{"id":11168,"date":"2016-01-28T11:15:22","date_gmt":"2016-01-28T13:15:22","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11168"},"modified":"2016-05-19T09:23:14","modified_gmt":"2016-05-19T12:23:14","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-41","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-41\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor visita o museu da mem\u00f3ria. Transita, a princ\u00edpio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involunt\u00e1rio, aquele que condiciona um caminho, ainda que n\u00e3o exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, at\u00e9 que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a dist\u00e2ncia \u00e0 frente, imitando um cego, um perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que d\u00e1 partida a uma sucess\u00e3o de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em est\u00e1gios preliminares da vida figura em in\u00fameras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma sa\u00edda. Junto \u00e0 porta, h\u00e1 uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugest\u00f5es, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela hist\u00f3ria, a sua hist\u00f3ria, e a deposite no recept\u00e1culo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa ir\u00e1 resultar em fracasso, pois as imagens n\u00e3o disp\u00f5em de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor ir\u00e1 fracassar, pois toda incurs\u00e3o pela mem\u00f3ria \u00e9 falha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor <strong>Juli\u00e1n Fuks<\/strong> escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a mem\u00f3ria. Seu romance recente, \u201cA resist\u00eancia\u201d, intenta examinar o pr\u00f3prio enredo familiar, a partir da reconcilia\u00e7\u00e3o com a inf\u00e2ncia, com o fato de ter um irm\u00e3o adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas \u00e9pocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que \u00e9 um eco da hist\u00f3ria devassada de um pa\u00eds, dos atos de combate \u00e0 repress\u00e3o e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esfor\u00e7o de resgatar, no movedi\u00e7o da consci\u00eancia, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e n\u00e3o pelo da inven\u00e7\u00e3o, que a verdade, ao menos, prevale\u00e7a na maior parte. N\u00e3o \u00e9 tarefa das mais simples, todavia, pois a mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dar\u00e1 conta de que observar este irm\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m observar a si mesmo, \u00e9 desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter \u00e0 l\u00f3gica da fam\u00edlia que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente \u00e0 l\u00f3gica do regime ditatorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da convers\u00e3o da mat\u00e9ria autobiogr\u00e1fica para mat\u00e9ria liter\u00e1ria, Fuks constr\u00f3i um relato labir\u00edntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma d\u00favida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um esp\u00edrito do tempo, que comp\u00f5e uma obra-prima da nossa gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a constru\u00e7\u00e3o do romance, a rela\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, e o processo de lapida\u00e7\u00e3o da linguagem, que classifica como \u201cquase obsessivo\u201d. Al\u00e9m disso, o escritor comenta o abismo entre a produ\u00e7\u00e3o brasileira e a de outros pa\u00edses latino-americanos, o depauperamento da cr\u00edtica liter\u00e1ria, a extin\u00e7\u00e3o dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. \u201cA carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente v\u00e3o demarcando uma mudan\u00e7a, v\u00e3o produzindo as condi\u00e7\u00f5es para que ele continue escrevendo e de fato seja lido\u201d, observa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11175\" aria-describedby=\"caption-attachment-11175\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/INTERNA-I.jpg\" rel=\"attachment wp-att-11175\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11175 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"Foto: Fernanda Sucupira\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/INTERNA-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/INTERNA-I-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11175\" class=\"wp-caption-text\">Juli\u00e1n Fuks \/ Foto: Fernanda Sucupira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu novo romance tem endere\u00e7o num territ\u00f3rio muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que \u00e9 o da autofic\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, como o mesmo denuncia a certa altura, toda mem\u00f3ria est\u00e1 suscet\u00edvel \u00e0 falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para &#8220;A resist\u00eancia&#8221;? Revisar o passado \u00e9 converter inescapavelmente o relato memorialista em fic\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situa\u00e7\u00e3o que t\u00eam vivido muitos dos escritores contempor\u00e2neos, me via apegado \u00e0 realidade, incapaz de tomar dist\u00e2ncia, infenso \u00e0 inven\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem encare o fen\u00f4meno como uma op\u00e7\u00e3o oportunista, mercadol\u00f3gica, uma estrat\u00e9gia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim est\u00e1 cada vez mais claro que \u00e9 uma quest\u00e3o de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposi\u00e7\u00e3o a buscar o que h\u00e1 de relevante e verdadeiro nas circunst\u00e2ncias reais. Em certa medida \u00e9 um retorno do romance \u00e0s suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade \u2013 sem que seja permitido, por\u00e9m, um retorno \u00e0quela cren\u00e7a na representa\u00e7\u00e3o, \u00e0quela ingenuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E est\u00e1 cada vez mais claro, tamb\u00e9m, que a busca pelo real n\u00e3o exclui em nada a fic\u00e7\u00e3o, que a fic\u00e7\u00e3o se d\u00e1 muito mais na sele\u00e7\u00e3o dos fatos e em suas interpreta\u00e7\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria das frases, no transporte sempre falho da mem\u00f3ria ao papel. N\u00e3o vou ser o primeiro a dizer que realidade e fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o polos opostos. \u201cFalso\u201d, \u201cinventado\u201d, \u201cfalacioso\u201d, esses podem ser ant\u00f4nimos de \u201creal\u201d. Ficcional e real n\u00e3o s\u00e3o ant\u00f4nimos, travam uma rela\u00e7\u00e3o muito mais \u00edntima do que essa que se quer alegar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em rela\u00e7\u00e3o mais \u00edntima, voc\u00ea relata que o livro \u00e9 sobre seu irm\u00e3o, mas tamb\u00e9m sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composi\u00e7\u00e3o, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Condor. O que acaba parecendo que a decis\u00e3o de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Voc\u00ea tinha em m\u00e3os o poder de revelar uma hist\u00f3ria n\u00e3o sua, que, durante anos, por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, foi mantida sob sombras. At\u00e9 que ponto voc\u00ea se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movedi\u00e7o da mem\u00f3ria alheia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irm\u00e3o, se valeu de uma s\u00e9rie de relatos \u00edntimos que a mem\u00f3ria n\u00e3o apagou, se desenvolveu em in\u00fameras conversas com meus pais e minha irm\u00e3, conversas que eu fui incorporando \u00e0 narrativa. Nesse sentido, j\u00e1 de partida, se trata sem d\u00favida de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a hist\u00f3ria dessa fam\u00edlia. Mas \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva tamb\u00e9m por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repress\u00e3o da ditadura, a milit\u00e2ncia, o ex\u00edlio, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o passar por uma infinidade de testemunhos h\u00e1 muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa hist\u00f3ria, por vezes sentia que entrava num espa\u00e7o densamente habitado, me somava a algo que \u00e9 quase uma tradi\u00e7\u00e3o na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradi\u00e7\u00e3o na literatura brasileira se soub\u00e9ssemos trabalhar melhor nossa mem\u00f3ria pol\u00edtica. Percorrendo um espa\u00e7o j\u00e1 t\u00e3o percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcan\u00e7ar uma pertin\u00eancia, em encontrar a sensibilidade necess\u00e1ria para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a hist\u00f3ria com for\u00e7a e contund\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea acabou adiantando uma discuss\u00e3o que deixaria mais para frente, por\u00e9m n\u00e3o posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de n\u00e3o lidarmos com a mem\u00f3ria pol\u00edtica, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de fic\u00e7\u00e3o. Temos estupendos registros paginados sobre o per\u00edodo ditatorial; biografias, colet\u00e2neas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornal\u00edsticos. Entretanto a fic\u00e7\u00e3o, para usar um trecho extra\u00eddo do seu livro, mostra-se ref\u00e9m &#8220;de um pudor antigo adiando cada frase&#8221;. A que motivo voc\u00ea atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crian\u00e7as nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas hist\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Acho que a dificuldade n\u00e3o se reduz \u00e0 literatura, n\u00e3o sei se compartilho dessa premissa. Em in\u00fameros \u00e2mbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua hist\u00f3ria, a compreender o jogo de for\u00e7as que levou ao descalabro, a reconhecer as v\u00edtimas sem de novo culpabiliz\u00e1-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. H\u00e1 de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: \u00e9 o pudor da anistia. A anistia \u201campla, geral e irrestrita\u201d tinha seu sentido na \u00e9poca, permitiu que muitos voltassem do ex\u00edlio, mas acabou definindo no pa\u00eds uma cultura de esquecimento, de ignor\u00e2ncia, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse v\u00e1cuo de justi\u00e7a. H\u00e1 um movimento recente de lidar com essa hist\u00f3ria, a Comiss\u00e3o da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 suficiente \u2013 a anistia n\u00e3o foi revogada, afinal, e isso tem um peso simb\u00f3lico terr\u00edvel. Na literatura tamb\u00e9m h\u00e1 uma nova aten\u00e7\u00e3o a esses temas, que se d\u00e1 tamb\u00e9m pelo embaralhamento entre realidade e fic\u00e7\u00e3o: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Fato. Escrevi, h\u00e1 algum tempo, que \u201cK.\u201d foi uma das experi\u00eancias mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de \u201cVoc\u00ea vai voltar pra mim\u201d n\u00e3o ficam para tr\u00e1s. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, \u00e9 muito evidente, diria at\u00e9 palp\u00e1vel, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de for\u00e7a e de contund\u00eancia. Na verdade, essa \u00e9 uma t\u00e9cnica pulsante em seu livro anterior, \u201cProcura do romance\u201d, aplicada tamb\u00e9m em \u201cA resist\u00eancia\u201d. Voc\u00ea diria que a sua literatura tem uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com a forma que com o conte\u00fado? H\u00e1 um exerc\u00edcio incans\u00e1vel de lapidar as frases?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> A oposi\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado \u00e9 mais uma fal\u00e1cia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. N\u00e3o sinto que o enredo tenha uma fun\u00e7\u00e3o menor nos meus livros, e neste em particular h\u00e1 uma hist\u00f3ria forte que eu me obrigo a atravessar, uma hist\u00f3ria que, ao menos para mim, est\u00e1 carregada de intensidade. O caso \u00e9 que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos \u00edntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que h\u00e1 de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata \u2013 como se existisse essa \u00fanica palavra que completasse a frase exata, o par\u00e1grafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e \u00e9 inevit\u00e1vel que esse exerc\u00edcio transforme a pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u2013 ou ent\u00e3o que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria se transforme, at\u00e9 certo ponto, na hist\u00f3ria desse exerc\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11874\" aria-describedby=\"caption-attachment-11874\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jfuksii.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11874 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jfuksii.jpg\" alt=\"Fotos do autor Juli\u00e1n Fuks, Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, Agosto de 2015\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jfuksii.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/jfuksii-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11874\" class=\"wp-caption-text\">Juli\u00e1n Fuks \/ Foto: Renato Parada<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Curioso voc\u00ea falar em musicalidade, pois h\u00e1 passagens &#8211; e destaco aqui a presen\u00e7a\/aus\u00eancia da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um r\u00e9quiem. \u00c9 assombrosamente lindo. Mas voltando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do livro, voc\u00ea resgata constantemente recortes hist\u00f3ricos que se aliam e, \u00e0s vezes, se sobrep\u00f5em ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a men\u00e7\u00e3o ao grupo Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, cuja determina\u00e7\u00e3o na procura pelos beb\u00eas sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no document\u00e1rio \u201c500\u201d, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa \u00e9poca na qual se passa a hist\u00f3ria? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por raz\u00f5es afetivas ou biogr\u00e1ficas, sempre ouvi com muita aten\u00e7\u00e3o tudo o que se dizia sobre aquele pa\u00eds, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por l\u00e1. Mas \u00e9 claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imers\u00e3o mais sistem\u00e1tica no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas hist\u00f3ricos que reverberam inevitavelmente de uma gera\u00e7\u00e3o a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje t\u00eam escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de p\u00f3s-mem\u00f3ria: Alejandro Zambra, Andr\u00e9s Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se v\u00ea &#8211; e talvez em meu livro tamb\u00e9m seja assim &#8211; uma tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria que n\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s da reconstitui\u00e7\u00e3o precisa, de uma austera e jornal\u00edstica averigua\u00e7\u00e3o factual, mas sim de uma investiga\u00e7\u00e3o muito mais \u00edntima, uma explora\u00e7\u00e3o do microcosmo da fam\u00edlia, de seus relatos inauditos, um p\u00e9riplo pelos caminhos tortuosos da mem\u00f3ria, alheia ou pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 bacana como suas respostas v\u00e3o antecipando quest\u00f5es que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tend\u00eancia da p\u00f3s-mem\u00f3ria, voc\u00ea acaba me sugerindo a ideia de que toda tradu\u00e7\u00e3o de um livro \u00e9, de certa forma, uma p\u00f3s-publica\u00e7\u00e3o. No caso do Brasil, essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espont\u00e2neo por jovens autores de l\u00edngua hispano-americana. Voc\u00ea citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o pr\u00f3prio Andr\u00e9s Neuman. No entanto, o movimento contr\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o venturoso. Ainda h\u00e1, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos pa\u00edses sul-americanos. Com a viv\u00eancia que traz da Argentina, por que imagina que isso aconte\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Sempre houve um abismo entre a nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e a de outros pa\u00edses latino-americanos, n\u00e3o tanto pela diferen\u00e7a de idioma, mas pelo que ela simboliza: a no\u00e7\u00e3o de que temos aqui um mundo \u00e0 parte, um \u201cpa\u00eds continental\u201d, diverso, indevass\u00e1vel, incompreens\u00edvel, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos hist\u00f3ricos dessas na\u00e7\u00f5es vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em pol\u00edtica, para perceber quanto esse abismo \u00e9 ilus\u00f3rio, quanto ganhar\u00edamos se o transpus\u00e9ssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana \u00e9 bem conhecida aqui. O movimento correspondente \u00e9 que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos cl\u00e1ssicos, Machado, Guimar\u00e3es, Clarice, Graciliano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 literatura contempor\u00e2nea, a literatura deste novo s\u00e9culo, talvez haja uma raz\u00e3o a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande tamb\u00e9m em n\u00f3s mesmos de reconhecer o valor dos nossos pr\u00f3prios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajet\u00f3rias consistentes, construir, enfim, um novo c\u00e2none. Penso que hoje a crise est\u00e1 muito mais na cr\u00edtica do que na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: a cr\u00edtica que se submete \u00e0s veleidades do mercado, que s\u00f3 d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o aos lan\u00e7amentos nov\u00edssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de pol\u00eamica na \u00e9poca, por\u00e9m n\u00e3o posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a elei\u00e7\u00e3o da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais voc\u00ea. Como recebeu essa escolha e encarou as controv\u00e9rsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Foram debates intensos os que se produziram na \u00e9poca, e hoje suspeito que o valor maior daquela edi\u00e7\u00e3o da Granta foi ter suscitado essa pol\u00eamica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se p\u00f4s em quest\u00e3o, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as cr\u00edticas tenham sido, por vezes, irasc\u00edveis demais, diante de algo que n\u00e3o era t\u00e3o relevante assim, n\u00e3o deixaram de ter sua justi\u00e7a. Foi um momento importante para denunciar a manuten\u00e7\u00e3o de alguns privil\u00e9gios, a aten\u00e7\u00e3o excessiva aos homens, aos brancos, aos h\u00e9teros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer s\u00e9ria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas n\u00e3o \u00e9 com cinismo que o digo: j\u00e1 passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que h\u00e1 na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um c\u00e2none contempor\u00e2neo, \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 com a repeti\u00e7\u00e3o dos erros do passado, com a reprodu\u00e7\u00e3o desse olhar m\u00edope e distorcido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao peso que a Granta p\u00f4de ter na minha carreira, \u00e9 algo muito dif\u00edcil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente v\u00e3o demarcando uma mudan\u00e7a, v\u00e3o produzindo as condi\u00e7\u00f5es para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta n\u00e3o se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Justamente essa diversidade n\u00e3o seria um dos motivos &#8211; ou o mais latente deles \u2013 para que seja hoje t\u00e3o dif\u00edcil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratiza\u00e7\u00e3o da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolida\u00e7\u00e3o das pequenas e m\u00e9dias editoras. A quest\u00e3o n\u00e3o seria a facilidade de se publicar tamb\u00e9m? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos t\u00e3o distintos de literatura, que me parece um momento de transi\u00e7\u00e3o o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas ap\u00f3s alguns anos, talvez d\u00e9cadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era mat\u00e9ria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro \u00e9 n\u00e3o termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um c\u00edrculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo \u00e9 come\u00e7armos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo n\u00famero de novos t\u00edtulos, escritos por autores ainda n\u00e3o prontos, que torne a an\u00e1lise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira est\u00e1 mudando quando, de fato, est\u00e1 piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, m\u00e9dio e grande portes n\u00e3o deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publica\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Seu diagn\u00f3stico me parece preciso, sim, mas eu n\u00e3o consigo conceber como negativa a profus\u00e3o de autores e publica\u00e7\u00f5es que vemos hoje. Penso que h\u00e1 algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 escrita, nessa multiplica\u00e7\u00e3o de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tem sempre um desenvolvimento lento, e a publica\u00e7\u00e3o \u00e9 parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no pa\u00eds, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade s\u00f3 se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na cr\u00edtica, cada vez mais escassa, cada vez mais \u00ednfima. \u00c9 evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais ex\u00edguos e superficiais \u2013 com exce\u00e7\u00f5es importantes, \u00e9 claro. Nesse contexto, talvez coubesse \u00e0 cr\u00edtica acad\u00eamica uma aproxima\u00e7\u00e3o a estas novas produ\u00e7\u00f5es, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns cr\u00edticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O caso do depauperamento dos cadernos culturais \u00e9 um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem se\u00e7\u00f5es inteiras. A morte dos suplementos liter\u00e1rios \u00e9 algo nocivo, triste e grave, por\u00e9m enxergado, por alguns, como um deslocamento irrevers\u00edvel da m\u00eddia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebra\u00e7\u00e3o dos chamados booktubers, jovens que gravam v\u00eddeos discorrendo sobre seus gostos liter\u00e1rios e atraindo milhares, milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Independente de isso ser bom ou ruim, n\u00e3o lhe parece que, hoje, \u00e9 dado mais valor ao alcance de uma cr\u00edtica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que \u00e0 qualidade do texto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> \u00c9 verdade, esse campo do virtual \u00e9 todo um mundo \u00e0 parte ainda dif\u00edcil de estimar. \u00c0 primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avalia\u00e7\u00e3o fundada num conhecimento da teoria e da hist\u00f3ria da literatura, algo essencial \u00e0 cr\u00edtica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um ju\u00edzo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, \u00e9 que essa crise da cr\u00edtica \u00e9 t\u00e3o aguda que se imp\u00f5e at\u00e9 no \u00e2mago das discuss\u00f5es liter\u00e1rias. Aqui poder\u00edamos estar discutindo os problemas intr\u00ednsecos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma obra, as decis\u00f5es dif\u00edceis que todo autor tem que tomar diante de sua mat\u00e9ria sempre indevass\u00e1vel, os infinitos desafios inerentes \u00e0 dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposi\u00e7\u00f5es sobre obras que se queiram autorais, seus obst\u00e1culos a um exerc\u00edcio mais livre da escrita liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11875\" aria-describedby=\"caption-attachment-11875\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/fotofernanda-sucupira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11875 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/fotofernanda-sucupira.jpg\" alt=\"fotofernanda sucupira\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/fotofernanda-sucupira.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/fotofernanda-sucupira-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11875\" class=\"wp-caption-text\">Juli\u00e1n Fuks \/ Foto: Fernanda Sucupira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que a literatura argentina &#8211; e incluo aqui desde o mercado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o criativa &#8211; pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por l\u00e1, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o feita de jogos cerebrais, fic\u00e7\u00e3o engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com intelig\u00eancia sua maquinaria. \u00c9 isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cort\u00e1zar, Saer, Piglia. \u00c9 claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exerc\u00edcio, com narrativas que n\u00e3o se limitam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de narrativas, que se deixam invadir pela ret\u00f3rica, pela metaf\u00edsica, pelo ensaio, por formas mais livres. \u00c9 s\u00f3 uma sugest\u00e3o, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta tamb\u00e9m de um pensamento sobre a pr\u00f3pria literatura que n\u00e3o se resuma \u00e0 cr\u00edtica usual, cr\u00edtica jornal\u00edstica ou acad\u00eamica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem tamb\u00e9m ao ensa\u00edsmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> A literatura brasileira, em seus autores principais que j\u00e1 tomamos por cl\u00e1ssicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela fic\u00e7\u00e3o algumas das mazelas do pa\u00eds, sua pobreza, sua desigualdade, suas t\u00e3o evidentes injusti\u00e7as. Nesse aspecto temos uma tradi\u00e7\u00e3o consistente e muito consolidada, tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto numa forte cr\u00edtica sociol\u00f3gica, aquela que t\u00e3o bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar \u00e0 narrativa o que nossas sociedades t\u00eam de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contradit\u00f3rias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita pot\u00eancia numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relev\u00e2ncia social brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O personagem Sebasti\u00e1n est\u00e1 no seu romance anterior e reaparece em \u201cA resist\u00eancia\u201d. Quem \u00e9 Sebasti\u00e1n? Um alter ego, uma encarna\u00e7\u00e3o de sentimentos? O quanto de Juli\u00e1n h\u00e1 em Sebasti\u00e1n?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> N\u00e3o \u00e9 disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excel\u00eancia ainda que n\u00e3o carregue meu nome, mas essas classifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o me parecem muito necess\u00e1rias. Sebasti\u00e1n foi o personagem que constru\u00ed minuciosamente, rigorosamente, em \u201cProcura do romance\u201d; ali Sebasti\u00e1n era figura incontorn\u00e1vel, onipresente. Quando me pus a escrever \u201cA resist\u00eancia\u201d, por um longo tempo n\u00e3o me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes \u2013 ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi s\u00f3 no final do livro que me dei conta da evid\u00eancia, percebi que aquela voz n\u00e3o podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele s\u00f3 podia ser um livro que Sebasti\u00e1n encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando j\u00e1 n\u00e3o estivesse t\u00e3o obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea afirmou que o livro \u00e9 uma resposta a um pedido do seu irm\u00e3o, contudo, de maneira pr\u00e1tica, qual o futuro que intenciona para ele? H\u00e1, em seu farol liter\u00e1rio, procura por pr\u00eamios, reconhecimento, autoafirma\u00e7\u00e3o? A partir de \u201cA resist\u00eancia\u201d, quais s\u00e3o os seus planos e projetos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Dif\u00edcil projetar um \u201cfuturo pr\u00e1tico\u201d para um livro. O livro existe, est\u00e1 l\u00e1, \u00e9 tudo o que eu pude fazer, \u00e9 tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irm\u00e3o, mas foi tamb\u00e9m uma resposta ainda mais \u00edntima: contar essa hist\u00f3ria foi algo que exigi de mim, por vezes contra um \u00edmpeto mais imediato, contra uma vontade tang\u00edvel, contra uma resist\u00eancia. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cres\u00e7am em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publica\u00e7\u00e3o suscita, vou absorvendo os coment\u00e1rios dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente h\u00e3o de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Escrever, no Brasil, \u00e9 um ato de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JULI\u00c1N FUKS &#8211;<\/strong> Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato t\u00e3o simples, t\u00e3o corriqueiro, um ato de resist\u00eancia contra a insignific\u00e2ncia da vida, contra a pequenez da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dialogando com S\u00e9rgio Tavares, o escritor Juli\u00e1n Fuks fala sobre seu mais novo livro e outros afins da palavra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11170,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2854,16,2539],"tags":[2856,63,2855,8,1023],"class_list":["post-11168","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-107a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-a-resistencia","tag-entrevista","tag-julian-fuks","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11168"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11168\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11876,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11168\/revisions\/11876"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}