{"id":10562,"date":"2015-10-03T12:24:23","date_gmt":"2015-10-03T15:24:23","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10562"},"modified":"2015-11-17T17:34:31","modified_gmt":"2015-11-17T19:34:31","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-38","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-38\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na rota de um escritor h\u00e1 muito mais indaga\u00e7\u00f5es do que respostas. Muito mais d\u00favidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas \u00e9 parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percep\u00e7\u00f5es ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a exist\u00eancia? Libertar-se?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente \u00e9 importante saber das motiva\u00e7\u00f5es. Atrai mais descobrir que escritores n\u00e3o s\u00e3o seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. S\u00e3o gente comum, t\u00e3o atravessados que est\u00e3o por suas quest\u00f5es humanamente cotidianas. \u00a0O grande aspecto \u00e9 que tais autores s\u00e3o providos de ferramentas diferenciadas de apreens\u00e3o da vida e seus fen\u00f4menos. Transpiram demasiadamente na dire\u00e7\u00e3o de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstra\u00e7\u00e3o ou subjetividade envolvida numa via de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, estar\u00e1 em curso tamb\u00e9m um processo consciente e criterioso de escolhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada melhor do que ter representa\u00e7\u00f5es concretas daquilo que foi mencionado acima. E \u00e9 poss\u00edvel captar tal atmosfera na obra de um autor como <strong>Thiago Mour\u00e3o<\/strong>. Seu romance de estreia, \u201cJava Jota\u201d, lan\u00e7ado recentemente pela Editora Patu\u00e1, ousa percorrer as intricadas zonas da cria\u00e7\u00e3o. O livro aborda a trajet\u00f3ria de um escritor na busca obstinada pela constru\u00e7\u00e3o de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cen\u00e1rios que demonstram o qu\u00e3o complexa e, por vezes, exasperada \u00e9 a miss\u00e3o de um escritor em ter materializada a sua pretens\u00e3o. Nesse \u00ednterim, o personagem central depara-se com suas divaga\u00e7\u00f5es, arroubos, constata\u00e7\u00f5es, mas principalmente com a confirma\u00e7\u00e3o de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago Mour\u00e3o se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lan\u00e7ou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz v\u00eddeos institucionais, e est\u00e1 na imin\u00eancia de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impress\u00f5es sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concep\u00e7\u00e3o criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo di\u00e1logo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que of\u00edcios como o da literatura sugerem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_10567\" aria-describedby=\"caption-attachment-10567\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10567 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna.jpg\" alt=\"Thiago Mour\u00e3o\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10567\" class=\"wp-caption-text\">Thiago Mour\u00e3o \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Java Jota \u00e9 um ser que personifica a busca de um autor pela constru\u00e7\u00e3o efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representa\u00e7\u00e3o traduz algo comum a muitos que se dedicam ao of\u00edcio liter\u00e1rio. O que dizer dessa, digamos assim, ang\u00fastia da cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Me parece algo instintivo, talvez n\u00e3o tenha o nome de ang\u00fastia, talvez n\u00e3o tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensa\u00e7\u00e3o do ato da cria\u00e7\u00e3o. Ang\u00fastia parece ser a mais pr\u00f3xima, mas a gente pode descart\u00e1-la pelo fato de ang\u00fastia n\u00e3o ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensa\u00e7\u00e3o do ato de criar, que parece ang\u00fastia, me d\u00e1 muito prazer. Fiz teatro. Os tr\u00eas segundos antes de o espet\u00e1culo come\u00e7ar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, s\u00e3o os mais emocionantes. Voc\u00ea sabe o que vai fazer, teoricamente h\u00e1 controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o p\u00e9 no palco h\u00e1 prazer e emo\u00e7\u00e3o que incluem a ang\u00fastia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas n\u00e3o se esgota nela, h\u00e1 uma busca muito maior. Vejo como algu\u00e9m que pula de paraquedas. H\u00e1 adrenalina, ansiedade, medo, ang\u00fastia, e tudo isso d\u00e1 prazer. Acho que o prazer \u00e9 maior do que a ang\u00fastia. Por isso digo que \u00e9 instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, at\u00e9 como estrat\u00e9gia evolutiva, mas ningu\u00e9m busca a ang\u00fastia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquieta\u00e7\u00e3o, expectativa e, tamb\u00e9m, ang\u00fastia. E acho que \u00e9 a inquieta\u00e7\u00e3o que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto&#8230;\u00a0 Java foi muito escrito na ang\u00fastia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e j\u00e1 me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma hist\u00f3ria e uma voz a partir dali. Criar \u00e9 a palavra de ordem de Gaia e \u00e9 tamb\u00e9m a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no \u00fatero dela. \u00c9 tudo instinto, animal mesmo. Nome\u00e1-la ang\u00fastia \u00e9 reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Onde a famigerada inspira\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211;<\/strong> Voc\u00ea chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontr\u00e1-la? Ao mesmo tempo, h\u00e1 um of\u00edcio a ser cumprido. Ent\u00e3o, aos poucos, a gente percebe que inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o baixa nem vem \u00e0 toa, muito raramente, \u00e9 preciso busc\u00e1-la. Hoje, acredito mais que a inspira\u00e7\u00e3o encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no f\u00edgado precisando de \u00e1lcool. \u00c9 claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a rela\u00e7\u00e3o do homem com o espa\u00e7o de Gaia. A inspira\u00e7\u00e3o est\u00e1 nisso, nas perguntas, nas investiga\u00e7\u00f5es que buscamos fazer. Claro que h\u00e1 dias mais f\u00e1ceis que outros. H\u00e1 dias que se escreve vinte p\u00e1ginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O modo como se percebe o mundo \u00e9 certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis por mostrarem dimens\u00f5es m\u00faltiplas de apreens\u00e3o das coisas. \u00c9 mais interessante pensar que o que chamamos de novo \u00e9 fruto de uma transforma\u00e7\u00e3o daquilo que sempre esteve entre n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Muito mais. Arte pode vir de artif\u00edcio, e o artif\u00edcio \u00e9 a t\u00e9cnica. Se voc\u00ea abre o jornal, h\u00e1 um artigo sobre viol\u00eancia, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, h\u00e1 os textos acad\u00eamicos sobre viol\u00eancia que t\u00eam seu estilo pr\u00f3prio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a n\u00f3s abord\u00e1-los da nossa forma. E a nossa forma \u00e9 baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e \u00e9 aproveitado \u00e9 um pensamento inteligente ao meu ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em &#8220;Java Jota&#8221;, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa \u00e9 algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a mem\u00f3ria um componente que nos ajuda a atravessar o caos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>A mem\u00f3ria nos leva ao caos. Voc\u00ea faz uma observa\u00e7\u00e3o que gostei muito na <strong><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavraii\/\">resenha<\/a><\/strong> de Java Jota: &#8220;molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.&#8221; \u00c9 isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a mem\u00f3ria e come\u00e7a a cria\u00e7\u00e3o nos nossos pensamentos? Ningu\u00e9m sabe, nem os m\u00e9dicos e bi\u00f3logos, mas sabe-se que todos, artistas e n\u00e3o artistas, inventam quando revivem suas mem\u00f3rias. E, normalmente, s\u00e3o ca\u00f3ticas. O que nos tira do caos \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profiss\u00f5es, nas conversas, exposi\u00e7\u00f5es das opini\u00f5es e dos fatos. A mem\u00f3ria nos faz saber dela o tempo inteiro, \u00e9 a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodu\u00e7\u00e3o do fluxo il\u00f3gico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es e quanto mais sentimentos e as sensa\u00e7\u00f5es, mais vivos estamos. Nada na natureza para e n\u00f3s, queiramos ou n\u00e3o, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos n\u00e3o podem provar isso? Quem tem total controle do que vir\u00e1 na mente? Me parece que a mem\u00f3ria \u00e9 a base primeira da cria\u00e7\u00e3o. E \u00e9 preciso trein\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 algum sentido de liberta\u00e7\u00e3o na escrita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O \u2013 <\/strong>H\u00e1, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: &#8220;Porque eram artif\u00edcios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equa\u00e7\u00e3o diferente, \u00fanica e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar s\u00f3 dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.&#8221;\u00a0H\u00e1 sempre liberta\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o, como h\u00e1 o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura n\u00e3o deva ter pudor. \u00c9 a liberdade da hipocrisia social. Tamb\u00e9m pode ser de outras liberdades mais pessoais, e ser\u00e3o, pois s\u00f3 escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim&#8230; Aspectos que nos chamem a aten\u00e7\u00e3o. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas est\u00e3o completamente ligados a estas rela\u00e7\u00f5es cotidianas. Logo, isso faz com que a liberta\u00e7\u00e3o da alma e das quest\u00f5es sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em mat\u00e9ria de literatura, voc\u00ea se considera um transgressor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Literatura deve ser transgressora no sentido das conven\u00e7\u00f5es e conveni\u00eancias sociais, deve expor, p\u00f4r o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto poss\u00edvel quando escrevo. Isso \u00e9 transgress\u00e3o? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgress\u00e3o a que voc\u00ea se refere? Procuro n\u00e3o me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recome\u00e7o, se n\u00e3o tem uma voz pr\u00f3pria, acho inv\u00e1lido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_10568\" aria-describedby=\"caption-attachment-10568\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna-ii.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10568 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna-ii.jpg\" alt=\"Thiago Mour\u00e3o\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna-ii.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna-ii-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10568\" class=\"wp-caption-text\">Thiago Mour\u00e3o \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falemos da transgress\u00e3o num sentido de rompimento de conven\u00e7\u00f5es e lugares comuns, levando em considera\u00e7\u00e3o um tempo de patrulhamento ideol\u00f3gico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratula\u00e7\u00f5es e bom mocismo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O \u2013 <\/strong>Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discuss\u00f5es que nos textos liter\u00e1rios contempor\u00e2neos que tenho lido. O que h\u00e1 &#8211; e \u00e9 tamb\u00e9m irritante &#8211; \u00e9 uma necessidade da cr\u00edtica pela cr\u00edtica, esquecendo que est\u00e3o fazendo arte, que \u00e9 algo que privilegia a est\u00e9tica\/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, fa\u00e7o nos meios que s\u00e3o para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos B\u00fazios. Minha arte \u00e9 cr\u00edtica por trazer um espelho social e um tema, mas n\u00e3o escrevo para que os outros digam: &#8220;olha como ele \u00e9 engajado&#8221;, ou para dar li\u00e7\u00f5es socialistas, n\u00e3o. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio tamb\u00e9m, mas estou em busca de uma hist\u00f3ria, uma est\u00e9tica, e que se for para tomar posi\u00e7\u00e3o, que ela esteja dilu\u00edda na arte &#8211; que est\u00e1 acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: &#8220;contos que valorizem o bem-estar social&#8221; e at\u00e9 hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrina\u00e7\u00e3o do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que \u00e9 a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conte\u00fado ou de conte\u00fado repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha gera\u00e7\u00e3o com cr\u00edtica, voz pr\u00f3pria e escrevendo sem pudor e sem ser panflet\u00e1rio. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas m\u00eddias v\u00e3o nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midi\u00e1tica que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espa\u00e7os como a pr\u00f3pria rua&#8230;). Ulysses \u00e9 um claro retrato de como a diversidade lingu\u00edstica pode intervir na literatura. Foi escrito em in\u00edcio de s\u00e9culo, mais ou menos no per\u00edodo em que estamos. Acho que quando come\u00e7a um s\u00e9culo, muda nossa forma de comunicar, mudam as ind\u00fastrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda n\u00e3o entendeu a import\u00e2ncia de viver o in\u00edcio de um novo s\u00e9culo. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Esse estado de coisas nos traz muitas informa\u00e7\u00f5es e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que h\u00e1 uma busca, principalmente na minha gera\u00e7\u00e3o, pela extrema bondade. Todo mundo \u00e9 bonzinho e qualquer coisa que se discorde voc\u00ea \u00e9 um direitista (uma coisa cruel &#8211; e esquecem as contribui\u00e7\u00f5es de pensamento econ\u00f4mico e social que os pensadores liberais trouxeram) terr\u00edvel. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. H\u00e1 muito pouca an\u00e1lise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma \u00f3tima ferramenta para an\u00e1lises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o qu\u00e3o boazinhas s\u00e3o. Ao mesmo tempo, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o &#8211; coisa de cultura brasileira &#8211; que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho volunt\u00e1rio e humanit\u00e1rio. Essa tentativa de canoniza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do discurso, eu n\u00e3o endosso. N\u00e3o sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terr\u00edveis, ego\u00edsmos control\u00e1veis, mas incur\u00e1veis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso&#8230; \u00c9 inerente \u00e0 minha condi\u00e7\u00e3o humana e n\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o de ser madre Teresa de Calcut\u00e1. Antonio Ris\u00e9rio me trouxe uma express\u00e3o muito boa: s\u00e3o stalinistas chapa-branca. &#8220;Muito amor envolvido&#8221;, &#8220;de boas&#8221; e etc s\u00e3o express\u00f5es\/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E a\u00ed voc\u00ea escuta coisas esdr\u00faxulas do tipo: Dilma \u00e9 uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as cal\u00e7as! Mas quando fa\u00e7o uma cr\u00edtica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insens\u00edvel. Ou ent\u00e3o devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na m\u00e3o de bancos e empres\u00e1rios, numa d\u00edvida imensa (um problem\u00e3o americano que estamos entrando enquanto eles buscam sa\u00edda) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educa\u00e7\u00e3o deve ser universal e p\u00fablica e quando eu critico os m\u00e9todos, automaticamente os que almejam a canoniza\u00e7\u00e3o me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades p\u00fablicas brasileiras? \u00c9 uma curva descendente em contraste \u00e0 curva ascendente de lucros dos empres\u00e1rios do setor. Mas criticar isso \u00e9 perigoso. Ou ent\u00e3o \u00e9 comum assim: &#8220;ele \u00e9 \u00f3timo porque pelo menos&#8230;&#8221; pelo menos&#8230; E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, a\u00ed pol\u00edtico vira pai e m\u00e3e, em vez de servidor p\u00fablico. Parece que a p\u00f3s- modernidade trouxe \u00f3timas ferramentas e nos manteve a cabe\u00e7a do s\u00e9culo XX. O Brasil aposta em petr\u00f3leo e se voc\u00ea critica a loucura que \u00e9 o pr\u00e9-sal ou o risco econ\u00f4mico que o investimento em petr\u00f3leo \u00e9 no novo s\u00e9culo, v\u00e3o dizer que voc\u00ea est\u00e1 de conchavo com americanos para vender o petr\u00f3leo. Ora, os pa\u00edses de primeiro mundo est\u00e3o abolindo a ind\u00fastria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que h\u00e1 muita informa\u00e7\u00e3o pronta e pouco tempo para contextualiz\u00e1-las e todos est\u00e3o \u00e1vidos em ser bonzinhos, t\u00e3o desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, como se n\u00e3o houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de m\u00e9dio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente&#8230; \u00c9 isso, esse pensamento retil\u00edneo eu n\u00e3o endosso. E tem sido dif\u00edcil n\u00e3o endoss\u00e1-lo, at\u00e9 porque eu n\u00e3o estou dissociado de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Definitivamente, somos seres incorrig\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Somos seres complexos com quest\u00f5es incorrig\u00edveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas quest\u00f5es adapt\u00e1veis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e\u00a0econ\u00f4micas. Mas a nossa obsess\u00e3o com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor &#8211; chamada progresso &#8211; me parece incorrig\u00edvel e j\u00e1 nos mostrou que tem afetado n\u00e3o s\u00f3 as outras esp\u00e9cies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e n\u00fameros, insistimos nos erros. A dissocia\u00e7\u00e3o homem-natureza nos cobra um pre\u00e7o alto. A n\u00f3s e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrig\u00edveis. Me referi\u00a0ao humano como esp\u00e9cie, como indiv\u00edduo acredito que temos pequenas solu\u00e7\u00f5es &#8211; o que me faz ser completamente cr\u00edtico ao nosso sistema carcer\u00e1rio e bastante\u00a0crente do embelezamento e transforma\u00e7\u00e3o\u00a0da alma humana atrav\u00e9s da boa educa\u00e7\u00e3o (n\u00e3o esta que nos apresentam, de maneira geral\u00a0aqui no Brasil) e da arte\/cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sob o manto da cria\u00e7\u00e3o, est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil distinguir realidade de fic\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Bom, tenho tido a impress\u00e3o de viver em uma pe\u00e7a de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente pol\u00edtica, que o Brasil vive. Mas ando bastante ca\u00e7ando fic\u00e7\u00e3o e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa vis\u00e3o criativa. Di\u00e1logos reais se transp\u00f5em facilmente para a fic\u00e7\u00e3o e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. \u00c9 bom e, \u00e0s vezes, meio louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mour\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO MOUR\u00c3O &#8211; <\/strong>Uma bipolaridade incr\u00edvel. Tem horas que parece que eu vou abra\u00e7ar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. \u00c9 estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso \u00e9 entediante. A beira do abismo e o balan\u00e7o dele d\u00e3o a impress\u00e3o de vida. Sem isso, \u00e9 s\u00f3 respirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/a-revista-2\/leveiros\/\">Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/a> <\/em><\/strong><em>\u00e9 um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor t\u00e1ctil e espiritual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcada por sentidos da busca, uma conversa com o escritor Thiago Mour\u00e3o <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10565,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,16,2539],"tags":[424,63,137,2684,8,2685],"class_list":["post-10562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-editora-patua","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-java-jota","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-thiago-mourao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10562"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10571,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10562\/revisions\/10571"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}