{"id":10351,"date":"2015-08-17T09:17:32","date_gmt":"2015-08-17T12:17:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10351"},"modified":"2018-12-13T11:37:37","modified_gmt":"2018-12-13T14:37:37","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-37","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-37\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Graccho Braz Peixoto<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso do \u201ce-mail\u201d, no \u00e2mbito da imprensa, trouxe uma altera\u00e7\u00e3o na forma de se fazer entrevista. Se antes era feita no calor da hora, no encontro pessoal entre o jornalista e seu alvo, onde pergunta e resposta eram um bate-bola que proporcionava outras coloca\u00e7\u00f5es inusitadas, muitas vezes surpreendentes, hoje \u00e9 realizada por e-mail, fato que vai das publica\u00e7\u00f5es culturais mais \u00e0 margem da m\u00eddia a revistas como a Veja. Por\u00e9m, se perde no ritmo da fala, do fraseado mais espont\u00e2neo e circunstancial, ganha na cad\u00eancia do pensamento, da articula\u00e7\u00e3o constru\u00edda para uma resposta mais substancial. No caso do compositor <strong><a href=\"http:\/\/mariomontaut.com.br\/\">M\u00e1rio Montaut<\/a><\/strong>, a resposta escrita resvala facilmente para digress\u00f5es e retic\u00eancias, sugest\u00f5es, o que, naturalmente, d\u00e1 \u00e0 \u201cconversa\u201d um sabor mais incomum. Formado pela Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Arte \u2013 ECA, da USP, Montaut est\u00e1 divulgando seu quarto CD, \u201cDe Vi\u00e9s\u201d, em que p\u00f5e a rodar a sonoridade pr\u00f3pria de suas 16 can\u00e7\u00f5es. Neste espa\u00e7o generoso, M\u00e1rio fala da morte da can\u00e7\u00e3o, de sinestesia, de \u00eddolos, inf\u00e2ncia, parceiros&#8230;\u00a0 \u00c9 nosso convite para leitura e audi\u00e7\u00e3o de uma voz singular nesse territ\u00f3rio que costumamos chamar de MPB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10355\" aria-describedby=\"caption-attachment-10355\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-I1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10355 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-I1.jpg\" alt=\"M\u00e1rio Montaut\" width=\"450\" height=\"442\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-I1.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-I1-300x295.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10355\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Montaut \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>V\u00ea-se, claramente, em suas letras, uma afinidade com o Surrealismo. Talvez seja algo t\u00e3o forte que j\u00e1 soa como um processo inconsciente. Refiro-me em especial aos cen\u00e1rios on\u00edricos que emanam das can\u00e7\u00f5es, voc\u00ea escrevendo no \u00e2mbito das sugest\u00f5es, o que deixa sempre uma margem virgem para outras frui\u00e7\u00f5es. Pode comentar um pouco sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0Isso que voc\u00ea chama de Surrealismo \u00e9 para mim, com as mais loucas sinestesias, o espa\u00e7o-s\u00edntese de todos os conflitos, de todos os paradoxos, e quando crio a coisa n\u00e3o \u00e9 apenas emotiva, pensamenteira, sensorial.\u00a0 Dessa enigm\u00e1tica inst\u00e2ncia acolhedora de tudo o que foi tocado pelo desejo, a inspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 que pode se abrir uma margem virgem para outras frui\u00e7\u00f5es, como voc\u00ea diz. Imposs\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o se n\u00e3o estiver ativada essa regi\u00e3o. Agora, o Surrealismo, que para mim \u00e9 essencialmente isso, realiza-se ganhando forma musical em tempos, velocidades bem diversas, quando vira m\u00fasica, em princ\u00edpio. Uma m\u00fasica que j\u00e1 prev\u00ea, aguarda palavras, e que composta ao viol\u00e3o e voz, piano e voz, s\u00f3 ao instrumento ou\u00a0<em>a cappella<\/em>, pode chegar m\u00fasica pura, ou com palavras, sonoridades que inspirem o verbo, e neologismos que mesmo desafiando a raz\u00e3o se imp\u00f5em com seus sentidos misteriosos. Ent\u00e3o, quando inicio a letra j\u00e1 existe todo esse processo, toda essa explos\u00e3o, e a ela ouvindo, reouvindo, fa\u00e7o a letra. \u00c9 um Caos. E natural que dessa complexidade \u00e0s vezes surjam versos absurdos. Natural e inevit\u00e1vel (risos). Existe nessas composi\u00e7\u00f5es algo de sugestivo, como voc\u00ea coloca, e de imperioso, inexplic\u00e1vel tamb\u00e9m para mim. Se pudesse explicar, n\u00e3o sei se faria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong> <strong>No novo filme do Jean-Luc Godard, &#8220;Adeus \u00e0 Linguagem&#8221;, h\u00e1 a seguinte frase logo na abertura: &#8221; A realidade \u00e9 o ref\u00fagio dos que n\u00e3o t\u00eam imagina\u00e7\u00e3o&#8221;. O que voc\u00ea acha de tamanho aforismo, vindo de quem vem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong> Voc\u00ea sabe que n\u00e3o acompanho tanto assim o Godard? Retenho imagens bel\u00edssimas dele, de alguns filmes, e de certos filmes que nem vi inteiros, mas fico sedento por imagens novas dele, e esse a\u00ed \u00e9 em 3D, n\u00e3o \u00e9? Um homem, uma mulher, um c\u00e3o&#8230; e voc\u00ea lembra de &#8220;Je vous salue Marie&#8221;? Aquela menina recitando Baudelaire. E o bigodudo do Sarney censurando o filme logo ap\u00f3s o t\u00e9rmino da censura? A pedido de Marly Sarney, a primeira dama que virou tema de carnaval daqueles jornalistas que criaram o bloco &#8220;Je vous salue Marly&#8221;? \u00c9 um convite de passeio pelo tema, o aforismo. Oscar Wilde tinha outro: &#8220;A a\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo recurso dos que n\u00e3o sabem sonhar&#8221;. Sarney, Antonio Carlos Magalh\u00e3es: homens de a\u00e7\u00e3o, de atitude. &#8220;E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque n\u00e3o h\u00e1 sonho mais lindo do que sua terra, n\u00e3o h\u00e1&#8221;. Surrealismo de Dorival Caymmi. Borges: &#8220;As pessoas aceitam facilmente a realidade talvez por suspeitarem que ela n\u00e3o exista&#8221;. Lorca: &#8220;N\u00e3o \u00e9 sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!&#8221; Novalis: &#8220;A vida n\u00e3o \u00e9 um sonho, mas pode chegar a ser um sonho&#8221;. D\u00e9cio Pignatari achava que o Surrealismo n\u00e3o pegou tanto por aqui porque o Brasil j\u00e1 \u00e9 surrealista. &#8220;Em qual mentira vou acreditar?&#8221;, entoavam os Racionais em &#8220;Sobrevivendo no inferno&#8221;, e esse \u00e9 um t\u00edtulo dantesco! Caetano Veloso: &#8220;Antonio Carlos Magalh\u00e3es \u00e9 quentinho, sexy e carinhoso&#8221;. O aforismo de Godard ap\u00f3s um telejornal da Globo em ritmo de golpe produz essas digress\u00f5es: &#8220;Bela Humana Ra\u00e7a!&#8221; (risos). &#8220;Dali de Salvador&#8221;, cantava a Blitz. &#8220;Um homem que para se referir a uma enxada precisa dizer enxada merece mais \u00e9 pegar nela&#8221; (Wilde). Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez quando sentia medo da realidade procurava fazer trabalhos manuais. Para tudo isso deve haver uma solu\u00e7\u00e3o de continuidade.\u00a0Lula e Dilma sabiam de tudo, mesmo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Geralmente, com nossas influ\u00eancias, vamos encontrando compositores que nos inspiram de diferentes formas. Alguns, se podemos colocar desta forma, se enquadrariam sob aspecto mais cerebral, informativo; outros j\u00e1 repousariam perto do cora\u00e7\u00e3o, por conta de viv\u00eancias, emo\u00e7\u00f5es que eu diria quase m\u00edticas. Voc\u00ea concorda? Pode dar exemplos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0O Paul McCartney certa vez falou algo assim: \u201c<em>Here, there and everywhere<\/em> era pra ser supostamente uma can\u00e7\u00e3o dos Beach Boys, por\u00e9m, voc\u00ea n\u00e3o sabe disso, nada disso est\u00e1 na m\u00fasica, o que me influenciou est\u00e1 na minha cabe\u00e7a, voc\u00ea n\u00e3o precisa saber, e \u00e9 assim que vejo a diferen\u00e7a entre influ\u00eancia e c\u00f3pia\u201d. Algo aproximado, com o qual me identifiquei. Posso lhe garantir que no processo de determinada composi\u00e7\u00e3o sei onde se d\u00e1 um toque de Benjor, de Debussy, Kandinsky, Keith Richards, de Heidegger, e claro, voc\u00ea n\u00e3o precisa saber disso (risos). Dito assim, parece at\u00e9 niilismo, inexist\u00eancia quase total de evid\u00eancias (risos). Fico parecendo um personagem de Borges. A artista pl\u00e1stica Fayga Ostrower, em seu livro \u201cCriatividade e processos de cria\u00e7\u00e3o\u201d, repete em estilo acad\u00eamico o que o Paul disse com mais clareza e contund\u00eancia: que a influ\u00eancia mais elaborada se torna reconhec\u00edvel praticamente s\u00f3 pelo artista. Creio que a influ\u00eancia vem dessa quarta regi\u00e3o inspirada, da qual emana o fogo-s\u00edntese, e onde ocorrem as transfigura\u00e7\u00f5es de tantas linguagens, onde um par\u00e1grafo de Heidegger, uma tela de Kandinsky, n\u00e3o me instigam menos do que uma can\u00e7\u00e3o de Chico Buarque ou dos Beatles. Como exemplo, vou mencionar o sonho em que Jimi Hendrix faz um solo de guitarra que se projeta no c\u00e9u de Vulc\u00e2nia\u00a0 (ilha onde foi constru\u00eddo o N\u00e1utilus, do 20.000 L\u00e9guas Submarinas, de Julio Verne) num arco-\u00edris com muito mais de sete cores, e que pode me lembrar tons do Kandinsky que revi na recente exposi\u00e7\u00e3o do Centro Cultural Banco do Brasil, em S\u00e3o Paulo, \u00a0sonho que resultou numa obra puramente musical, \u201cBrincando em Vulc\u00e2nia\u201d. Ser\u00e1 que lembra Hendrix (risos)?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Uma deixa para voc\u00ea fazer duas consagra\u00e7\u00f5es: fale de Beatles e de Dorival Caymmi.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0Inf\u00e2ncia, proximidade da origem, arqu\u00e9tipo. Quantas can\u00e7\u00f5es dos Beatles v\u00eam de arqu\u00e9tipos. \u201cThe fool on the hill\u2019, \u201cEleanor Rigby\u201d, \u201cI\u2019m the walrus\u201d, \u201cHello Goodbye\u201d, \u201cThe Long and winding road\u201d, \u201cFor no one\u201d, \u201cHelp\u201d, \u201cI\u2019ve got a feeling\u201d, \u201cLet it be\u201d (em que muita gente, at\u00e9 o John Lennon, v\u00ea a Virgem Maria, mas que Paul jura ser a m\u00e3e dele)&#8230; E\u00a0 esse mar de ondas arquet\u00edpicas quando quebra na praia \u00e9 bonito, \u00e9 bonito, como diz Caymmi, que como os Beatles, tem nas letras uma coloquialidade genial. Caymmi \u00e9 inf\u00e2ncia puramente marota, sensual, com aquela malemol\u00eancia, aquele viol\u00e3o das can\u00e7\u00f5es praieiras. Debussy comp\u00f4s \u201cLa Mer\u201d, mas \u00e9 Caymmi quem o desvela pelas praias em que tamb\u00e9m pescam e se banham os Beatles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Um coment\u00e1rio recorrente entre autores e m\u00fasicos diz que a MPB perdeu sua for\u00e7a, sua representatividade, seu alcance. Concorda com isso? Sei que \u00e9 uma quest\u00e3o complexa, que n\u00e3o se esgota numa entrevista, mas queria sua opini\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211; <\/strong>\u201cO vento que faz cantiga nas folhas do alto do coqueiral, o vento que ondula as \u00e1guas, eu nunca tive saudade igual, me traga boas not\u00edcias daquela terra toda manh\u00e3, e jogue uma flor no colo de uma morena em Itapo\u00e3\u201d&#8230; Se vejo as coisas dessa praia, que \u00e9 sonho onde brincam Chico, Beatles, Dal\u00ed, Breton, Alberto Caeiro, todo o resto \u00e9 brincadeira de mau-gosto. Isso do Chico dizer que a can\u00e7\u00e3o morreu \u00e9 apenas a revela\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de algo que ele j\u00e1 prenunciou em \u201cOl\u00e9 Ol\u00e1\u201d, em que vaticinava o futuro do canto, do samba: \u201co sol chegou antes do samba chegar, quem passa nem liga, j\u00e1 vai trabalhar, e voc\u00ea minha amiga j\u00e1 pode chorar\u201d.\u00a0 Na globaliza\u00e7\u00e3o da Ditadura Econ\u00f4mica, da Tecnologia Totalit\u00e1ria n\u00e3o sobra espa\u00e7o para se brincar, pensar, cantar. Henfil j\u00e1 dizia que a tecnologia \u00e9 a morte do sonho, e a morte do Sonho, parece, \u00e9 a morte da can\u00e7\u00e3o. Paul McCartney, em \u201cJenny Wren\u201d, acredita que a can\u00e7\u00e3o ir\u00e1 renascer. Eu apenas sei que por enquanto h\u00e1 muita singularidade poss\u00edvel e compartilh\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Talvez a mesma pergunta feita de outro modo. Tivemos movimentos e movimenta\u00e7\u00f5es de uma criatividade muito forte, uma produ\u00e7\u00e3o hoje consolidada. Ao longo do tempo, grandes cantores e compositores que surgiram com a Era do R\u00e1dio, os craques da Bossa Nova, que fundaram uma nova linguagem, com repercuss\u00e3o internacional; a Tropic\u00e1lia, alguns grupos e artistas com tanta coes\u00e3o que ficaram conhecidos como o Clube da Esquina, o Pessoal do Cear\u00e1, Gera\u00e7\u00e3o Nordeste, o pessoal do Lira Paulistana, o rock da d\u00e9cada de &#8217;80. Que vis\u00e3o tem do cen\u00e1rio atual?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong> Del\u00edcia lembrar 1980, quando a can\u00e7\u00e3o que eu mais ouvia nas r\u00e1dios de S\u00e3o Paulo era \u201cNoturno (Cora\u00e7\u00e3o Alado)\u201d, a de maior sucesso e uma das mais emblem\u00e1ticas dos compositores do Cear\u00e1. Bem na \u00e9poca do \u201cLira Paulistana\u201d, e curiosamente tamb\u00e9m em 1980, um debate na Faculdade de M\u00fasica da ECA-USP, com a presen\u00e7a de Arrigo Barnab\u00e9, M\u00e1rio Manga, H\u00e9lio Ziskind e uma diversidade enorme de compositores, na qual os movimentos que voc\u00ea menciona estavam mais ou menos representados. Ainda n\u00e3o haviam decretado sua morte, mas quase todos ali concordavam que a can\u00e7\u00e3o se encontrava em profunda atonia. O Arrigo se mostrava at\u00e9 meio indignado dizendo que tinha tocado na quest\u00e3o com o Valter Franco, e que este via aquela leva de can\u00e7\u00f5es com muito bons olhos. Mas eis que com a lembran\u00e7a de \u201cNoturno\u201d, sua e do Caio, e esses fatos instigantes voc\u00ea traz de novo o tema que tanto nos seduz pelo mist\u00e9rio: a morte da can\u00e7\u00e3o. Por certa cr\u00edtica que v\u00ea em Chico Buarque De Hollanda um sin\u00f4nimo da can\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m de certa esquerda no Brasil, ele foi eleito o grande \u00edcone do fen\u00f4meno. Quando em julho de 2011 lan\u00e7ou \u201cFrancisco\u201d, um cr\u00edtico da revista Veja afirmou que \u201cseu \u00faltimo espasmo criativo\u201d se deu em 1993, em \u201cParatodos\u201d. Chico estava ent\u00e3o sem gravar desde 1989, ano em que lan\u00e7ou \u201cMorro Dois Irm\u00e3os\u201d. Logo ap\u00f3s o lan\u00e7amento de \u201cParatodos\u201d, ele declarou numa entrevista que se\u00a0a crise criativa pela qual vinha passando crescesse em termos geom\u00e9tricos, o pr\u00f3ximo disco sairia s\u00f3 dali a dezesseis anos. Na realidade isso ocorreu em 1998, com \u201cAs cidades\u201d, que deu ensejo a uma mat\u00e9ria da Veja intitulada: \u201cA crise criativa de Chico Buarque\u201d. Os cr\u00edticos que participaram da reportagem nem falaram t\u00e3o mal assim da obra, s\u00f3 tentaram aprofundar o assunto que o pr\u00f3prio Chico propusera. Sinto, Graccho, que este \u00e9 o cerne da pergunta, e j\u00e1 que n\u00e3o d\u00e1 mesmo para responder apenas prossigo nessa perspectiva que vou achando cada vez mais atraente. \u201cCarioca\u201d, \u201cSonhos Sonhos S\u00e3o\u201d, \u201cSub\u00farbio\u201d e \u201cQuerido Di\u00e1rio\u201d s\u00e3o para mim as mais significativas composi\u00e7\u00f5es de Chico nos tr\u00eas \u00faltimos discos, e cuja riqueza \u00e9 maior a cada audi\u00e7\u00e3o. Com algumas faixas de \u201cChaos and creation in the backyard\u201d, de Paul McCartney, essas certamente est\u00e3o entre as m\u00fasicas que mais ou\u00e7o nos \u00faltimos anos, e sobre as quais gostaria de conversar com outros m\u00fasicos, que para minha surpresa revelam um desconhecimento quase total desses trabalhos. Parece que resta em nossa contemporaneidade a gra\u00e7a singular, e ela pode ser partilhada, mas em outro n\u00edvel. Dificilmente voc\u00ea diz: \u201cEssa \u00e9 a nossa can\u00e7\u00e3o\u201d, relembrando Joyce, que j\u00e1 brincou com a ideia da morte da can\u00e7\u00e3o na revista \u201cBundas\u201d, do Ziraldo,\u00a0ano 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15829\" aria-describedby=\"caption-attachment-15829\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15829 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/INTERNA-II-300x191.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15829\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Montaut \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Fale um pouco do processo de grava\u00e7\u00e3o de seu disco &#8220;De Vi\u00e9s&#8221;. Sei que v\u00e1rias m\u00fasicas ficaram fora, apesar das 16 faixas. \u00c9 do\u00eddo definir o repert\u00f3rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0Sim, \u00e9 mais que do\u00eddo. Agora, eu me lembro de No\u00e9. Quando Deus lhe disse que iria mandar o dil\u00favio, ele salvou um casal de cada esp\u00e9cie na arca. Bem, sem tamanhos avisos e sem aquele agu\u00e7ado faro de escolha, mas a meu jeito, quando sinto que vou acabar perdendo a maior parte das muitas coisas que crio, seleciono algo que represente um pouco de cada etapa, de certos \u00e2ngulos de minha cria\u00e7\u00e3o pelo tempo, e coloco na arca de Montaut (risos), e nem sei se s\u00e3o as melhores m\u00fasicas, mas s\u00e3o escolhas poss\u00edveis, que representam possibilidades que me habitam, e mesmo que muita coisa fique de fora, sinto-me aliviado antes que o temporal leve embora, e voc\u00ea sabe que na condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria dessa exist\u00eancia de artista que n\u00e3o vive de sua arte, a quest\u00e3o se torna ainda mais delicada. Tento trazer para cada disco exemplares de v\u00e1rias \u00e9pocas e composi\u00e7\u00f5es realizadas numa proximidade relativa \u00e0 feitura do disco. \u00c9 quase imposs\u00edvel lan\u00e7ar um \u00e1lbum em menores intervalos de tempo, ent\u00e3o, tem sido assim at\u00e9 agora. Trabalhei essas composi\u00e7\u00f5es desde 2010 com o Roberto Gava (produtor, arranjador e instrumentista no \u00e1lbum), com a Ana Lee (cantora, minha mulher e musa), com o Ricardo Stuani (percussionista em v\u00e1rias faixas do \u00e1lbum), Vicente Thin\u00e9 e Ozias Stafuzza (queridos parceiros). E durante esse tempo gravei muita coisa nova, material para iniciativas futuras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Como se deu sua aproxima\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0\u00a0A banda no coreto de Serra Negra, perto dos tr\u00eas anos de idade. O r\u00e1dio tocando \u201cA Can\u00e7\u00e3o do Marinheiro\u201d (\u201cqual Cisne Branco\u201d) e \u201cHava Nagila\u201d, entre outros cantos e vozes de\u00a0 Serra Negra, e j\u00e1 de volta a S\u00e3o Paulo, aos quatro anos, uma can\u00e7\u00e3o no r\u00e1dio que nunca mais ouvi, e que me chegou com o tempero fabuloso de uma das tantas hist\u00f3rias que minha av\u00f3 Alice contava, enquanto eu ouvia e olhava pela janela um navio sumindo. Um mapa infinito de tantas ruas.\u00a0 Aos oito anos, de f\u00e9rias em Serra Negra, ouvi melodias dos Beatles, sem saber que eram elas, executadas por orquestra nos alto-falantes de um cinema.\u00a0 Aos onze anos o viol\u00e3o, e logo as primeiras composi\u00e7\u00f5es, Caymmi, Chico Buarque, Tchaikowsky, Chopin, Beethoven, Roberto Carlos, Beatles. Mais tarde o piano, e as namoradas, as turmas no col\u00e9gio e em casa. Coisas bem antes do que conto e que n\u00e3o v\u00e3o acabar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong> <strong>Sabemos que algumas experi\u00eancias com as artes, como pura frui\u00e7\u00e3o ou mesmo no ato da cria\u00e7\u00e3o podem ser algo de eleva\u00e7\u00e3o espiritual. Voc\u00ea teve algo assim com a m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong> Voc\u00ea fala em eleva\u00e7\u00e3o espiritual, e eu atento para o termo. Espiritual. T\u00e3o desprezado na atualidade, como se nossa consci\u00eancia fosse resultado unicamente de neur\u00f4nios, de redes neurotransmissoras. Kandinsky, que sempre teve o Espiritual em grande apre\u00e7o, \u201cprocurou na alma dos objetos as manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas de seus sons interiores\u201d. Participou de movimentos xamanistas na Mong\u00f3lia, tamb\u00e9m nome de um filme de Salvador Dal\u00ed.\u00a0 Voc\u00ea me faz\u00a0 pensar ainda em Christian Dunker (psicanalista amigo de Vladimir Safatle e de Maria Rita Kehl), que em dezembro de 2012 escreveu para a revista Cult um bel\u00edssimo texto sobre a Alma. M\u00fasica \u00e9 Alma, leva-me ao \u00eaxtase, para mim, a forma maior de conhecimento, que para muitos pode ser \u201cirrealidade\u201d, mas esse universo musical se insere na realidade de modo mais determinante que certos padr\u00f5es aceitariam (risos).\u00a0 A audi\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica, ou a lembran\u00e7a dela (que com o tempo costuma ser um tipo mais frequente de experi\u00eancia, aquela audi\u00e7\u00e3o interna), pode ser arrebatadora, e produzir essa \u201celeva\u00e7\u00e3o espiritual\u201d. Quanto ao ato de criar, \u00e9 tamb\u00e9m um \u00eaxtase diferente, na regi\u00e3o em que se processam as alquimias e s\u00ednteses que geram a forma. Ali, esta pessoa que agora fala se apresenta em propor\u00e7\u00f5es mais adequadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>O que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0A forma concomitantemente r\u00edtmica, mel\u00f3dica, harm\u00f4nica, verbal&#8230; Voc\u00ea foi ao ponto.\u00a0 Algo que se cante entoando palavras, talvez. Ocorre que tradicionalmente a can\u00e7\u00e3o \u00e9 o que Noel, Chico, Caymmi, os Beatles fizeram, com muita comunicabilidade a guiar outros impulsos. De um bom tempo pra c\u00e1, repetimos essa forma \u00e0 exaust\u00e3o, hoje coisa dilu\u00edda, profunda atonia, ou ent\u00e3o a inovamos um pouco e ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u00a0amplamente entendida. No meu caso penso que fa\u00e7o algumas can\u00e7\u00f5es, poucas, e muitos objetos sonoros n\u00e3o identific\u00e1veis como voc\u00ea uma vez bem os chamou. Sinto nelas algo que requer uma partilha bem diversa. A m\u00fasica me exige um tipo de letra n\u00e3o muito f\u00e1cil de ser assimilado, e, portanto, de ser cantado facilmente por aqueles que as ouvem de imediato. Ao mesmo tempo em que s\u00e3o marcantes que j\u00e1 \u00e0s primeiras audi\u00e7\u00f5es. Bela Humana Ra\u00e7a, Castelo, \u00c1lven J\u00e9rra, De Tua Lembran\u00e7a, Ond\u00edssima Vis\u00e3o, Sat\u00e3 De Boi, Cad\u00e1ver Delicado, Quando eu canto pro meu bem&#8230; Curioso o conjunto desses dezesseis t\u00edtulos em \u201cDe Vi\u00e9s\u201d, e sua pergunta me p\u00f5e mais em desejos de refletir do que em condi\u00e7\u00f5es de responder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0Pra terminar nossa conversa, uma provoca\u00e7\u00e3o: quem \u00e9 M\u00e1rio Montaut?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO MONTAUT &#8211;<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0O que me inspira, como a Manoel De Barros, \u00e9 mais aquilo que ignoro, que essencialmente desconhe\u00e7o e desconhecerei. Por mais instigante que seja o que de n\u00f3s conhecemos, \u00e9 mais aterrador e divino o que ignoramos, o que pode nos dar medo e \u00edmpeto vital, como esta nossa conversa, de dois parceiros musicais pela trama c\u00f3smica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Graccho Braz Peixoto<\/em><\/strong><em> \u00e9 Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC\/SP (2004), compositor e jornalista. \u00c9 autor da can\u00e7\u00e3o \u201cNoturno\u201d (Cora\u00e7\u00e3o Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 grava\u00e7\u00f5es de suas m\u00fasicas, por diversos int\u00e9rpretes, no Brasil, Europa e EUA.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graccho Braz Peixoto entrevista um andarilho das paisagens sonoras, o cantor e compositor M\u00e1rio Montaut<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10353,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2639,16,2539],"tags":[2623,63,2622,616,133,8],"class_list":["post-10351","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-103a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-de-vies","tag-entrevista","tag-graccho-braz-peixoto","tag-mario-montaut","tag-musica","tag-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10351"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15830,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10351\/revisions\/15830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}