{"id":10959,"date":"2015-12-21T11:38:59","date_gmt":"2015-12-21T13:38:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=10959"},"modified":"2016-05-19T09:17:35","modified_gmt":"2016-05-19T12:17:35","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-40","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-40\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, por\u00e9m n\u00e3o menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 j\u00e1 come\u00e7a a desferir seus \u00faltimos golpes. \u00c9 uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocu\u00e7\u00e3o findar suas tarefas profissionais, vislumbro cen\u00e1rios poss\u00edveis para nosso di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Le\u00f4ncio da Silva. Estamos na litor\u00e2nea cidade de Ilh\u00e9us, no sul da Bahia, e nessas paragens ele n\u00e3o \u00e9 conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome <strong>Sabar\u00e1<\/strong>, \u00e9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m, sobretudo no meio cultural daquela regi\u00e3o, que pelo menos n\u00e3o tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado art\u00edfice da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabar\u00e1 iniciou a vida art\u00edstica em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percuss\u00e3o, especialmente na bateria, em Ilh\u00e9us. Como baterista, acompanhou grandes nomes da m\u00fasica brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante express\u00e3o art\u00edstica, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. H\u00e1 mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, of\u00edcio que sem d\u00favida alguma ocupa um sentido especial em sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto da m\u00fasica da Bahia, a rever\u00eancia \u00e0 express\u00e3o de Sabar\u00e1 \u00e9 algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o algu\u00e9m notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma fei\u00e7\u00e3o eminentemente po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse di\u00e1logo que agora fica aberto aos leitores, Sabar\u00e1 compartilha saberes e sabores de sua trajet\u00f3ria. Entende a m\u00fasica como sua genu\u00edna forma de ora\u00e7\u00e3o pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos tra\u00e7os fundamentais de sua exist\u00eancia. \u00c9 conversa que emprega um \u00e2nimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo din\u00e2mico e espirituoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11052\" aria-describedby=\"caption-attachment-11052\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-I.jpg\" rel=\"attachment wp-att-11052\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11052 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"Sabar\u00e1\" width=\"500\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-I-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11052\" class=\"wp-caption-text\">Sabar\u00e1 \/ Foto: Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Num determinado momento, voc\u00ea identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na regi\u00e3o em que vivia. Como se deu esse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Era realmente uma necessidade fazer. Na \u00e9poca, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um m\u00fasico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Ent\u00e3o, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas n\u00e3o era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer a\u00ed a base para se tornar um m\u00fasico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, n\u00e3o consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da regi\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exig\u00eancias do mundo iriam mudar a maneira de ser dos m\u00fasicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que faz\u00edamos iriam chegar at\u00e9 n\u00f3s e precisar\u00edamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi a\u00ed que eu instalei um curso de bateria do qual sa\u00edram alunos m\u00fasicos que hoje est\u00e3o espalhados por diversos cantos do pa\u00eds e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois n\u00e3o se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Naquela \u00e9poca, essa mudan\u00e7a de paradigma causou algum estranhamento, uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia entre os m\u00fasicos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Sim. Alguns chegaram a dizer que n\u00e3o era necess\u00e1rio aprender porque julgavam que j\u00e1 tocavam bem e sabiam acompanhar as m\u00fasicas da \u00e9poca. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opini\u00e3o, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princ\u00edpio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 uma grande fantasia supor que um m\u00fasico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma no\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ou saber ler uma partitura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA- <\/strong>Exatamente. \u00c9 necess\u00e1rio se informar e formar consci\u00eancia do conte\u00fado com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpreta\u00e7\u00e3o, digo que quando um m\u00fasico tem uma partitura em m\u00e3os ou n\u00e3o, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o m\u00fasico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpreta\u00e7\u00f5es estabelecem os contextos onde os elementos da m\u00fasica ganham significado. Aquele que est\u00e1 executando a m\u00fasica tem, antes de tudo, consci\u00eancia de causa, ou seja, de conte\u00fado. Juntando isso ao sentimento, o m\u00fasico cresce. O que est\u00e1 ali escrito \u00e9 algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo \u00e9 o m\u00fasico, o int\u00e9rprete. Isso \u00e9 o \u00f3bvio ululante (risos). \u00c9 uma quest\u00e3o de sensibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Em sua trajet\u00f3ria, voc\u00ea acompanhou diversos m\u00fasicos, cada um com sua devida import\u00e2ncia. O que dizer dessa experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>\u00c9 justamente nesse ponto que eu ressalto a import\u00e2ncia do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experi\u00eancias, mas cito algumas delas, como \u00e9 o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sua forma\u00e7\u00e3o vem do contexto de banda de baile, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Exato. A banda de baile, para quem n\u00e3o sabe, \u00e9 uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou r\u00edtmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Voc\u00ea toca do maracatu ao ax\u00e9. Hoje, por exemplo, o ax\u00e9 \u00e9 um movimento que tem uma interfer\u00eancia muito grande na coisa da dan\u00e7a de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser ecl\u00e9tico, pois o baile exige muito, da valsa ao ax\u00e9, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. At\u00e9 o hino nacional brasileiro nas comemora\u00e7\u00f5es c\u00edvicas a banda de baile toca (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O grande desafio do m\u00fasico \u00e9 ser vers\u00e1til?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, \u00e9 um pa\u00eds que sempre lan\u00e7a coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplic\u00e1vel. O que \u00e9 que \u00e9 isso? Voc\u00ea est\u00e1 aqui hoje, vivendo o ax\u00e9, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denomina\u00e7\u00e3o, outra maneira de tocar e dan\u00e7ar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consci\u00eancia cultural ampla pelo fato de experimentar essas v\u00e1rias estruturas r\u00edtmicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11872\" aria-describedby=\"caption-attachment-11872\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Sabaraii.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11872 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Sabaraii.jpg\" alt=\"Sabaraii\" width=\"500\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Sabaraii.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Sabaraii-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11872\" class=\"wp-caption-text\">Sabar\u00e1 \/ Foto: Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A gente sabe que vive num pa\u00eds onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E h\u00e1 questionamentos antigos que acabam implicando em ju\u00edzos de valor sobre o que presta ou n\u00e3o nessa seara. O que voc\u00ea pensa a respeito disso? N\u00e3o h\u00e1 ritmo ruim? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Sua pergunta \u00e9 pertinente. Existem m\u00fasicas que est\u00e3o a\u00ed fazendo sucesso pela capacidade de observa\u00e7\u00e3o mal orientada do povo brasileiro. H\u00e1 m\u00fasicas de p\u00e9ssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem m\u00fasicas intelectualmente pobres, com letras vazias e h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas apelativas dizendo coisas que nada t\u00eam a ver em rela\u00e7\u00e3o a um trabalho de arte. A arte \u00e9 \u00fanica. N\u00e3o existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais. \u00a0Como dizia um m\u00fasico, do qual n\u00e3o me recordo agora, n\u00e3o existe m\u00fasica ruim, existe m\u00fasica mal tocada. N\u00e3o tenho nada contra nenhuma forma de manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Qualquer manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 \u00f3tima, v\u00e1lida. Se \u00e9 bem feita, realizada com intelig\u00eancia, ou se \u00e9 algo que se merece gostar e apreciar, \u00e9 uma quest\u00e3o de gosto, \u00e9 diferente. Tem gente que fala mal de m\u00fasicas tocadas em dois tons. Conhe\u00e7o can\u00e7\u00f5es tocadas em apenas tr\u00eas tons e que s\u00e3o \u00f3timas. A coisa est\u00e1 na forma, na capacidade de quem produz. Essa que \u00e9 a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Na sua viv\u00eancia com a m\u00fasica, tanto do ponto de vista da escuta, da percep\u00e7\u00e3o, quanto da experi\u00eancia de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, at\u00e9 porque ele era tamb\u00e9m o baixista do Sambalan\u00e7o Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e C\u00e9sar Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na \u00e9poca da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilh\u00e9us, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experi\u00eancia que me marcou demais por poder tocar com um m\u00fasico como ele. Outros tamb\u00e9m foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na d\u00e9cada de 60. Talvez as pessoas de hoje n\u00e3o lembrem muito bem, mas havia tamb\u00e9m o Nelson Ned, que era conhecido como o \u201cpequeno gigante\u201d. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilh\u00e9us, chamada Banco Central, na fazenda de meu av\u00f4, e depois poder conhecer pessoas de relev\u00e2ncia musical, evoluir na profiss\u00e3o e testemunhar tamb\u00e9m o crescimento de m\u00fasicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea passou um per\u00edodo tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresenta\u00e7\u00f5es a turma sa\u00eda em dire\u00e7\u00e3o ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. N\u00e3o cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei \u00e0 Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabar\u00e1, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se d\u00e1 por reconhecimento e respeito, n\u00e3o por desempenho acad\u00eamico que o possu\u00edsse por direito. Tenho consci\u00eancia disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Ali no Rio voc\u00ea teve a possibilidade de acompanhar a efervesc\u00eancia da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Le\u00e3o, com Jo\u00e3o Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, at\u00e9 porque n\u00e3o se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo s\u00f3 fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o g\u00eanero. Nem mesmo o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Gilberto, que saiu l\u00e1 de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu s\u00f3 lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no pa\u00eds. O pr\u00f3prio Tio Sam, naquela \u00e9poca, ficou com receio daquilo tudo, at\u00e9 mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo tamb\u00e9m fincou suas bandeiras. De que modo voc\u00ea acolheu esse movimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, al\u00e9m de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou at\u00e9 fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um pa\u00eds tropical \u00e9 tropicalista sempre (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11054\" aria-describedby=\"caption-attachment-11054\" style=\"width: 414px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-III.jpg\" rel=\"attachment wp-att-11054\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11054 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-III.jpg\" alt=\"Sabar\u00e1\" width=\"414\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-III.jpg 414w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/INTERNA-III-248x300.jpg 248w\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11054\" class=\"wp-caption-text\">Sabar\u00e1 \/ Foto: Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea \u00e9 saudosista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Todos n\u00f3s somos. Quem disser que n\u00e3o, est\u00e1 mentindo. De uma maneira at\u00e1vica, voc\u00ea volta ao passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a m\u00ednima ideia de que trilharia um caminho com a m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>N\u00e3o. Eu, menino correndo as ro\u00e7as de cacau, subindo em p\u00e9s de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O r\u00e1dio comp\u00f4s a sua primeira mem\u00f3ria musical naquele per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Sem d\u00favida. E vou dizer uma coisa que marcou e que n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. L\u00e1 na fazenda, ainda garoto, meu av\u00f4 comprou um r\u00e1dio que na \u00e9poca era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do r\u00e1dio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam \u00e0 bateria. E a minha fam\u00edlia se reunia em torno do r\u00e1dio para ouvir uma novela chamada \u201cO Direito de Nascer\u201d. Olha que coisa! Ficou na minha mente at\u00e9 hoje. Assim como ficou tamb\u00e9m a paisagem, aquele cheiro de ro\u00e7a, ambientes que nem existem mais. Portanto, n\u00e3o v\u00e1 em busca do passado porque ele n\u00e3o mais existe. Est\u00e1 dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O nome Sabar\u00e1 vem de onde? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Ah! Que coisa incr\u00edvel! Essa \u00e9 uma das coisas que n\u00e3o entendo porque aconteceu comigo. Eu tor\u00e7o pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilh\u00e9us, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, mod\u00e9stia \u00e0 parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas come\u00e7aram a me apelidar de Sabar\u00e1 porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e caracter\u00edsticas de jogo. Ficou esse nome. E na m\u00fasica tamb\u00e9m pegou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para voc\u00ea criar um m\u00e9todo pr\u00f3prio do ensino de bateria? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um m\u00fasico de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, Phd em m\u00fasica na Alemanha. Fiz tamb\u00e9m um aprendizado sobre divis\u00f5es com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarm\u00f4nica de Ilh\u00e9us. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, o que eu aprendi nesse contexto, al\u00e9m de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condi\u00e7\u00e3o de passar exerc\u00edcios aos meus alunos. Agrade\u00e7o muito ao professor de m\u00fasica Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma import\u00e2ncia na aplica\u00e7\u00e3o dos exerc\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O quanto Sabar\u00e1 conhece Sabar\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SABAR\u00c1 \u2013 <\/strong>\u00c9 uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, j\u00e1 disse o homem l\u00e1. E n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples conhecer a si pr\u00f3prio. Ningu\u00e9m se conhece inteiramente. Ent\u00e3o, eu diria que sou um c\u00e3o que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor t\u00e1ctil e espiritual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma entrevista com o baterista e professor Sabar\u00e1, \u00edcone da cultura musical baiana <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2812,16,2539],"tags":[1111,2847,63,137,364,2037,8,2846],"class_list":["post-10959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-106a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-bahia","tag-bateria","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-ilheus","tag-itabuna","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sabara"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10959"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11873,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10959\/revisions\/11873"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}