estamparia de nomes, n\u00e3o? Penso que a percep\u00e7\u00e3o sobre um bom autor se inicia por suas refer\u00eancias, e as suas s\u00e3o de alto quilate. Tamb\u00e9m sou f\u00e3 de muitos desses nomes. Agora, interessante citar o Lessa, pois v\u00e1rios contos de &#8220;Lugar comum&#8221; t\u00eam mesmo esse travo, esse olhar meio zombeteiro, meio amargo, sobre rela\u00e7\u00f5es de brasileiros com territ\u00f3rios estrangeiros. &#8220;Estreito de Dover&#8221;, por exemplo, narra a viagem de uma fam\u00edlia mineira pela Europa, at\u00e9 se deparar com a &#8220;intelig\u00eancia&#8221; de um banheiro p\u00fablico alem\u00e3o. Ainda que conduzido com leveza, \u00e9 um texto com um teor bem \u00e1cido. E isso acaba por tornar o livro um tanto agridoce, concorda? H\u00e1 os contos da inf\u00e2ncia, recheados de passagens edulcoradas, e os contos adultos, marcados por esse sarcasmo impiedoso, esse certo desencanto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> \u00c9 interessante que o meu editor, o Marcelo Nocelli, que escreve lindamente, notou qualquer coisa do Lessa nos meus textos quando apresentei a ele o original do livro. Os textos que est\u00e3o mais distantes daqueles da inf\u00e2ncia s\u00e3o mais amargos sim. Parece-me natural que seja assim. S\u00f3 a inf\u00e2ncia pode suportar, em viv\u00eancia e em texto, a do\u00e7ura. Depois ela passa a enjoar, enojar. \u00c9 preciso us\u00e1-la e prov\u00e1-la com parcim\u00f4nia. H\u00e1 tamb\u00e9m enorme falta, saudade nos textos: minha m\u00e3e. Ela foi uma mulher muito culta, atenta \u00e0s artes, sens\u00edvel. Sexta-feira era dia de folga dela, na escola. Na folga fazia faxina. Elis enquanto limpava a sala, Chico a cozinha, Bet\u00e2nia nos quartos. Era uma for\u00e7a da natureza aquela mulher. Fez um buraco quando foi embora. Os textos adultos relembram sua presen\u00e7a e lamentam sua ida. Vamos guardando a do\u00e7ura da lembran\u00e7a numa caixa dentro do arm\u00e1rio e o sarcasmo, o desencanto, certa amargura v\u00e3o ocupando seus espa\u00e7os tamb\u00e9m grandes. Mesmo na fic\u00e7\u00e3o, esse processo de vida vai formando nossa escrita, criando certas caracter\u00edsticas. Mas o bom humor salva. Vide Lessa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Mas \u00e9 importante salientar que, h\u00e1 quase 15 anos, voc\u00ea est\u00e1 fora do Brasil. Como este olhar estrangeiro, essa ambienta\u00e7\u00e3o fora da p\u00e1tria, teve influ\u00eancia na sua literatura e o quanto isso \u00e9\/foi importante para o fortalecimento do seu processo de escrita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> No que se refere ao processo criativo, a minha dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica do Brasil talvez tenha mesmo impulsionado a minha escrita. A minha perman\u00eancia aqui promove a mim diariamente pontos de vista e um olhar estrangeiro em profundo exerc\u00edcio. Veja que, em setembro, faz quinze anos que eu cheguei em Londres e ainda hoje procuro manter meu olhar de fora. Ainda tenho certa dificuldade no ajuste cultural, ainda tenho choques de diferen\u00e7as, ainda chego atrasada na terra do Big Ben, algo que \u00e9 realmente lament\u00e1vel, reconhe\u00e7o. Ao mesmo tempo, meu distanciamento do Brasil, mesmo que n\u00e3o seja aquele emocional, me faz valorizar o beijo no rosto do brasileiro, e apreciar o aperto de m\u00e3o do ingl\u00eas. Na cria\u00e7\u00e3o de \u201cLugar comum\u201d, tenho certeza que os textos aconteciam por pura teimosia minha em querer registrar o que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 pelo tempo j\u00e1 passado, mas por eu ter come\u00e7ado a criar ra\u00edzes pr\u00f3prias aqui. Meus filhos n\u00e3o s\u00e3o brasileiros, portanto houve uma motiva\u00e7\u00e3o para escrever sobre o que foi uma inf\u00e2ncia mineira com toda a sua simplicidade e sua gl\u00f3ria. Sinto a Inglaterra como territ\u00f3rio f\u00e9rtil para minha cria\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma certa paz, ordem e calma que, para mim, funcionam como elementos opostos \u00e0 melancolia, ansiedade, saudade, caos que levo dentro do que escrevo, apesar da certa calma aparente que pode se refletir no meu trabalho. Al\u00e9m de tudo isso, dessa minha inadequa\u00e7\u00e3o tanto aqui quanto no Brasil, j\u00e1 que sou eternamente o &#8220;meio do caminho&#8221;, condi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de aceitar, encontro na Inglaterra um pa\u00eds que me d\u00e1 oportunidade para trabalhar como escritora. E o que acho mais bacana \u00e9 a discri\u00e7\u00e3o em tudo que o ingl\u00eas promove. Aqui a gente n\u00e3o v\u00ea festas de lan\u00e7amento, feiras liter\u00e1rias em todo canto, facebooks de autores &#8220;bombando&#8221; (risos). H\u00e1 bem menos festa e consideravelmente menos vaidade aparente. Mas o que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 gente lendo no trem, no \u00f4nibus, no metr\u00f4. Gente de toda idade. V\u00ea livrarias cheias. V\u00ea bibliotecas lotadas, confort\u00e1veis, sedutoras, modernas, com recursos. Eu sempre digo que h\u00e1 uma certa mineirice no ingl\u00eas: trabalham duro, mas trabalham quietos. Eu, como tenho uma produ\u00e7\u00e3o de livros infantis, trabalho muito no Brasil exatamente em lan\u00e7amentos, feiras, escolas. Precisamente o que n\u00e3o tem muito por aqui. Mas me d\u00e1 imenso prazer essa possibilidade de observa\u00e7\u00e3o do estrangeiro. Para mim vale feito um privil\u00e9gio, tanto no meu dia a dia quanto na minha produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Queria falar justamente dos livros infantis. Curioso que eles surgem na sua trajet\u00f3ria liter\u00e1ria antes do que se poderia chamar de fic\u00e7\u00e3o adulta, muito embora seus contos tenham uma influ\u00eancia direta da sua inf\u00e2ncia em Minas Gerais. Por que isso? Foi proposital iniciar com a literatura infantil ou surgiu a oportunidade e voc\u00ea embarcou nela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Eu nunca na minha vida imaginei escrever livros infantis. Esse universo era muito distante de mim. A\u00ed veio minha filha. Com ela, a aquisi\u00e7\u00e3o de duas l\u00ednguas simultaneamente. O bilinguismo sempre me maravilhou. Estudei alguma coisa sobre isso na faculdade. Quando ela come\u00e7ou a crescer e a falar, mergulhei no assunto e escrevi uma s\u00e9rie bil\u00edngue que vendeu incrivelmente bem. Foram tr\u00eas livros. A\u00ed, por quest\u00f5es editoriais, a s\u00e9rie acabou. Por\u00e9m, o assunto \u00e9 fascinante e eu tenho um trabalho novo nessa \u00e1rea. Desenvolvi uma esp\u00e9cie de material bil\u00edngue que pode ser aplicado em escolas, tanto para o aprendizado da segunda l\u00edngua, no caso o ingl\u00eas, quanto para o processo do desenvolvimento da l\u00edngua materna, o portugu\u00eas. Foi escrito inclusive com livro de atividades, feito material mesmo. Tem uma editora analisando a proposta para apresentar em escolas. No entanto, o meu grande sonho, que \u00e9 ver o ingl\u00eas desde os seis anos nas escolas p\u00fablicas, fica cada vez mais distante. N\u00e3o h\u00e1 prioridade na Educa\u00e7\u00e3o no Brasil e a implementa\u00e7\u00e3o de uma ideia assim teria como primeiro obst\u00e1culo a falta de professores capacitados e treinados para ensinar a l\u00edngua estrangeira. Nos &#8220;cafund\u00f3s do mundo&#8221;, conforme falamos em Minas do lugar onde Judas perdeu as botas, n\u00e3o existe facilidade assim. Muitas vezes nem nas capitais existe facilidade tal. Uma pena. Nunca vai existir igualdade social dentro da Educa\u00e7\u00e3o, enquanto o ensino do ingl\u00eas for negado \u00e0s escolas p\u00fablicas. A desvantagem come\u00e7a a\u00ed e, l\u00e1 para a frente, j\u00e1 sabemos como a hist\u00f3ria termina. A s\u00e9rie bil\u00edngue foi adotada em muitas escolas, todas particulares, infelizmente. Meus filhos s\u00e3o uma enorme fonte de inspira\u00e7\u00e3o para meus infantis. Estou envolvida at\u00e9 o pesco\u00e7o com essa aquisi\u00e7\u00e3o da arte e da cria\u00e7\u00e3o de literatura infantil. Administro uma oficina para 11 alunos, toda semana, sobre literatura e produ\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. Isso me deixa com vontade de continuar a escrever literatura para crian\u00e7a. Revigora a gente, sabe? Apesar do mercado, apesar das pol\u00edticas de Educa\u00e7\u00e3o, apesar dos pesares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seus filhos vivem e estudam na Europa e, obviamente, t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o com a arte, em especial com a literatura, que, imagino, voc\u00ea n\u00e3o teve, que muitas crian\u00e7as ainda n\u00e3o t\u00eam no Brasil. Da sua experi\u00eancia com literatura infantil, acredita que existem diferen\u00e7as pr\u00e1ticas na maneira de introduzir o livro nesses universos distintos? Qual m\u00e9todo que funciona bem a\u00ed que poderia ser adaptado por aqui?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Voc\u00ea tem raz\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o que eu tive com a literatura e as artes, quando crian\u00e7a, \u00e9 muito diferente da que t\u00eam os meus filhos. Eu, com esse meu tempo de observa\u00e7\u00e3o por aqui, fico achando que o segredo da populariza\u00e7\u00e3o da literatura e das artes em geral \u00e9 a familiariza\u00e7\u00e3o dessas express\u00f5es desde muito cedo. Parece-me que a arte entra na vida das pessoas de forma muito natural por aqui. Principalmente n\u00e3o enxergo, nas escolas, a literatura como privil\u00e9gio. Vejo que por aqui as artes, inclusive a literatura, s\u00e3o introduzidas de forma muito democr\u00e1tica. N\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m uma supervaloriza\u00e7\u00e3o. Explico: se um adolescente n\u00e3o se interessa por literatura cl\u00e1ssica, a escola, os professores, n\u00e3o tendem a exclu\u00ed-lo como se fosse a aprecia\u00e7\u00e3o pelas artes cl\u00e1ssicas um divisor de \u00e1guas.\u00a0 Vejo tamb\u00e9m a Hist\u00f3ria sendo revivida e reapresentada incans\u00e1veis vezes. Datas, dias, s\u00e3o menos importantes. O que se discute mais, ao inv\u00e9s, \u00e9 o impacto que determinada batalha teve para o pa\u00eds. \u00c9 dif\u00edcil tra\u00e7ar compara\u00e7\u00f5es entre aqui e o Brasil. Talvez seja mesmo imposs\u00edvel. Acho que a Inglaterra pode aprender com o Brasil a ser mais amorosa no trato com as crian\u00e7as. Mas vejo muita qualidade na Educa\u00e7\u00e3o daqui, apesar de certa frieza que n\u00f3s, latinos, gostamos de enxergar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10124\" aria-describedby=\"caption-attachment-10124\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10124 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"Nara Vidal\" width=\"500\" height=\"508\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/INTERNA-II-295x300.jpg 295w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10124\" class=\"wp-caption-text\">Nara Vidal \/ Foto: JL Bulc\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; J\u00e1 que estamos nessa seara de filhos, gostaria de lhe propor uma quest\u00e3o de cunho mais pessoal. Eu tenho uma filha pequena, que tamb\u00e9m \u00e9 a minha maior fonte de incentivo e de inspira\u00e7\u00e3o, contudo, de maneira pr\u00e1tica, no que se refere a tempo, concentra\u00e7\u00e3o e solid\u00e3o, elementos fundamentais para o processo da escrita, ter de lidar com a paternidade foi aprender a trabalhar com per\u00edodos diminutos, muitas vezes distribu\u00eddos durante o dia. No seu caso, a maternidade provocou esse choque com a literatura? Nara, a escritora, teve de se adaptar a esse novo contexto e planejar seus hor\u00e1rios para o texto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Outro dia fomos visitar a casa do Roald Dahal. Ele tinha um escrit\u00f3rio no jardim da casa, ia para l\u00e1 \u00e0s 10h e escrevia at\u00e9 o meio-dia. Almo\u00e7ava, descansava, escrevia. \u00c0s duas da tarde, tomava gim t\u00f4nica e escrevia at\u00e9 \u00e0s cinco. Isso praticamente todos os dias. Senti uma inveja gigantesca daquele respeito pelo of\u00edcio meio ocioso de ter ideias e escrev\u00ea-las. Voc\u00ea sabe que \u00e0s vezes elas demoram a aparecer de forma consistente. Quando os filhos entram nesse cen\u00e1rio ent\u00e3o&#8230; \u00c9 uma coisa louca aqui porque escrevo em qualquer momento livre que tenho. Qualquer um! Ultimamente tem sido ao som de rob\u00f4s, transformers, essas coisas. Aprendi a trabalhar assim, sen\u00e3o n\u00e3o escrevo. A \u00fanica coisa que ainda preciso aprender \u00e9 lidar com interrup\u00e7\u00f5es. Se isso acontece e eu estou mergulhada no texto, acho dif\u00edcil parar e voltar. Eu aprendi a adaptar meu trabalho ao ambiente. Mas confesso que adoro a solid\u00e3o. Gosto tanto que, nas raras vezes em que estou sozinha, n\u00e3o consigo escrever porque fico apreciando a calma, o sil\u00eancio. Meus filhos sabem que meu trabalho \u00e9 ler e escrever. Mas isso n\u00e3o significa que pratiquem o respeito e n\u00e3o v\u00e3o parar debaixo da minha mesa num pique-esconde qualquer. Al\u00e9m de tudo isso, aqui na Inglaterra a gente normalmente faz todo o trabalho dom\u00e9stico sozinha, sem ajuda. Quando as crian\u00e7as est\u00e3o na escola, preciso escolher entre trabalhar, cuidar da casa ou fazer comida. Gosto tamb\u00e9m de acordar antes da casa, ainda no escuro, fazer um caf\u00e9 e come\u00e7ar o dia em calma. Mas essa paz n\u00e3o dura; ainda bem, diga-se! Fora isso, tenho suporte e, vez ou outra, viajo no fim de semana s\u00f3 para ver a solid\u00e3o de perto e colocar ideias no papel. Ou se n\u00e3o conseguir escrever, experimentar artes novas. Preciso desse tempo e consigo t\u00ea-lo, vez ou outra. \u00c9 feito aquela respira\u00e7\u00e3o profunda que a gente faz para encontrar energia. A inspira\u00e7\u00e3o dos filhos vem mais da conviv\u00eancia, da simplicidade das coisas, de uma ida ao parque, ao mercado. As perguntas que fazem, os pontos de vista, as opini\u00f5es deles s\u00e3o sempre fontes inesgot\u00e1veis de observa\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o minhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Recentemente, participei de uma mesa no Festival Nacional de Contos, ao lado dos escritores Carlos Henrique Schroeder, Altair Martins e Walther Moreira Santos, na qual falamos sobre concursos e pr\u00eamios liter\u00e1rios. Ao fim, chegamos a uma conclus\u00e3o n\u00e3o muito animadora, que honraria tem um peso muito mais particular que de servir como trampolim para a carreira do escritor. Voc\u00ea conquistou o Pr\u00eamio Brazilian Press Awards, em 2013, e, no ano seguinte, o Maximiano Campos, na categoria Contos. Qual o efeito que essas distin\u00e7\u00f5es tiveram no caminho do novo livro, da apresenta\u00e7\u00e3o do original at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> H\u00e1 pouco tempo, eu estive na Flipo\u00e7os com o fant\u00e1stico Lu\u00eds Serguilha, por quem tenho grande afeto e admira\u00e7\u00e3o. Numa mesa de bar, fal\u00e1vamos disso e ele me fez rir dizendo que os pr\u00eamios s\u00f3 servem para pagar as contas. No meu caso, nem isso!\u00a0 Para falar a verdade, quase nunca participo de concurso. Participo de poucos. As editoras tamb\u00e9m cuidam dessa parte. Mas tenho muita pregui\u00e7a da burocracia dos concursos no Brasil. Geralmente desisto enquanto penso se participo ou n\u00e3o. O Maximiano Campos, por exemplo, foi inscrito online. Um avan\u00e7o, uma maravilha! Da\u00ed, participei. Al\u00e9m disso, n\u00e3o posso participar de v\u00e1rios concursos porque n\u00e3o sou residente do Brasil, outra maluquice das regras, na minha singela opini\u00e3o. O Press Awards \u00e9 um pr\u00eamio e para ele eu fui indicada, o que \u00e9 muito bacana. No fim das contas, o que eu j\u00e1 ganhei s\u00f3 serviu para um tapinha nas costas de cinco minutos. Depois a gente cai na real, v\u00ea que n\u00e3o tem import\u00e2ncia e sai em busca do trabalho de novo. N\u00e3o sei se \u00e9 assim para quem ganha um dos pr\u00eamios de maior prest\u00edgio no Brasil, feito voc\u00ea que ganhou o Pr\u00eamio Sesc de Literatura? Mas acredito que a\u00ed seja outra hist\u00f3ria. Deve ter te trazido a gl\u00f3ria, o prest\u00edgio, a fortuna! (risos). De qualquer maneira, a \u00fanica coisa que deve importar, no processo de cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 a busca pelo pote de ouro no fim do arco-\u00edris, ou seja, a qualidade total da escrita. Essa insatisfa\u00e7\u00e3o e impossibilidade devem ser o fio condutor do of\u00edcio, do desejo de aprimorar, de praticar, de trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sim, eu fiquei bem rico. Hoje, al\u00e9m de escrever, tenho uma fazenda onde crio cron\u00f3pios e famas (risos). A gl\u00f3ria teve a dura\u00e7\u00e3o de um ano. Tem uma tradi\u00e7\u00e3o entre os ganhadores do pr\u00eamio que a passagem da faixa de miss. Para aqueles que n\u00e3o sabem, al\u00e9m do lan\u00e7amento do livro, o Sesc tamb\u00e9m leva o novo autor para v\u00e1rios eventos, em v\u00e1rios cantos do pa\u00eds, durante este per\u00edodo. O ano de miss. J\u00e1 o prest\u00edgio \u00e9 relativo. No meu caso, n\u00e3o garantiu que eu continuasse publicando pela editora que lan\u00e7a as obras vencedoras. O que me leva a uma quest\u00e3o: voc\u00ea chegou a apresentar o original de &#8220;Lugar comum&#8221; para alguma das editoras brasileiras consideradas de grande porte? Ou, assim como no caso dos concursos, a burocracia, a espera, a expectativa fizeram com que nem tentasse?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Cron\u00f3pios e fama&#8230; Bela cria\u00e7\u00e3o, S\u00e9rgio! Eu entendo e percebo esse prazo de validade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o e \u00e0 badala\u00e7\u00e3o de um livro. Somos um pa\u00eds de cada vez mais autores e menos leitores. H\u00e1 muita competi\u00e7\u00e3o por espa\u00e7o, por prateleira, por leitura. Ontem li um conto seu publicado pelo Formas Breves, \u201cTerra do nunca\u201d. Tocante. Voc\u00ea \u00e9 um talento. Mas tenho certeza de que gente de calibre de fato j\u00e1 te disse isso. S\u00f3 n\u00e3o li suas outras publica\u00e7\u00f5es porque n\u00e3o encontrei em e-books. Olha, vou te dizer uma coisa: eu nunca tive a ambi\u00e7\u00e3o de mandar original meu para aquelas editoras grandes, dos pr\u00eamios. N\u00e3o posso ser hip\u00f3crita, pois claro que gostaria de ser editada por uma delas. N\u00e3o h\u00e1 escritor sem vaidade, ser\u00e1 que voc\u00ea concorda? Afinal, quem pensamos que somos ao escrever algo que acreditamos ser relevante o suficiente para ser publicado, lido por um tanto de gente? H\u00e1 vaidade e vaidade. Melhor ficar com a primeira&#8230; (risos) Mas n\u00e3o saberia nem por onde come\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o a apresentar originais aos grandes grupos editoriais. No entanto, apesar do mercado se mostrar cada vez mais estreito, vejo com extremo otimismo o surgimento de editoras novas ou at\u00e9 independentes. S\u00e3o, na maioria das vezes, espa\u00e7os fundados por gente apaixonada por literatura que, de uma forma at\u00e9 rom\u00e2ntica, luta pelas Letras. Eu acho isso muito comovente. Eu tive tr\u00eas propostas de edi\u00e7\u00e3o do \u201cLugar comum\u201d. Fechei com a Pasavento porque senti uma afinidade entre mim, Marcelo e Rennan. Deram-me uma leitura atenta, com cr\u00edticas, coment\u00e1rios. Ouvi de um editor uma vez que o meu texto era irretoc\u00e1vel e estava pronto. Sa\u00ed correndo e nunca mais consegui olh\u00e1-lo com seriedade. Mas eu gosto de variar editoras. Fa\u00e7o isso com os infantis. \u00c9 uma forma excelente de provar formas diferentes de trabalho, encontrar afinidades ou concluir que n\u00e3o h\u00e1 nada em comum. Acho importante para ganhar experi\u00eancia. Dito isso, h\u00e1 editoras com as quais eu trabalharia sem parar. Sobre as editoras grandes&#8230; J\u00e1 pensou, ter seu livro l\u00e1 na prateleira de entrada de uma grande livraria? Deve ser bom!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Muito grato pelos elogios! Fico feliz. Como tamb\u00e9m \u00e9 uma alegria ler sobre editores que trabalham junto ao autor, visando exclusivamente a qualidade liter\u00e1ria. Tamb\u00e9m tive essa sorte na Confraria do Vento, que publicou meu segundo livro. O caso \u00e9 que nem sempre \u00e9 assim. Com a prolifera\u00e7\u00e3o de novos selos, cresceu de modo exponencial o n\u00famero de novos autores, muitos dos quais imaturos, com potencial, mas ainda precisando de um tempo para robustecer seu texto; o que, a meu ver, deveria ser o papel do editor, pegar o cara e dizer: &#8220;Espera um pouco. N\u00e3o publica agora. Vamos melhorar esse original&#8221;. Encarando dessa forma, voc\u00ea n\u00e3o teme que, com a enxurrada de novos autores despreparados, chegaremos ao ponto de nivelarmos a literatura brasileira por baixo? A tal democratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser, a longo prazo, uma maneira de se consolidar alguns privilegiados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Olha, eu concordo com a sua coloca\u00e7\u00e3o de que \u00e9 trabalho do editor cuidar do texto e filtrar o que chega, se apresenta. Recusar, l\u00f3gico. Claro, o escritor, por mais detalhista, perfeccionista, auto-cr\u00edtico que seja, sempre vai querer a publica\u00e7\u00e3o do seu texto, por isso ele o envia para editoras. O autor n\u00e3o tem o distanciamento do seu texto necess\u00e1rio para avali\u00e1-lo. Da\u00ed a leitura do editor ser t\u00e3o importante. Claro, quando explicam a raz\u00e3o da recusa, \u00e9 muito digno. Mas, \u00e0s vezes, o escritor n\u00e3o encontra uma editora: encontra uma gr\u00e1fica. No entanto, vivemos tempos interessantes: h\u00e1 uma mo\u00e7ada que l\u00ea muito. O que l\u00ea? Bom, a\u00ed n\u00f3s ca\u00edmos naquela quest\u00e3o da literatura elitista que eu n\u00e3o curto. Acho t\u00e3o esnobe quando se cria essa opini\u00e3o comum de que os best-sellers, principalmente os brasileiros, s\u00e3o literatura de question\u00e1vel qualidade! Essa postura s\u00f3 serve para perpetuar o que j\u00e1 discutimos aqui: a literatura, essa rara e sofisticada forma de arte, privil\u00e9gio de poucos. Isso \u00e9 muito negativo e tem o impacto exatamente no n\u00famero de leitores no Brasil. Eu acredito que leitura \u00e9 leitura. Cada um no seu tempo, na sua hora, na sua maturidade, vai chegar ao que todos classificam como literatura cl\u00e1ssica. Uns v\u00e3o demorar pouco, uns v\u00e3o demorar muito. Outros n\u00e3o v\u00e3o conseguir gostar. N\u00e3o vejo problema nisso. N\u00e3o acho que s\u00f3 o que eu li na Faculdade de Letras e s\u00f3 o que a m\u00eddia e os pr\u00eamios classificam como alta literatura seja a \u00fanica forma de leitura aceit\u00e1vel. De uma certa forma, o mesmo se aplica aos escritores. Hoje em dia s\u00f3 n\u00e3o publica quem n\u00e3o quer. H\u00e1 in\u00fameras editoras que cobram do autor e prometem editar. H\u00e1 a auto-publica\u00e7\u00e3o. A Amazon oferece aqui um servi\u00e7o de livros em e-book e f\u00edsicos que voc\u00ea pode publicar em menos de uma hora. No final das contas, um livro mal editado e de um escritor ansioso que publicou antes da hora pode ficar t\u00e3o empacado quanto o de um imortal da ABL. Gosto da democratiza\u00e7\u00e3o, de certa igualdade na oportunidade de publicar. No entanto, sabemos bem que o que \u00e9 bom \u00e9 relativo e, por isso, talvez seja verdade que um tipo de literatura n\u00e3o tira o lugar da outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Desse tempo em que voc\u00ea est\u00e1 fora do pa\u00eds, tem acompanhado o que ocorre na literatura contempor\u00e2nea brasileira? O que chega por a\u00ed de maneira espont\u00e2nea, fora das autopromo\u00e7\u00f5es das redes sociais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Acompanho sim. \u00c9 a minha \u00e1rea n\u00e3o s\u00f3 de interesse como de trabalho. Sigo tudo o que est\u00e1 ao meu alcance. Pouco da\u00ed chega aqui, pouco da\u00ed \u00e9 amplamente conhecido aqui. Preciso ressaltar que falo sobre o que eu vejo e sobre o que vejo na Inglaterra. Existe a FlipSide, da Liz Calder, a mesma idealizadora da Flip. Esse evento, bem pequeno, acontece em outubro, em Suffolk, um lugar pitoresco, bonito de se ver. Pelo tamanho do evento, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar e conversar com os autores de maneira mais espont\u00e2nea que na Flip, por exemplo. \u00c9 um charme. Em 2013, estiveram por l\u00e1 o Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Ferrez e um tanto de nome bacana. Ano passado veio a Socorro Accioli, por exemplo. Al\u00e9m disso, h\u00e1, nas universidades, os departamentos de estudos latino-americanos. Vez ou outra, h\u00e1 alguma arte nossa representada l\u00e1, seja em literatura, seja na m\u00fasica, seja na dan\u00e7a ou nas artes pl\u00e1sticas. H\u00e1 poucas semanas, estive na University College London, com a Sylvia Morgado e o Ded\u00e9 Laurentino, e falamos para uma plateia de brasileiros, veja bem. Eu participei de uma mesa do Cheltenham Festival, o maior por aqui, falando sobre Brasil. Existe interesse, mas at\u00e9 onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como ex\u00f3tico.\u00a0 A Embaixada e o Consulado tamb\u00e9m se esfor\u00e7am para divulgar a nossa literatura aqui, mas esbarram em obst\u00e1culos financeiros, por exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10260\" aria-describedby=\"caption-attachment-10260\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Louis-Hallam.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10260 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Louis-Hallam.jpg\" alt=\"Nara Vidal por Louis Hallam\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Louis-Hallam.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Louis-Hallam-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10260\" class=\"wp-caption-text\">Nara Vidal \/ Foto: Louis Hallam<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um tanto desanimador, n\u00e3o? Mesmo com o crescimento dos autores, das feiras que homenageiam o pa\u00eds, da pluralidade da literatura contempor\u00e2nea brasileira, ainda persiste essa vis\u00e3o do ex\u00f3tico, do pitoresco, do regionalismo, al\u00e9m das nossas fronteiras. Desses eventos europeus que participa, qual o tipo de pergunta recorrente? J\u00e1 se pegou tendo de explicar que n\u00e3o somos \u00edndios fazendo sinal de fogo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Bom, se existe o desejo do escritor brasileiro de ser reconhecido por aqui, na l\u00edngua inglesa, \u00e9 de fato desanimador. Mas desanimador mesmo \u00e9 esse estere\u00f3tipo. Um tanto cansativo tamb\u00e9m. Essa foi precisamente a minha tese de mestrado aqui, na London Met. Falei sobre a imagem e o estere\u00f3tipo brasileiros, com foco em Minas. A imagem, como sendo a experi\u00eancia e o estere\u00f3tipo, aquilo que motiva a experi\u00eancia. Fiz um &#8220;focus group&#8221; com brit\u00e2nicos para a minha tese e, de dez, s\u00f3 um tinha ouvido falar em Minas Gerais. Mesmo assim porque \u00e9 um &#8220;lugar n\u00e3o longe do Rio que n\u00e3o tem praia.&#8221; A minha tese foi publicada aqui e est\u00e1 dispon\u00edvel na British Library. Ofereci ao Governo de Minas, mas n\u00e3o tive resposta. Desenvolvi no trabalho exatamente a tentativa de destrui\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo brasileiro, propondo sa\u00eddas concretas para o aumento da visibilidade de Minas nas brochuras de turismo. Cheguei a falar de Juiz de Fora e suas riquezas mais \u00f3bvias, como Murilo Mendes, Rubem Fonseca e Mariano Proc\u00f3pio que, mesmo n\u00e3o tendo nascido em Juiz de Fora, foi juizforano. Falei da arte barroca, dos trens de ferro, da Hist\u00f3ria, da culin\u00e1ria. Mas mesmo assim, o Rio e as praias ainda s\u00e3o o Brasil. Algumas impress\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o estere\u00f3tipos, s\u00e3o realidade. A viol\u00eancia \u00e9 um enorme obst\u00e1culo para atrairmos o olhar estrangeiro desconectado da no\u00e7\u00e3o de ex\u00f3tico. No festival liter\u00e1rio de Cheltenham, para quebrar o gelo, contei a hist\u00f3ria de quando fui a um anivers\u00e1rio em Oslo e, l\u00e1, os amigos noruegueses do meu marido aguardavam ansiosamente a presen\u00e7a ex\u00f3tica da brasileira. Cheguei, sentei-me \u00e0 mesa, bebi, comi e, \u00e0 certa altura, um deles comentou que n\u00e3o tinha ainda visto a tal brasileira. Olhei para os seus curiosos olhos azuis e quebrei o encanto: a brasileira era eu, feito ele, tamb\u00e9m tinha olhos azuis e era loira. A partir dali, contei pra ele sobre o sul do Brasil e seus alem\u00e3es, sobre o sudeste e seus japoneses, italianos, sobre o nordeste e seus holandeses, sobre todas as cores que nos enriquecem. J\u00e1 o estere\u00f3tipo da na\u00e7\u00e3o do futebol, pelo menos aqui em casa j\u00e1 foi massacrado. Minha filha sabe bem que o Brasil \u00e9 perna de pau, pois me viu derrotada naqueles 7&#215;1 at\u00e9 hoje inacredit\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em massacre, n\u00e3o sei se acompanha essa pol\u00eamica do conto aqui no Brasil. Esse olhar enviesado para o g\u00eanero, sob o argumento de que n\u00e3o vende, de que n\u00e3o h\u00e1 um interesse robusto dos leitores pelas breves narrativas. Hoje temos a soberania do romance, inclusive com algumas editoras percebendo a literatura brasileira estritamente nesse formato. O que pensa sobre essa discuss\u00e3o? Como avalia a import\u00e2ncia do conto, na esteira do lan\u00e7amento da sua antologia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Eu acompanho sim. Engra\u00e7ado que, h\u00e1 um ano, eu e mais tr\u00eas autoras quer\u00edamos escrever um livro juntas. Eu pensei em contos e at\u00e9 cheguei a propor. Na hora vieram comentar que conto n\u00e3o vende. \u00c9 imposs\u00edvel eu comentar sob o ponto de vista de uma editora. Fico pensando que o &#8220;n\u00e3o vende&#8221; no Brasil \u00e9 muito mais abrangente. Eu acredito que uma vez quebrado esse preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao conto, visto que somos um pa\u00eds de leitores pregui\u00e7osos, o conto pode se tornar atraente, pelo tamanho mesmo. Mas veja a armadilha: contos s\u00e3o caprichosos, dif\u00edceis. Precisam ter grande riqueza e primar pelo impacto, pela din\u00e2mica, a rapidez. Uma vez ouvi algu\u00e9m dizer, n\u00e3o me lembro quem, que escreveu uma carta com dez p\u00e1ginas porque n\u00e3o conseguiu escrev\u00ea-la em cinco. Eis a ilustra\u00e7\u00e3o da dificuldade do conto. A economia das palavras \u00e9 apenas quantitativa. A qualidade deve ser precisa. Talvez o mercado editorial aposte num molde estrangeiro, quem sabe? Aqui fora as &#8220;short stories&#8221; vendem menos, mesmo se comparadas com os romances. Mas vejo com otimismo a destrui\u00e7\u00e3o do preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao conto. O selo Formas Breves \u00e9 um bom exemplo do novo ar que vem entrando nessa casa velha cheia de teias de aranha. Outra beleza da qual me lembrei \u00e9 a Lorrie Moore, escritora americana que j\u00e1 esteve na lista dos mais vendidos por tempos com seus livros de contos. Sabe o que ela fala sobre contos? Que s\u00e3o fotografias. Romances s\u00e3o filmes. Contos s\u00e3o um caso de amor. Romance, casamento. Parece-me que os leitores brasileiros est\u00e3o precisando um caso de amor. Urgentemente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em casamento, como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com o leitor? Voc\u00ea pensa nele durante o processo de escrita ou o percebe no papel de espectador?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> Enquanto eu escrevo, n\u00e3o penso em quem vai ler n\u00e3o. Isso nunca me passa pela cabe\u00e7a enquanto h\u00e1 o processo criativo. Sinceramente, acho que se voc\u00ea para para refletir sobre quem vai ler enquanto est\u00e1 escrevendo n\u00e3o deve chegar nunca a lugar algum. Depois de publicado o livro, gosto de ouvir e saber das leituras. \u00c9 interessante ver como foram parar aos olhos dos outros. Feito um telefone sem fio, leituras e olhos se modificam na experi\u00eancia \u00fanica de cada leitor. Acho bacana ver como acontece essa parte viva da literatura. Nos meus trabalhos de literatura para crian\u00e7a e jovens tenho um contato bem direto. H\u00e1 turmas que fazem prova de livro meu, h\u00e1 homenagens, h\u00e1 dias de aut\u00f3grafos em escolas. H\u00e1 um contato muito legal e muito honesto. H\u00e1 abra\u00e7o apertado, h\u00e1 olho no olho, h\u00e1 elogio muito sincero relacionado ao que leram. Se morasse no Brasil, teria o p\u00e9 na estrada o tempo todo visitando escolas, feiras. Gosto bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como voc\u00ea gostaria que seus filhos vissem seus livros quando adultos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NARA VIDAL &#8211;<\/strong> H\u00e1 uma coincid\u00eancia na sua pergunta: outro dia, por volta das 7h30 da noite, colocava minha filha para dormir (as crian\u00e7as aqui v\u00e3o dormir bem mais cedo. Por volta de 7h, j\u00e1 come\u00e7am a ouvir as hist\u00f3rias e ler os livros). Ela pediu que eu ficasse com ela at\u00e9 cair no sono, o que n\u00e3o fa\u00e7o porque ela aprendeu a se acomodar e ir dormir sozinha. Acho vantagem isso, n\u00e3o quero estragar. Mas fiquei com ela um bom tempo. Disse que precisava descer e continuar a trabalhar. Da\u00ed ela me perguntou se era mais um livro e eu disse que sim. Ela me surpreendeu quando me perguntou o que eu quero desses livros todos que eu escrevo. Confesso que n\u00e3o soube a resposta. Como ela n\u00e3o aceitou o meu sil\u00eancio, eu disse que queria escrever 100 livros. Quando esse dia chegasse, eu pararia. Ela riu e disse que eu perdi, j\u00e1 que a Julia Donaldson escreveu mais de 130! Acho que quero deixar isso: o meu afinco para com o meu trabalho, provar que posso fazer o que amo se equilibrar com todo o resto. Que mesmo que cada livro tenha tirado um pouco do meu tempo com eles, os meus filhos, eu estive muito feliz e viva na produ\u00e7\u00e3o do meu trabalho. Acima de tudo isso, quero que vejam e sintam a l\u00edngua portuguesa. Costumo pensar que, se todo o resto falhar, pelo menos dei a eles uma l\u00edngua inteira. \u00c9 o melhor que poderia dar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Tavares num instigante di\u00e1logo com a escritora Nara Vidal<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10126,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2593,16,2539],"tags":[63,2596,2595,8,1023],"class_list":["post-10119","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-102a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-lugar-comum","tag-nara-vidal","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10119"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15813,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10119\/revisions\/15813"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10126"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}