{"id":11668,"date":"2016-04-07T10:04:16","date_gmt":"2016-04-07T13:04:16","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11668"},"modified":"2016-04-28T16:01:57","modified_gmt":"2016-04-28T19:01:57","slug":"aperitivo-da-palavra-i-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-16\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Singularidade pelo negativo<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Renato Tardivo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/capareprodutibilidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11773\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/capareprodutibilidade.jpg\" alt=\"capareprodutibilidade\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/capareprodutibilidade.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/capareprodutibilidade-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Reprodutibilidade estranha e familiar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No lan\u00e7amento de <em>O ser humano na era de sua reprodutibilidade t\u00e1tica <\/em>(Ed. Patu\u00e1), livro de Valerio Oliveira, a crian\u00e7a que me acompanhava disse ao observar a capa: \u201cOlha, esses monstrinhos seguem uma ordem: vermelho, azul, verde, vermelho, azul&#8230;\u201d. Ela estava correta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo deste livro de poesias \u00e9 uma par\u00f3dia \u2013 ou atualiza\u00e7\u00e3o \u2013 do ensaio <em>A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica<\/em>, de Walter Benjamin. Muito resumidamente, a ideia do ensaio \u00e9 que, sob a \u00e9gide da reprodutibilidade, a obra de arte teria perdido a sua singularidade e, portanto, seu sentido mais origin\u00e1rio: dar a conhecer algo de seu mundo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O foco dos poemas de Valerio s\u00e3o os seres humanos na (e da) contemporaneidade, per\u00edodo em que os avan\u00e7os t\u00e9cnicos e tecnol\u00f3gicos atingiram patamares elevados a custos muito altos e s\u00e3o dispon\u00edveis a uma m\u00ednima parcela da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 escreveram Horkheimer e Adorno muitas d\u00e9cadas atr\u00e1s, na conjuntura em que realidade e ideologia correm uma para a outra, os comportamentos dos sujeitos, banalizados entre realidade e artif\u00edcio, padronizam-se. E, como nos mostra Valerio Oliveira, tem sido assim cada vez mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com humor \u00e1cido, metalinguagem e, inclusive, alguma dose de lirismo, o poeta convoca o leitor, pela via da sensibilidade e reflex\u00e3o, a vivenciar o estranhamento e o inc\u00f4modo justamente ao se reconhecer em suas personagens. Distante de uma perspectiva panflet\u00e1ria, portanto, os poemas resgatam o leitor (ser humano) de sua reprodutibilidade t\u00e1tica pelo negativo. \u00c9 ao tomar contato com a reprodutibilidade humana, t\u00e3o estranha quanto familiar, que nos damos conta de sua singularidade, ainda que \u00e0s custas, por exemplo, do desconfort\u00e1vel \u201combro com ombro com ombro com ombro\u201d (\u201cDeus salve o Estado\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Po\u00e9tica singular e m\u00faltipla<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O casal que passeia pelo apartamento (\u201cOrdem e desordem\u201d), o sujeito que sai do cinema de m\u00e3os dadas consigo mesmo (\u201cFinal feliz\u201d), as \u201cVerdades sem olhos ou pernas\u201d, t\u00edtulo da primeira parte do livro, e as \u201cMentiras sem boca ou bra\u00e7os\u201d, t\u00edtulo da segunda, s\u00e3o emblemas dos seres humanos desenhados por Valerio: fragmentados, amputados, esburacados, e equivalentes em sua mediocridade. Nesse sentido, a capa, de autoria de Teo Adorno, \u00e9 muito apropriada. Os monstrinhos seriais, sagazmente percebidos pela crian\u00e7a que me acompanhava, s\u00e3o met\u00e1foras visuais daquilo que somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio, portanto, que os \u00faltimos poemas do livro abordem as ambiguidades contidas na rela\u00e7\u00e3o eu-outro: \u201cEu e os outros\u201d, \u201cObras completas de Valerio Oliveira\u201d, \u201cWorld burly brawl\u201d e \u201cOs trinta Valerios\u201d. Dessa perspectiva, o livro torna-se ainda mais interessante. Sabe-se que o autor desdobra-se em m\u00faltiplas personas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1990, surgiu um talento na literatura brasileira: Nelson de Oliveira (embora o pr\u00f3prio tenha me confidenciado que Valerio nascera antes, mas Nelson foi o mais celebrado). Ocorre que, ao desdobrar-se em quatro \u2013 Valerio Oliveira, Luiz Bras, Teo Adorno e Nelson de Oliveira \u2013, o artista singulariza-se ao limite, pois assume-se m\u00faltiplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentemente dos seres fragmentados, da capa ao interior do livro e \u00e0s p\u00e1ginas do mundo, a unidade da po\u00e9tica do autor decorre justamente da comunica\u00e7\u00e3o entre os diversos. A um s\u00f3 tempo singular e m\u00faltipla, sua obra \u00e9 uma esp\u00e9cie de alternativa \u2013 ir\u00f4nica, c\u00f4mica, cr\u00edtica \u2013 aos cen\u00e1rios banalizados retratados no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O milagre da express\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> \u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um pode ser quatro, ou mais at\u00e9? Como explicar experi\u00eancias que atravessam gera\u00e7\u00f5es, simultaneamente reais e ilus\u00f3rias? O mais prov\u00e1vel \u00e9 que n\u00e3o haja explica\u00e7\u00e3o, mas, como escreveu Clarice, \u201cviver ultrapassa qualquer entendimento\u201d. E a literatura, essa trama expressiva do sens\u00edvel, de fato promove milagres. Como o que eu comecei a vivenciar na Bienal do Livro de S\u00e3o Paulo, cerca de dez anos atr\u00e1s. O sonho de me tornar escritor crescia, sempre alimentado por uma de minhas maiores incentivadoras: minha av\u00f3. Pois bem. L\u00e1 na Bienal ela me disse: &#8220;Escolhe qualquer livro para eu lhe dar de presente&#8221;. Escolhi <em>Subsolo infinito<\/em>, romance de Nelson de\u00a0Oliveira, livro que guardo com muito carinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poderia imaginar naquele domingo, na Bienal, que dez anos depois eu estaria lan\u00e7ando meu quarto livro, que me lembraria desse dia ao ver Nelson de Oliveira (ou seria o Luiz, o Valerio, o Teo?) se aproximar para eu lhe fazer a dedicat\u00f3ria no (meu) livro. Tampouco imaginaria que, enquanto escrevia a dedicat\u00f3ria, veria a minha av\u00f3 de rabo de olho, e pensaria em cham\u00e1-la para perguntar se ela se lembrava daquele dia na Bienal e apresent\u00e1-la ao autor do livro que ela me deu de presente, e que n\u00e3o haveria tempo para nada disso, porque, na era da reprodutibilidade t\u00e1tica, o pr\u00f3ximo da fila j\u00e1 abria o seu exemplar para eu assinar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Renato Tardivo<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e psicanalista. Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, \u00e9 autor do ensaio Porvir que vem antes de tudo \u2013 literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateli\u00ea\/Fapesp), da novela Castigo (E-gal\u00e1xia) e dos volumes de contos Do avesso (Com-arte\/USP), Silente (7Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateli\u00ea). Colabora regularmente com textos sobre cultura para ve\u00edculos como a revista Cult e o Observat\u00f3rio da Imprensa. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Tardivo aborda as vias singulares do novo livro de poemas de Valerio Oliveira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11720,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2972,2533,16],"tags":[11,424,3010,189,3015,3011],"class_list":["post-11668","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-109a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-editora-patua","tag-renato-tardivo","tag-resenha","tag-singularidade-pelo-negativo","tag-valerio-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11668"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11817,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11668\/revisions\/11817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}