{"id":10784,"date":"2015-11-16T11:14:12","date_gmt":"2015-11-16T13:14:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10784"},"modified":"2018-12-13T12:15:45","modified_gmt":"2018-12-13T15:15:45","slug":"aperitivo-da-palavra-i-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-13\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>A linguagem e o limite<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/interna-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15855\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/interna-5.jpg\" alt=\"\" width=\"274\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/interna-5.jpg 274w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/interna-5-183x300.jpg 183w\" sizes=\"auto, (max-width: 274px) 100vw, 274px\" \/><\/a> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que est\u00e1 vinculada a um territ\u00f3rio. E aqui uso a palavra n\u00e3o como representa\u00e7\u00e3o de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Grosso modo<\/em>, temos autores \u201cregionais\u201d na forma e na constru\u00e7\u00e3o de seu eu-personagem \u2013 a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chap\u00e9u na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo al\u00e9m do trip\u00e9 \u201casfalto, quebrada, concreto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando o racioc\u00ednio simpl\u00f3rio acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, mat\u00e9ria e antimat\u00e9ria de seu trabalho. Isso \u00e9 terrivelmente \u00f3bvio, sei. O \u201curbano\u201d vai buscando o entendimento atrav\u00e9s das g\u00edrias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o \u201cregional\u201d se vincula ao que de mais rinc\u00e3o existe. Tal situa\u00e7\u00e3o os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinh\u00e3o. Ainda que as novas possibilidades art\u00edsticas os afastem de suas ra\u00edzes, \u00e9 preciso encostar o ouvido ao ch\u00e3o. Sentir a trepida\u00e7\u00e3o, escutar; manter a ess\u00eancia \u2013 seja ela inventada ou n\u00e3o, pois quem cria a paisagem \u00e9 o autor, n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe, por\u00e9m, outra esp\u00e9cie de escritor. Um tipo que vai al\u00e9m. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si tamb\u00e9m a linguagem que o vinculava ao seu poss\u00edvel territ\u00f3rio. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Fernanflor<\/em> (Iluminuras, 2015, 112 p\u00e1ginas), de Sidney Rocha, tive tal impress\u00e3o logo no come\u00e7o. As palavras existem, n\u00e3o fogem de nossa compreens\u00e3o. Os elementos narrativos n\u00e3o s\u00e3o disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstra\u00e7\u00f5es. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a at\u00e9 outro patamar. Indo al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ele, o territ\u00f3rio, o lugar, ou qualquer conceito semelhante \u00e9 a pr\u00f3pria linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consci\u00eancia, tipo de arte que, nas m\u00e3os dos tolos, se torna artif\u00edcio. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a constru\u00e7\u00e3o, com a estrutura e com a inten\u00e7\u00e3o, principalmente. A velocidade aqui \u00e9 fruto de seu intento. A rapidez \u00e9 resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado n\u00e3o de forma obtusa e engessada, mas com a paix\u00e3o dos que sabem aonde querem estar \u2013 n\u00e3o por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, al\u00e9m de ter sido submetido a uma leitura p\u00fablica h\u00e1 cerca de quatro anos em v\u00e1rias capitais do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de n\u00e3o ser herm\u00e9tico, <em>Fernanflor<\/em> tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a no\u00e7\u00e3o\/ideia de territ\u00f3rio nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada p\u00e1gina nos for\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um d\u00e2ndi. Talvez possua as mesmas posturas e ang\u00fastias comuns aos outros da hist\u00f3ria da literatura. Por\u00e9m, cada novo instante \u00e9 de fato novo, exige mais do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, \u00e9 poss\u00edvel tentar justific\u00e1-la com uma ideia simples: a cada p\u00e1gina conquistada entendemos que nada \u00e9 linear nem previs\u00edvel. Em nenhum aspecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do enredo \u00e0 linguagem, as coisas se renovam. O novo n\u00e3o surge somente nas a\u00e7\u00f5es do personagem \u2013 aonde ele vai, o que far\u00e1 em seguida, qual seu destino, sua trag\u00e9dia e seu triunfo. O novo surge tamb\u00e9m na linguagem. Na escrita. Em di\u00e1logos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura \u201cdeslocada\u201d de Rocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma epifania n\u00e3o \u00e9 fato isolado. Ela se desdobra. Atinge n\u00e3o somente o instante na hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a linguagem que lhe d\u00e1 guarida. \u00c9 um conjunto de sensa\u00e7\u00f5es. Pluralidade, literal e liter\u00e1ria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cRetirada a laje, a areia volta ao bojo das p\u00e1s. Milh\u00f5es de p\u00e9talas s\u00e3o lan\u00e7adas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algod\u00e3o puro, se enfiam na terra e i\u00e7am o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas \u00e9 a respira\u00e7\u00e3o da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo cr\u00ea que o diamante levita, depois as m\u00e3os o carregam at\u00e9 o suntuoso catafalco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cNa c\u00e2mera ardente, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7os para mais rosas nem palmas.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E presenciamos cisnes que \u201cdesnadam\u201d. E um Jeroni que v\u00ea <em>\u201c(&#8230;) l\u00e1grimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto a ser destacado \u00e9 o uso de elementos pict\u00f3ricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso \u00e9 fundamental. Justific\u00e1vel em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu us\u00e1-los, o risco (ou seria tra\u00e7o, ou pincelada?) valeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, supondo que o autor n\u00e3o seja artista pl\u00e1stico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necess\u00e1rio n\u00e3o serviram somente de arcabou\u00e7o para o protagonista. Nem descri\u00e7\u00f5es frias resultantes de pesquisas. A pintura que Louren\u00e7o Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem \u2013 e opini\u00f5es como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do pa\u00eds, tem peso e medida, assim como as do portugu\u00eas Gon\u00e7alo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre <em>Fernanflor<\/em>. Provando mais uma vez que ela \u00e9 o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira p\u00e1gina. Com cores, vibrantes ou n\u00e3o \u2013 o vermelho e o cinza s\u00e3o escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento tamb\u00e9m sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre \u00e0 beira de um precip\u00edcio. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos seduzidos pelo artista. Pelo d\u00e2ndi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca est\u00e1tico. Pelo artista que se mostra nos sil\u00eancios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas \u201c(&#8230;) frases claras, mas nunca evidentes.\u201d, opini\u00e3o do escritor portugu\u00eas Gon\u00e7alo M. Tavares em seu texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fernanflor<\/em> \u00e9 o come\u00e7o. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Gustavo Rios<\/em><\/strong><em> \u00e9 autor do livro de contos \u201cAllen mora no t\u00e9rreo\u201d (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Rios adentra os caminhos de \u201cFernanflor\u201d, romance de Sidney Rocha <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10785,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2755,2533,16],"tags":[2768,11,2767,2765,2411,189,496,2766],"class_list":["post-10784","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-105a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-a-linguagem-e-o-limite","tag-aperitivo-da-palavra","tag-editora-iluminuras","tag-fernanflor","tag-gustavo-rios","tag-resenha","tag-romance","tag-sidney-rocha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10784"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15856,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784\/revisions\/15856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}