{"id":11200,"date":"2016-01-28T12:44:56","date_gmt":"2016-01-28T14:44:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11200"},"modified":"2016-05-14T12:18:31","modified_gmt":"2016-05-14T15:18:31","slug":"aperitivo-da-palavra-i-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-14\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>O Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do boxe<\/em><\/strong><strong> e a alegoria po\u00e9tica de Jorge Elias. Primeiras considera\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Orlando Lopes<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/interna-2.jpg\" rel=\"attachment wp-att-11203\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11203\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/interna-2.jpg\" alt=\"Capa Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do boxe\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/interna-2.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/interna-2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pre\u00e2mbulo: a cr\u00edtica ainda tem lugar nas lutas contempor\u00e2neas?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arriscarei aqui algum ju\u00edzo a respeito deste <em>Breve dicion\u00e1rio<\/em>, da po\u00e9tica que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lan\u00e7amento. Dado que a Poesia &#8211; a poesia mais leg\u00edtima, a poesia aut\u00eantica &#8211; configura a singularidade de uma teia, de uma constela\u00e7\u00e3o de elementos estabelecida por princ\u00edpios \u201cest\u00e9ticos\u201d: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razo\u00e1vel e necess\u00e1rio o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E \u00e9 justa esta raz\u00e3o: como falar (e medir) a escrita, a n\u00e3o ser tamb\u00e9m pela escrita &#8212; esta forma m\u00e1gica de decanta\u00e7\u00e3o e progress\u00e3o do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que \u00e9 capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as pot\u00eancias que a linguagem tem, e que parecem t\u00e3o distantes do cotidiano das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Exercer<\/em> a cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma prioridade para mim &#8212; que me entendo muito mais como te\u00f3rico da Literatura que como cr\u00edtico, historiador, analista etc. Exercer cr\u00edtica envolve compet\u00eancias, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposi\u00e7\u00e3o para impor um valor. Nesse sentido, direi desde j\u00e1 que n\u00e3o me colocarei <em>a priori<\/em> como cr\u00edtico do <em>Dicion\u00e1rio<\/em>, mas como leitor e, exatamente, como te\u00f3rico. Claro, n\u00e3o pretendo transformar esta fala num tratado, mas \u00e9 importante notar que n\u00e3o pretendo <em>afirmar<\/em> a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 uma breve nota para o universo de quest\u00f5es que sua po\u00e9tica aponta, mas para o momento acredito que servir\u00e1 como est\u00edmulo e provoca\u00e7\u00e3o aos futuros leitores. Conhe\u00e7o o Jorge Elias pessoalmente h\u00e1 pouco, mas nem \u00e9 a fama que o precede, \u00e9 o seu texto, a sua obra po\u00e9tica, e o seu trabalho, o exerc\u00edcio da Medicina, do qual sou de certo modo benefici\u00e1rio pessoal, ainda que n\u00e3o (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma \u201cassinatura\u201d, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma \u201cfun\u00e7\u00e3o jur\u00eddica\u201d, mas jur\u00eddica n\u00e3o no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jur\u00eddica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende \u00e0 Literatura, \u00e0 Poesia, \u00e0 Escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo seus textos antes de conhec\u00ea-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso n\u00e3o \u00e9 em si e ainda uma qualidade da composi\u00e7\u00e3o, do texto \u201cem si\u201d (ali\u00e1s, o Inferno nunca pareceu estar t\u00e3o cheio de boas inten\u00e7\u00f5es&#8230;), mas \u00e9 um dado a ser considerado pela cr\u00edtica contempor\u00e2nea: de que adianta uma \u201cbela letra\u201d se ela n\u00e3o posiciona, se ela n\u00e3o argumenta, se ela n\u00e3o significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade s\u00e3o constru\u00eddos, s\u00e3o esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se d\u00e3o entre as \u201ccordas\u201d desse grande ringue simb\u00f3lico que s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab&#8230; Lutar \u00e9 viver, viver \u00e9 lutar. Discursar \u00e9 lutar, lutar \u00e9 discursar. Discursar \u00e9 falar, \u00e9 escrever, \u00e9 agir. Viver \u00e9 discursar. A realidade, a nossa realidade, \u00e9 feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos \u2013 todos \u2013 contra um Inimigo (os Fundamentalistas n\u00e3o est\u00e3o errados!), mas \u00e9 dif\u00edcil saber <em>quem<\/em> ou <em>onde<\/em> o Inimigo est\u00e1: e portanto \u00e9 dif\u00edcil medir a for\u00e7a e a mira de nossos pr\u00f3prios movimentos, de nossos pr\u00f3prios lances. O bom <em>boxer<\/em> deve, antes de tudo, saber contra quem \u2013 ou contra o qu\u00ea \u2013 est\u00e1 lutando. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o se abolir\u00e1 o acaso, haver\u00e1 desgaste, desperd\u00edcio, e tudo poder\u00e1 deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia de Jorge Elias faz esse exerc\u00edcio, desde antes do <em>Breve dicion\u00e1rio do boxe<\/em>. Perceber, enquadrar, pin\u00e7ar; perceber, enquadrar, pin\u00e7ar&#8230; a si mesmo, o outro, a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o racionalmente, n\u00e3o apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade m\u00ednima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse \u00e9 o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto est\u00e9tico, portar o sentido <em>at\u00e9 os demais sujeitos que vivem a mesma hist\u00f3ria<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00c9 importante retornar \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de que a Poesia n\u00e3o luta apenas no territ\u00f3rio do poema, da fatura est\u00e9tica. Poesia n\u00e3o \u00e9 apenas Poesia (ato criativo), ela \u00e9 tamb\u00e9m Literatura (um modo de produ\u00e7\u00e3o) \u2013 um la\u00e7o, uma rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas (autoras, leitoras) no espa\u00e7o de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luta da escrita po\u00e9tica \u00e9 rara entre n\u00f3s, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita n\u00e3o pode (n\u00e3o deve) ser desprezada, tanto porque \u00e9 uma das formas mais baratas que existem de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e autoterapia garantida, quanto porque ela \u00e9 o instrumento mais b\u00e1sico de controle social, econ\u00f4mico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princ\u00edpio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita d\u00e1 essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a n\u00f3s mesmos. Mas a escrita \u00e9 trabalho, \u00e9 compet\u00eancia, \u00e9 responsabilidade. Se a gente n\u00e3o tiver o que dizer, a escrita n\u00e3o vale nada. Se a gente n\u00e3o fizer, n\u00e3o vai ter muita gente que fa\u00e7a (fechado que &#8220;todo mundo&#8221; est\u00e1 em sua pr\u00f3pria carapa\u00e7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Dicion\u00e1rio de boxe <\/em>de Jorge Elias traz \u00e0 baila essa cena: um ringue, um espa\u00e7o de disputas e seus elementos caracter\u00edsticos alegorizados, potencializados pela met\u00e1fora. A met\u00e1fora decantada, depositada em composi\u00e7\u00f5es curtas, procurando posi\u00e7\u00f5es, \u00e2ngulos, eixos, pesos e contrapesos, equil\u00edbrios. Essa met\u00e1fora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas pr\u00f3prias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aprecia\u00e7\u00e3o ao <em>Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do Boxe<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida liter\u00e1ria no Esp\u00edrito Santo (n\u00e3o direi \u201cdo Brasil\u201d, que cada canto dele tem seus bons poetas, n\u00f3s aqui \u00e9 que temos que resolver melhor os nossos). Desde os <em>Verdes Versos <\/em>(Flor&amp;Cultura, 2007) at\u00e9 o <em>Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do Boxe <\/em>(Patu\u00e1, 2015), h\u00e1 uma po\u00e9tica se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadr\u00e1-la, encar\u00e1-la, n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, nem confort\u00e1vel. Mas, enfim, como se poderia aprender algo \u00fatil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem do Boxe \u00e9 forte, potente, e se imp\u00f5e desde a capa elegante de Leonardo Mathias at\u00e9 as ilustra\u00e7\u00f5es de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicat\u00f3ria e a ep\u00edgrafe, como se fossem um fim de sonho e in\u00edcio de despertar, afloram de uma escurid\u00e3o, de uma zona de inconsci\u00eancia. Estamos entre a consci\u00eancia do Homem e a consci\u00eancia do Poeta, daquele que termina amanh\u00e3 e daquele que s\u00f3 termina quando acabar o \u00faltimo Homem. O Boxe e a Poesia n\u00e3o se confundem. O Boxe \u00e9 f\u00edsico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com \u201cfalta de musculatura\u201d, talvez s\u00f3 possa dar conta de \u201cflorbelas\u201d, de \u201cfuturos\u201d que obviamente constituem dist\u00e2ncias, de \u201cleituras escolares\u201d que n\u00e3o precisam comprometer-se com \u201crealidades\u201d, de apagamentos, neutraliza\u00e7\u00f5es, redu\u00e7\u00f5es, pervers\u00f5es etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apresenta\u00e7\u00e3o de Ca\u00ea Guimar\u00e3es, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que p\u00f5e a \u201cnobre arte\u201d do Boxe em seu devido lugar, para n\u00f3s, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcan\u00e7ar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que s\u00e3o verbetes, que s\u00e3o refer\u00eancias ao universo do Boxe: o campo aleg\u00f3rico, a met\u00e1fora ampliada. Isto p\u00f5e e afirma um primeiro tra\u00e7o na obra &#8212; ela \u00e9 conscientemente metalingu\u00edstica, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contempor\u00e2nea, e \u00e9 justo alertar aos poetas para que n\u00e3o exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas \u00e9 igualmente justo alertar aos cr\u00edticos que sem a consci\u00eancia e o exerc\u00edcio da metalinguagem fica mais dif\u00edcil aos Poetas alcan\u00e7ar uma compreens\u00e3o da linguagem como um fen\u00f4meno pleno. Se n\u00e3o se devem apresentar tantos poemas metalingu\u00edsticos em publica\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia, essa j\u00e1 \u00e9 uma quest\u00e3o cr\u00edtica e editorial, n\u00e3o dos Poetas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, a quest\u00e3o aqui \u00e9 somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composi\u00e7\u00e3o do <em>Breve dicion\u00e1rio do Boxe. <\/em>Antes de haver \u201cBoxe\u201d, h\u00e1 ali \u201cmetalinguagem\u201d, a lente que permitir\u00e1 a proje\u00e7\u00e3o dessa imagem, desse \u201ctopos\u201d sobre outros planos, sobre outras situa\u00e7\u00f5es, sobre outros contextos. E, enfim, h\u00e1 Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um pr\u00eamio. Um pr\u00eamio que vale a pena, mas que varia na infinitude das proje\u00e7\u00f5es metaf\u00f3ricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e \u00f3bvio ser\u00e1 o pr\u00eamio. Quanto mais subjetiva, menos claro \u2013 para os demais sujeitos, para as demais pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo estar\u00e1 certo, e tudo estar\u00e1 tranquilo, se o c\u00e1lculo corresponder ao pr\u00eamio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome n\u00e3o \u00e9 \u201cInimigo\u201d, n\u00e3o no Boxe). Mas n\u00e3o: existem lutas reais, simb\u00f3licas e imagin\u00e1rias, e podemos lut\u00e1-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no <em>Dicion\u00e1rio<\/em>, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Tr\u00eas boxes, tr\u00eas arenas, tr\u00eas disputas. E as tr\u00eas apontam, indiscutivelmente, para o dom\u00ednio do humano, a dimens\u00e3o do humano. O <em>Dicion\u00e1rio <\/em>fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe \u00e9 o Homem. Plano, Universo, Continente\u2026 Toda a intui\u00e7\u00e3o de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra a\u00ed, concentrada em figuras, em imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem em particular emerge, a figura de \u00c9der Jofre, o elemento mais humano na condu\u00e7\u00e3o do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, tamb\u00e9m, pedra-de-toque aleg\u00f3rico. \u00c9der \u00e9 Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja <em>antes<\/em> latino, argentino). \u00c9der Jofre \u00e9 mais que \u00c9der Jofre: \u00e9 o Brasil interpretando o Boxe, dan\u00e7ando o Boxe \u00e0 sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucess\u00e3o de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A quest\u00e3o, impl\u00edcita, \u00e9 que o boxe n\u00e3o se faz apenas <em>no \u00e2ngulo<\/em> de quem golpeia: \u00e9 preciso atingir algo <em>que n\u00e3o quer ser atingido, que tamb\u00e9m quer nos atingir<\/em>, \u00e9 preciso gerar impacto, \u00e9 preciso impor-se, \u00e9 preciso opor-se. \u00c9 preciso viol\u00eancia. <em>Latinidad<\/em>. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como \u201cespa\u00e7os de viol\u00eancia\u201d n\u00e3o costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradi\u00e7\u00e3o l\u00edrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resist\u00eancia e de contraposi\u00e7\u00e3o aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos \u201cboa Poesia\u201d, mas em outro momento\u2026) n\u00e3o deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, <em>ganhar esse espa\u00e7o, vencer essa disputa<\/em>. N\u00e3o se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que n\u00f3s precisamos para n\u00e3o deixarmos de ser humanos. \u00c9 dessa viol\u00eancia que a boa Poesia trata: aquela que nos d\u00e1 tapas, d\u00e1 socos\u2026 apenas com imagens, com sequ\u00eancias de palavras, e isso n\u00e3o tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatol\u00f3gicas: o horror pode n\u00e3o ser nada al\u00e9m de um imenso ringue vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ritmo do boxer n\u00e3o \u00e9 o do Vale Tudo, nem do UFC. \u00c9 o ritmo do jazz, do Cron\u00f3pio, idealista, sens\u00edvel e at\u00e9 ing\u00eanuo &#8211; posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguir\u00e3o fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicion\u00e1rio tamb\u00e9m. Mas o dicion\u00e1rio \u00e9 apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfab\u00e9tica (que, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicion\u00e1rio convencional trabalha para ordenar \u201cdefini\u00e7\u00f5es referenciais\u201d, um \u201cdicion\u00e1rio po\u00e9tico\u201d pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclina\u00e7\u00e3o para o aforismo; um aforismo \u201cfora dos padr\u00f5es\u201d, um aforismo que n\u00e3o adere por princ\u00edpio a nenhuma moral j\u00e1 estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situa\u00e7\u00e3o, da \u201cluta\u201d: essa que se arma no espa\u00e7o do poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Sobre o Livro \u2013 o trabalho liter\u00e1rio<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espa\u00e7os, definem imagens, configuram situa\u00e7\u00f5es. Veja-se, por exemplo, a s\u00e9rie encontrada entre as p\u00e1ginas 60 e 67 (\u201cKnockdown\u201d, \u201cKnockout duplo\u201d, \u201cKnockout\u201d, \u201cUndefeated\u201d, \u201cCartel\u201d, \u201cChallenger\u201d, \u201cBruiser\u201d), na qual as imagens-verbetes fazem a s\u00edntese tanto dos elementos do universo <em>boxer<\/em> quanto de uma perspectiva subjetiva &#8211; l\u00edrica &#8211; que fornece a moldura e o enquadramento, o \u00e2ngulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como \u201cmomentos plenos do Boxe\u201d tal como eles se acomodam no <em>Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico)&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o necessariamente, as situa\u00e7\u00f5es manifestam a\u00e7\u00f5es. Elas est\u00e3o l\u00e1, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do \u201cPref\u00e1cio\u201d, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que \u00e9 preciso \u201centender \/ o <em>to be<\/em>\u201d (p. 21), o \u201c(a) ser\u201d, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiom\u00e1tica. \u00c9 preciso entender o \u201cser\u201d e o \u201cestar\u201d, \u00e9 preciso entender o \u201cagir\u201d caso o Poeta &#8212; e agora o Leitor &#8212; queira \u201cexprimir em versos o que \/ se cultua com punhos\u201d (p. 21). \u00c9 preciso invocar, evocar, com o aux\u00edlio dos or\u00e1culos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multid\u00e3o, a massa humana (e aqui, portanto, n\u00e3o se dirigindo \u00e0 P\u00f3lis, \u00e0 <em>civis<\/em>) empregando pequenos artefatos, \u201cpoemas \/ lambe-lambe\u201d que v\u00e3o entremeando o <em>Dicion\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam m\u00f3biles sutis. Assim, por exemplo, o minimal \u201cBoxe\u201d nos impele a considerar que arte \u00e9 poss\u00edvel com \u201cpunhos cerrados\u201d (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas m\u00e3os. O teto nos impele a considerar que pot\u00eancia, que vig\u00eancia pode ter essa express\u00e3o t\u00e3o limitada (somente o \u201cpunho\u201d, somente a \u201cletra\u201d). Em \u201cPugilismo\u201d (p. 25), nova constata\u00e7\u00e3o: para haver confronto \u00e9 preciso haver resist\u00eancia, opon\u00eancia; para haver sentido, \u00e9 preciso haver resist\u00eancia, opon\u00eancia, ader\u00eancia, tens\u00e3o, atrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e hist\u00f3ricas, remetendo ora \u00e0 hist\u00f3ria do Boxe, ora \u00e0 hist\u00f3ria de seus praticantes. No breve terceto \u201cLuvas\u201d (p. 26) e em \u201cRegras\u201d, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizat\u00f3rio da Inglaterra, ber\u00e7o do moderno Boxe: uma civiliza\u00e7\u00e3o em que a brutalidade n\u00e3o deixa de existir; antes, \u00e9 estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o h\u00e1bito dos \u201ctapas com luvas de pelica\u201d, a dilui\u00e7\u00e3o da brutalidade em c\u00f3digos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espa\u00e7os da vida social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegoria, a met\u00e1fora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antep\u00f5em em \u201cRingue\u201d (p. 32) e \u201cSparring (fazer luvas)\u201d, o m\u00edtico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no \u201cCorner\u201d (p. 37). Ali\u00e1s, at\u00e9 os \u201cRounds\u201d (p. 38) ecoam algo m\u00edtico, a \u00e9pica da batalha e da vit\u00f3ria (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia tamb\u00e9m de forma meton\u00edmica, com a \u201cToalha, \/ gelo, \/ vaselina. \/\/ Massagem, est\u00edmulo, adrenalina\u201d (\u201cSegundos\u201d, p. 53).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cFaltas\u201d (p. 58), a met\u00e1fora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais \u201ch\u00e1 que se responder \/ pelas faltas\u201d. Essa constata\u00e7\u00e3o estabelece mais uma refer\u00eancia para compreender que lutas, que disputas cabem em seu dom\u00ednio paral\u00f3gico, associativo. O Boxe n\u00e3o \u00e9 uma \u201cluta livre\u201d, ele \u00e9 circunscrito a um espa\u00e7o e a um tempo, \u00e9 mediado por regras, \u00e9 um \u201cesporte de cavalheiros\u201d, para ser bastante preciso e quase brit\u00e2nico. S\u00f3 h\u00e1 Boxe quando h\u00e1 cavalheiros, quando h\u00e1 uma Corte e um ju\u00edzo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do pr\u00eamio, mas tamb\u00e9m do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhando para o seu t\u00e9rmino, o livro registra ainda uma esp\u00e9cie de painel hist\u00f3rico e impressionista, evocando personagens hist\u00f3ricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambi\u00eancia brasileira, nos poemas \u201cBrasil &#8211; 1913\u201d (p. 68), \u201cGoes Neto &#8211; 1919\u201d (p. 69), \u201cClub Canottiere Esperia\u201d (p. 70), \u201cDit\u00e3o &#8211; 1924\u201d (p. 71), \u201cGin\u00e1sio do Pacaembu &#8211; 1940\u201d, \u201cBoxe moderno &#8211; d\u00e9cada de 50\u201d (p. 74), \u201c\u00c9poca de ouro &#8211; d\u00e9cada de 50\u201d, quando reemerge para promover o encerramento com \u201c\u00c9der Jofre\u201d (p. 77), \u201cServ\u00edlio de Oliveira\u201d (p. 78), \u201cA obra &#8211; \u00c9der Jofre\u201d (p. 79) e \u201cPoema para um pugilista\u201d (82), no qual a alegoria\u00a0 retorna (\u201cO homem \/ traz um ringue \/ dentro de si\u201d) e tamb\u00e9m o mito tr\u00e1gico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos hist\u00f3ricos &#8211; lutando as lutas verdadeiramente nobres &#8211; ou ceder \u00e0s conting\u00eancias da vida, aceitar a exist\u00eancia como h\u00e1bitos e rotinas, no m\u00e1ximo exerc\u00edcios, muitas vezes plenos e satisfat\u00f3rios, mas ainda somente e apenas exerc\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impress\u00e3o final que o livro deixa \u00e9 de que ele d\u00e1 continuidade ao processo, ao amadurecimento da po\u00e9tica de Jorge Elias. Ainda um exerc\u00edcio, ele aponta quest\u00f5es, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcan\u00e7am a mesma pot\u00eancia de express\u00e3o, algo que talvez leve a altera\u00e7\u00f5es e revis\u00f5es em eventuais futuras edi\u00e7\u00f5es. Ao fim, e ao cabo, sa\u00edmos do livro com o semblante entre o s\u00e9rio e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Orlando Lopes<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mant\u00e9m o blog po\u00e9tico <strong><a href=\"https:\/\/occidentia.wordpress.com\">Occidentia<\/a><\/strong>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orlando Lopes empreende leituras em torno do \u201cBreve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do boxe\u201d, novo livro do poeta Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11844,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2854,2533,16],"tags":[11,154,2906,2255,2907],"class_list":["post-11200","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-107a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-jorge-elias-neto","tag-orlando-lopes","tag-patua","tag-breve-dicionario-poetico-do-boxe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11200","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11200"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11200\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11845,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11200\/revisions\/11845"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11200"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11200"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11200"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}