{"id":11644,"date":"2016-04-05T15:45:31","date_gmt":"2016-04-05T18:45:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11644"},"modified":"2016-04-28T16:01:40","modified_gmt":"2016-04-28T19:01:40","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-43","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-43\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s dum universo de cen\u00e1rios a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da perman\u00eancia, urdindo estrat\u00e9gias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percep\u00e7\u00e3o do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes tra\u00e7ados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No jogo sugerido pela alteridade, o t\u00e1cito pacto entre emissor e receptor aponta para al\u00e9m de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpreta\u00e7\u00e3o. Nesse \u00ednterim, h\u00e1 revolu\u00e7\u00f5es internas, guerras contidas, alguns lampejos de \u00eaxtase e, sobremaneira, vis\u00f5es postas \u00e0 prova. Ent\u00e3o, seria o leitor uma esp\u00e9cie de destemido desbravador a quem \u00e9 dado um status de total autonomia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acharemos estranho se algu\u00e9m puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da cria\u00e7\u00e3o. E \u00e9 bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus \u00edmpetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso do autor baiano <strong>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/strong>, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motiva\u00e7\u00f5es criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um la\u00e7o com o mundo. Tamb\u00e9m \u00e9, como o pr\u00f3prio escritor confessa, construir a ilus\u00e3o do eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor de obras como \u201cPequeno invent\u00e1rio das aus\u00eancias\u201d (poemas \u2013 2001), \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d (contos \u2013 2009), \u201cEros Resoluto\u201d (contos \u2013 2010), Cada dia sobre a terra (contos \u2013 2010), e tendo participado de v\u00e1rias antologias, Marcus Vin\u00edcius utiliza a mem\u00f3ria como valiosa ferramenta de cria\u00e7\u00e3o. \u00c9, na verdade, uma instigante manipula\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as, esp\u00e9cie de distanciamento do real, atrav\u00e9s da qual o esquecimento protagoniza a elabora\u00e7\u00e3o da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vin\u00edcius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar liter\u00e1rio, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, \u201cArquivos de um corpo em viagem\u201d (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro recept\u00e1culo de epifanias que \u00e9 o corpo. Tamb\u00e9m na \u00f3tica da din\u00e2mica do corpo, \u00e9 de sua autoria uma s\u00e9rie de poemas criados para o espet\u00e1culo de dan\u00e7a \u201cVous Doux\u201d, cuja plaquete ser\u00e1 lan\u00e7ada em Salvador, na Bahia, brevemente. O di\u00e1logo presente tamb\u00e9m visitou outras paisagens, a exemplo da \u00f3tica do desejo humano, das inquietudes contempor\u00e2neas e das estrat\u00e9gias criativas. Quem divide conosco um pouco de si \u00e9 um algu\u00e9m na plena percep\u00e7\u00e3o de que sua obra est\u00e1 sendo constru\u00edda no processar das horas. Tudo isso sem a pretens\u00e3o das certezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_11768\" aria-describedby=\"caption-attachment-11768\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/marcusvinicius.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11768 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/marcusvinicius.jpg\" alt=\"marcusvinicius\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/marcusvinicius.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/marcusvinicius-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11768\" class=\"wp-caption-text\">Marcus Vin\u00edcius Rodrigues \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos t\u00eam um apelo muito ligado aos percursos do corpo. \u201cArquivos de um corpo em viagem\u201d, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto recept\u00e1culo de mem\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Essa hist\u00f3ria do corpo come\u00e7a meio que por acaso mesmo. Olhando pra tr\u00e1s \u00e9 que d\u00e1 pra ver que tem essa unidade toda, mas n\u00e3o foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro \u201cArquivos de um corpo em viagem\u201d, foi que vi realmente a recorr\u00eancia e a\u00ed organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que n\u00e3o tinham a ver. Acho que o corpo \u00e9 o lugar de todas as coisas. \u00c9 onde n\u00f3s estamos. Ent\u00e3o, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experi\u00eancia mais metaf\u00edsica. At\u00e9 a experi\u00eancia de sair do corpo \u00e9 uma experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, se voc\u00ea quiser ser m\u00edstico. Eu continuo fazendo isso. Vou lan\u00e7ar agora um livro, inspirado no espet\u00e1culo de dan\u00e7a do meu irm\u00e3o, \u201cVous Doux\u201d, e, novamente, h\u00e1 a experi\u00eancia do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. \u00c9 uma recorr\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 pensada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 sedutor pensar que os idiomas do corpo s\u00e3o infinitos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>N\u00e3o existe isso de infinito tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s experi\u00eancias humanas quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensa\u00e7\u00f5es. O infinito est\u00e1 nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos s\u00e3o sempre os mesmos. \u00a0N\u00e3o tenho certeza de nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea acredita que a mem\u00f3ria \u00e9 algo que pode nos trair?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Eu escrevo na esperan\u00e7a desta trai\u00e7\u00e3o. Escrevo tentando lembrar e j\u00e1 participando dessa no\u00e7\u00e3o de que vai haver uma inven\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Concei\u00e7\u00e3o Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o di\u00e1rio de viagem, mas a\u00ed quero esquecer para depois escrever. N\u00e3o quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim \u00e9 um m\u00e9todo. Esque\u00e7o para reinventar. E n\u00e3o \u00e9 nenhuma originalidade. J\u00e1 aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experi\u00eancia real, biogr\u00e1fica, l\u00e1 no fundo, numa das camadas. Na prosa h\u00e1 pelo menos duas camadas obrigat\u00f3rias: o fundo biogr\u00e1fico e a intertextualidade. Por cima disso, fa\u00e7o todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem no\u00e7\u00e3o, pois entram inconscientemente. O divertido \u00e9 isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biogr\u00e1ficos meus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abund\u00e2ncia, os arremessos s\u00e3o necess\u00e1rios? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>N\u00e3o. Acho o contr\u00e1rio. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto \u00e9 muito perigoso porque quando voc\u00ea entra em qualquer conflito voc\u00ea se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com voc\u00ea. O perigoso \u00e9 quando voc\u00ea quer entrar em conflito com as pessoas, pois ter\u00e1 de ir at\u00e9 onde elas est\u00e3o e talvez elas n\u00e3o estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, a\u00ed, sim, \u00e9 poss\u00edvel ter conflitos ideol\u00f3gicos, est\u00e9ticos, \u00e9 poss\u00edvel se confrontar. Mas quando as pessoas n\u00e3o est\u00e3o no seu caminho, o importante \u00e9 voc\u00ea construir o seu pr\u00f3prio e faz\u00ea-lo alargar e alargar. Quando voc\u00ea estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgir\u00e1 algum conflito, mas \u00e9 bom que seja o conflito do outro com voc\u00ea e n\u00e3o de voc\u00ea com o outro. As est\u00e9ticas, pol\u00edticas e os movimentos afirmativos t\u00eam que fazer mais isso: seguir em frente, e n\u00e3o buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso est\u00e1 nos atravancando o caminho \u00e9 que se vai confrontar com a gente. Mas a\u00ed n\u00f3s n\u00e3o nos desviamos, porque o perigo do conflito \u00e9 a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro n\u00e3o \u00e9 bom nem em arte, nem em est\u00e9tica. N\u00e3o \u00e9 mais tempo da gente reagir \u00e0 forma do outro fazer. Eu fa\u00e7o as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente n\u00e3o me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas n\u00e3o pretendo discordar, ir contra o outro, porque sen\u00e3o eu paro de fazer o que tenho de fazer, que \u00e9 de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; N\u00e3o te assusta o patrulhamento ideol\u00f3gico ao qual estamos submetidos atualmente? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Estou em rela\u00e7\u00e3o a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opini\u00f5es tanto de um lado quanto do outro. E n\u00e3o consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. \u00c9 poss\u00edvel conviver muito bem com quem \u00e9 diferente de voc\u00ea. Tudo isso me assusta. N\u00e3o me envolvo e n\u00e3o tomo partido porque acho que h\u00e1 coisas ruins dos dois lados, e \u00e9 preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que t\u00eam certezas, talvez porque eu n\u00e3o tenha realmente certeza de nada. J\u00e1 h\u00e1 muito tempo que n\u00e3o tenho certeza de muitas coisas e tamb\u00e9m n\u00e3o tenho certeza de que dev\u00edamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1. E h\u00e1 muitas coisas que n\u00e3o sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a n\u00e3o saber as coisas, a n\u00e3o ter curiosidade. Por exemplo, em religi\u00e3o, j\u00e1 procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em n\u00e3o saber. Aceitei o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Vez por outra, vem \u00e0 tona um debate sobre a divis\u00e3o da literatura em nichos de g\u00eanero. \u00c9 como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>\u00c9 uma quest\u00e3o que sempre retorna. A m\u00e1 literatura \u00e9 que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos \u00f3bvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos \u00f3bvio, que se imp\u00f5e por causa de uma for\u00e7a pol\u00edtica, mas n\u00e3o pela qualidade liter\u00e1ria, que \u00e9 o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. H\u00e1 um tipo de literatura que s\u00f3 interessa a esse tipo de gente e que n\u00e3o escapa disso. A gente n\u00e3o percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, est\u00e1 no comando. E quem est\u00e1 no comando \u00e9 quem decide o que \u00e9 o certo, o <em>standard<\/em>, o padr\u00e3o. Mas, se voc\u00ea for reparar, h\u00e1 mesmo uma literatura que n\u00e3o interessa \u00e0s outras pessoas, que \u00e9 muito particular porque \u00e9 m\u00e1 literatura. Quando escapa desse gueto, n\u00e3o interessa a ningu\u00e9m. As pessoas discutem, veneram porque este gueto \u00e9 o gueto que est\u00e1 no poder, mas n\u00e3o deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir quest\u00f5es raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir quest\u00f5es gays e interessar a todo mundo. Pode discutir quest\u00f5es femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir quest\u00f5es do mach\u00e3o, h\u00e9tero, branco e tamb\u00e9m interessar a todo mundo. \u00a0Tudo isso porque \u00e9 boa literatura e se preocupa muito com a est\u00e9tica. A m\u00e1 literatura n\u00e3o interessa a ningu\u00e9m. S\u00f3 interessa \u00e0quele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma fun\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica r\u00e1pida. Fisiol\u00f3gica n\u00e3o somente nos sentidos b\u00e1sicos, normais, mas tamb\u00e9m no sentido de servir como uma aceita\u00e7\u00e3o, um refor\u00e7o do que determinada pessoa sente ou quer sentir. S\u00e3o literaturas que lidam com emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Veja, por exemplo, a saga \u201cCrep\u00fasculo\u201d, a qual n\u00e3o li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depress\u00e3o que eles vivem naquela \u00e9poca. \u00c9 muito chato para quem n\u00e3o est\u00e1 mais naquele per\u00edodo de depress\u00e3o, de se pensar no que \u00e9, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. \u00c9 tudo t\u00e3o casto ali porque \u00e9 isso. J\u00e1 \u201cHarry Potter\u201d \u00e9 infantil, mas o tempo todo est\u00e1 lidando com outras quest\u00f5es e h\u00e1 v\u00e1rias camadas de leituras que se pode fazer al\u00e9m de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um \u201cCrep\u00fasculo\u201d, que vai desaparecer em breve. Ningu\u00e9m mais vai falar sobre isso. \u201cHarry Potter\u201d tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No territ\u00f3rio da prosa, seus tr\u00e2nsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como \u201cEros resoluto\u201d e \u201cTr\u00eas vestidos e meu corpo nu\u201d. A \u00f3tica do desejo humano \u00e9 uma trincheira de despertar para o mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>O \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d e o \u201cEros Resoluto\u201d s\u00e3o livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que at\u00e9 n\u00e3o tinha alguma unidade. No \u201c3 vestidos\u201d, eu coloquei tr\u00eas contos que t\u00eam uma vis\u00e3o feminina, s\u00e3o endere\u00e7ados na quest\u00e3o feminina e em escritoras e t\u00eam uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o \u201cEros resoluto\u201d \u00e9 mais espec\u00edfico de contos homoer\u00f3ticos. Eles, a princ\u00edpio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a quest\u00e3o feminina n\u00e3o entrar\u00e3o nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoer\u00f3ticos. Talvez eu fa\u00e7a um livro s\u00f3 com os vestidos porque h\u00e1 mais uns tr\u00eas contos esparsos com vis\u00f5es femininas tamb\u00e9m. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando aten\u00e7\u00e3o no desejo que est\u00e1 por se realizar, porque \u00e9 o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. At\u00e9 na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge \u00e9 o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois \u00e9 ladeira abaixo, degrada\u00e7\u00e3o, as coisas v\u00e3o se acabando. \u00c9 a puls\u00e3o de vida. O erotismo mesmo como puls\u00e3o de vida. \u00c9 isso que me interessa tratar. Ent\u00e3o, esses dois livros que v\u00e3o se separar, e v\u00e3o se chamar \u201cCaf\u00e9 Molotov\u201d, trar\u00e3o contos homoer\u00f3ticos que tiverem unidade. E o \u201cTr\u00eas vestidos\u201d tamb\u00e9m vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns tr\u00eas ou quatro livros tem\u00e1ticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. \u00c0s vezes, me pedem hist\u00f3rias espec\u00edficas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os est\u00edmulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa \u00e9 descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a quest\u00e3o do desejo certamente perpassar\u00e1 todos os livros. Sempre \u00e9 algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com v\u00e1rias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais est\u00e3o sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lan\u00e7ar um livro inteiro com isso, eu lan\u00e7arei. N\u00e3o tenho pressa porque \u00e9 aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada \u201cCaf\u00e9 Molotov\u201d. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o t\u00edtulo como meu. H\u00e1 um conto j\u00e1 escrito que trata disso, o qual permanece in\u00e9dito para nomear o livro. Ent\u00e3o, o meu desejo \u00e9 de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo \u00e9 apol\u00edneo, e n\u00e3o o dionis\u00edaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apol\u00edneo porque no caos eu j\u00e1 estou. Quero caminhar at\u00e9 a ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O caos tamb\u00e9m pode ser uma rota para a liberta\u00e7\u00e3o assim como o desejo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Para mim, n\u00e3o. A liberta\u00e7\u00e3o est\u00e1 na ordem. Eu acho que j\u00e1 estamos no caos, e penso que a tend\u00eancia da natureza \u00e9 a ordem. Qualquer desarruma\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fa\u00e7a na natureza em qualquer n\u00edvel, seja nos moleculares ou sociais, a tend\u00eancia depois \u00e9 as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacifica\u00e7\u00e3o est\u00e1, para mim, na ordem e n\u00e3o no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho \u00e9 a ordem. O fim \u00e9 a ordem. O caos \u00e9 uma desorganiza\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea. E ele \u00e9 ef\u00eamero. As pessoas que falam do dionis\u00edaco est\u00e3o querendo trabalhar no registro do ef\u00eamero. Mas isso pode at\u00e9 servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, <em>stricto sensu<\/em>, busca a perenidade. Ent\u00e3o, voc\u00ea vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a inten\u00e7\u00e3o, pois o que n\u00e3o fica n\u00e3o \u00e9 literatura. Literatura \u00e9 o que vai acontecer depois, na leitura l\u00e1 no futuro. Se voc\u00ea depende da presen\u00e7a das pessoas para o contato imediato, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a literatura <em>stricto sensu<\/em>, \u00e9 arte c\u00eanica, m\u00fasica, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E a\u00ed voc\u00ea precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o audiovisual est\u00e3o dando muita \u00eanfase ao momento da performance, ao contato pr\u00f3ximo, ao texto que \u00e9 dito em voz alta. Mas tudo isso \u00e9 ef\u00eamero. \u00c9 literatura dram\u00e1tica? \u00c9 drama? \u00c9 performance? Ok, mas n\u00e3o \u00e9 aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que \u00e9 ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum par\u00e2metro para que a comunica\u00e7\u00e3o possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que n\u00e3o saiba quem eu sou, pegue um texto meu, at\u00e9 com a autoria apagada, e at\u00e9 se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconte\u00e7a. E isso s\u00f3 se faz com ordem. Voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir fazer isso com o caos. O caos \u00e9 um caminho, um processo, uma etapa, mas n\u00e3o \u00e9 o fim em si das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11769\" aria-describedby=\"caption-attachment-11769\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/voudoux.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11769 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/voudoux.jpg\" alt=\"voudoux\" width=\"500\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/voudoux.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/voudoux-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11769\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo &#8220;Vous Doux&#8221; \/ Foto: Aldren Lincoln<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao longo do tempo, suas estrat\u00e9gias de cria\u00e7\u00e3o mudaram muito?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consci\u00eancia da forma. Depois tamb\u00e9m quero esquecer essas consci\u00eancias, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, a\u00ed publico o primeiro livro. Depois n\u00e3o consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e a\u00ed ganho mais consci\u00eancia. At\u00e9 estudo m\u00e9trica, forma, e depois esque\u00e7o. O que achei realmente ap\u00f3s lan\u00e7ar o primeiro livro foi que, embora n\u00e3o tivesse uma preocupa\u00e7\u00e3o formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consci\u00eancia da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ningu\u00e9m repara e ent\u00e3o vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda est\u00e1 funcionando. Poesia \u00e9 preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu demorei muito a escrever prosa. J\u00e1 tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros s\u00e3o muito intuitivos, muito po\u00e9ticos e com pouca a\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria. Depois \u00e9 que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, n\u00e3o sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever \u00e9 com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00e3o contadas, de truques. H\u00e1 estrat\u00e9gias, \u00e0s vezes at\u00e9 bobas, tipo \u201ceu vou escrever e s\u00f3 vai acontecer a hist\u00f3ria em determinado lugar ou hora do dia\u201d. Vou criando alguns obst\u00e1culos que depois acabam n\u00e3o aparecendo. \u00a0Por exemplo, o conto \u201cA omoplata\u201d era um mero exerc\u00edcio, pois o objetivo era fazer um texto apenas com di\u00e1logos porque tenho uma repulsa em fazer di\u00e1logos. Sempre escolho n\u00e3o fazer. Ent\u00e3o, me obriguei a fazer um conto s\u00f3 com di\u00e1logos. Agora j\u00e1 fa\u00e7o contos s\u00f3 com di\u00e1logos, alterno melhor. Posso eventualmente n\u00e3o escolher fazer di\u00e1logo algum ou n\u00e3o deixar as pessoas conversarem. Todas essas estrat\u00e9gias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, s\u00e3o interessantes porque criam camadas de hist\u00f3rias, narrativas e tem\u00e1ticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez fa\u00e7o mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho \u00e0s vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um di\u00e1logo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que j\u00e1 escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. A\u00ed eu prevejo e deixo l\u00e1. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estrat\u00e9gia, coisa que eu n\u00e3o fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O trabalho de resist\u00eancia das editoras independentes inaugura uma nova era para as publica\u00e7\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto t\u00e3o bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso n\u00e3o vai acontecer mais com todos. N\u00e3o existe mais esse mercado para a literatura, a n\u00e3o ser aquela de entretenimento. A grande literatura n\u00e3o vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. N\u00e3o vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que voc\u00ea publica, acho que cada vez menos vai haver circula\u00e7\u00e3o, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a est\u00e9tica, circula num subterr\u00e2neo, num gueto. N\u00e3o \u00e9 uma coisa acess\u00edvel a todo mundo. Por qu\u00ea? Porque, claro, as pessoas n\u00e3o precisam mais da literatura para se divertirem, a n\u00e3o ser da literatura de entretenimento simplesmente.\u00a0 As pessoas v\u00e3o assistir cinema, televis\u00e3o, internet e n\u00e3o precisam ler. N\u00e3o precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Ent\u00e3o, esse vai sendo um interesse de um n\u00famero cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre ser\u00e1 uma circula\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea, clandestina, que n\u00e3o chega ao grande p\u00fablico. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, d\u00e3o um f\u00f4lego. Isso \u00e9 bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, tamb\u00e9m escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que n\u00e3o tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas at\u00e9 produzem obras com essa finalidade do grande p\u00fablico, mas voc\u00ea tem que fazer algo espec\u00edfico para esse grande p\u00fablico. E talvez n\u00e3o seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televis\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa muito interessante. Mas n\u00e3o \u00e9 pra todo mundo e alguns escritos s\u00e3o para poucos mesmo, pois n\u00e3o h\u00e1 hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto liter\u00e1rio. \u00c9 um p\u00fablico muito reduzido. Com pouco dinheiro, voc\u00ea publica um livro. A quest\u00e3o das pequenas tiragens \u00e9 uma sa\u00edda, um respiro, um tipo de sobreviv\u00eancia. Mas \u00e9 s\u00f3 isso, mera sobreviv\u00eancia. N\u00e3o vai al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong> <strong>O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>P\u00f3s-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que fa\u00e7o tamb\u00e9m \u00e9 p\u00f3s-moderno. O que eu n\u00e3o admito \u00e9 que queiram que p\u00f3s-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas l\u00e1 do come\u00e7o do s\u00e9culo vinte. Isso n\u00e3o me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, h\u00e1 coisas muito boas, mas h\u00e1 muitas que j\u00e1 nascem datadas, velhas, e que n\u00e3o se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero \u00e9 algo que dure, o experimentalismo n\u00e3o me interessa. Claro que fa\u00e7o exerc\u00edcios, mas n\u00e3o publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que \u00e9 um exerc\u00edcio, \u00e9 ef\u00eamero e n\u00e3o vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. N\u00e3o ser\u00e1 tudo. N\u00e3o tenho ansiedade do novo. N\u00e3o me preocupo com isso. Quem quer fazer, que fa\u00e7a. A caracter\u00edstica da p\u00f3s-modernidade \u00e9 a diversidade, a fragmenta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, cada um pode fazer o que quer. Eu fa\u00e7o o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como p\u00f3s-moderno em oposi\u00e7\u00e3o ao que fa\u00e7o, tranquilo. N\u00e3o tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique t\u00e3o bem acabado que n\u00e3o se possa dizer aquilo de outro jeito, a n\u00e3o ser daquele que foi dito. N\u00e3o estou interessado no ef\u00eamero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas n\u00e3o trabalho com isso. Sei que tudo \u00e9 assim, que tudo se acabar\u00e1, mas o meu movimento de produzir \u00e9 no sentido da perenidade. \u00c9 um m\u00e9todo. \u00c9 o meu m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES \u2013 <\/strong>Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. N\u00e3o tem motivo, pois ou \u00e9 isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente n\u00e3o sabe. \u00c9 gostar de se expressar, de criar hist\u00f3rias, de construir um mundo particular, de construir a ilus\u00e3o do eterno. \u00c9 pra isso. Se a gente come\u00e7a a pensar o porqu\u00ea das coisas, todas elas n\u00e3o t\u00eam muita raz\u00e3o de ser, n\u00e3o t\u00eam muita necessidade. Nem viver, n\u00e3o \u00e9? Mas a gente vive porque n\u00e3o sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o cl\u00e1ssico, o clich\u00ea do clich\u00ea, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que voc\u00ea tem que criar esse pr\u00f3prio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. H\u00e1 pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral t\u00eam essa sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 se construindo alguma coisa. Esse \u00e9 o grande lance. \u00c9 isso que aproxima talvez as artes da religi\u00e3o. A religi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 isso. Ela \u00e9 a aposta num depois, aposta no que a gente n\u00e3o v\u00ea, no sobrenatural. A arte tamb\u00e9m \u00e9 uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunica\u00e7\u00e3o com uma pessoa que voc\u00ea n\u00e3o sabe quem seja \u00e9 uma esperan\u00e7a. Escrevemos por esperan\u00e7a, simplesmente. Em qu\u00ea \u00e9 que \u00e9 o problema. O bom da esperan\u00e7a \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 em nada. Esperar nesse sentido \u00e9 intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcend\u00eancia, um al\u00e9m. Claro que voc\u00ea pode escrever poesia, prosa para objetivos mais espec\u00edficos, mais circunstanciais, mas quando a gente come\u00e7a a se perguntar o porqu\u00ea das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na m\u00fasica do Gil. Mas \u00e9 isso. Se voc\u00ea come\u00e7a a pensar, a gente vai acabar no nada. Ent\u00e3o, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se n\u00e3o escrevesse, talvez eu bebesse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor t\u00e1ctil e espiritual. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falando de seus novos rumos liter\u00e1rios e outros temas que remontam ao of\u00edcio, o escritor Marcus Vin\u00edcius Rodrigues \u00e9 o sabatinado da vez<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11652,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2972,16,2539],"tags":[63,137,252,8],"class_list":["post-11644","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-109a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11644"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11819,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions\/11819"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}