{"id":10654,"date":"2015-10-04T09:43:09","date_gmt":"2015-10-04T12:43:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10654"},"modified":"2018-12-13T11:52:02","modified_gmt":"2018-12-13T14:52:02","slug":"dropssetimaarte-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dropssetimaarte-7\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p><strong>7 Teses sobre Adeus \u00e0 Linguagem de Jean Luc Godard <\/strong><\/p>\n<p><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/CARTAZ-ADEUS-\u00c0-LINGUAGEM.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15838\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/CARTAZ-ADEUS-\u00c0-LINGUAGEM.jpg\" alt=\"\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/CARTAZ-ADEUS-\u00c0-LINGUAGEM.jpg 304w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/CARTAZ-ADEUS-\u00c0-LINGUAGEM-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. \u201c<em>A ideia \u00e9 simples<\/em>\u201d: muitos n\u00e3o enxergaram (e esta palavra \u00e9 precisa nesse caso) narratividade no \u00faltimo filme de Godard, ganhador do pr\u00eamio de j\u00fari de Cannes em 2014, apenas um mosaico ensa\u00edstico de imagens e cita\u00e7\u00f5es, como t\u00eam sido seus \u00faltimos filmes. No entanto, a narrativa neste filme \u00e9 muito mais presente como eixo do que em seus filmes anteriores. O pr\u00f3prio Godard definiu uma \u201cideia simples\u201d como eixo narrativo elementar: uma mulher casada e seu amante fazem uma DR. Depois o marido daquela gera um desastre. Tudo isso (ou seja, esta narrativa-matriz) \u00e9 testemunhado por um cachorro que est\u00e1 entre o homem e a mulher, entre o amante e o casal, entre o romance e o drama, entre a cidade e o campo, entre a natureza e a cultura. O problema \u00e9 que esta estrutura simples \u00e9 duplicada num \u201csegundo filme\u201d que \u201c\u00e9 o mesmo e n\u00e3o \u00e9\u201d. Este filme segundo \u00e9 a passagem \u201cda ra\u00e7a humana \u00e0 met\u00e1fora\u201d ou, em outros termos, da f\u00e1bula \u00e0 imagem. E \u00e9 a\u00ed de fato que os problemas come\u00e7am, no jogo especular entre textualidade (f\u00e1bula) e figuralidade (imagem) para evidenciar que, nos saltos entre um plano e outro, h\u00e1 menos oposi\u00e7\u00e3o do que polaridades cruzadas. A isso se dava o nome de dial\u00e9tica, a qual, segundo Eisenstein, \u00e9 o princ\u00edpio mesmo da montagem cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.<em>\u00a0 2D\/3D<\/em>: perto de Adeus \u00e0 Linguagem, experi\u00eancias mainstream de 3D, como os filmes Avatar e Hugo Cabret, revelam-se totalmente cosm\u00e9ticas. Godard (com a preciosa ajuda de Fabrice Aragno) traz a t\u00e9cnica literalmente \u00e0 superf\u00edcie, fazendo de seu longa uma esp\u00e9cie de \u201cfilme em relevo\u201d. Curiosamente, o diretor teria admitido numa entrevista seu desejo de provar que o \u201c3D \u00e9 completamente in\u00fatil\u201d. Por isso, a sensa\u00e7\u00e3o vertiginosa ou mesmo confusa que muitos espectadores sentem parece a muitos apenas a provoca\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de um \u201cvideomaker irritado\u201d (Contardo Calligaris). Essa irrita\u00e7\u00e3o conjuga-se tamb\u00e9m com os elementos ruidosos e obscenos de peidos e sons de defeca\u00e7\u00e3o. Mas essa materialidade tem como fun\u00e7\u00e3o contrapor a distin\u00e7\u00e3o mais conceitual entre realidade e imagem. A distin\u00e7\u00e3o entre 2D e 3D n\u00e3o deve ser apenas a de embelezamento (como no cinema comercial), pelo qual o 3D estaria totalmente submisso \u00e0 l\u00f3gica da planaridade (ou platitude) acachapante do cinema de espet\u00e1culo, nem opositiva, no qual o 3D seria um obst\u00e1culo \u00e0 vis\u00e3o em duas dimens\u00f5es. O 3D entra justamente como uma perspectiva \u201cem relevo\u201d: toda vis\u00e3o deve levar sempre em conta seu pr\u00f3prio ponto de vista, isto \u00e9, o contexto de seu olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. \u201c<em>A realidade \u00e9 o ref\u00fagio dos que n\u00e3o t\u00eam imagina\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d: o problema ent\u00e3o se torna: onde est\u00e1 a realidade para aqueles que t\u00eam a linguagem? A realidade est\u00e1 em algum lugar entre a f\u00e1bula e a met\u00e1fora, entre as palavras e as imagens, entre cita\u00e7\u00f5es e cenas, entre o texto e o cinema. O aspecto vertiginoso do filme (h\u00e1 quem passe mal durante a proje\u00e7\u00e3o) vem de uma febril e inquieta oscila\u00e7\u00e3o entre os polos imag\u00e9tico e textual. Os que reclamam do eruditismo pedante de Godard, com suas refer\u00eancias incans\u00e1veis, precisam admitir que este jogo desnorteante desconstr\u00f3i mais do que afirma. O pr\u00f3prio Godard admite que n\u00e3o entende o sentido de suas cita\u00e7\u00f5es. O que lhe interessa \u00e9 a justaposi\u00e7\u00e3o entre os dois planos. As cita\u00e7\u00f5es n\u00e3o representam a voz de Godard, nem mesmo seu ponto de vista. Elas n\u00e3o s\u00e3o suas ideias representadas. \u00c9 o conflito, o choque, a passagem que lhe interessa. Godard, com sua m\u00e1quina de guerra contra o cinema comercial (onde Spielberg, desde o Elogio do Amor, \u00e9 o grande vil\u00e3o), denuncia que, na espetaculariza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, h\u00e1 um excesso da imagem que ofusca, obscurece, joga para segundo plano o texto (o roteiro, a narrativa, as palavras). As cita\u00e7\u00f5es fazem testemunho como \u201cprovas\u201d (\u201cLes citations sont des preuves\u201d, diz Godard numa entrevista) de que n\u00e3o h\u00e1 palavra sem imagem, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 imagem sem palavra. Linguagem \u00e9 esse \u201clien\u201d, la\u00e7o, liga\u00e7\u00e3o, entre uma e outra. Por\u00e9m, mais uma vez cabe a quest\u00e3o, onde est\u00e1 a realidade? A realidade s\u00f3 poderia ser o lugar de uma fuga imposs\u00edvel da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4. \u00a0A deusa-linguagem<\/em>: devo \u00e0 amiga Maiara L\u00edbano esse preciso \u201ccalembour\u201d que teria feito a del\u00edcia do pr\u00f3prio diretor. O filme de Godard n\u00e3o seria um abandono, mas uma busca nost\u00e1lgica da linguagem, n\u00e3o um r\u00e9quiem, mas uma ode. Algo como um \u201cElogio \u00e0 Linguagem\u201d. Dizem que na regi\u00e3o da Su\u00ed\u00e7a onde o cineasta foi criado, h\u00e1 um jogo de palavras. \u201cAdieu\u201d significa antes \u201col\u00e1\u201d, \u201chello\u201d. Talvez \u201cat\u00e9 logo\u201d. Assim, o car\u00e1ter intempestivo, mal-humorado ou mesmo escatol\u00f3gico, com peidos e defeca\u00e7\u00f5es, onde o \u201cpensar virou coc\u00f4\u201d (refer\u00eancia \u00e0 imagem de Rodin do Pensador), n\u00e3o passaria de um vi\u00e9s moralista que condena na \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d a supremacia ic\u00f4nica do \u201cver\u201d, contra a perspectiva profunda, radical do \u201colhar\u201d, este impregnado de linguagem. Assim, podemos ressignificar o problema do 3D no filme: o relevo da imagem cinematogr\u00e1fica \u00e9 uma terceira dimens\u00e3o que est\u00e1 al\u00e9m do texto e da imagem e que n\u00e3o \u00e9 o ref\u00fagio tranquilizador da realidade, mas a espessura da linguagem como elo, como liga\u00e7\u00e3o. Mas embora esse vi\u00e9s hermen\u00eautico seja inteiramente veross\u00edmil, ele traz um problema: qual \u00e9 afinal a quest\u00e3o sem solu\u00e7\u00e3o existente entre o casal, ou entre o trio em tri\u00e2ngulo (mulher-marido-amante) que traz o desenlace tr\u00e1gico? Qual a raz\u00e3o da DR infinita de que o filme laboriosamente nos apresenta? Qual \u00e9 o drama humano que a sedu\u00e7\u00e3o da deusa-linguagem \u00e9 incapaz de resolver? \u00c9 essa a quest\u00e3o que est\u00e1 posta a nu, como o belo corpo da atriz Helo\u00edse Godet na grande tela de cinema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15839\" aria-describedby=\"caption-attachment-15839\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Cena-de-Adeus-\u00e0-Linguagem-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15839 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Cena-de-Adeus-\u00e0-Linguagem-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Cena-de-Adeus-\u00e0-Linguagem-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Cena-de-Adeus-\u00e0-Linguagem-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-300x167.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15839\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Adeus \u00e0 Linguagem \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.\u00a0<\/em><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nudez na natureza\u201d<\/em>. Se n\u00e3o h\u00e1 naturalidade na nudez, toda nudez \u00e9 cultural. Mas isso tamb\u00e9m nos diz que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cp\u00f4r a nu\u201d a realidade, tal como ela \u00e9, uma realidade que n\u00e3o estivesse sempre \u201cvestida\u201d, \u201cparamentada\u201d de linguagem. Mais do que cultural, toda nudez \u00e9 pol\u00edtica. A nudez n\u00e3o est\u00e1 na natureza ou na realidade, mas no olhar. Por isso, a pr\u00f3pria quest\u00e3o da nudez dos atores e sobretudo das atrizes est\u00e1 marcada pela presen\u00e7a do imagin\u00e1rio. Outra amiga, Daniela Ribeiro, observou que a nudez feminina est\u00e1 muito mais presente do que a nudez masculina neste filme, o que \u00e9 verdadeiro. No entanto, no cinema de Godard nunca esteve ausente a quest\u00e3o de g\u00eanero. N\u00e3o por acaso, Masculino\/Feminino \u00e9 um de seus grandes filmes nos anos 60. Mas a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 inteiramente pertinente, pois ao longo dos tempos, em seus filmes, os corpos femininos em sua nudez s\u00e3o muito mais explorados do que os corpos masculinos (justi\u00e7a seja feita, em Adeus \u00e0 Linguagem, a nudez masculina \u00e9 mais presente do que em filmes anteriores). Mas esse tropismo de g\u00eanero antes confirma que nenhuma representa\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 isenta de perspectivas. A f\u00e1bula simples de Adieu&#8230; nos conta sobre os arqu\u00e9tipos masculinos e femininos, da busca feminina por \u201cespiritualidade\u201d em seus permanentes questionamentos e a tend\u00eancia masculina \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do pensamento ao corporal, ao excretor, ao sexual. A cena no box do banheiro onde nu o casal se estapeia entre o desejo e a recusa \u00e9 uma bel\u00edssima representa\u00e7\u00e3o dessas tens\u00f5es arquet\u00edpicas. Se os arqu\u00e9tipos refor\u00e7am as representa\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas por um lado, uma perfeita e ideal simetria pareceria inteiramente falsa. A sa\u00edda aqui est\u00e1 n\u00e3o apenas em defender uma representa\u00e7\u00e3o mais equilibrada dos vieses culturais, mas em contar com a terceira via que os relativizam. Essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do 3D, que nos lembra da perspectiva. E que nos faz recordar que entre os polos dualistas da mulher e do homem h\u00e1 o animal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a06.\u00a0<\/em><em>Rocky.<\/em> \u201cO animal n\u00e3o est\u00e1 nu porque ele \u00e9 nu\u201d. A nudez cultural, relativa, assim\u00e9trica do casal, se op\u00f5e \u00e0 nudez \u201cessencial\u201d do animal. Mas o cachorro (que \u201cpertence\u201d ao casal Godard e Anne-Marie Mieville e que ganhou um pr\u00eamio em Cannes por sua atua\u00e7\u00e3o neste filme) n\u00e3o representa o polo da natureza em oposi\u00e7\u00e3o ao polo da cultura onde est\u00e1 o casal. Em outra cita\u00e7\u00e3o (de Charles Darwin) comenta-se que o c\u00e3o \u00e9 aquele que ama mais o homem que a si mesmo. Rocky \u00e9 um la\u00e7o, um meio de liga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 natureza ou cultura, ele \u00e9 natureza e cultura. Ele habita uma regi\u00e3o onde a linguagem se encontraria com seu oposto, a suposta realidade n\u00e3o mediada. Por seus olhos \u201cmelanc\u00f3licos\u201d haveria um testemunho dessa regi\u00e3o al\u00e9m da linguagem, pois ele \u00e9 egresso de uma \u00e9poca anterior a essa separa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que n\u00e3o: o contraste que o filme anuncia \u00e9 a diferencia\u00e7\u00e3o entre texto e imagem e n\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o idealista entre natureza e cultura. Como Rocky, a linguagem \u00e9 tamb\u00e9m um meio, um \u201clien\u201d. Existe antes um distanciamento da linguagem dela mesma, uma fratura, um hiato. Essa linguagem se fendeu na satura\u00e7\u00e3o do texto pelas imagens e na sutura das imagens pelo texto (cita\u00e7\u00f5es).\u00a0 Rocky, portanto, n\u00e3o \u00e9 a testemunha \u00faltima e nost\u00e1lgica de um passado perdido de concilia\u00e7\u00e3o, anterior \u00e0 confus\u00e3o entre natureza e cultura. H\u00e1 algo mesmo de ut\u00f3pico em seu olhar que aponta n\u00e3o para o passado, mas para o futuro, uma maneira outra de se encontrar com a linguagem, mais depurada: \u201cJe cherche la pauvret\u00e9 dans la langage\u201d, diz uma personagem. Numa palavra cara a JLG, essa outra forma diversa \u00e9 \u201cautrement\u201d, \u201coutramente\u201d numa tradu\u00e7\u00e3o canhestra. Em outra cita\u00e7\u00e3o, fala-se que o face-a-face inventou a linguagem. Esse outramente \u00e9, pois, um encontro com a face melanc\u00f3lica do animal, n\u00e3o apesar da linguagem, mas em seu nome. No poema Versos a um c\u00e3o, que se Godard conhecesse certamente figuraria em seu filme, Augusto dos Anjos nos fala sobre a \u201cesquisit\u00edssima pros\u00f3dia\u201d dos c\u00e3es, um termo que caberia perfeitamente para caracterizar este filme. A esquisita pros\u00f3dia \u00e9 algo ainda em devir, apontando n\u00e3o para separa\u00e7\u00f5es idealistas, mas para supera\u00e7\u00f5es em outros planos ou mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a07.\u00a0<\/em><em>\u00c7a m\u2019est \u00e9gal.<\/em> O presente \u00e9 um animal esquisito (\u201cdr\u00f4le\u201d), diz o homem. Tanto faz, diz a mulher, gritando. E repete o mesmo em novo grito. \u201cA consci\u00eancia do homem \u00e9 cega, n\u00e3o \u00e9 o animal que \u00e9 cego. O homem \u00e9 incapaz de ver o mundo. Isto que est\u00e1 fora \u00e9 a verdade?\u201d Tanto faz, talvez dissesse Rocky. Casal e tri\u00e2ngulo amoroso; imagem, texto e linguagem; homem, mulher e c\u00e3o. Adeus \u00e0 Linguagem \u00e9 marcado por dualismos a que se somam a presen\u00e7a de um terceiro, como um jogo entre o 2D e o 3D. \u00c9 como se os dilemas, quest\u00f5es, perguntas e reflex\u00f5es que abundam na narrativa n\u00e3o pudessem ser resolvidos na planaridade de duas dimens\u00f5es e precisassem de uma terceira via para se redimensionar. Na perspectiva desta terceira dimens\u00e3o, as diferen\u00e7as planares, os hiatos e incompletudes ou n\u00e3o importam ou se tornam pontos cegos. Godard pensou este filme numa estrutura dupla, especular, na qual um desvio se introduzisse: \u201cDa ra\u00e7a humana \u00e0 met\u00e1fora.\/ Isto termina em latidos\/ e em choro de crian\u00e7a.\/ No meio tempo vemos pessoas discutindo sobre a queda do d\u00f3lar, sobre a verdade em matem\u00e1tica e sobre a morte de um pardal\u201d. Tanto faz diria a mulher, ou Rocky (mas o homem n\u00e3o diria isso. Talvez Godard sim). A met\u00e1fora n\u00e3o \u00e9 um espelho nem da ideia nem da realidade, mas uma outra via. Uma perspectiva. Um relevo. Entre a natureza e a cultura est\u00e1 a linguagem como um terreno, um caminho comum. E entre o texto e a imagem, numa mesma liga, est\u00e1 o cinema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UHwPiryV6Mw\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em> \u00e9 engenheiro e escritor, autor de \u201cCapoeiragem\u201d (Ed. 7Letras) e \u201cExtrema L\u00edrica\u201d (Editora Oito e Meio), e tamb\u00e9m organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Preger e suas teses sobre o novo filme de Godard<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10655,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,2535],"tags":[2728,115,13,2727,1204,189],"class_list":["post-10654","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-adeus-a-linguagem","tag-cinema","tag-drops-da-setima-arte","tag-godard","tag-guilherme-preger","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10654"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15840,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10654\/revisions\/15840"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}