{"id":10624,"date":"2015-10-03T17:51:27","date_gmt":"2015-10-03T20:51:27","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10624"},"modified":"2015-11-17T17:32:34","modified_gmt":"2015-11-17T19:32:34","slug":"aperitivopalavraii-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-5\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>A mitologia do homem comum<\/strong><\/p>\n<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10627\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna5.jpg\" alt=\"Capa\" width=\"299\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna5.jpg 299w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna5-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO dia em que comemos Maria Dulce\u201d \u00e9, em grande parte, a saga de um her\u00f3i inacabado. Jailson, um Ulisses nordestino, subalimentado, r\u00fastico, cuja viagem \u00e0 procura da \u00cdtaca de si deslinda as feridas sociais, o mapa da fome, as paragens castigadas daqueles desenganados de nascen\u00e7a. Na colet\u00e2nea de contos do paraibano Ant\u00f4nio Mariano, pululam \u201cJailsons\u201d, personagens que carregam o mesmo nome e singularidades, levando o leitor a crer numa a\u00e7\u00e3o romanesca. Ou seria apenas uma s\u00e9rie de apari\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias? N\u00e3o fica claro. A narrativa decorre desse jogo movedi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre os motores tem\u00e1ticos, no entanto, n\u00e3o recaem d\u00favidas. Ora com uma crueza vibrante, ora com uma melancolia judiada, Mariano problematiza conceitos arcaicos, mas ainda latentes nos desv\u00e3os do Brasil, a exemplo do patriarcalismo, da submiss\u00e3o feminina, da impossibilidade de fuga, do asselvajamento das rela\u00e7\u00f5es familiares e os conflitos gerados por essa colmeia de sentimentos pe\u00e7onhentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no conto de abertura, \u201cA constru\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio\u201d, pai e filho convivem separados por uma barreira de afonia, que os impedem de compartilhar suas ang\u00fastias, de solucionar erros pret\u00e9ritos, de, diante de uma terceira gera\u00e7\u00e3o, rejeitar essa heran\u00e7a de estranhamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A figura paterna, na configura\u00e7\u00e3o de uma entidade implac\u00e1vel e intransitiva, \u00e9 reprisada em outras narrativas, at\u00e9 ser exorcizada em \u201cChocolate quente\u201d, quando o esboroamento f\u00edsico do genitor possibilita o roubo da autoridade pelo filho. \u201cAmo papai, imensamente. Principalmente quando \u00e9 fraco, depende de mim e posso desprez\u00e1-lo\u201d, regozija-se o protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 recorrente a incid\u00eancia de uma maldade natural, intrat\u00e1vel, sem explica\u00e7\u00e3o. \u201cPapai, voc\u00ea matou m\u00e3inha, matou m\u00e3inha, matou m\u00e3inha!\u201d, desespera-se o menino diante de um homem brutalizado que recorre \u00e0 morte para a resolu\u00e7\u00e3o de seus problemas. A condi\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 apenas pobre, pois traz entranhada na alma a mis\u00e9ria, mas retroalimenta esse legado de parcos valores morais, ou de valor algum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascendo e morrendo nesse cen\u00e1rio \u00e1rido, rachado sob os p\u00e9s descal\u00e7os dos que n\u00e3o alcan\u00e7am o que est\u00e1 \u00e0 altura das m\u00e3os, reinam os \u201cJailsons\u201d, um \u201csertanejo de uma cidadezinha pacata\u201d, um demitido que n\u00e3o se cond\u00f3i \u00e0 dor de parto da esposa, um \u201cservidor p\u00fablico municipal\u201d, um sujeito marcado para morrer. M\u00faltiplos atores de um mesmo fado: ser coadjuvante da pr\u00f3pria exist\u00eancia, apagar-se, nunca triunfar. Como sumarizado no conto \u201cEstas imagens\u201d: Teu nome \u00e9 Jailson, deve ter sido a \u00fanica frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As desventuras do personagem s\u00e3o tamb\u00e9m diesel para funcionar a m\u00e1quina de voc\u00e1bulos regionais, envernizados por um lirismo abrasador. Mariano, poeta de m\u00e3o-cheia, faz de sua tessitura um fluxo sinuoso que vai atritando as palavras e obtendo desse movimento uma esp\u00e9cie de cad\u00eancia pr\u00f3pria da l\u00edngua falada de um povo que tem de lidar com as agruras da vida e consegue extrair, da resist\u00eancia, m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMais longe, um galo sola o seu canto simples, zurra um jumento, escarra um anci\u00e3o. A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e j\u00e1 apodrecida, no colo magro da manh\u00e3 que nasce\u201d. Com um canto bem afinado, \u201cO dia em que comemos Maria Dulce\u201d retrata a mitologia do homem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Tavares e o novo livro de contos de Ant\u00f4nio Mariano<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10626,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,2533],"tags":[2721,2720,11,419,2722,189,1023],"class_list":["post-10624","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-a-mitologia-do-homem-comum","tag-antonio-mariano","tag-aperitivo-da-palavra","tag-contos","tag-o-dia-em-que-comemos-maria-dulce","tag-resenha","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10624"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10712,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10624\/revisions\/10712"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10626"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}