{"id":10794,"date":"2015-11-16T11:40:55","date_gmt":"2015-11-16T13:40:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10794"},"modified":"2015-12-23T15:54:04","modified_gmt":"2015-12-23T17:54:04","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-39","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-39\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de di\u00e1logo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combust\u00edvel para a cria\u00e7\u00e3o, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma avidez de mundo na obra de um algu\u00e9m como <strong>W. J. Solha<\/strong>. Estamos diante de um autor que tem apetite por conex\u00f5es quando a aten\u00e7\u00e3o se volta para a vida. Toda a sua trajet\u00f3ria est\u00e1 marcada por uma valiosa refer\u00eancia a outros campos do conhecimento, a uma desperta e expl\u00edcita men\u00e7\u00e3o a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensa\u00e7\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio ao que vislumbra da exist\u00eancia, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considera\u00e7\u00f5es, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a mem\u00f3ria como um precioso guia de suas incurs\u00f5es criativas.\u00a0 Tem uma vida dedicada n\u00e3o somente aos livros, mas tamb\u00e9m \u00e0s artes pl\u00e1sticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memor\u00e1veis, como \u00e9 o caso de livros como \u201cIsrael R\u00eamora\u201d (Romance), \u201cHist\u00f3ria Universal da Ang\u00fastia\u201d (Novela) e \u201cRelato de Pr\u00f3cula\u201d (Romance). Com \u201cTrigal com Corvos\u201d, enveredou-se na elabora\u00e7\u00e3o de poemas longos, o que se seguiu em \u201cMarco do Mundo\u201d, \u201cEsse \u00e9 o Homem\u201d e, mais recentemente, &#8220;DeuS e outros quarenta PrOblEMAS&#8221;. No cinema, atuou em filmes como \u201cEra Uma Vez Eu, Ver\u00f4nica\u201d e \u201cO Som ao Redor\u201d, dentre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido no interior de S\u00e3o Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Para\u00edba por raz\u00f5es profissionais e l\u00e1 foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, h\u00e1 reflex\u00f5es pungentes sobre eixos n\u00e3o somente liter\u00e1rios, mas tamb\u00e9m filos\u00f3ficos. Uma conversa que evidencia o esp\u00edrito invenc\u00edvel de um criador que, mesmo diante das intemp\u00e9ries t\u00e3o pr\u00f3prias do seu of\u00edcio, resiste tanto pela manifesta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_10798\" aria-describedby=\"caption-attachment-10798\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10798 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"W.J.Solha\" width=\"400\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-I.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-I-300x254.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10798\" class=\"wp-caption-text\">W. J. Solha \/ Foto: Andr\u00e9ia Solha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu novo livro sugere uma verdadeira intersec\u00e7\u00e3o entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se resolve?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>W. J. SOLHA &#8211; <\/strong>Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus &#8220;brev\u00edssimos ensaios muit\u00edssimo ilustrados&#8221;, dez dos quais voc\u00ea pode conferir <strong><a href=\"http:\/\/www.carmovasconcelos-fenix.org\/Escritores\/WJSOLHA-ENSAIOS\/WJSOLHA.htm\">aqui<\/a><\/strong> &#8211; , todos os romances, pe\u00e7as de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limita\u00e7\u00e3o imposta aos criadores dessas \u00e1reas, segundo a qual isso seria de dom\u00ednio exclusivo da ci\u00eancia e filosofia. At\u00e9 o final do ano, por exemplo, estreia meu &#8220;\u00c9dipo no Terceiro Mil\u00eanio&#8221;, em Jo\u00e3o Pessoa, em que coloco a trag\u00e9dia original de S\u00f3focles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equa\u00e7\u00e3o que me parecia mal formulada. S\u00f3focles, absolutamente genial, foi v\u00edtima de seu tempo, mas sinto que ele tentou super\u00e1-lo. J\u00e1 em &#8220;DeuS e outros quarenta PrOblEMAS&#8221; discuto esse bin\u00f4mio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas\/problemas. Expedito Ferraz Jr., no pref\u00e1cio, diz que se trata de\u00a0um conjunto de escritos de natureza h\u00edbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflex\u00e3o que \u00e9, ao mesmo tempo, <em>mem\u00f3ria<\/em>,<em>est\u00e9tica<\/em>,\u00a0<em>hist\u00f3ria<\/em>,\u00a0<em>teologia<\/em>.\u00a0Fui feliz nisso, n\u00e3o fui? \u00c9 o mesmo que me perguntar se \u00e9 v\u00e1lida a f\u00f3rmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo j\u00e1 com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente po\u00e9tico &#8211; e arriscado, l\u00f3gico &#8211; fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual fa\u00e7o os autores do Novo Testamento &#8220;fecharem&#8221; o Livro &#8211; a B\u00edblia &#8211; at\u00e9 ent\u00e3o em aberto, ao contrabalan\u00e7arem o G\u00eanesis com o respectivo e necess\u00e1rio Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade plat\u00f4nica, numa montagem cinematogr\u00e1fica. O curioso \u00e9 que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus \u00e9 um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, voc\u00ea tamb\u00e9m comunga desse pensamento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">\u00c9 t\u00e3o estranho ouvir essa frase numa can\u00e7\u00e3o, que Lennon diz &#8220;I&#8217;ll say it again&#8221; (espertamente rimando com &#8220;our pain&#8221;) e a repete. Ao contr\u00e1rio dele, por\u00e9m, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles. \u00a0&#8220;I just believe in me&#8221;, \u00a0ele afirma cartesianamente, e &#8211; freudianamente &#8211; se corrige: &#8220;Yoko and me&#8221;. Em meu primeiro romance &#8211; &#8220;Israel R\u00eamora&#8221; &#8211; fa\u00e7o meu protagonista dizer que &#8220;o <\/span><em style=\"line-height: 1.5;\">Penso, logo existo<\/em><span style=\"line-height: 1.5;\">, \u00e9 de uma l\u00f3gica extraordin\u00e1ria, mas deixa o resto fora de cogita\u00e7\u00e3o&#8221;. Quando, no t\u00edtulo de meu novo livro, escrevo &#8220;DeuS&#8221;, inspirado na logo da revista Mother &amp; Child, em que o &#8220;&amp;&#8221; se insere no &#8220;o&#8221; de &#8220;mother&#8221; como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse n\u00facleo acrescento &#8220;e outros quarenta PrOblEMAS&#8221;, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John \u00a0e Yoko, ao tempo em que assumo que esse &#8220;DeuS&#8221; (N\u00e3o cr\u00eas que\u00a0Eu estou no Paie que o Pai\u00a0est\u00e1 em mim? &#8211; Jo 14:20) \u00e9, tamb\u00e9m, PrOblEMA&#8221;. E se \u00e9 problema, dor. Sua pergunta \u00e9 mais profunda do que imaginei \u00e0 primeira vista, Fabr\u00edcio. Lennon realmente disse tudo. &#8220;DeuS e outros quarenta PrOblEMAS&#8221; \u00e9 um livro que tenta medir a minha &#8211; logo nossa &#8211; dor, \u00a0a partir dessa rela\u00e7\u00e3o feto-e-\u00fatero, feto, no caso, que tenta ser dado \u00e0 luz, livrando-se do provis\u00f3rio abrigo que, no caso evang\u00e9lico, \u00e9 \u00a0o deus tribal dos judeus; \u00a0no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero tamb\u00e9m absolutamente insatisfat\u00f3rio, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o, porque &#8211; se fosse, mesmo -, estaria perdido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; N\u00e3o sabemos lidar com aquilo que nos transcende?\u00a0<\/strong><strong>\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">De modo geral, n\u00e3o. H\u00e1 um fasc\u00ednio dominante pelo m\u00e1gico. Porque ele deslumbra e \u00e9 de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o. Certa vez &#8211; h\u00e1 muitos anos &#8211; um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de &#8220;Eram os deuses astronautas?&#8221;, &#8220;O 12o. Planeta&#8221; e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Ta\u00ed o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem s\u00e3o, o que s\u00e3o, de onde vieram e para onde v\u00e3o, fazem como as crian\u00e7as: ouvem os contos de fadas. O Alcor\u00e3o \u00e9 um, a B\u00edblia \u00e9 outro, e h\u00e1 os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Dif\u00edcil \u00e9 convencer que a vida, por si s\u00f3, com seus prazeres, sofrimentos e mist\u00e9rios, j\u00e1 \u00e9 o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Dif\u00edcil \u00e9 convencer que nenhuma religi\u00e3o tem coer\u00eancia. Embora eu tenha\u00a0\u200b- al\u00e9m do &#8220;DeuS e outros quarenta PrOblEMAS&#8221; &#8211; \u200bv\u00e1rios\u00a0\u200boutros \u200blivros explicitamente abordando isso, como os romances &#8220;A Verdadeira Est\u00f3ria de Jesus&#8221; (\u00c1tica, 1979) e &#8220;Relato de Pr\u00f3cula&#8221; (A Girafa, 2009) \u00a0ou o poema longo &#8220;Esse \u00e9 o Homem&#8221; (Ideia, 2013), n\u00e3o discuto religi\u00e3o. Porque n\u00e3o adianta, por exemplo, lembrar\u00a0aos que veneram S\u00e3o Jorge &#8211; patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Eti\u00f3pia, al\u00e9m de, extraoficialmente, do Rio &#8211; que n\u00e3o existem drag\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema \u00e9 o da espiritualidade. O agravante aqui \u00e9 que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de institucionaliza\u00e7\u00e3o secular do olhar, cujos artefatos prediletos s\u00e3o a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>W. J. SOLHA &#8211; <\/strong>Espantam-me as multid\u00f5es &#8211; em que pesa \u00e0 informa\u00e7\u00e3o cada vez mais acess\u00edvel &#8211; que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente \u00e9, na verdade, o Consciente, a\u00a0vontade, frequentemente, \u00e9 de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10799\" aria-describedby=\"caption-attachment-10799\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10799 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"W.J.Solha\" width=\"400\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-II.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-II-300x285.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10799\" class=\"wp-caption-text\">W. J. Solha \/ Foto: Andr\u00e9ia Solha<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em seu &#8220;Notas do subsolo&#8221;, Dostoi\u00e9vski discorria sobre o que ele chamava de consci\u00eancia exagerada (ou amplificada) versus a consci\u00eancia do homem comum. Com certo tom sarc\u00e1stico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda op\u00e7\u00e3o, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percep\u00e7\u00e3o das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como voc\u00ea pensa tal contraposi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Certa vez, nos come\u00e7os da informatiza\u00e7\u00e3o em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, \u00c9dson e Einstein, havia uma chamada curiosa: &#8220;O que eles t\u00eam que v. n\u00e3o tem?&#8221; O texto respondia: &#8220;Software. Enquanto voc\u00ea e a maioria contam apenas com hardware.&#8221; Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt &#8211; como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre &#8211; e me lembro de algum, meu.\u00a0 Ou quando leio &#8220;el otro poema de los dones&#8221;, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoi\u00e9vski s\u00f3 poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu n\u00e3o poderia querer ser como ele quando criou &#8220;Crime e Castigo&#8221; e, mais ainda, como Tolst\u00f3i quando fez &#8220;Guerra e Paz&#8221;, ou Arist\u00f3teles ao escrever a &#8220;Po\u00e9tica&#8221; e a &#8220;Pol\u00edtica&#8221;? Ou como Shakespeare, Virg\u00edlio, Homero, quando produziram &#8220;Hamlet&#8221;, &#8220;A Eneida&#8221; e &#8220;A Il\u00edada&#8221;? Deve ser uma del\u00edcia ter &#8220;uma excessiva percep\u00e7\u00e3o das sutilezas da vida&#8221;. Felizmente a inform\u00e1tica &#8211; como na propaganda &#8211; vem se desenvolvendo e est\u00e1 dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informa\u00e7\u00f5es que disponibiliza, facilitando-nos as associa\u00e7\u00f5es de ideias. Mas continua sendo extraordin\u00e1rio ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ningu\u00e9m antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. &#8220;Consci\u00eancia amplificada&#8221;. \u00c9 a maravilha humana em a\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um tra\u00e7o caracter\u00edstico de sua obra, que \u00e9 o de apresentar o mundo a partir de seu repert\u00f3rio pessoal, utilizando-se de refer\u00eancias art\u00edsticas, liter\u00e1rias, filos\u00f3ficas, dentre outras. Diga-se de passagem, \u00e9 uma caracter\u00edstica inconfund\u00edvel de seus escritos. Quem \u00e9 essa ferramenta chamada mem\u00f3ria? Conseguimos driblar suas artimanhas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>W. J. SOLHA &#8211; <\/strong>Meus romances, poemas, libretos pra bal\u00e9 e \u00f3pera, pe\u00e7as de teatro, quadros, s\u00e3o, todos, PrOblEMAS, Fabr\u00edcio, principalmente esse, o de nenhuma dessas \u00e1reas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um campon\u00eas abrutalhado em \u201cA Canga\u201d, ou um empres\u00e1rio com obscuras ra\u00edzes de sua fortuna, em \u201cO Som ao Redor\u201d, o que me custou, sempre, esfor\u00e7o t\u00e3o desesperado quanto o de uma sess\u00e3o medi\u00fanica, da\u00ed que tive de desistir dessa atividade ou &#8211; sem exagero &#8211; sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao \u201cEra uma vez eu, Ver\u00f4nica\u201d, que se eu participasse de um \u201cTropa de Elite\u201d, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. &#8220;Quem \u00e9 essa ferramenta chamada mem\u00f3ria?&#8221;, voc\u00ea, me pergunta, curiosamente n\u00e3o dizendo &#8220;o que?&#8221;, mas &#8220;quem?&#8221; Claro que ela somos n\u00f3s, pois sem sua presen\u00e7a &#8211; no Alzheimer, por exemplo &#8211; deixamos de existir, ficando de n\u00f3s &#8211; tristemente, para os que nos cercam &#8211; algo como zumbis. &#8220;Conseguimos driblar suas artimanhas?&#8221;, voc\u00ea quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em \u201cO Sal\u00e1rio da Morte\u201d, ou o tenente Maur\u00edcio, em \u201cFogo Morto\u201d. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de cria\u00e7\u00e3o &#8211; descrito em meu primeiro poema longo, \u201cTrigal com Corvos\u201d -, que consiste, primeiramente, em formar um &#8220;banco de frases&#8221; elaboradas em intensas &#8220;leituras&#8221; de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebasti\u00e3o Salgado, ou de livros de Ci\u00eancia ou Arte. A cada vinte, trinta p\u00e1ginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, j\u00e1 eliminando as descart\u00e1veis. A\u00ed vou buscar combina\u00e7\u00f5es entre elas. \u00c9 onde surgem &#8211; depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas &#8211; os meus versos. \u201cDeuS e outros quarenta PrOblEMAS\u201d, portanto, como \u201cEsse \u00e9 o Homem\u201d, \u201cMarco do Mundo\u201d e \u201cTrigal com Corvos\u201d, n\u00e3o vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que n\u00e3o foi constru\u00edda, mas escavada na rocha. S\u00f3 aceito essas &#8220;artimanhas da mem\u00f3ria&#8221; &#8211; como voc\u00ea as chamou &#8211; porque elas me d\u00e3o livros que julgo maiores que eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Logo no in\u00edcio do mais novo filme de Godard, &#8220;Adeus \u00e0 linguagem&#8221;, h\u00e1 uma passagem que diz: &#8220;Aqueles que n\u00e3o t\u00eam imagina\u00e7\u00e3o buscam ref\u00fagio na realidade. Resta saber se o n\u00e3o pensamento contamina o pensamento&#8221;. O que dizer diante disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Isso j\u00e1 foi muito discutido em artes pl\u00e1sticas. De repente a Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica passou a perder de longe pra \u00c1frica, que compareceu com for\u00e7a no Demoiselles D\u00b4Avignon, quando Picasso tentava p\u00f4r a Teoria da Relatividade, ent\u00e3o bastante recente e chocante, pra tela. H\u00e1 um belo livro, Beyond Impressionism &#8211; The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, &#8220;o esc\u00e2ndalo do impressionismo&#8221; j\u00e1 apagara um outro grande movimento art\u00edstico de sua mesma \u00e9poca, o naturalismo, que &#8211; influenciado pela literatura de Zola &#8211; usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injusti\u00e7a social que havia (e h\u00e1) por toda parte. \u00a0Em meu romance \u201cArk\u00e1ditch\u201d, transfiro pra meu protagonista Z\u00e9 Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experi\u00eancia que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolu\u00e7\u00e3o de Mondrian e Kandinsky at\u00e9 o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Crist\u00f3bal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo &#8211; na moda em sua juventude &#8211; pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma s\u00edntese do trajeto do s\u00e9culo XX, cent\u00faria v\u00edtima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegra\u00e7\u00e3o nuclear, desintegra\u00e7\u00e3o que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a f\u00f3rmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devasta\u00e7\u00e3o. Diante disso, parece-me que a realidade n\u00e3o seja um ref\u00fagio, um n\u00e3o pensamento. Van Eyck e Vel\u00e1squez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa quest\u00e3o me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sert\u00e3o da Para\u00edba, onde eu era o subgerente da ag\u00eancia do BB, recebi pelo \u00f4nibus que vinha de Jo\u00e3o Pessoa (pois a cidade n\u00e3o tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fasc\u00edculos de G\u00eanios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios \u00e0 min\u00facia de sua reprodu\u00e7\u00e3o da realidade, seguindo-se a isso o segundo fasc\u00edculo, com iguais elogios \u00e0s breves e densas pinceladas com que C\u00e9zanne &#8220;reproduzira&#8221; suas frutas. &#8220;Como pode?&#8221; Acabei por formular uma teoria a respeito: o g\u00eanio est\u00e1 em se sair com brilho de um problema est\u00e9tico, qualquer que seja. As real\u00edssimas naturezas-mortas holandesas do s\u00e9culo XVII &#8211; que chegaram ao trompe l\u00b4oeil &#8211; s\u00e3o t\u00e3o fascinantes quanto as instala\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes. \u00a0Da\u00ed que \u00e9 t\u00e3o bom ver um filme de Almod\u00f3var ou Kleber Mendon\u00e7a Filho, quanto um Godard.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Todo escritor \u00e9, no fundo, um exibicionista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Se \u00e9, n\u00e3o sou escritor. O que busca exibi\u00e7\u00e3o \u00e9 sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer fa\u00e7o sess\u00f5es de lan\u00e7amentos, com aut\u00f3grafos e tudo mais. Feiras liter\u00e1rias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. H\u00e1 pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o pref\u00e1cio para os haicais de Saulo Mendon\u00e7a. Um de meus trabalhos publicados \u00e9 &#8220;Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contempor\u00e2neos que eu gostaria de ter assinado&#8221;, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edi\u00e7\u00e3o paga por mim, coisa que, ali\u00e1s, vem acontecendo com tudo meu que est\u00e1 por a\u00ed, inclusive com este \u201cDeuS e outros quarenta PrOblEMAS\u201d. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes \u2013 \u201cO Som ao Redor\u201d, do Kleber Mendon\u00e7a Filho &#8211; teve forte repercuss\u00e3o, meu trabalho idem, acimentado pelo pr\u00eamio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Bras\u00edlia pelo \u201cEra uma vez eu, Ver\u00f4nica\u201d (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evid\u00eancia semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, por\u00e9m recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para s\u00e9ries de TV, todos recusados, porque resolvi n\u00e3o mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televis\u00e3o local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em Jo\u00e3o Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: &#8220;Solha, voc\u00ea conseguiu, com 30 segundos de TV, o que n\u00e3o conseguiu com 30 anos de literatura.&#8221; Exibicionismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas oper\u00e1rias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espa\u00e7o a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como voc\u00ea avalia esse panorama?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant\u00b4Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, \u201cTrigal com Corvos\u201d, elogiou-o imensamente, mas me avisou: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar editor pra ele&#8221;. E n\u00e3o encontrei. Banquei uma edi\u00e7\u00e3o de 500 exemplares na Imprell &#8211; daqui de Jo\u00e3o Pessoa -, e os mandei &#8211; \u00e0 minha custa &#8211; a quem os pediu. O mesmo se deu com \u201cMarco do Mundo\u201d, \u201cEsse \u00e9 o Homem\u201d &#8211; ambos pela Ideia, tamb\u00e9m daqui, e, agora, o \u201cDeuS e outros quarenta PrOblEMAS\u201d, pela Penalux, de S\u00e3o Paulo &#8211; este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama \u00e9 que se fica sem a distribui\u00e7\u00e3o nacional que as grandes editoras &#8211; mesmo com m\u00e1 vontade &#8211; empreendem. O pior \u00e9 que minha fic\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha \u201cHist\u00f3ria Universal da Ang\u00fastia\u201d pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o pr\u00eamio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Ark\u00e1ditch, foi-me dito que sua publica\u00e7\u00e3o apenas aconteceria quando a Hist\u00f3ria cobrisse suas despesas. A\u00ed ganhei o pr\u00eamio da Funarte de incentivo \u00e0 literatura com o projeto do romance \u201cRelato de Pr\u00f3cula\u201d, mas a obra s\u00f3 saiu pela A Girafa porque paguei por isso. \u00a0E, \u00a0uma coisa triste: sempre, depois de cada pr\u00eamio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, \u201cIsrael R\u00eamora\u201d, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna cr\u00edtica, mas jamais conseguiu uma segunda edi\u00e7\u00e3o. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com \u201cA Batalha de Oliveiros\u201d, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribu\u00eddo. O mesmo se deu com \u201cShake-up\u201d, lan\u00e7ado pela editora da UFPB. \u201cZ\u00e9 Am\u00e9rico foi Princeso no Trono da Monarquia\u201d saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A \u00c1tica me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de \u201cA Verdadeira Est\u00f3ria de Jesus\u201d, depois que eu fechara neg\u00f3cio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa tamb\u00e9m faliu, logo ap\u00f3s o lan\u00e7amento do \u201cRelato de Pr\u00f3cula\u201d. Da\u00ed que ontem &#8211; 15 de 10 de 2015, um n\u00famero bonito &#8211; parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse &#8220;Chega&#8221;. Parei, Fabr\u00edcio. Estou com 74 anos e isso torna a decis\u00e3o definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_10800\" aria-describedby=\"caption-attachment-10800\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10800 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III-1.jpg\" alt=\"W. J. Solha\" width=\"400\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III-1.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III-1-300x237.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10800\" class=\"wp-caption-text\">W. J. Solha \/ Foto: Andr\u00e9ia Solha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa tend\u00eancia maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Comecei a ler por influ\u00eancia de minha m\u00e3e, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos, \u00a0sem qualquer al\u00edvio de cozinheira, faxineira, bab\u00e1, lavadeira \u00a0e ainda costurava cal\u00e7as para o escrit\u00f3rio e macac\u00f5es para os oper\u00e1rios da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. N\u00e3o h\u00e1 equivalentes \u00e0quela dona Ermelinda entre meus leitores. \u00d4, mas nem ela me lia, por me achar muito dif\u00edcil. Exclusividade minha? N\u00e3o. J\u00e1 no tempo de Cort\u00e1zar se sabia que os escritores n\u00e3o eram mais os mesmos. Mas ele foi e \u00e9 muito lido, como Guimar\u00e3es Rosa e James Joyce. Logo, o problema n\u00e3o est\u00e1 em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Foi a Para\u00edba quem lhe deu r\u00e9gua e compasso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>W. J. SOLHA &#8211; <\/strong>Especificamente Pombal, no alto sert\u00e3o paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcion\u00e1rio da ag\u00eancia do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agr\u00edcola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolesc\u00eancia. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte \u00e0 noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossufici\u00eancia, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas cal\u00e7adas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes cl\u00e1ssicos &#8211; gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse per\u00edodo, tudo com livro emprestado, pois na cidade n\u00e3o havia nem livraria nem banca de jornais. Isso tamb\u00e9m aconteceu com os colegas do banco. Por influ\u00eancia do escritor Jos\u00e9 Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influ\u00eancia de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira pe\u00e7a de teatro e trabalhei nela como ator. Com Jos\u00e9 Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, l\u00e1 na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de fic\u00e7\u00e3o, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo document\u00e1rio \u201cAruanda\u201d. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Z\u00e9 Bezerra, j\u00e1 em Jo\u00e3o Pessoa, escreveu e dirigiu a pe\u00e7a \u201cO Mundo Louco do Poeta Z\u00e9 Limeira\u201d, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de cria\u00e7\u00e3o sem fronteiras, que acabou sendo tamb\u00e9m minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e art\u00edstica muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, s\u00f3 com retratos de p\u00e1gina inteira de grandes nomes da Para\u00edba, como Assis Chateaubriand &#8211; fundador do MASP e dos Di\u00e1rios Associados -, Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida &#8211; fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Am\u00e9rico &#8211; o do Grito do Ipiranga e Batalha do Ava\u00ed, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Z\u00e9 Lins do Rego, etc, etc, al\u00e9m de Marc\u00e9lia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme \u201cA Hora da Estrela\u201d, o maestro Jos\u00e9 Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinf\u00f4nica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irm\u00e3os cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Z\u00e9 Ramalho, Sivuca e Chico C\u00e9sar &#8211; a lista n\u00e3o tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Para\u00edba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de M\u00fasica Brasileira Contempor\u00e2nea, no Rio, agora, sendo um dos convidados, \u00a0o terceiro mais votado pela comiss\u00e3o, na hora de decidir quem receberia os contratos para \u00a0apresenta\u00e7\u00e3o de obras in\u00e9ditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da \u00f3pera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincid\u00eancia, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narra\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Enquanto atividade, ainda h\u00e1 espa\u00e7o para o Cinema e as Artes Pl\u00e1sticas na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que est\u00e1 grande, mas na primeira tentativa j\u00e1 deu pra ver que n\u00e3o tinha cabe\u00e7a, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de satura\u00e7\u00e3o, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansa\u00e7o e fui dormir, isso \u00e0s 10 da manh\u00e3. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel \u201cHomenagem a Shakespeare\u201d, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que n\u00e3o foi isso. \u00c9 que n\u00e3o estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terr\u00edvel. Quando voc\u00ea pinta, as palavras somem, voc\u00ea pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Voc\u00ea funciona&#8230; noutro \u00a0canal. E isso, caramba, d\u00f3i. Quanto ao cinema, eu j\u00e1 decidira parar quando fui convidado para \u201cO Som ao Redor\u201d. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. A\u00ed fui fazer o \u201cEra uma vez eu, Ver\u00f4nica\u201d, levado pela empolga\u00e7\u00e3o de trabalhar com o Marcelo Gomes. A\u00ed emendei com dois curtas paraibanos&#8230; e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar s\u00f3 uns seis meses depois, quando j\u00e1 decidira parar com o cinema. N\u00e3o s\u00f3 por n\u00e3o ter estrutura para ser algu\u00e9m diferente de mim, sem me arrebentar. Tamb\u00e9m pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo, Salvador e at\u00e9 Montevid\u00e9u. Sou sedent\u00e1rio &#8211; da\u00ed a literatura, a pintura. Quem sabe eu n\u00e3o encontre algo novo, um dia destes?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5;\">W. J. SOLHA &#8211; <\/strong><span style=\"line-height: 1.5;\">Ao resenhar o \u00faltimo livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presen\u00e7a, nele, do que ele foi, menino, lembrei o in\u00edcio do \u201cEl sentimiento de no estar del todo\u201d, de Cort\u00e1zar: \u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Siempre ser\u00e9 como un ni\u00f1o para tantas cosas, pero uno de esos ni\u00f1os que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez \u00e9ste lleva consigo al ni\u00f1o, y\u00a0<strong>nel mezzo del camin<\/strong>\u00a0se da una coexistencia pocas veces pac\u00edfica de por lo menos dos aperturas al mundo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial \u2013 \u201cEpopeia\u201d, da Ebal &#8211; deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha m\u00e3e me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois n\u00fameros atrasados &#8211; como \u201cO Correio do Czar\u201d, ou \u201cAquila Maris\u201d, cito dois deles &#8211; que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os \u00faltimos dez anos como funcion\u00e1rio do Banco do Brasil sem almo\u00e7ar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que n\u00e3o encontrava nisso. Da\u00ed meu primeiro romance, \u201cIsrael R\u00eamora\u201d (Record, 1975) ser t\u00e3o autobiogr\u00e1fico, como tamb\u00e9m foram \u201cRelato de Pr\u00f3cula\u201d (A Girafa, 2009) e \u201cArk\u00e1ditch\u201d (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo \u2013 \u201cTrigal com corvos\u201d (Imprell, 2004). Foi o velho &#8220;Conhece-te e conhecer\u00e1s os deuses e o universo&#8221; funcionando. Mas Hamlet, \u00c9dipo e Cristo me tiraram &#8211; personagens enormes &#8211; desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu \u201cZ\u00e9 Am\u00e9rico Foi Princeso no Trono da Monarquia\u201d, fascinado pela descoberta de que \u201cA Bagaceira\u201d do Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida &#8211; que rompia com a influ\u00eancia da literatura inglesa no Brasil &#8211; era uma adapta\u00e7\u00e3o do Hamlet, o pr\u00f3prio romancista vivendo, dois anos depois de lan\u00e7ar seu famoso romance, o papel do pr\u00edncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um pal\u00e1cio, o da Reden\u00e7\u00e3o, na capital paraibana. J\u00e1 em 1979 eu lan\u00e7ara \u201cA Verdadeira Est\u00f3ria de Jesus\u201d, pela \u00c1tica. E at\u00e9 o final do ano dever\u00e1 estrear, aqui em Jo\u00e3o Pessoa, meu \u201c\u00c9dipo no Terceiro Mil\u00eanio\u201d, dire\u00e7\u00e3o de Jorge Bweres. Conhe\u00e7o, inclusive, meus limites. Meu \u00faltimo livro come\u00e7a com estes versos: &#8220;G\u00eanio n\u00e3o tenho. \/ Me empenho&#8221;. Isso sou eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_10801\" aria-describedby=\"caption-attachment-10801\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10801 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III.jpg\" alt=\"Paix\u00e3o Judaica \" width=\"500\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/INTERNA-III-300x241.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10801\" class=\"wp-caption-text\">Paix\u00e3o Judaica (Acr\u00edlica sobre tela 80 x 100 cm) \/ Pintura: W. J. Solha<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor t\u00e1ctil e espiritual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa verdadeira compila\u00e7\u00e3o de sua trajet\u00f3ria, o escritor W. J. Solha fala sobre seu mais novo livro e outros tantos percursos liter\u00e1rios e art\u00edsticos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10795,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2755,16,2539],"tags":[2775,63,164,8,247],"class_list":["post-10794","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-105a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-deus-e-outros-quarenta-problemas","tag-entrevista","tag-paraiba","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-w-j-solha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10794"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10794\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10903,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10794\/revisions\/10903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}