{"id":10595,"date":"2015-10-03T14:59:57","date_gmt":"2015-10-03T17:59:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10595"},"modified":"2015-11-17T17:33:29","modified_gmt":"2015-11-17T19:33:29","slug":"dedos-de-prosa-i-39","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-39\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_10598\" aria-describedby=\"caption-attachment-10598\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10598 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna4.jpg\" alt=\"Val\u00e9ria Sim\u00f5es\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna4.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna4-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10598\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Val\u00e9ria Sim\u00f5es<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Teoria e pr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><strong> Tese<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele queria que eu fosse outra. Ele queria a outra de mim. Que eu fosse diferente daquilo que pediu de mim, daquilo que viu em mim, daquilo que julgou gostar em mim. Ele queria que eu fosse diferente do come\u00e7o, que o come\u00e7o fosse descartado, ele insinuava que o meu come\u00e7o n\u00e3o valia mais. Ele dizia que, nesse come\u00e7o sem valor, havia julgado que gostava daquilo que me definia como eu mesma, havia julgado que sabia exatamente o que \u00e9 que ele gostava quando sentia gostar de mim. Ele queria que fiz\u00e9ssemos um invent\u00e1rio de n\u00f3s mesmos, que no autoanalis\u00e1ssemos de forma pura e simples e convert\u00eassemos as dobras, os espinhos, os calos e as inflama\u00e7\u00f5es em suavidade morna. Ele queria que eu n\u00e3o fosse o que eu sabia ser, o que eu queria ser, e que o erro havia sido meu, n\u00e3o dele, ao julgar que o que eu sabia ser era outra coisa. Ele me pedia uma impossibilidade e era incapaz de entender que o imposs\u00edvel se constr\u00f3i aos poucos como poss\u00edvel, muito aos poucos, medidas de longo prazo. Ele n\u00e3o me ouvia, e o di\u00e1logo ia ficando cada vez mais confuso, a conversa rodava em c\u00edrculos, o qu\u00ea? Como? Explica melhor, eu pedia, evitando olhar para o desespero. Voc\u00ea errou, ele me disse, seriamente, fitando meus olhos empapados de l\u00e1grima, aqueles olhos que eu evitava piscar para n\u00e3o enlamear um di\u00e1logo t\u00e3o enxuto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Ant\u00edtese<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela queria que eu a quisesse a mesma, que eu n\u00e3o esperasse nada, que eu me contentasse com a tranquilidade de dias eternos, que me fixasse em um come\u00e7o imut\u00e1vel, ela queria que f\u00f4ssemos felizes para sempre e queria, com isso, uma alian\u00e7a, um noivado, um compromisso e a longevidade da felicidade que n\u00e3o derrapa. Ela queria uma estrada sem declives, sem aclives, sem curvas fechadas e com acostamento. N\u00e3o era capaz de entender o que eu dizia, mesmo que eu me tornasse did\u00e1tico e me desdobrasse em exemplos. Ela queria que eu fosse o mesmo, ela exigia que eu n\u00e3o mudasse, pois, mudando, mudaria as esperas, as reivindica\u00e7\u00f5es, as palpita\u00e7\u00f5es. Ela queria que eu quisesse o mesmo que quis no primeiro dia, e o que quis no primeiro dia era o que ela era no primeiro dia e o que eu era no primeiro dia. Contudo, eu j\u00e1 n\u00e3o era mais o que eu havia sido no primeiro dia, eu era outro. E o primeiro dia, era isso o que eu tentava esclarecer a ela, \u00e9 sempre diferente de todos os outros. Eu me queria outro, e a queria outra, e tencionava um desvio na estrada, um atalho ou uma volta maior, s\u00f3 saber\u00edamos depois, mas era preciso uma guinada, eu tentava elucidar esse problema e a encarava em seus olhos marejados, sem poder evitar dizer que eu precisava, eu nos queria ant\u00f4nimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> S\u00edntese<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s nos quer\u00edamos diferentes do que \u00e9ramos. Do que hav\u00edamos sido e do que almej\u00e1vamos ser. Ele me queria outra e eu o queria o mesmo. Ele n\u00e3o podia ser o mesmo, eu n\u00e3o podia ser outra. Ele arfava ao me explicar, eu chorava ao ouvi-lo. Ele ent\u00e3o tirou minha blusa e me deitou na cama, devagar, alisando meus cabelos. Passei minha m\u00e3o pelo seu ombro, desci pelo seu bra\u00e7o, acariciei sua barriga. Nos olhamos atentamente, como se descobrindo uma paisagem que havia sido ocultada por um nevoeiro antigo. Ele elogiou a maciez do meu cabelo e espalhou sua m\u00e3o pelo resto do meu corpo, tirou minha saia. Eu elogiei a firmeza de seu tronco, de seus bra\u00e7os e desabotoei sua cal\u00e7a jeans. Te quero diferente, escutei-o sussurrar em meu ouvido, e dali sua l\u00edngua enrodilhou o meu pesco\u00e7o em um colar delgado de saliva \u00famida. Expirei com for\u00e7a, tentando interromper uma vaga qualquer que se agigantava dentro de mim e que meu corpo n\u00e3o seria capaz de dar conta. Te quero igual a todas as vezes em que te vi, respondi imediatamente, sentindo seu corpo nu avan\u00e7ar sobre o meu. E quando ele disse que n\u00e3o haveria como ficarmos juntos enquanto esper\u00e1ssemos coisas t\u00e3o d\u00edspares um do outro, senti-o inteiro, em certa aspereza edulcorada e de um jeito que eu antes n\u00e3o conhecia, e ele respondeu com um gemido, um longo gemido, o ar quente expelido das narinas, demonstrando que nada precisava ser modificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/strong><em> \u00e9 psicanalista e escritora. Lan\u00e7ou dois livros de contos (A primavera entra pelos p\u00e9s, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio. Participou de antologias de contos (Clube da Leitura vols. I, II, III, Para Copacabana, Com Amor) e publicou textos ficcionais e de prosa po\u00e9tica no Jornal Pl\u00e1stico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP, na Revista Caf\u00e9 Espacial, entre outros. Escreve cr\u00edticas teatrais e outras resenhas para o site Ambrosia e contos para o Jornal Algo a Dizer. No momento, prepara-se para o doutorado em Sa\u00fade Coletiva e finaliza um romance<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os inef\u00e1veis idiomas do amor no conto de Vivian Pizzinga<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10597,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,2534,16],"tags":[81,41,2717,2716],"class_list":["post-10595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-teoria-e-pratica","tag-vivian-pizzinga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10595"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10602,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595\/revisions\/10602"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10597"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}