{"id":10582,"date":"2015-10-03T13:15:12","date_gmt":"2015-10-03T16:15:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10582"},"modified":"2015-11-17T17:33:50","modified_gmt":"2015-11-17T19:33:50","slug":"aperitivo-da-palavra-i-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-12\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em busca da busca do tempo perdido<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Maur\u00edcio de Almeida<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10584\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna2.jpg\" alt=\"Capa Rebentar \" width=\"290\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna2.jpg 290w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna2-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong> <em>Rebentar<\/em>: um romance<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rebentar<\/em> \u00e9 o novo livro do escritor Rafael Gallo. Sucessor do premiado <em>R\u00e9veillon e outros dias<\/em> (vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura na categoria contos 2011\/2012 e finalista do Pr\u00eamio Jabuti 2013), <em>Rebentar<\/em> \u00e9 o primeiro romance do autor, no qual destrincha uma situa\u00e7\u00e3o delicada: ap\u00f3s trinta anos de buscas, \u00c2ngela desiste de procurar Felipe, seu filho desaparecido aos cinco anos de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de quase quatrocentas p\u00e1ginas divididas em nove cap\u00edtulos, o livro acompanha e analisa o processo de tomada de decis\u00e3o de \u00c2ngela, perscrutando os altos e baixos, e, principalmente, as dificuldades e resist\u00eancias que a personagem enfrenta para levar a cabo sua decis\u00e3o. Decis\u00e3o que \u00e9 muito mais uma ren\u00fancia que uma desist\u00eancia. Corroborando com esse parecer, destaco uma constata\u00e7\u00e3o-s\u00edntese da personagem principal, que surge em uma conversa com sua amiga e terapeuta e torna-se mote de seu processo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu n\u00e3o estou me dobrando a essa luta, feito algu\u00e9m que gostaria de poder venc\u00ea-la mas n\u00e3o se sente capaz. Eu era assim antes, agora estou justamente me dando o direito de escolher outra coisa para minha vida. Quero deixar para tr\u00e1s essa batalha feita de desist\u00eancias. Voc\u00ea conhece minha hist\u00f3ria, ningu\u00e9m vai poder nunca dizer que eu simplesmente desisti\u201d (pg. 77).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa brev\u00edssima sinopse e cita\u00e7\u00e3o, seleciono duas ideias fundamentais ao livro: o tempo e a ren\u00fancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong> Her\u00e1clito <em>overdrive<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEla sabia, desde o come\u00e7o, que em algum momento teria de dar um adeus definitivo ao controle daquele espa\u00e7o pertencente a Felipe [&#8230;] Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivis\u00edvel, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da aus\u00eancia e encerrando-se muito depois de se j\u00e1 ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que j\u00e1 n\u00e3o pode mais alcan\u00e7ar o que se foi\u201d (pg. 252).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Her\u00e1clito, tudo \u00e9 movimento. Partindo desse pressuposto, Simpl\u00edcio cunhou a m\u00e1xima que \u00e9 repetida incessantemente com o intuito de nos lembrar que, afinal e independente de qualquer esfor\u00e7o contr\u00e1rio, o tempo passa e \u00e9 imposs\u00edvel reviv\u00ea-lo tal como acontecido: <em>n\u00e3o se pode percorrer duas vezes o mesmo rio<\/em>. Essa m\u00e1xima servir\u00e1 de par\u00e2metro a certa leitura que fa\u00e7o de <em>Rebentar<\/em>. No entanto, me apropriarei dela para um exerc\u00edcio hipot\u00e9tico a fim de explorar uma quest\u00e3o cara ao romance: o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hip\u00f3tese: uma pessoa mergulha no rio do tempo. E, nesse mergulho, em vez de percorr\u00ea-lo ou mesmo se deixar levar pela correnteza, agarra-se a um tronco estanque no meio do rio e, por motivos diversos, n\u00e3o o solta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o pela qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel percorrer duas vezes o mesmo rio Simpl\u00edcio mesmo explica: <em>por causa da impetuosidade e da velocidade da muta\u00e7\u00e3o<\/em>. \u00c0 luz desse movimento perp\u00e9tuo de tudo, a hip\u00f3tese de resist\u00eancia ao fluxo coloca outras quest\u00f5es: Que troncos s\u00e3o esses? Por que se ancorar nesse ponto e resistir ao fluir do rio-tempo? Quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es dessa resist\u00eancia? Qual \u00e9 o custo de abrir m\u00e3o desse ponto de resist\u00eancia? E, quest\u00e3o fundamental ao livro, como superar aquele ponto seguro e fluir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sumi\u00e7o do filho \u00e9 o tronco no qual \u00c2ngela se ancora. Obsessiva e exclusivamente dedicada \u00e0 busca do filho, ela agarra-se ao tronco daquele momento e \u00e9 toda investimento na conclus\u00e3o do impasse, que, ao menos para \u00c2ngela, exige uma (tentativa de) suspens\u00e3o do tempo: n\u00e3o \u00e0 toa o quarto de Felipe \u00e9 mantido tal qual ele o deixou, assim como a casa da fam\u00edlia \u00e9 restaurada a fim de que permane\u00e7a igual, pois isso significa n\u00e3o s\u00f3 uma forma de reconhecimento para o caso do retorno do menino, mas tamb\u00e9m uma prova de que eles jamais se esqueceram dele. No limite, trata-se tamb\u00e9m de uma tentativa de \u00c2ngela em reter o tempo naquele instante a fim de revert\u00ea-lo e impedir que a cat\u00e1strofe ocorrida aconte\u00e7a de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, ao perceber que tr\u00eas d\u00e9cadas se passaram, \u00c2ngela compreende que o estrago est\u00e1 feito e que resistir n\u00e3o \u00e9 mais plaus\u00edvel, posto que mesmo aquele ponto de resist\u00eancia expirou: encontrar o filho n\u00e3o \u00e9 mais encontrar o menino de cinco anos, o garoto que reconhecer\u00e1 a casa e dormir\u00e1 o sono infantil em um quarto ornado de brinquedos, mas um homem de trinta e cinco anos para quem a casa ou o quarto ou mesmo os pais certamente n\u00e3o significar\u00e3o nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da l\u00f3gica imposta por essa descri\u00e7\u00e3o crua do tempo \u2013 afinal, \u00e9 \u00f3bvio que, se se passaram trinta anos, o garoto de cinco ter\u00e1 trinta e cinco anos \u2013 para \u00c2ngela essa conclus\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando ela compreende (e, acima de tudo, <em>sente<\/em>) que, apesar de seus todos os seus esfor\u00e7os, o reencontro com o filho perdido \u00e9 imposs\u00edvel justamente pelo fato de ser imposs\u00edvel conter o rio do tempo. N\u00e3o por acaso, o livro \u00e9 um debru\u00e7ar-se sobre a quest\u00e3o fundamental: como superar esse ponto seguro (mas invi\u00e1vel) e fluir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A implica\u00e7\u00e3o de resistir ao tempo \u00e9 bagun\u00e7\u00e1-lo. \u00c2ngela percebe essa implica\u00e7\u00e3o ao concluir que manter um filho ausente \u00e9 viver o passado e, portanto, negar o presente, impossibilitando o futuro. Assim, \u00e9 poss\u00edvel depreender que o maior desafio de \u00c2ngela para superar o ponto em que esteve presa \u00e9 rearranjar o tempo, compreend\u00ea-lo em sua din\u00e2mica ininterrupta e deixar ao passado o que \u00e9 do passado para correr ao gosto do presente \u2013 e o futuro a Deus pertence.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o drama dela \u00e9 complexo, pois reordenar o tempo \u00e9 abandonar o passado e assumir a impossibilidade <em>real<\/em> de retorno do filho. H\u00e1 muito mais contund\u00eancia no fato do que na ideia \u2013 e esta \u00e9 a for\u00e7a de <em>Rebentar<\/em>: captar e transmitir as implica\u00e7\u00f5es da escolha de \u00c2ngela e n\u00e3o reduzi-la simplesmente a uma eloqu\u00eancia vazia sobre o tempo. \u00c9 sens\u00edvel durante a leitura o empenho da personagem, suas perplexidades frente \u00e0s resolu\u00e7\u00f5es que assume, suas fraquezas nos momentos mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><strong> A busca da busca do tempo perdido ou insepulto corpo inexistente <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, apenas entender a din\u00e2mica do tempo para reorganiz\u00e1-lo n\u00e3o \u00e9 suficiente \u00e0 decis\u00e3o de \u00c2ngela, pois ela precisa agir. Como executar sua resolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s tantos anos de busca e contrariando todas as expectativas, \u00c2ngela opta pela ren\u00fancia: enterrar simbolicamente o corpo inexistente (e, portanto, insepulto) de seu filho \u00e9 o \u00fanico meio de libertar-se daquilo que a prende ao passado. N\u00e3o sem enfrentar a pergunta: qual \u00e9 o custo de abrir m\u00e3o desse ponto de resist\u00eancia? Pergunta, ali\u00e1s, que pressup\u00f5e in\u00fameras resist\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel dizer que tanto as resist\u00eancias internas e externas que ela encontra ancoram-se na mesma prerrogativa: independente das circunst\u00e2ncias, a maternidade implica em n\u00e3o desistir do filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que decide suspender a busca por Felipe por aceitar a inexorabilidade do tempo, e isso acontece justamente quando se depara com um retrato de Felipe envelhecido digitalmente, \u00c2ngela se imp\u00f5e quest\u00f5es inevit\u00e1veis: aquele homem atenderia por Felipe? Compartilharia do amor a ele dedicado apesar dos trinta anos de espa\u00e7o entre eles? A consequ\u00eancia dessas quest\u00f5es estremece a certeza da prerrogativa com uma d\u00favida ao mesmo tempo cruel e libertadora: aquele homem seria seu filho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta de \u00c2ngela \u00e9 n\u00e3o. Pois n\u00e3o s\u00f3 ela aceita o tempo, como tamb\u00e9m compreende sua a\u00e7\u00e3o: ainda que compartilhem o mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico, aquele homem n\u00e3o seria o filho dela. Isto significa encarar a constata\u00e7\u00e3o mais cruel e incontorn\u00e1vel, mas \u00fanica forma de subverter a prerrogativa e encontrar uma verdade subjacente: ela e o filho s\u00e3o pessoas distintas. E isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ao aceitar a inexist\u00eancia daquele filho que ela conheceu, isto \u00e9, compreend\u00ea-lo morto. Essa constata\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fundamental ao processo da personagem que \u00e9 a primeira e \u00fanica vez que que ela assume a voz narrativa para explicit\u00e1-la \u2013 e n\u00e3o por acaso no momento em que ela se despede de Felipe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE eu guardei todas as suas coisas por tantos anos, enxergando nelas o espelhamento da minha esperan\u00e7a de que a vida pudesse se reordenar entre n\u00f3s, mas&#8230; No fim, elas restaram sem nenhum sentido por n\u00e3o terem voc\u00ea. Elas existem apenas para serem suas. As suas coisas n\u00e3o s\u00e3o as minhas, filho; essa \u00e9 a verdade que custei a entender. Protegi seu pequeno mundo como se fosse meu, mas isso s\u00f3 fez com que eu ficasse presa dentro dele. Eu cerquei ainda mais as paredes do labirinto onde me enclausurei.\u201d (pg. 331)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por raz\u00f5es diversas \u2013 algumas genu\u00ednas e outras escusas \u2013 \u00c2ngela tem de lidar tamb\u00e9m com as resist\u00eancias impostas por aqueles que a cercam. Muito embora partam do mesmo princ\u00edpio, essas resist\u00eancias consideram a passagem do tempo um evento que n\u00e3o se sobrep\u00f5em \u00e0 prerrogativa da maternidade. O fato de ter trinta anos ou n\u00e3o atender pelo nome Felipe n\u00e3o faz de Felipe menos filho de \u00c2ngela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja mais simples a quem est\u00e1 de fora pressupor a preponder\u00e2ncia de tal prerrogativa, porque a esperan\u00e7a implicada na espera n\u00e3o afeta os terceiros da mesma forma que afeta \u00c2ngela. Ali\u00e1s, para ela \u00e9 uma quest\u00e3o de vida: enterrar Felipe (mesmo que simbolicamente) \u00e9 a \u00fanica forma de poder continuar viva, soltar-se daquele tronco fincado no meio do tempo \u00e9 a \u00fanica maneira de livrar-se do passado e viver o presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando algu\u00e9m que a gente ama morre, d\u00f3i demais olha adiante sabendo que n\u00e3o existir\u00e1 mais nenhum dia em que essa pessoa vai estar conosco no futuro: sua voz pela casa, seus gestos e toques, suas viv\u00eancias. Eu nunca tive isso com voc\u00ea, ao olhar adiante; sua perda sempre se deu no sentido oposto: era quando eu olhava para tr\u00e1s, para o passado, que eu via os dias se somando sem voc\u00ea\u201d. (pg. 332)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, a transfigura\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela passa necessariamente pela reformula\u00e7\u00e3o da prerrogativa: ao aceitar\/providenciar a morte do filho, ela pode recuperar o papel que possu\u00eda antes de ser m\u00e3e. Portanto, muito antes de uma desist\u00eancia, ela realiza uma ren\u00fancia, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque, ao assumir a aus\u00eancia\/morte do filho, ela pode abrir m\u00e3o do papel de m\u00e3e. Assim, como a qualquer ser humano, cabe a ela viver o presente, aceitando que o passado j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Ater-se a qualquer um dos tempos ignorando os demais n\u00e3o \u00e9 viver, mas resistir \u2013 e em v\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, <em>Rebentar<\/em> pode ser lido como um grande processo de luto. Na aus\u00eancia do corpo, \u00c2ngela e o marido Ot\u00e1vio elencam e assumem mudan\u00e7as que de alguma forma simbolizam o enterro do passado a fim de livrar caminho ao futuro. E o livro \u00e9 o detalhamento desse processo, seus percal\u00e7os e contratempos, que, afinal, nove cap\u00edtulos depois, se realiza no ciclo mesmo da vida: um novo nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li><strong> Pais &amp; filhos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por si s\u00f3, o mote do enredo \u00e9 forte. Portanto, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil arriscar que, para mant\u00ea-lo firme, o autor teria de desembolsar outros eventos t\u00e3o ou mais catastr\u00f3ficos. (Estrat\u00e9gia, ali\u00e1s, comum em certa literatura, que lan\u00e7a m\u00e3o do armagedom a fim de fazer a narrativa andar.) Todavia, o autor \u00e9 preciso na trama. O enredo desvia de pirotecnias narrativas para se dedicar t\u00e3o somente ao tema eleito, aprofundando-o a partir dos personagens \u2013 sobretudo \u00c2ngela \u2013 e buscando suas m\u00faltiplas possibilidades de acordo com a hist\u00f3ria que conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E <em>Rebentar<\/em> flui. O estilo l\u00edrico e sempre elegante do autor (vide os contos do citado <em>R\u00e9veillon e outros dias<\/em>) possibilita um duplo movimento ao texto: explorar as profundezas dos sentimentos de \u00c2ngela e explicitar as tens\u00f5es nos di\u00e1logos quase coloquiais que pontuam sua rela\u00e7\u00e3o com os demais personagens. O interessante desse movimento \u00e9 demonstrar as diversas camadas do processo da protagonista, que transpassam desde a contempla\u00e7\u00e3o mais silenciosa e angustiante do mar em um cais de porto at\u00e9 o di\u00e1logo mais terno com a afilhada Isabela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, interessante notar como o autor revista alguns temas e estrat\u00e9gias de <em>R\u00e9veillon e outros dias<\/em>, livro de contos antecessor de <em>Rebentar<\/em>. Se no primeiro j\u00e1 havia a tend\u00eancia de construir narrativas muito mais a partir dos personagens e seus dramas particulares do que submet\u00ea-los a uma trama mirabolante, essa tend\u00eancia realizou-se plenamente em <em>Rebentar<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As rela\u00e7\u00f5es parentais \u00e9 outro tema comum aos livros. Por exemplo, o conto <em>R\u00e9veillon<\/em>, um dos mais significativos do livro, explora a rela\u00e7\u00e3o entre o filho surdo e prestes a partir numa viagem e seu velho pai rec\u00e9m vi\u00favo \u2013 e essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 porta de entrada aos pr\u00f3prios personagens, pois a vontade de vida do jovem resulta na sensa\u00e7\u00e3o de finitude que o velho experimenta \u2013 eis o conflito. Entretanto, como vemos claramente em <em>Rebentar<\/em>, essas rela\u00e7\u00f5es marcadas por impossibilidades, ao contr\u00e1rio de impedimentos, convocam os personagens a providenciar solu\u00e7\u00f5es \u2013 e nos impele a revisarmos nossas pr\u00f3prias desist\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><a href=\"http:\/\/mauriciodealmeida.com.br\">Maur\u00edcio de Almeida<\/a><\/em><\/strong><em> \u00e9 autor de &#8216;Beijando dentes&#8217; (Ed. Record), livro de contos vencedor do Pr\u00eamio Sesc de literatura 2007. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maur\u00edcio de Almeida apresenta \u201cRebentar\u201d, romance de estreia de Rafael Gallo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10583,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,2533,16],"tags":[11,2710,502,2709,2708,189,496],"class_list":["post-10582","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-em-busca-da-busca-do-tempo-perdido","tag-mauricio-de-almeida","tag-rafael-gallo","tag-rebentar","tag-resenha","tag-romance"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10582"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10705,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10582\/revisions\/10705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}