{"id":11704,"date":"2016-04-27T17:31:48","date_gmt":"2016-04-27T20:31:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11704"},"modified":"2016-06-08T17:57:04","modified_gmt":"2016-06-08T20:57:04","slug":"aperitivodapalavraii-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavraii-2\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Doses exageradas de estranheza<\/strong><\/p>\n<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/eucoweboy.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11800\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/eucoweboy.jpg\" alt=\"eucowboy\" width=\"285\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/eucoweboy.jpg 285w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/eucoweboy-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exerc\u00edcio de porra-louquice \u00e9 o que rege o processo de constru\u00e7\u00e3o de \u201cEu, Cowboy\u201d, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicaliza\u00e7\u00e3o da forma e do estilo, concebendo uma colagem fren\u00e9tica, um \u201cbrainstorming\u201d, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito institu\u00eddo de g\u00eanero, a\u00e7\u00e3o temporal e estrutura tem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, uma classifica\u00e7\u00e3o mais adequada ao resultado final seria \u201cum romance de subvers\u00e3o desconstrutiva\u201d. Para se ter uma ideia, somente na p\u00e1gina vinte e cinco \u00e9 que se come\u00e7a a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista \u00e0 terceira pot\u00eancia, com queda por (pr\u00e9-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos tamb\u00e9m adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, med\u00edocres perante suas responsabilidades. S\u00e3o todos losers, conformados de que \u201ccresceram ficando para tr\u00e1s\u201d. \u201cContinuo andando com os mesmos frustrados de sempre e s\u00f3 porque eu me sinto bem ao lados deles\u201d, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condi\u00e7\u00e3o de um mal cong\u00eanito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A culpa estaria na \u201cgera\u00e7\u00e3o que perdeu o medo de envelhecer\u201d e, assim, ficou suscet\u00edvel a uma crise extempor\u00e2nea de meia-idade. \u201c(&#8230;) a gra\u00e7a disso tudo \u00e9 que, mesmo podendo viver at\u00e9 os trezentos, a sensa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de que, passou dos trinta, j\u00e1 era\u201d. Portanto, o que resta \u00e9 se lan\u00e7ar numa incurs\u00e3o de excessos, sem compromissos, incitando \u201co prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, j\u00e1 fora do peito, trancafiando nada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00fanicos por\u00e9ns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida \u00e0 distancia pela m\u00e3e e o gosto pelas artes pl\u00e1sticas. Ou talvez n\u00e3o, quem sabe? Por certo, mesmo a descri\u00e7\u00e3o acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada atrav\u00e9s de cacos de informa\u00e7\u00f5es desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contradit\u00f3rios, devido ao jogo verborr\u00e1gico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conex\u00e3o entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ishak empreende esse efeito aleat\u00f3rio no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maci\u00e7os de texto, di\u00e1logos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicion\u00e1rio e trechos de m\u00fasica em ingl\u00eas. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consci\u00eancia de que est\u00e1 numa obra de fic\u00e7\u00e3o. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando n\u00e3o se sobrep\u00f5em), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no come\u00e7o dos anos 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O entender corrosivo destas duas d\u00e9cadas, ali\u00e1s, \u00e9 o ponto alto do livro. Embora n\u00e3o deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflex\u00f5es carregadas de uma filosofia torta, o autor constr\u00f3i sua ambienta\u00e7\u00e3o por meio de refer\u00eancias que v\u00e3o da cultura pop a fatos hist\u00f3ricos. Informa\u00e7\u00f5es sutis, sugest\u00f5es, o que hoje \u00e9 conhecido, na cartilha cinematogr\u00e1fica, como easter egg. De nomes de bandas a t\u00edtulos de can\u00e7\u00f5es que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge \u00e0 uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que n\u00e3o se quisesse nada, h\u00e1 iscas para interpreta\u00e7\u00f5es por todo o romance. \u00c9 um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decis\u00e3o, vem a se tornar um problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ishak ergue sua hist\u00f3ria com a puls\u00e3o de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifr\u00e1-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupa\u00e7\u00e3o em estabelecer um fio condutor, tampouco uma l\u00f3gica. Isso acaba for\u00e7ando v\u00e1rias pausas que, por fim, s\u00f3 incrementam a sensa\u00e7\u00e3o de desbarate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto contraproducente \u00e9 a op\u00e7\u00e3o pela autossabotagem, a autodeprecia\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias escolhas, n\u00e3o deixando muito claro se a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 sobrepesar a acidez, constituir uma par\u00f3dia ou destilar doses cavalares de cr\u00edtica. O autor planta aqui e acol\u00e1 palavras como \u201cc\u00f3pia\u201d, \u201cpl\u00e1gio\u201d, brinca com os clich\u00eas narrativos, reconhece que escrever \u00e9 \u201cchupar\u201d o que j\u00e1 foi feito, que escritor \u00e9 \u201ccopiar e colar diferente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu cl\u00e1ssico \u201cOn the road\u201d, ele mesmo aponta que \u00e9 uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de \u201ct\u00f4 cagando pro Kerouac\u201d. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que n\u00e3o est\u00e1 em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a pr\u00f3pria piada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, \u201cEu, Cowboy\u201d \u00e9 uma experi\u00eancia mobilizada por sensa\u00e7\u00f5es, vozerio e muita f\u00faria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de embarcar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance de estreia de Caco Ishak por S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2972,2533],"tags":[11,2999,2997,2998,189,1023,2792],"class_list":["post-11704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-109a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-caco-ishak","tag-cowboy","tag-doses-exageradas-de-estranheza","tag-resenha","tag-sergio-tavares","tag-eu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11704"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11829,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11704\/revisions\/11829"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}