{"id":11707,"date":"2016-04-27T17:35:00","date_gmt":"2016-04-27T20:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11707"},"modified":"2016-06-08T17:56:57","modified_gmt":"2016-06-08T20:56:57","slug":"dedos-de-prosa-ii-39","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-39\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Priscila Merizzio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em><br \/>\n<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/aquarelasbarbagelata.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11794\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/aquarelasbarbagelata.jpg\" alt=\"aquarelasbarbagelata\" width=\"411\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/aquarelasbarbagelata.jpg 411w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/aquarelasbarbagelata-247x300.jpg 247w\" sizes=\"auto, (max-width: 411px) 100vw, 411px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma hist\u00f3ria escrita com a ampulheta de Cronos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>I<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia debaixo do colch\u00e3o de sua cama um fac\u00e3o para cortar pela metade a dor e os sonhos. Julgava uma in\u00e9pcia pessoas que se refugiavam em fantasias e escutava com lassid\u00e3o seus discursos. Carregava consigo uma assepsia de emo\u00e7\u00f5es que o deixava embotado diante de sentimentos profundos. Foi uma crian\u00e7a sisuda e pautada nas farmacopeias que os mais velhos ensinavam. Considerava frugais as brincadeiras das outras crian\u00e7as, optando quase sempre pela aspereza da solid\u00e3o. Cresceu com os ossos dos joelhos ensimesmados e n\u00e3o houve especialista que conseguisse curar a dor lancinante em dias de tempestades. Embora ganisse a cada trovoada, deixava que a natureza se ocupasse de ficar \u00famida e trincava os dentes com for\u00e7a para n\u00e3o derrubar l\u00e1grima sequer. T\u00e3o logo alcan\u00e7ou maioridade, partiu de casa em busca de independ\u00eancia. Ambicionava ser um homem rico e tamb\u00e9m preencher a arcada dent\u00e1ria com ouro trazido de min\u00e9rios negreiros. Sua personalidade compenetrada lhe rendeu um emprego promissor em uma importante madeireira. Tinha brios luciferianos e nas parcas correspond\u00eancias que trocava com a m\u00e3e n\u00e3o se queixava de saudades, doen\u00e7as ou escassez de comida, como costumavam fazer os outros rapazes de sua idade. A madeireira foi seu \u00fanico emprego. Come\u00e7ou como estagi\u00e1rio e aposentou-se como s\u00f3cio majorit\u00e1rio, exportando pinus \u00e0 Europa e, para espanto dos colegas, tamb\u00e9m para as \u00cdndias. Sa\u00eda com mulheres aceit\u00e1veis, mas nada extraordin\u00e1rias. Permitir-se ao extraordin\u00e1rio era fado dos rom\u00e2nticos. Jamais armazenou velas para gastar com defuntos. Permitia-se ternura e supersti\u00e7\u00e3o apenas com seus gatos, que n\u00e3o lhe exigiam cuidados demasiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>II<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia algumas raras situa\u00e7\u00f5es em que ele cruzava o olhar com mulheres que o deixavam em estado de Lua Cheia. Ele tinha pavor do efeito hipn\u00f3tico e destemperado que elas produziam em seu comportamento. Ap\u00f3s sentir o perfume de Cle\u00f3patra que emanava do tufo de pelos no meio de suas pernas e de bebericar seus orgasmos de ambrosia, voltava-lhe impiedosa a dor nos joelhos. Ele urrava quase esfarelando os dentes entre as mand\u00edbulas, mesmo que l\u00e1 fora fizesse um sol de latejar as t\u00eamporas. As enxurradas de suor daquelas mulheres lhe valiam mais do que tr\u00eas mil tempestades e n\u00e3o havia nada que amainasse sua dor. Conclu\u00eda que elas eram ardis feiticeiras, com seus seios de Medeia e gracejos de fogueira, distribuindo sorrisos como quem despeja moedas estreladas em dan\u00e7as ciganas e mesmerizantes. Ap\u00f3s o encontro com essas mulheres, ca\u00eda em si e recha\u00e7ava a si mesmo por ter se permitido enveredar nas ratoeiras do desejo descomedido. Punha-se ent\u00e3o a ruminar sa\u00eddas mentais e estrat\u00e9gicas e empunhava tochas g\u00e9lidas de racionalidade que o livravam do labirinto das c\u00e2maras dos \u00e1trios e ventr\u00edculos daquele monstro sentimental que pulsava na cavidade de seu t\u00f3rax. Ele n\u00e3o concebia a ideia de ter um cora\u00e7\u00e3o, apenas um c\u00e9rebro. Seguinte ao pequeno descarrilamento emocional, retornava a seus afazeres, se inteirando em c\u00e1lculos e bebericando conhaque em negocia\u00e7\u00f5es com outros poderosos. Voltava a esvaziar as necessidades de homem em bord\u00e9is com gorjetas mesquinhas e n\u00e3o beijava a boca das putas. Substituiu os dentes naturais por dentes de ouro eg\u00edpcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora tentasse fugir dessas raras mulheres feiticeiras, houve uma delas que fatalmente o envolveu em um v\u00e9u de brumas aqu\u00e1ticas. Quando deu por si, estava se deitando com ela em meio a inc\u00eandios oce\u00e2nicos que repartiam Netuno em dois e \u00e1speros pedregulhos vigiados por cascav\u00e9is que avisavam com seus guizos plut\u00f4nicos que, frutos f\u00e9rteis e lun\u00e1ticos, estavam quase ca\u00eddos dos p\u00e9s. A feiticeira estendia seu efeito desagrad\u00e1vel tamb\u00e9m sobre seus gatos, que em noites enluaradas estranhamente tomavam formas de enormes lobos, uivando insaci\u00e1veis. Os gatos, transmutados em lobos, sumiam na escurid\u00e3o e traziam consigo, na manh\u00e3 do dia seguinte, embutidas dolorosamente em seus membros ainda intumescidos, delicadas f\u00eameas andorinhas. Ele ficava horrorizado com tamanho espet\u00e1culo e esguichava \u00e1gua fria para que seus gatos deixassem de ser lobos e as f\u00eameas partissem, incumbidas de bicarem sozinhas suas feridas. N\u00e3o se solidarizava com a dor alheia. Ademais, ele estava ranzinza a maior parte do tempo. Ora porque a feiticeira n\u00e3o estava por perto, ora porque ela se ausentava. Ansiava em ter sua sobriedade de volta, embora soubesse que o pre\u00e7o a pagar seria alto. Teria de expelir todo o carmim de suas paredes para revesti-las novamente com o cinza dos bord\u00e9is e dos n\u00fameros certeiros de seu livro de contas. Al\u00e9m disso, os gatos pareciam conspirar contra ele quando n\u00e3o transfigurados em lobos. Quando ele come\u00e7ava com suas especula\u00e7\u00f5es taciturnas sobre as implica\u00e7\u00f5es negativas acerca da feiticeira, os bichanos bocejavam modorrentos. Desde que haviam experimentado os press\u00e1gios m\u00e1gicos da Lua Cheia eles observavam sua soturnidade com audaz desprezo e aben\u00e7oavam a entrada daquela mulher bruxa em suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal ele sabia que os gatos haviam desenvolvido o desagrad\u00e1vel h\u00e1bito de espionar suas noites de vol\u00fapia com a feiticeira, que dominava a arte do amor e entregava despudorada cada nuance de seu corpo quente. Ela engatinhava pelo quarto como uma pantera e colhia seu s\u00eamen em uma ta\u00e7a de ouro.\u00a0 Quando ela fazia isso, os gatos que estavam espionando pelo v\u00e3o da porta, ficavam de pelos eri\u00e7ados e salivavam inebriados. Para ele, aquelas foram noites guiadas por um deus \u00e9brio de V\u00eanus e nada daquilo lhe soava linear. A passagem arrastada do tempo o deixava Saturno. Decidiu que era a hora de findar aquela desgra\u00e7a. Ap\u00f3s uma noite ardente, ele acordou e sentiu falta da feiticeira ao seu lado. Foi procur\u00e1-la pela casa e flagrou-a dando seu s\u00eamen de beber aos gatos. Eles lambiam a ta\u00e7a de ouro e amea\u00e7avam transformar-se em lobos. No lugar dos cabelos escuros e sedosos da mulher, brotaram-lhe serpentes que ondulavam sensualmente amea\u00e7ando o picar nos olhos para que ficasse cego. Ele come\u00e7ou a gritar apavorado, ordenando que Medusa fosse embora e que levasse com ela as serpentes e aqueles gatos-lobos repugnantes. E assim foi. Para disfar\u00e7ar a sensa\u00e7\u00e3o de perda ele iniciou uma cria\u00e7\u00e3o de cabras. Elas talvez lhe pudessem render calmaria e algum trocado com o leite que produziam. Nutria uma raiva sombria daquela mulher que surgiu em sua vida para levar o que mais de precioso ele tinha: os gatos. E sua inconfess\u00e1vel presen\u00e7a de bruxa. A dor dos ossos do joelho se tornou violenta como uma maldi\u00e7\u00e3o. Em vez de surgir em meio \u00e0s tempestades, ela agora anunciava sua presen\u00e7a nas noites de Lua Cheia. Enquanto lobos uivavam ao longe, primeiro partiram-se as juntas e depois os ossos de seus joelhos. Os dentes de ouro de sua boca derreteram-se como argamassa, grudando seus bei\u00e7os definitivamente. Ele morreu de hipotermia, julgando escutar lobos af\u00f4nicos uivando l\u00e1 longe, enquanto suas cabras pastavam tranquilamente na colina. Jamais derrubou l\u00e1grima sequer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Domingo maravilhoso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A madrinha arrumou-se com vaidade para participar das costumeiras novenas de quarta-feira que dona Neide, uma senhora ucraniana, grandalhona e azeda organizava na garagem de seu filho. Ordenou \u00e0 afilhada para que tomasse conta do cachorro e da casa, que logo voltaria para prepararem o jantar e arrumarem as fotografias da parentada. Estava um morma\u00e7o por causa do extenuante calor e a afilhada estava deitada, lendo tranquilamente na rede da \u00e1rea, quando em meia hora a madrinha voltou para casa ofegante, dizendo que havia sa\u00eddo no jornal local a not\u00edcia mais fant\u00e1stica do mundo: na par\u00f3quia onde ela assistia \u00e0s missas de domingo, atra\u00eddo pelos miados medrosos de seu gato, o padre entrou correndo na nave pensando tratar-se de um assalto, quando viu as chamas das velas num fogar\u00e9u ati\u00e7ad\u00edssimo, quase atingindo a c\u00fapula da par\u00f3quia. Os santos todos flutuando sobre a mesa do altar. A madrinha em \u00eaxtase infantil, exibindo as pontes d\u2019ouro dos dentes enquanto sorria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aos anjos de Ana Cristina Cesar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>20 de agosto de 2010<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando vi o porteiro, contrariei as regras sociais todas e pedi para que ele me desse um abra\u00e7o, na \u00e2nsia de consolo para a argamassa de ru\u00ednas que eu fechava atr\u00e1s de mim no port\u00e3o do pr\u00e9dio. Vesti-me de puta para agradar aquele homem. Puta mesmo, capa de chuva e nada por baixo, apenas as botas de cano alto. Quase cinco anos encarnando a personifica\u00e7\u00e3o venusiana de um espancador de psiques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>16 de dezembro de 2000<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A v\u00f3 ficou preocupad\u00edssima porque sa\u00ed de casa \u00e0s 2h da manh\u00e3 com uma turma para ver o sol nascer no aeroporto. O carro de meu amigo estacionado na frente de sua casa e AC\/DC no \u00faltimo volume a deixaram horrorizada. Eu carregava na mochila \u201cO apanhador no campo de centeio\u201d e \u201cA hora da estrela\u201d. O sol nasceu lindo naquele dia. N\u00e3o me deixei ser beijada por W. N\u00e3o queria ser beijada naquela manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>23 de setembro de 1999<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">M. e Carlos disseram-me para que eu n\u00e3o chorasse. Deram-me um baseado enrolado com muito amor e serviram-me vodka no maior copo de pl\u00e1stico. Carlos p\u00f4s um gomo de mexerica e mexeu a bebida com um galho de \u00e1rvore. Est\u00e1vamos na pracinha perto de minha casa. O namorado de M. dormia sobre um banco que n\u00f3s duas j\u00e1 hav\u00edamos urinado, b\u00eabadas. Senti-me em comunh\u00e3o com o mundo compartilhando olhares c\u00famplices com minha primeira amiga de Escorpi\u00e3o. O busto do marechal piscou para a cadela no cio que revirava os lixos. O sangue dela pingando na cal\u00e7ada, que o absorvia como nanquim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11 de junho de 2011<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plant\u00e3o da cl\u00ednica veterin\u00e1ria, 22h, com as m\u00e3os e o rosto cheios de excrementos de meu cachorro que estava morto, sendo em v\u00e3o reanimado na sala de emerg\u00eancia. Joguei-me nos bra\u00e7os do guardi\u00e3o, dizendo a ele que a \u00fanica coisa que poderia fazer por mim era me abra\u00e7ar. Tamb\u00e9m sujei suas roupas com o excremento de meu cachorro e o cheiro n\u00e3o enojou nenhum de n\u00f3s, pois fomos humanos e sab\u00edamos que havia muito mais em jogo. Antes disso, quase lanhei o rosto do taxista que quis cobrar-me a lavagem do banco do carro. Disse-me que havia perdido todas as corridas da noite com a morte de meu cachorro em seu autom\u00f3vel. Atirei uma nota de cinquenta reais em sua cara. Disse que no outro dia daria mais. Estava prestes a saltar sobre ele, pantera e m\u00e3e. Expus sua vergonha capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 de setembro de 1998<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca havia me sentido t\u00e3o feliz e parte de alguma coisa. N\u00f3s dois nos am\u00e1vamos e um de nossos jogos favoritos era transmitir por pensamentos a cor da roupa de cada um enquanto convers\u00e1vamos por telefone. Sempre acert\u00e1vamos. Nossos amigos escutavam Garotos Podres, ensaiavam no por\u00e3o da casa de Rodrigo e, nas horas vagas, jogavam cartas. Eu aproveitava tudo at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o. Sabia que aquilo um dia viraria mem\u00f3ria, eu n\u00e3o seria a noiva carregando flores de pitangueiras na catedral, ent\u00e3o, parte de mim j\u00e1 despeda\u00e7ava-se antes do tempo previsto, antecipando crises e passeios no cemit\u00e9rio municipal. N\u00e3o perdi minha virgindade com B. Sentei-me em l\u00e1pides e conversei com mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>24 de maio de 2000<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava tentando gostar de Megadeth, por indica\u00e7\u00e3o de uma amiga que era apaixonada por eles. Ela era loira, com o cabelo ondulado gigante, caindo at\u00e9 seu magro quadril. Uma sereia simbolista. Em seu queixo havia algumas espinhas, o que estranhamente tornava-a mais charmosa e valente. Eu tentava ser vocalista de uma banda punk das meninas ricas do col\u00e9gio. \u201cCasa de bonecas\u201d.\u00a0 N\u00e3o pude seguir as penosas ordens das donas dos instrumentos e locais de ensaio, exigindo de mim uma disciplina de convento. Eu n\u00e3o era uma boneca. Eu n\u00e3o tinha casa. No fim, afastaram-se de mim, por ser \u201cm\u00e1 influ\u00eancia\u201d. Julio havia tomado muitos Benflogin e conversava com uma vaca que estava sentada no banco de tr\u00e1s, ao meu lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12 de junho de 1988<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de not\u00edcias suas atirou-me na gruta dos perdidos escandalosos por migalhas da sua boca que me navalha. Da sua aus\u00eancia que me espica\u00e7a. Enterrei o peixe <em>petit po\u00e1<\/em> junto com o canarinho Kenny G.\u00a0 A tartaruguinha de Carolina perdida no acidente de carro. Exorcizar fantasmas alheios e atent\u00f3rios d\u00f3i. Frustra\u00e7\u00f5es atiradas como sacos de gelo sobre uma alma quente, por\u00e9m destemperada. Incendiando nas labaredas de para\u00edsos manique\u00edstas. Carolina levava-me ao cinema e dorm\u00edamos no banheiro, assistindo a v\u00e1rias exibi\u00e7\u00f5es escondidas, de gra\u00e7a. Nossos corpos vicejados foram atravessados por um raio. Carolina cantou para mim. Voc\u00ea vomitou no BH Lanches. A cicatriz no ventre de sua m\u00e3e \u00e9 profecia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Priscila Merizzio<\/em><\/strong><em> \u00e9 curitibana. Editora convidada da Germina \u2014 Revista de Literatura &amp; Arte. Tem textos publicados em jornais, revistas liter\u00e1rias e antologias brasileiras e estrangeiras. Participou da Bienal Internacional de Curitiba de 2013 e outras exposi\u00e7\u00f5es e mostras. \u00c9 uma das organizadoras da Antologia 29 de abril \u2013 o verso da viol\u00eancia (ed. Patu\u00e1, 2015). Minimoabismo (ed. Patu\u00e1, 2014) \u00e9 seu livro de estreia e foi semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos 2015.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmentos humanos na prosa de Priscila Merizzio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2972,2534],"tags":[3003,419,41,3002,1934,3000,3001],"class_list":["post-11707","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-109a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-aos-anjos-de-ana-cristina-cesar","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-domingo-maravilhoso","tag-germina","tag-priscila-merizzio","tag-uma-historia-escrita-com-a-ampulheta-de-cronos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11707"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11798,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11707\/revisions\/11798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}