{"id":10451,"date":"2015-08-22T12:28:22","date_gmt":"2015-08-22T15:28:22","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10451"},"modified":"2015-10-04T13:09:19","modified_gmt":"2015-10-04T16:09:19","slug":"dedos-de-prosa-ii-34","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-34\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>M\u00e1rcia Denser <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_10452\" aria-describedby=\"caption-attachment-10452\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/IMG_0597.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10452 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/IMG_0597.jpg\" alt=\"Caroline Pires\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/IMG_0597.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/IMG_0597-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10452\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Caroline Pires<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MEMORIAL DE \u00c1LVARO GARDEL<\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Em mem\u00f3ria de meu pai por quem n\u00e3o pude chorar<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou n\u00e3o sei, era um casaco sal e pimenta vagamente ingl\u00eas, imagine, ele, logo o velho, logo \u00c1lvaro que s\u00f3 se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irm\u00e3 quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio ingl\u00eas, que roubei ou ganhei ou n\u00e3o sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufr\u00e1gio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora n\u00e3o vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de \u00c1lvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no in\u00edcio de 70 quando eu o enterrei, n\u00f3s (eu e minha irm\u00e3) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados,\u00a0 timba e a poesia cruel de n\u00e3o pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois n\u00fameros maior, dado ou roubado de algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que tamb\u00e9m j\u00e1 come\u00e7ava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai \u2013 que s\u00f3 se vestia no Minelli desde 1947 \u2013 o aceitou com ir\u00f4nica resigna\u00e7\u00e3o, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed ingl\u00eas sal e pimenta) no columb\u00e1rio n\u00famero 80 do cemit\u00e9rio de Vila Mariana, ala B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(Em 26.06)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um m\u00eas mandei inscrever a l\u00e1pide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscri\u00e7\u00e3o que desta vez sim, mas n\u00e3o foi assim, posto ter sido informada que em tr\u00eas anos o munic\u00edpio recolheria suas cinzas \u00e0 gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por t\u00e3o pouco, o administrador enxugava a testa coberto de raz\u00f5es e fuligem, os grossos \u00f3culos de m\u00edope, donde a n\u00e3o menos premeditada quanto tola inscri\u00e7\u00e3o <em>In Memorian de \u00c1lvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas J\u00falia e Amanda &#8211; 29.05.24 &#8211; 27.05.97 <\/em>\u00a0igualmente caput &#8211; tr\u00eas nomes e duas datas &#8211; sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou\u00a0 negada \u00e0 mim?) mas tolamente eu insisto: ent\u00e3o n\u00e3o restar\u00e1 nada e ter\u00e1 sido s\u00f3, ter\u00e1 sido tudo: desejo e p\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque eu n\u00e3o sabia ser t\u00e3o tarde, t\u00e3o in\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja bem, n\u00e3o estou tentando penitenciar-me at\u00e9 porque para mim n\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o nem castigo nem penit\u00eancia nem remorso (n\u00e3o h\u00e1 pecado para minha est\u00fapida inoc\u00eancia) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o des\u00edgnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que s\u00f3&#8230;) pai eternamente amado, desejo e p\u00f3, e ent\u00e3o o sil\u00eancio das palavras n\u00e3o ditas, dos gestos desfeitos, enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que \u00e9 meu pai definitivamente morto na antev\u00e9spera de completar 73 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(Em 26.05)<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Sua chegada \u00e9 repentina, inflama-se, extingue-se, \u00e9 jogado fora&#8221;<\/em><br \/>\n<em> (I Ching &#8211; hexagrama 30 &#8211; Li &#8211; A Chama, nove na quarta posi\u00e7\u00e3o)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta vez meu pai est\u00e1 morrendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu deveria ou poderia ou n\u00e3o me restaria outra alternativa al\u00e9m de pegar um \u00f4nibus para ir v\u00ea-lo pela \u00faltima vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai est\u00e1 morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os \u00faltimos quinze anos, se fazendo de\u00a0 cego, surdo e burro).\u00a0 O hospital fica no quil\u00f4metro 27 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada M\u00f4nica, todavia ocorre que h\u00e1 oito anos &#8211; desde que vendi o apartamento, o autom\u00f3vel, os telefones, os m\u00f3veis de fam\u00edlia, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) \u2013 e os m\u00f3veis eram tudo o que restava \u2013 desde ent\u00e3o experimento, digamos, o lado coletivo e an\u00f4nimo da vida, o que significa andar de \u00f4nibus, metr\u00f4 e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ningu\u00e9m me espera, n\u00e3o sou benvinda (n\u00e3o sou mais), pois h\u00e1 muito n\u00e3o conto, n\u00e3o vivo, n\u00e3o valho o suficiente a ponto de algu\u00e9m se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em aten\u00e7\u00e3o ou amor ou amizade ou compaix\u00e3o ou piedade comigo \u2013 eu, sombra de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma que na condi\u00e7\u00e3o de filha, a mais velha, a primog\u00eanita, teria que pegar um \u00f4nibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas seria bobagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque eu sei (eu e minha irm\u00e3 sabemos) que \u00e9 bobagem, que este cara est\u00e1 morrendo h\u00e1 28 anos, que come\u00e7ou a morrer\u00a0 quando eu o internei pela primeira vez no sanat\u00f3rio para a cura de desintoxica\u00e7\u00e3o &#8211; ele, o alco\u00f3latra,\u00a0 o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, at\u00e9 mesmo do amor e\u00a0 orgulho, o vaidoso\u00a0 dipsoman\u00edaco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em 71.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo-o vagando no escuro corredor do escrit\u00f3rio onde eu trabalhava (meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS). Vinha vacilante, macerado em \u00e1lcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irm\u00e3os esperavam-no l\u00e1 embaixo\u00a0 sentados no taxi com tax\u00edmetro ligado, que ali\u00e1s <em>ele<\/em> pagaria) para pegar a guia de interna\u00e7\u00e3o e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta \u00e0 rua onde o aguardavam no taxi para lev\u00e1-lo e intern\u00e1-lo e tranc\u00e1-lo e jogar a chave fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque eu apenas era jovem (ah, a juventude, essa falha imposs\u00edvel de se evitar em dado per\u00edodo da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vit\u00f3ria e na esperan\u00e7a, no poder e na gl\u00f3ria eternos e para muito breve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha tempo para voc\u00ea, velho, para parar e olhar pra voc\u00ea, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo \u2013 alco\u00f3latra que naufragara, silencioso e hostil, inconquist\u00e1vel rendido indiferente, sem implorar (porque se ignorava despojado da\u00a0 sua fortuna pessoal, aquele capital inalien\u00e1vel de sanidade e lucidez ) \u2013 eu \u00e9 que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendi\u00e7\u00e3o do\u00eda em mim, velho,\u00a0 ent\u00e3o melhor te excluir do pensamento e do cora\u00e7\u00e3o, fingir que voc\u00ea n\u00e3o existia, porque eu n\u00e3o ia me voltar para te olhar\u00a0 (estacar a meio caminho da vit\u00f3ria iminente) parar e olhar para voc\u00ea s\u00f3 para me sentir um lixo,\u00a0 por isso te internava e internava obsessivamente em sanat\u00f3rios onde\u00a0 te deixava, te\u00a0 trancava e jogava a chave fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o vou pegar \u00f4nibus nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 43 anos n\u00e3o se pega \u00f4nibus nenhum \u2014 al\u00e9m de velha, derrotada &#8211; e de certa forma sim, derrotada, mas precisamente por isso n\u00e3o vou pegar \u00f4nibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, n\u00e3o definitivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque n\u00f3s merec\u00edamos mais do que isto, algu\u00e9m assim que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um caf\u00e9 \u00e0 beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que n\u00e3o existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o len\u00e7o voltando o rosto para n\u00e3o nos ver chorar e \u2013 sobretudo \u2013 porque era preciso que voc\u00ea me visse derradeiramente acompanhada, n\u00e3o mais a filha da sua orfandade, e ent\u00e3o partisse consolado pelo fato de n\u00e3o me deixar t\u00e3o s\u00f3 e\u00a0 j\u00e1 t\u00e3o distante da breve vit\u00f3ria, sabendo-me amparada por algu\u00e9m a conduzir-me sem contudo me carregar \u2013 qual trof\u00e9u, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista \u2013 posto que a mim j\u00e1 basta minha dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou h\u00e1 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter\u00e1 sua morte sobrevida? Ter\u00e1 a alma sua palma? Sim ou n\u00e3o? Ter\u00e1 o esp\u00edrito g\u00e1s suficiente ou se extinguir\u00e1 num sopro, rendido ao dem\u00f4nio do abismo? \u2013 como se nunca tivesse existido, porra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decidi-me por n\u00e3o (aos 43 anos n\u00e3o se pega \u00f4nibus nenhum e muito menos nas ditas circunst\u00e2ncias, etc.) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a \u00faltima, porque ser\u00e1 para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, ambos merecemos esta \u00faltima dignidade \u2013 o transitus da vida \u00e0 morte \u2013 de n\u00e3o estarmos s\u00f3s, os passes de \u00f4nibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levar\u00edamos, a passagem para o outro lado \u2013 o \u00f3bolo de Caronte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque n\u00e3o se joga fora o cora\u00e7\u00e3o metendo-o num \u00f4nibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o s\u00edmbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem\u00a0 de postes e fios,\u00a0 deste sub-horizonte de c\u00e3es onde transito (que \u00e9 uma das tantas formas de estar morta) da\u00ed\u00a0 n\u00e3o haver muita diferen\u00e7a entre voc\u00ea e eu, meu chapa, porque tamb\u00e9m fui despojada, tamb\u00e9m me fodi \u2013 nem que estivesse na sua cola, velho \u2013 puxei voc\u00ea, puxou ao pai, eis o \u00f3bolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as m\u00e3os vazias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficarei te devendo tamb\u00e9m isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E devo-te ainda mais porque devo \u00e0 mim, n\u00e3o sem raz\u00e3o de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilha\u00e7\u00e3o seja uma penit\u00eancia, todo fracasso, uma misteriosa vit\u00f3ria, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suic\u00eddio, mas n\u00e3o vejo consolo algum nesta s\u00f3rdida teleologia, pois\u00a0 existe algo em mim que n\u00e3o se compraz com palavras, n\u00e3o trafica com sonhos, n\u00e3o negocia e tamb\u00e9m n\u00e3o adiantaria, porque tem um limite at\u00e9 onde se pode enganar-se a si mesma (sem contar o descarado pl\u00e1gio avant la lettre borgiano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por enquanto, devo a Deus e todo mundo pois que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem as costas deixando-me h\u00e1 anos e \u00e0 margem com dois passes de \u00f4nibus de ida e volta para o Limbo \u2013 do nada ao nada? E agora me abaixa Hor\u00e1cio (ou ser\u00e1 Hov\u00eddio?) para lembrar que o homem \u00e9 a soma das suas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, \u00e9 a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente at\u00e9 o nada inexor\u00e1vel: desejo e p\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem lastro, sem guia e a lembran\u00e7a da breve, artificiosa vit\u00f3ria (esta, a misteriosa vit\u00f3ria? eu passo) que era falsa e eu n\u00e3o sabia, que n\u00e3o podia perdurar o meteoro cuja \u00f3rbita j\u00e1 \u00e9 queda, se inflama e extingue-se, a menos que n\u00e3o tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito \u00e0 dor (a esta dor, a minha, a da filha, o \u00f4nus da primogenitura) pessoal, intransfer\u00edvel e \u00fanica dor, a de chorar o pai (o \u00fanico) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Post-Scripitum<\/strong>: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um m\u00eas ap\u00f3s o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior \u00e0 morte (que intu\u00ed inevit\u00e1vel embora sem dados da realidade para comprov\u00e1-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para tr\u00e1s, para baixo e de costas (a despeito de mim)\u00a0 \u2013\u00a0 direto ao centro dilacerado e oculto da dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A escritora paulistana <strong>M\u00e1rcia Denser<\/strong> publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos mot\u00e9is (1981), Exerc\u00edcios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II \u2013 obra escolhida (Record, 2008). \u00c9 traduzida em nove pa\u00edses e em dez l\u00ednguas. Dois de seus contos \u2013 \u201cO vampiro da Alameda Casabranca\u201d e \u201cHell\u2019s Angel\u201c \u2013 foram inclu\u00eddos nos Cem melhores contos brasileiros do s\u00e9culo, organizado por \u00cdtalo Moriconi, sendo que \u201cHell\u2019s Angel\u201c est\u00e1 tamb\u00e9m entre os Cem melhores contos er\u00f3ticos universais. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP, \u00e9 pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca S\u00e9rgio Milliet em S\u00e3o Paulo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ritual da despedida no conto de M\u00e1rcia Denser<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10452,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2639,2534],"tags":[516,81,41,2694,2695],"class_list":["post-10451","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-103a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-marcia-denser","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-memorial-de-alvaro-gardel","tag-todo-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10451"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10451\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10455,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10451\/revisions\/10455"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10452"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}