{"id":10154,"date":"2015-07-07T17:59:03","date_gmt":"2015-07-07T20:59:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10154"},"modified":"2015-07-12T12:50:26","modified_gmt":"2015-07-12T15:50:26","slug":"dedos-de-prosa-i-37","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-37\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Rodrigo Melo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10158\" aria-describedby=\"caption-attachment-10158\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/interna3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10158 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/interna3.jpg\" alt=\"Ana P\u00e9rola\" width=\"500\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/interna3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/interna3-300x136.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10158\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ana P\u00e9rola<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C\u00c9U SEM FIM<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu trabalhava como soldador em uma f\u00e1brica de carrocerias de caminh\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um trabalho f\u00e1cil, tanto que muita gente at\u00e9 desiste depois de um tempo, mas era o que eu gostava de fazer. Dizem que todo homem nasce para alguma coisa. Talvez eu tivesse nascido praquilo. Trabalhei l\u00e1 por quase quinze anos. Chegava bem cedo e sa\u00eda \u00e0s seis da tarde, entrava num \u00f4nibus apinhado de gente e seguia pra casa apenas para tomar banho, comer e dormir. No dia seguinte, antes que a f\u00e1brica abrisse, estava l\u00e1 outra vez. Os patr\u00f5es gostavam de mim. Nunca ningu\u00e9m falou, eu apenas sentia que eles gostavam. Eu era quem menos faltava ou reclamava. Eu n\u00e3o negava servi\u00e7o, doutor. Naquele dia, por\u00e9m, uma dor de dente me fez sair mais cedo, algo que jamais havia acontecido. Foram dois os sofrimentos: pelo dente e por n\u00e3o soldar. Sentei no \u00f4nibus, desgarrado das coisas, preso \u00e0quela dor. Quem j\u00e1 teve dente ruim sabe do que falo. Encostei o ombro na janela, o rosto sobre ele, fechei os olhos. Algu\u00e9m ent\u00e3o se sentou ao meu lado. Era uma loura de uns trinta e poucos anos e a primeira coisa que passou pela minha cabe\u00e7a foi que ela tinha um rosto parecido com o de mam\u00e3e. Ela se sentou e ficou a me olhar com estranheza e curiosidade, em seguida perguntou se eu precisava de ajuda. Minha cara n\u00e3o devia estar boa, ela que na verdade nunca foi grande coisa. Respondi que n\u00e3o, que s\u00f3 estava cansado, que ser gerente numa f\u00e1brica de carrocerias de caminh\u00e3o n\u00e3o era brincadeira, naquele instante eu ia resolver umas quest\u00f5es, havia a labuta com os subordinados, as preocupa\u00e7\u00f5es matavam. Preferi n\u00e3o dizer que era soldador ou que n\u00e3o cuidava dos dentes. Talvez ela se decepcionasse. Talvez ela deixasse de ser simp\u00e1tica e de conversar. A sua voz era doce como a voz de um anjo. Seus olhos eram cheios de vida, o seu cheiro era bom. Conhec\u00ea-la fez com que a dor no meu dente diminu\u00edsse. Disse para eu\u00a0ter paci\u00eancia no trabalho. Com tranquilidade e f\u00e9 tudo voltar\u00e1 ao normal. E esta \u00e9 uma coisa que nunca tive, doutor: f\u00e9. Lembro que havia uma mo\u00e7a no orfanato que gostava de me contar hist\u00f3rias antes de dormir. Era uma boa pessoa e foi a \u00fanica que me deu aten\u00e7\u00e3o depois que mam\u00e3e me deixou. Um dia ela se casou ou conseguiu outro emprego e nunca mais apareceu. Mas foi ela quem disse: tenha f\u00e9, sua m\u00e3e ou algu\u00e9m vem te buscar&#8230; Mas eu n\u00e3o sabia como era ter f\u00e9 e talvez por isso mam\u00e3e n\u00e3o tenha voltado e ningu\u00e9m me adotou e tarde da noite eu ficava acordado olhando para o teto daquele lugar, e a noite marca e destr\u00f3i, a noite \u00e9 um libertino que fode com as nossas almas, doutor, e aquele era um teto t\u00e3o alto quanto um c\u00e9u sem estrelas, um c\u00e9u infinito feito apenas de breu e de solid\u00e3o, e eu olhava para ele tentando entender o porqu\u00ea dela ter me deixado l\u00e1, lembrando do seu rosto, da l\u00e1grima que descia, de quando acenou e saiu apressada, sem olhar para tr\u00e1s. Por onde andar\u00e1? Quem sabe ainda viva, em um outro lugar&#8230; Sinto falta do emprego na f\u00e1brica, do barulho, de chegar antes que todo mundo e de me pedirem para fazer algum servi\u00e7o&#8230; De qualquer maneira, eu estava l\u00e1, no \u00f4nibus, e por um instante pensei em conversar um pouco mais com aquela mulher, pensei em perguntar seu nome, se achava que choveria mais tarde ou qualquer bobagem assim, mas n\u00e3o perguntei. N\u00e3o demorou muito, ela se levantou, puxou a cordinha, disse boa sorte e desceu. Tudo t\u00e3o r\u00e1pido que s\u00f3 resolvi saltar quando o \u00f4nibus j\u00e1 ia longe. E ent\u00e3o comecei a correr. Corri muito, corri desesperadamente, corri como se tudo dependesse daquilo, de v\u00ea-la outra vez. E eu a vi: atravessando a rua, com a cal\u00e7a jeans desbotada, a blusa vermelha com listras brancas, o cabelo loiro, a caminhar em dire\u00e7\u00e3o a um pr\u00e9dio de tijolinhos. Era um pr\u00e9dio velho e pequeno, mas enxerguei charme e beleza nele. Quase um minuto se passou, a luz do apartamento do segundo andar foi acesa e ela entrou e se sentou sobre o pequeno sof\u00e1 que havia na sala, tirando os sapatos e estirando as pernas. Pensei que era muito poss\u00edvel que ela gostasse de me ver novamente. Mas o que diria? Ela se levantou, foi at\u00e9 o quarto, acendeu a luz e tirou a roupa, ficando apenas de calcinha e suti\u00e3. Passou a se olhar no espelho do guarda roupa, num instante de perfil e, no outro, segurando os seios e os levantando. Enfiou uma das m\u00e3os por dentro da calcinha. Eu n\u00e3o sabia o que viria a seguir. A intimidade \u00e9 a nossa senten\u00e7a. Segundos depois, entretanto, ela parou com aquilo e entrou no banheiro. Ficou por l\u00e1 uns bons vinte minutos. Quando reapareceu, estava envolvida numa toalha. Foi nessa hora que resolvi ir at\u00e9 l\u00e1. Entrei no pr\u00e9dio, n\u00e3o havia ningu\u00e9m na portaria, subi os degraus e bati na porta. Eu estava ansioso, sentia que era o que tinha que fazer. Mas o que aconteceu quando a porta se abriu, infelizmente, n\u00e3o foi nada do que imaginei. O rosto dela j\u00e1 n\u00e3o parecia doce e am\u00e1vel como quando conversamos no \u00f4nibus, sua tez empalideceu, seus olhos se arregalaram. E ela ent\u00e3o me perguntou, andando para tr\u00e1s, com a voz assim meio tremida, o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?! Eu mostrei a nota de cinquenta reais em minha m\u00e3o. Eu disse, \u00e9 sua, vi quando caiu. Falei lentamente, sorrindo, para ela se acalmar. Porque as pessoas gostam muito de deduzir e acabam pensando em coisas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver. Quase sempre se exagera. E acho que foi mesmo o que aconteceu.\u00a0 Ela de repente estava com os l\u00e1bios crispados, com os olhos bem abert\u00f5es, parecendo olho de cavalo, e tentou fechar a porta com for\u00e7a.\u00a0 Eu coloquei o p\u00e9 na frente, dizendo que s\u00f3 queria devolver o dinheiro, que j\u00e1 ia embora. Mas ela correu para dentro do apartamento e come\u00e7ou a gritar. Foram gritos horr\u00edveis aqueles, gritos longos, altos, que pareciam n\u00e3o acabar mais. Pra qu\u00ea aquilo tudo? No fundo, digo ao senhor, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o de confian\u00e7a. Culpam os outros pelas pr\u00f3prias escolhas e, se deixarmos, podem mesmo nos arruinar. Eu pensava nisso quando dei o primeiro murro. E, depois dele, dei outro, depois outro e mais outro. A verdade, doutor, \u00e9 que eu n\u00e3o consegui mais parar, mesmo quando ela deixou de gritar e virou uma massa de carne, sangue e cabelos loiros, mesmo quando senti que n\u00e3o respirava mais. Quando voc\u00eas chegaram, mais de uma hora depois, o dente tinha come\u00e7ado a doer outra vez e eu estava deitado ao seu lado no ch\u00e3o, com o bra\u00e7o cruzado sobre o seu peito, abra\u00e7ando-a. Do mesmo jeito, doutor, que eu, quando olhava para o teto l\u00e1 do orfanato, imaginava deitar com mam\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Rodrigo Melo<\/em><\/strong><em> \u00e9 autor de &#8220;o sangue que corre nas veias&#8221; e &#8220;jogando dardos sem mirar o alvo&#8221;, livros de hist\u00f3rias curtas. Lan\u00e7ar\u00e1, no final do ano, o seu primeiro romance.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As lancinantes linhas do conto in\u00e9dito de Rodrigo Melo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10155,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2593,2534,16],"tags":[2610,81,41,149,991],"class_list":["post-10154","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-102a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-ceu-sem-fim","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-rodrigo-melo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10154"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10154\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10227,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10154\/revisions\/10227"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}