{"id":11422,"date":"2016-02-27T20:21:01","date_gmt":"2016-02-27T23:21:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11422"},"modified":"2016-04-27T22:00:35","modified_gmt":"2016-04-28T01:00:35","slug":"dedos-de-prosa-i-43","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-43\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cinthia Kriemler<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_11454\" aria-describedby=\"caption-attachment-11454\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/interna-3.jpg\" rel=\"attachment wp-att-11454\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11454 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/interna-3.jpg\" alt=\"Ricardo Laf\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/interna-3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/interna-3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11454\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ricardo Laf<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vig\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velha sentada na varanda suspensa de madeira n\u00e3o mexe mais os olhos para ver o que acontece no ch\u00e3o, cinco metros abaixo. Ela n\u00e3o respira. Para n\u00e3o sentir o cheiro da podrid\u00e3o que vai al\u00e9m das fezes dos animais e do mijo dos b\u00eabados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das l\u00ednguas que envenenam hist\u00f3rias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos oper\u00e1rios. Ela n\u00e3o est\u00e1 morta. Mas \u00e9 como se estivesse. E talvez esteja. N\u00e3o da morte que deita no caix\u00e3o e p\u00f5e nas narinas algod\u00f5es para aparar os fluidos f\u00e9tidos do corpo. Ela morreu de inexist\u00eancia. Do dia ap\u00f3s dia em que ganhar nunca foi op\u00e7\u00e3o. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tes\u00e3o que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que n\u00e3o vingaram na barriga por causa da fome e das doen\u00e7as; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro t\u00edquetes de refei\u00e7\u00e3o que recebeu em pagamento por um servi\u00e7o de pedreiro. Al\u00e9m dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para tr\u00e1s uma solid\u00e3o que tamb\u00e9m tinha fome. A \u00fanica que ela conseguiu nutrir at\u00e9 que os farelos se acabaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inerte na varanda. \u00c9 assim que ela vive. Na cabe\u00e7a, um pano encardido para esconder a calv\u00edcie. E um vestido preto que n\u00e3o \u00e9 de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos j\u00e1 quase n\u00e3o se abre; e o outro n\u00e3o se importa. Ela n\u00e3o sente nada. Nem al\u00edvio. Ao lado, um prato de comida que algu\u00e9m traz quando pode. Vazio. E uma caneca de \u00e1gua pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que m\u00e3os estranhas a banhem numa bacia de \u00e1gua fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabe\u00e7a no mesmo pano encardido, e a levem de volta \u00e0 cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vig\u00edlia. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na dire\u00e7\u00e3o do c\u00e9u que s\u00f3 existe bem longe. L\u00e1, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a m\u00e3e costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que s\u00f3 Deus d\u00e1. No c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas n\u00e3o usam cor-de-rosa. Nem s\u00e3o loiras. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o bruxas loiras. S\u00f3 conhe\u00e7o fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de cond\u00e3o. Sapatos n\u00famero 35 \u2014 v\u00e1 l\u00e1, 36 nos dias de calor! \u2014; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de gar\u00e7a. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. <em>Loiro Ultraclaro 90<\/em>. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas s\u00e3o europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que n\u00e3o \u00e9 na Europa. O mar das bruxas n\u00e3o \u00e9 azul. \u00c9 escuro. De tempestades e naufr\u00e1gios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as \u00e1guas de baixo. Embaixo d&#8217;\u00e1gua n\u00e3o tem fada. Fadas n\u00e3o podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas t\u00eam cabelos de an\u00eamona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez. \u00a0Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os peda\u00e7os de barcos e lemes e adri\u00e7as e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas s\u00e3o as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas s\u00e3o geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de pl\u00e2nctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodis\u00edaca de El Ni\u00f1o. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeir\u00e3o, po\u00e7\u00f5es de magia, chap\u00e9u de ponta. A carruagem das fadas n\u00e3o \u00e9 segura. Ela rola no precip\u00edcio. No precip\u00edcio das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram pr\u00edncipes. E os corvos, essas criaturas dadas \u00e0s carnes mortas. Que s\u00f3 comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que n\u00e3o fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas n\u00e3o cheirem a podrid\u00e3o da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com ju\u00edzo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cota\u00e7\u00e3o em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o p\u00f4r do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas n\u00e3o gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que t\u00eam no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de ju\u00edzo. E os homens bonitos. Bruxas s\u00f3 gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invis\u00edveis. E da igualdade mais estranha. Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: <em>Your wish is my command! <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bonecas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada s\u00e3o detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as m\u00e3os tr\u00eamulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. S\u00e3o caros e j\u00e1 foram usados. Ela n\u00e3o \u00e9 a primeira. Longe disso. \u00c9 de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ningu\u00e9m quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sente culpa. S\u00e3o elas as culpadas. Os dem\u00f4nios que o fazem desejar e obter. S\u00e3o elas, e seus olhos ainda sem hist\u00f3ria, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lan\u00e7ar no inferno homens como ele, que n\u00e3o resistem \u00e0 pureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um v\u00edcio caro. Porque ele n\u00e3o repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, n\u00e3o servem mais. Mas de onde vem uma, v\u00eam todas. Hist\u00f3rias e hist\u00f3rias que se repetem nas ruas e nas periferias miser\u00e1veis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ningu\u00e9m sabe delas. Ningu\u00e9m quer saber. Ele quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geralmente, o cafet\u00e3o as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir busc\u00e1-las, quando os instintos se descontrolam em urg\u00eancia. As roupas, no entanto, ele faz quest\u00e3o de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos s\u00e3o baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele n\u00e3o fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse \u00e0s imund\u00edcies que ele comete nos mot\u00e9is. A cadela de luxo que n\u00e3o quer lhe dar filhos. Ela jura que n\u00e3o pode, mas ele sabe que \u00e9 mentira. Logo ele n\u00e3o \u00e9 pai. Ele que quer tanto as suas pr\u00f3prias crian\u00e7as para ninar e p\u00f4r para dormir. Para serem s\u00f3 suas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faltam apenas as sand\u00e1lias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no ch\u00e3o duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafet\u00e3o que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que \u00e9 mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o ch\u00e3o duro forrado com peda\u00e7os de papel\u00e3o das caixas de supermercado, agarrando-se \u00e0s outras meninas para n\u00e3o sentir frio. Mas tamb\u00e9m pensa em tudo o que mais quer: a boneca. T\u00e3o bonita, t\u00e3o limpa, t\u00e3o feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a l\u00edngua desacostumada, o a\u00e7o da gilete. Ele se ajoelha para lhe cal\u00e7ar as sand\u00e1lias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que \u00e9: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lentamente, ela come\u00e7a a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as m\u00e3os que pararam de toc\u00e1-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pesco\u00e7o. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente.\u00a0E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o chora. N\u00e3o pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bomba suja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crian\u00e7as. N\u00e3o. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos peda\u00e7os. Nos rostos, uma paz estranha que n\u00e3o tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estat\u00edstica mundial ou para a grande m\u00eddia. Morreram de estilha\u00e7o, de explos\u00e3o, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, contudo, est\u00e3o serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Al\u00e1, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma est\u00e1 com eles. Ser\u00e1? N\u00e3o esteve. E, se esteve, \u00e9 fraco esse deus que n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o impede, n\u00e3o ergue a m\u00e3o pesada sobre os poderosos\u00a0gestores das carnificinas, nem estende a m\u00e3o-escudo aos homens de boa vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de n\u00f3s que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos v\u00f4mitos de rep\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina \u2014 \u00fanica em meio aos corpos \u2014 cresceria m\u00e3e. Essa profiss\u00e3o macabra que engendra e alimenta humanos para depois v\u00ea-los cair, cad\u00e1veres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os tr\u00eas ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profiss\u00e3o para n\u00e3o os imaginar mendigando p\u00e3o ou carregando \u00e1gua em vasilhas sobre as cabe\u00e7as infantes. Disso, j\u00e1 me fartei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem santo ensinar\u00e1 aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o pr\u00f3ximo. O agricultor contar\u00e1 aos outros que n\u00e3o conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrar\u00e1 a eles que a blindagem antiminas do moderno\u00a0<em>Al-Zarar\u00a0<\/em>que conduz \u00e9 a \u00fanica f\u00e9 que o satisfaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a quinta crian\u00e7a n\u00e3o tenho profiss\u00e3o. Nem palpite. \u00c9 um menino \u2014 conta algu\u00e9m que o reconhece n\u00e3o sei como. E permanece l\u00e1, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilha\u00e7ado em peda\u00e7os de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrif\u00edcio, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sigo a trilha abjeta daquele corpo de crian\u00e7a explodido pela bomba suja e ensurde\u00e7o meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em \u00f3dio e incompreens\u00e3o. Elas n\u00e3o me interessam. S\u00e3o, como tudo o que ainda resta vivo, revolta in\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero vasculhar o barro f\u00e9tido.\u00a0E buscar os olhos da crian\u00e7a enterrada na lama vermelha. S\u00f3 eles me mostrar\u00e3o se a dor se leva para o outro lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arremate<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Escuto o uivo do c\u00e3o e por um momento quero voltar e abra\u00e7\u00e1-lo e lhe dizer que eu tamb\u00e9m preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrar\u00e3o em solid\u00e3o e ele vai me pedir que o leve comigo. N\u00e3o posso. N\u00e3o quero enganar o c\u00e3o. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as m\u00e1scaras. Foi um c\u00e3o fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu \u00e0 porta. Mas foi tamb\u00e9m um amigo de sil\u00eancios prestados. Para onde vou n\u00e3o se leva um c\u00e3o fiel. Apenas a carca\u00e7a dos erros e a pressa de esquecer o que \u00e9 sup\u00e9rfluo: amor, dec\u00eancia, humanidade. Adeus, c\u00e3o. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho hoje est\u00e1 molhado. Eu prefiro assim. N\u00e3o gosto quando os sapatos roubam o p\u00f3 vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo \u00e9 diferente. A caminhada afunda na abund\u00e2ncia do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. \u00c9 bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu tamb\u00e9m chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o n\u00f3 que desoxigena meu peito. Talvez eu s\u00f3 sinta saudade. Do arm\u00e1rio cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patu\u00e1s exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que n\u00e3o tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o len\u00e7ol do dia seguinte. Do c\u00e3o. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque \u00e9 bom que ir seja em som. \u00c9 justo que a alma se esvazie num v\u00f4mito barulhento. At\u00e9 que o <em>ritus<\/em> se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, por\u00e9m, um arremate. Preciso de algu\u00e9m que me fa\u00e7a um \u00faltimo favor. \u00c9 que me esqueci de mandar soltar o c\u00e3o. Se ningu\u00e9m abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O c\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><a href=\"http:\/\/cinthiakriemler.blogspot.com.br\">Cinthia Kriemler<\/a><\/em><\/strong><em> nasceu no Rio de Janeiro e mora em Bras\u00edlia. \u00c9 contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patu\u00e1. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mant\u00eam os e-books Atos e omiss\u00f5es e Conta\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os densos e reveladores cen\u00e1rios dos contos de Cinthia Kriemler <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11732,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2913,2534,16],"tags":[2927,2926,2925,2923,419,41,2924,1324],"class_list":["post-11422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-108a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-arremate","tag-bomba-suja","tag-bonecas","tag-cinthia-kriemler","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-na-escuridao-nao-existe-cor-de-rosa","tag-vigilia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11422"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11733,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11422\/revisions\/11733"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}