{"id":10174,"date":"2015-07-08T12:24:51","date_gmt":"2015-07-08T15:24:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10174"},"modified":"2018-12-12T12:18:39","modified_gmt":"2018-12-12T15:18:39","slug":"dedos-de-prosa-iii-35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-35\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Jo\u00e3o Bosco<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15804\" aria-describedby=\"caption-attachment-15804\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/BLOCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15804 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/BLOCO.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/BLOCO.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/BLOCO-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15804\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ana P\u00e9rola<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Baptizado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia est\u00e1 abrasador e eu n\u00e3o aguento tanta presen\u00e7a entre garrafas de \u00e1gua. A ressaca d\u00f3i-me como uma primeira vez, apesar de j\u00e1 n\u00e3o ser novidade. \u00c9 o baptizado do \u00faltimo primo que n\u00e3o sei se o ser\u00e1 e eu sinto-me como se caminhasse por entre um sonho onde mal dou por quem passo. Cada parente pesa-me como um membro edemaciado, pendurado pelos nervos directamente no meu c\u00e9rebro, hoje de gelatina. Tenho que sair deste lugar t\u00e3o familiar na pedra e no sangue, com agulhas quando me olham e eu sem conseguir compor-me no fato descosido que hoje sou. Tenho que sair daqui e encontrar-me comigo em algum lado onde hajam s\u00f3 olhos para dentro, at\u00e9 me passar esta n\u00e1usea nada metaf\u00edsica e reaprender a caminhar de outra forma e n\u00e3o desta em c\u00e2mara lenta, pensando cada passo para parecer natural e dando cabo de todo o teatro de improviso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho que me manter eu. Tenho que me manter o eu a que estes est\u00e3o habituados. N\u00e3o posso deixar que estes saltos de consci\u00eancia se manifestem no que sou para o mundo. \u00c9 festa, a gente est\u00e1 para festejar e n\u00e3o para serem contagiados pelo meu funeral de neur\u00f3nios. Funeral, baptizado&#8230; e eu a ter que aguentar isto tudo, s\u00f3 por causa da religi\u00e3o destes, depois de uma noite herege deste. Se soubessem que as religi\u00f5es surgem de esquizofr\u00e9nicos que foram levados demasiado a s\u00e9rio por multid\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei o que o futuro me reserva, mas talvez um barco, n\u00e3o dos que descobriram a \u00cdndia cheia de indianos, mas dos que levam a glande ao colo do \u00fatero de uma sueca qualquer, j\u00e1 riscada no mapa por um filho de chileno. Os do novo mundo antecipam-se, mas de vinho&#8230; E a irm\u00e3 ao lado adormecida por um fingimento tamb\u00e9m ruivo, acordada por uns dedos que desaparecem no v\u00e1cuo de tanta espera l\u00edquida. S\u00f3 me espalharei numa delas, mesmo dentro de ambas at\u00e9 elas todas ruivas no fim. N\u00e3o haver\u00e1 beijos porque o vinho chileno n\u00e3o quer e nada mais ser\u00e1 que uma mem\u00f3ria de um futuro no passado recordado onde fiquei e estou. Nunca saberei a marca do vinho chileno, mas tamb\u00e9m depois do orgasmo j\u00e1 n\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode ser que a dist\u00e2ncia que me est\u00e1 reservada a percorrer no espa\u00e7o, chamar-lhe tempo se for mais f\u00e1cil assim, seja s\u00f3 a que vai desta casa do povo, desta aldeia pequena, at\u00e9 ao lameiro do meu av\u00f4 onde se ouve o sino da igreja, mas n\u00e3o se v\u00ea sinal de telhados laranja ou casas brancas com os palheiros castanhos a assinar a ruralidade que persiste. Pode ser que o tempo todo que tenho ainda que soprar, como vidro quente, no caminho, ou debaixo das macieiras, ou o tempo todo que esse tempo todo ser\u00e1, at\u00e9 o prolongar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a gente me conhece no baixo da casa do povo menos eu. Os bra\u00e7os s\u00e3o-me mais estranhos que aquele sapato de salto alto pendurado no p\u00e9 de pernas depiladas para a festa. Mal consigo abrir a d\u00e9cima garrafa de \u00e1gua. A sede que tenho nem parece ser minha, por mais que eu beba, n\u00e3o se vai embora. Devo estar a beber com o corpo errado. Os meus tios insistem em cerveja e eu a fingir-me de doente ou santo. Seria o melhor rem\u00e9dio, mas a noite ser\u00e1 de festa outra vez e queria guardar-me para depois do casamento. Ningu\u00e9m me conhece de verdade, no baixo da casa do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feliz Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Direi na manh\u00e3 que me espera, na ilha em marte, longe de ontem, longe de hoje, daqui a umas horas se o tempo me levar sem o peso do corpo. Feliz Natal e um ano novo que n\u00e3o se v\u00ea a chegar nunca, passa e fico igual, s\u00f3 o n\u00famero muda, s\u00f3 a ideia a esperan\u00e7a rid\u00edcula que seja melhor que o \u00faltimo, s\u00f3 porque \u00e9 novo&#8230; pois ontem estava melhor: b\u00eabedo, pouco eu, mais nos outros, sem uma caneta espetada no c\u00e9rebro para escrever o que se passou, para o amanh\u00e3 ser a continua\u00e7\u00e3o falsa do que acaba sempre&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei onde estive ontem \u00e0 noite. Acordei em mim e s\u00f3, nada a reclamar. Foi festa na terra e acabou mais tarde que o seu fim, para isso servem os amigos e os b\u00eabados. Sei que houve, quando a cor do c\u00e9u se torna p\u00farpura, uma grade de cervejas quentes no meio do jardim de paralelos com a m\u00fasica a desafiar os guardas que nem se interessavam de males menores. Sei que falei pela primeira vez, sem ter sido eu a falar, com algu\u00e9m que conhecia h\u00e1 muitos anos. Dizem-me que \u00e0s vezes t\u00edmido, digo que \u00e0s vezes com pouca vontade para o que n\u00e3o vale a pena e pouco dura. A mim nem me quero conhecer apesar de andar sempre a queixar-me. Sei que houve abra\u00e7os sem d\u00favidas, num estado duvidoso, por raz\u00f5es sem exist\u00eancia, apenas porque havia aquele momento e uma for\u00e7a maior que o nosso p\u00e9 atr\u00e1s a empurrar-nos na direc\u00e7\u00e3o do que sent\u00edamos, fosse quase nada, fosse uma euforia irracional s\u00f3 por se estar ali no centro do jardim de paralelos, com uma garrafa de cerveja quente, a ouvir m\u00fasica sem se dar por ela depois do dia da t\u00e3o esperada festa. Sei que esticamos a noite at\u00e9 se romper com o dia e que tentamos desacelerar o tempo com golos apressados, s\u00f3 n\u00e3o sei onde estive ontem \u00e0 noite. Hoje, que deve ser onde&#8230; que deve ser quando estou, n\u00e3o sei quem foi aquele gajo, mas invejo-o, porque hoje ainda h\u00e1 luz e ando a \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda longe dos paralelos da cerveja quente, estive com os dedos dentro de um candeeiro no passeio, encostado a uma loira acesa, sem qualquer pudor, ou sem consci\u00eancia para isso, s\u00f3 a vontade. Encostei-me contra a porta descascada da casa antiga, hoje velha, dos senhores ricos em decad\u00eancia bebendo loiras, confundindo a s\u00f3lida com a l\u00edquida, fazendo com que a s\u00f3lida l\u00edquida e a l\u00edquida em pouco tempo a jorrar do s\u00f3lido. Tudo acabou antes do fim porque no meio da rua da terra pequena n\u00e3o \u00e9 lugar para se dar liberdade \u00e0 vontade, mais vale esperar uns dias at\u00e9 a casa estar vazia e uma desculpa estar cheia e infal\u00edvel, uma cama para desfazer e a ansiedade de ter tudo planeado e previsto quando nada sai como previsto por causa da ansiedade. Trapalhada de len\u00e7\u00f3is e pregas de pele que se colam ao corpo como sanguessugas de orgasmos, chupando, chupando e o sangue a vir de longe de n\u00f3s, de um lugar onde n\u00e3o sab\u00edamos existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Treme-me o c\u00e9rebro e sinto-o nos movimentos descoordenados dos bra\u00e7os a levar-me \u00e1gua aos l\u00e1bios secos, de escamas a saltar no sal dos peixes afogados. A vida passa como uma sucess\u00e3o lenta de imagens, como se o condutor do tempo estivesse a aprender a conduzir entre travagens bruscas e um acelerador de ejacula\u00e7\u00f5es precoces. Devo parecer uma marioneta e este lugar cheio de gente que julga conhecer-me a tomar conhecimento da minha condi\u00e7\u00e3o, trope\u00e7ando nos fios que me controlam, provocando-me espasmos inesperados. N\u00e3o tarda passa-me do corpo ao que sou realmente e salto anos em segundos sem sair do mesmo espa\u00e7o, louco por dentro, que s\u00e3o os mais comuns e menos reconhecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Savonlinna, 2010<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Jo\u00e3o Bosco da Silva<\/em><\/strong><em> nasceu em Bragan\u00e7a (1985). Estudou no Porto. Vive e trabalha em Turku, na Finl\u00e2ndia.\u00a0 Publicou os livros\u00a0Os Poemas de Ningu\u00e9m\u00a0(2009), Disse-me Ant\u00f3nio Montes\u00a0(2010),\u00a0Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos\u00a0(2011),\u00a0Saber Esperar Pelo Vazio\u00a0(2012), \u00a0Destila\u00e7\u00f5es(2014) e Trepana\u00e7\u00e3o de Jer\u00f3nimo Bosch (2015). <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Insones confiss\u00f5es no conto de Jo\u00e3o Bosco<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15804,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2593,2534],"tags":[81,41,2617,2618,385],"class_list":["post-10174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-102a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-joao-bosco","tag-o-baptizado","tag-portugal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10174"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10174\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15805,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10174\/revisions\/15805"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15804"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}