{"id":10679,"date":"2015-10-04T11:03:51","date_gmt":"2015-10-04T14:03:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10679"},"modified":"2015-11-17T17:31:12","modified_gmt":"2015-11-17T19:31:12","slug":"dedos-de-prosa-ii-35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-35\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>M\u00e1rio S\u00e9rgio Baggio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_10681\" aria-describedby=\"caption-attachment-10681\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10681 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna11.jpg\" alt=\"Val\u00e9ria Sim\u00f5es\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna11.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna11-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/interna11-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10681\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Val\u00e9ria Sim\u00f5es<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Noite de cachorro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como faz todas as manh\u00e3s, o cachorro tira o homem de casa e o leva para passear. Andam pelas ruas ainda vazias, moldura adequada para a caminhada silenciosa de um cachorro e um homem. Toda manh\u00e3 \u00e9 o mesmo: o homem, animal treinado, ergue uma das pernas para mijar em cada esquina. \u00c9 um h\u00e1bito, coisa de homem que sai todas as manh\u00e3s com seu cachorro para passear. Um leva o outro, n\u00e3o se sabe quem conduz quem. Homem leva cachorro, cachorro leva homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminham evitando as po\u00e7as d\u2019\u00e1gua que a tempestade da noite anterior deixou como lembran\u00e7a. Becos pichados, ruas cheias de sombras, avenidas sem viv\u2019alma, ladeiras \u00edngremes, pra\u00e7as desertas \u2013 o passeio do cachorro com seu homem n\u00e3o conhece limites nem escolhe atalhos. Caminhar \u00e9 preciso. O ch\u00e3o molhado reflete a silhueta dos dois, fantasmas silenciosos que avan\u00e7am e se apoderam do espa\u00e7o estendido \u00e0 frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cachorro olha o rel\u00f3gio, o homem late. Ambos bocejam. Um p\u00e1ssaro negro voa baixo, pia de forma agourenta. O homem levanta uma das pernas e mija pela \u00faltima vez. Hora de fazer o caminho de volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acorda com o latido insistente de um c\u00e3o na vizinhan\u00e7a. Apoia-se nos cotovelos. O suor escorre, abundante, empapa seu pesco\u00e7o e peito. Sente o l\u00edquido que desce at\u00e9 os l\u00e1bios, desaparecendo queixo abaixo. Engole uma gota: salgada. Respira\u00e7\u00e3o arfante, acende a luz e olha o teto. Estica o bra\u00e7o e alcan\u00e7a o caderninho de notas na mesa de cabeceira. Escreve: \u201cChamar o encanador, telhado ainda com goteiras. Urgente: pegar mais pesado na terapia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devolve o caderninho \u00e0 mesa e volta a encostar a cabe\u00e7a no travesseiro. Olha a goteira no teto e suspira, exausto. Noite de cachorro, outra vez!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pior que podia fazer<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O pior que p\u00f4de fazer o imigrante foi oferecer resist\u00eancia \u00e0 autoridade. Claro, era normal que ele estivesse alterado, pois fora denunciado por abuso sexual pela senhora que morava na parte rica da cidade. Ele passava sempre por ali, voltando para sua casa, e naquele dia estava especialmente angustiado por receber mais uma maldita resposta negativa de trabalho. Nunca se metia com ningu\u00e9m, c\u00f4nscio de sua condi\u00e7\u00e3o de estrangeiro, e sabia que estaria sempre melhor quanto mais se mantivesse longe de problemas. Que tinha mulher e filhos e estava buscando trabalho para sustent\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era isso que ele devia dizer ao policial que o prendera na rua, antes que ele lhe pusesse as algemas. Antes que o levassem para a delegacia para tomar seu depoimento. Antes que lhe dessem uma surra por abusar de senhoras de respeito. Antes que o jogassem numa cela, \u00e0 espera de julgamento. Antes que, no dia seguinte, a senhora retirasse a queixa contra ele, dizendo com um sorriso amarelo que n\u00e3o tinha certeza de que aquele sujeito a havia molestado. Antes que ningu\u00e9m lhe pedisse desculpas pelo engano e o pusesse de novo nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teria sido muito melhor se o imigrante conservasse sua calma e serenidade no momento em que fora detido. E n\u00e3o insultasse todo mundo, inclusive o delegado. E n\u00e3o enfrentasse a for\u00e7a da autoridade. E n\u00e3o tentasse fugir de modo intempestivo. E n\u00e3o ca\u00edsse de bru\u00e7os depois de receber um tiro pelas costas. <em>Foi de advert\u00eancia<\/em>, disse o policial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Liturgia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro a m\u00e3o vai at\u00e9 o c\u00e1lice grande e dourado, cheio de h\u00f3stias, recolhe uma delas e vai em linha reta at\u00e9 a l\u00edngua estirada \u00e0 sua frente. A m\u00e3o deixa cair a h\u00f3stia, <em>corpo de Cristo<\/em>, a l\u00edngua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da l\u00edngua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os l\u00e1bios e os olhos e assume sua culpa cat\u00f3lica e sua condi\u00e7\u00e3o de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns m\u00ednimos instantes, o suficiente para que transpare\u00e7a verdade em sua inten\u00e7\u00e3o. Depois, sem nada dizer, com a h\u00f3stia derretendo no c\u00e9u da boca, ele se levanta e volta, de cabe\u00e7a baixa, para o lugar de onde tinha sa\u00eddo. Agora a m\u00e3o est\u00e1 im\u00f3vel, esperando o pr\u00f3ximo pecador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela vem, n\u00e3o t\u00e3o devagar, para n\u00e3o atrasar o andamento do ritual, nem t\u00e3o apressada, para n\u00e3o perturbar a devo\u00e7\u00e3o do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cad\u00eancia exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balan\u00e7ar de seus quadris, a pulsa\u00e7\u00e3o de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustenta\u00e7\u00e3o de toda aquela estrutura \u00f3ssea que se move. A m\u00e3o est\u00e1 parada, \u00e0 espera, j\u00e1 com a h\u00f3stia entre os dedos. O dono da m\u00e3o pigarreia e deixa escapar certo inc\u00f4modo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase ro\u00e7a os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando <em>Que descuidada que sou!<\/em> uma nesga de coxa. A m\u00e3o treme, <em>corpo de Cristo<\/em>, ao esticar-se em linha reta conduzindo a h\u00f3stia na dire\u00e7\u00e3o daquela l\u00edngua esticada na medida certa &#8211; n\u00e3o t\u00e3o fora da boca para n\u00e3o indicar lubricidade, nem t\u00e3o dentro que o dono da m\u00e3o precise ro\u00e7ar os dedos em seus l\u00e1bios e dentes. Ela n\u00e3o fecha os olhos para o dono da m\u00e3o, antes olha para ele no momento de receber sua por\u00e7\u00e3o de farinha e \u00e1gua. Ela recolhe a l\u00edngua, abaixa a cabe\u00e7a &#8211; culpada, cat\u00f3lica culpada assumida! &#8211; e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cad\u00eancia, sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora a m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se v\u00ea \u00e9 uma m\u00e3o insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Ap\u00f3s a m\u00e3o v\u00eam o cotovelo, o ombro, o pesco\u00e7o e o rosto, todos partes de um \u00fanico ser que nesse exato momento chora. O coroinha n\u00e3o entende o que se passa, e o sacrist\u00e3o levanta as m\u00e3os para o alto, <em>Mas o que \u00e9 que est\u00e1 acontecendo com o padre Fernando?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>M\u00e1rio S\u00e9rgio Baggio <\/em><\/strong><em>\u00e9 jornalista, morador da cidade de S\u00e3o Paulo, atua como Redator freelancer produzindo conte\u00fado para websites, blogs e redes sociais. Mant\u00e9m o blog<strong> <a href=\"http:\/\/www.homemdepalavra.com.br\">Homem de Palavra<\/a><\/strong>, em que publica seus textos de fic\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enlaces cotidianos nas narrativas de M\u00e1rio S\u00e9rgio Baggio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2703,2534],"tags":[419,41,1894,2741,2743,2742],"class_list":["post-10679","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-104a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-liturgia","tag-mario-sergio-baggio","tag-noite-de-cachorro","tag-o-pior-que-podia-fazer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10679","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10679"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10679\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10715,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10679\/revisions\/10715"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10680"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}