{"id":11255,"date":"2016-01-30T13:52:42","date_gmt":"2016-01-30T15:52:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11255"},"modified":"2016-05-14T12:11:58","modified_gmt":"2016-05-14T15:11:58","slug":"dedos-de-prosa-ii-38","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-38\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Cristiano Silva Rato<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_11839\" aria-describedby=\"caption-attachment-11839\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/deborah-dornellas-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11839 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/deborah-dornellas-int.jpg\" alt=\"deborah dornellas int\" width=\"349\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/deborah-dornellas-int.jpg 349w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/deborah-dornellas-int-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11839\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Deborah Dornellas<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Holofotes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conota\u00e7\u00f5es, passou a desc\u00ea-las e seus valores come\u00e7aram a deturpar-se em meio \u00e0 solid\u00e3o das notas recolhidas. Seus valores j\u00e1 n\u00e3o existem mais. Fodas. A cidade \u00e9 o pr\u00f3prio artif\u00edcio, indigest\u00e3o recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Est\u00fapida. Perdida nas porras dos n\u00fameros. \u201cEsclarecidos\u201d da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos \u201cesclarecidos\u201d. Nem sei se devo tomar partido. \u00c0s vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstr\u00e1-los em gr\u00e1ficos como animais em extin\u00e7\u00e3o. Quantos por cento? A quantidade necess\u00e1ria. Cientificamente inferiores, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o s\u00e3o inteligentes. Ser\u00e1 que t\u00eam alma? Matar todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta noite os sons se ru\u00edram. Me atirei como uma foice russa na dire\u00e7\u00e3o de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me d\u00e1 nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald\u2019s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o \u00e1lcool et\u00edlico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, n\u00e3o urrei feito um motor de caminh\u00e3o no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do v\u00f4mito no sal\u00e3o e nos corpos purificados que estavam l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interfer\u00eancia \u2013 Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos\/ porco asqueroso\/ o ar sempre fica p\u00fatrido\/ algo neles me arrepia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dan\u00e7ando feito um chin\u00eas americanizado dos filmes da Sess\u00e3o da Tarde. A met\u00e1fora n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. Os sentidos est\u00e3o menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com S\u00e3o Paulo. Todos os c\u00f4modos deste hosp\u00edcio s\u00e3o resqu\u00edcios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a l\u00e1grima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos agora parados em frente \u00e0 m\u00e1quina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfuma\u00e7ados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte press\u00e3o nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminh\u00f5es frigor\u00edficos. Meu peito ardeu com a m\u00e3o, mas os dentes resistiram ao impacto com o ch\u00e3o. Olhei debochadamente para todos e sorri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trilha sonora<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifesta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o professores, m\u00fasicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois \u00f4nibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem \u00e9 mais s\u00f3 o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som port\u00e1teis e uma infinidade tecnol\u00f3gica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a viol\u00eancia do Estado. Eu, vamos assim falando, h\u00e1 muito tempo cansei de pedir explica\u00e7\u00f5es destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, h\u00e1 muito tempo ocupo isso aqui, a \u00fanica verdade, acredito, estas veias que pulsam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente o tempo n\u00e3o era mais&#8230; H\u00e1 alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, \u00e0 revelia no poste \u00e0 minha frente. Em seguida cambaleio at\u00e9 o F\u00f3rmula 1. N\u00e3o sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psican\u00e1lise cl\u00e1ssica. Seu grupo. A m\u00fasica \u00e9 a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento m\u00e1gico. H\u00e1 sempre um compasso, uma cad\u00eancia, uma levada, mesmo quando n\u00f3s&#8230; Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em pap\u00e9is descart\u00e1veis, leve fantasia de uma crian\u00e7a sendo arrastada pela m\u00e3e, pela tarde. O medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me surpreendi aquela manh\u00e3. Ouvi rumores. Mega manifesta\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energ\u00e9tico, <em>vandal\u00edstico<\/em>, vivo. Por a\u00ed vai. Creio, at\u00e9, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espa\u00e7o que sobra, os p\u00e9s tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, tr\u00eas, n\u00e3o consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multid\u00e3o. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais um&#8230; engrosso o caldo desse feij\u00e3o&#8230; tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoro\u00e7o pela manh\u00e3? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, pol\u00edcia para todo o lado. A pra\u00e7a. Aquela manh\u00e3 n\u00e3o. Apareceram uns &#8220;bombadinhos&#8221;, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. <em>Filha da puta!<\/em> Pensei. Em manifesta\u00e7\u00e3o tem de tudo, at\u00e9 caso de possess\u00e3o, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Trope\u00e7o e erro a nota ca\u00edda ao ch\u00e3o. Sorrio bem alto. H\u00e1 uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consci\u00eancia quando queimo. N\u00e3o deixo escapar o barril de minhas m\u00e3os. \u00c1lcool. Amargo, ado\u00e7ando o fogo cristalino de s\u00e9culos de abandono. Eu. Nunca estive t\u00e3o s\u00f3. Uma mo\u00e7a de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, real\u00e7ando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu p\u00e9. Carrega um cartaz. Me olha com desd\u00e9m, como se tivesse pisado em merda.<em> Pegue minha m\u00e3o. Pois a casa est\u00e1 quente garota. Me deixe lev\u00e1-la para dan\u00e7ar. A casa est\u00e1 quente, baby. <\/em>Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. <em>A casa est\u00e1 quente<\/em>. Todas as cal\u00e7as s\u00e3o iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com a pra\u00e7a, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artes\u00e3os de rua, ou hippies, e\/ou micr\u00f3bios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma control\u00e1vel, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de&#8230; &#8220;Traz logo a cerveja p\u00f4&#8221;. Como ia dizendo, maluco&#8230; A cidade \u00e9 mesmo algo insond\u00e1vel, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na pra\u00e7a sete de setembro, em junho, foi um hosp\u00edcio. O que teve de not\u00edcia, de branquinho voando para o exterior, n\u00e3o cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito at\u00e9 com papel higi\u00eanico. Acho que at\u00e9 vi algu\u00e9m vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, n\u00e9? Quando aquele povo todo come\u00e7ou a andar em uma dire\u00e7\u00e3o, pensei umas duas, tr\u00eas, e por a\u00ed vai, se ia ou n\u00e3o com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, viol\u00e3o, pandeiro, apito&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. F\u00e9. Tudo misturado. E algu\u00e9m, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, n\u00e3o escondo o volume crescendo. Meu esc\u00e1rnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei <em>Sing Sing Sing,<\/em> em homenagem ao seu belo sorriso&#8230; sua luta&#8230; e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia&#8230; perde&#8230; a alegria&#8230; entra tristeza. O sentido do dom\u00ednio. A alegria. Deixamos de sonhar&#8230; ou sonhamos demais? \u00c9 preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa n\u00e3o est\u00e1 para alegrias anunciadas. Ela adentra a multid\u00e3o, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irm\u00e3o, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria dif\u00edcil para um qu\u00edmico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Cristiano Silva Rato<\/em><\/strong><em> nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a inf\u00e2ncia em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de F\u00e1tima); a adolesc\u00eancia em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ru\u00edna II (V. Primavera), em Ibirit\u00e9, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, tamb\u00e9m na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lan\u00e7ado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Del\u00edrios urbanos nos contos de Cristiano Silva Rato<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11837,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2854,2534],"tags":[419,2889,41,2890,2891],"class_list":["post-11255","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-107a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-cristiano-silva-rato","tag-dedos-de-prosa","tag-holofotes","tag-trilha-sonora"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11255"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11255\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11840,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11255\/revisions\/11840"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}