{"id":11959,"date":"2016-06-06T12:07:21","date_gmt":"2016-06-06T15:07:21","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11959"},"modified":"2016-06-09T17:07:55","modified_gmt":"2016-06-09T20:07:55","slug":"drops-da-setima-arte-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/drops-da-setima-arte-25\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mad Max: Estrada da F\u00faria (Mad Max: Fury Road). Austr\u00e1lia\/EUA. 2015<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CartazM.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11965\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CartazM.jpg\" alt=\"Madmax\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CartazM.jpg 304w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CartazM-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mad Max: Estrada da F\u00faria<\/em>, de George Miller, foi realmente a maior surpresa do cinema de 2015. Quarto filme de uma franquia que tem muitos f\u00e3s, mas foi subestimada pela cr\u00edtica especializada, este \u00faltimo epis\u00f3dio, no entanto, recebeu uma aclama\u00e7\u00e3o generalizada e esteve presente em praticamente todas as listas de melhores filmes do ano passado, inclusive das mais prestigiosas revistas, tais como Cahiers du Cinema (5\u00ba lugar) e Sound and Sight (3\u00ba lugar). Em 2016, tornou-se o filme mais premiado do Oscar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mad Max<\/em> iniciou por ser uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dist\u00f3pica de comparativo baixo or\u00e7amento (380 mil d\u00f3lares), mas que rendeu mais de 150 milh\u00f5es nas bilheterias no filme de estreia. Esse filme, criado ainda nos anos 70, narra um futuro p\u00f3s-apocal\u00edptico dominado por gangues violentas. Desde o in\u00edcio, os autom\u00f3veis t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o de protagonistas, como m\u00e1quinas mort\u00edferas. George Miller, antes de se tornar diretor, era um m\u00e9dico de hospital na Austr\u00e1lia que atendeu a v\u00e1rios acidentados e perdeu amigos em desastres de carros. Vivia-se na \u00e9poca sob os efeitos da crise do petr\u00f3leo e da \u201crevolu\u00e7\u00e3o conservadora\u201d. Toda a s\u00e9rie oscila entre certo fasc\u00ednio m\u00f3rbido pelo autom\u00f3vel e, ao mesmo tempo, como um libelo contra sua exist\u00eancia. O autom\u00f3vel \u00e9, ainda mais do que o protagonista Max Rocktanski, o her\u00f3i e o vil\u00e3o dos filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formalmente, o filme ganhou fama por sustentar uma est\u00e9tica \u201cthrash\u201d, de filme \u201cB\u201d, de uma rudeza cinematogr\u00e1fica semipunk. Poder\u00edamos chamar essa est\u00e9tica de \u201cbrutalista\u201d. O primeiro filme (1979) se assemelha a um \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d tosco, realizado com poucos recursos, e abordando uma sociedade sem lei. Miller se mirou na cinematografia dos filmes mudos e fez um enredo de poucos di\u00e1logos para apresentar um cen\u00e1rio ainda mais desumanizante e com muita viol\u00eancia, quase sempre ins\u00f3lita e desmotivada, o que fez alguns cr\u00edticos o denunciarem como contendo uma est\u00e9tica fascistoide, o que nunca foi inten\u00e7\u00e3o de Miller. Os outros dois filmes da s\u00e9rie (em 1981 e 1985) tiveram maior or\u00e7amento e foram realizados dentro de uma crescente espetaculariza\u00e7\u00e3o c\u00eanica, transformando-se em sucessos comerciais e parecendo saturar sua f\u00f3rmula cinematogr\u00e1fica ainda nos anos 80.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Estrada da F\u00faria<\/em> \u00e9 o \u201crenascimento da franquia\u201d (o termo \u00e9 de seu diretor e roteirista) exatos 30 anos depois que prop\u00f5e uma nova s\u00edntese est\u00e9tica que espantou os cr\u00edticos e desnorteou seus admiradores. Uma de suas principais virtudes \u00e9 Miller ter se recusado a realizar um \u201cretorno \u00e0s ra\u00edzes\u201d, ou a rescrever o primeiro filme de outra forma (\u201c<em>remake<\/em>\u201d), como fez o decepcionante The Force Awakens, da s\u00e9rie Guerra das Estrelas, apenas uma vers\u00e3o \u201cs\u00e9culo XXI\u201d do filme inicial. O novo filme da franquia <em>Mad Max<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas o \u201cmais do mesmo\u201d, mas segue uma nova e radical concep\u00e7\u00e3o que atualiza a s\u00e9rie para novas dire\u00e7\u00f5es, fortemente politizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00edntese est\u00e9tica que Miller prop\u00f5e n\u00e3o \u00e9 um retorno \u00e0 rudeza b\u00e1sica de baixo custo do filme de abertura, mas \u00e9 subir no n\u00edvel de espetaculariza\u00e7\u00e3o (\u00e9 o filme mais caro) e lev\u00e1-la para um patamar de excesso audiovisual, n\u00e3o propriamente kitsch ou \u201cthrash\u201d, mas de \u201cgrotesco espetacular\u201d, ou \u201chipergrotesco\u201d, um excedente imag\u00e9tico-sensorial que a todo momento perturba a ordem <em>blockbuster<\/em> da realiza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica do filme de a\u00e7\u00e3o comercial. Importante anotar que a obra \u00e9 fruto de um trabalho de mais de dez anos (desde 2003), tendo sido concebida, escrita e reescrita pelo pr\u00f3prio diretor e com v\u00e1rios atores diferentes convidados para fazer o papel de Max, j\u00e1 que Mel Gibson desde o in\u00edcio se recusou a continuar na s\u00e9rie. Mesmo depois de tudo acertado em 2010 (com Tom Hardy como protagonista), a produ\u00e7\u00e3o ainda envolveu outros longos 5 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11966\" aria-describedby=\"caption-attachment-11966\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Destaque-Charlize-Theron-texto-um.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11966 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Destaque-Charlize-Theron-texto-um.jpg\" alt=\"Charlize Theron\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Destaque-Charlize-Theron-texto-um.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Destaque-Charlize-Theron-texto-um-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11966\" class=\"wp-caption-text\">Charlize Theron em Mad Max \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Wasteland<\/em> aparece neste novo filme como um cen\u00e1rio realmente p\u00f3s-apocal\u00edptico que sucede um grande desastre nuclear. Max \u00e9 apenas mais um dos que procuram desesperadamente sobreviver. Ele \u00e9 capturado logo no in\u00edcio pelos \u201cGarotos da guerra\u201d (<em>War boys<\/em>) e se torna uma \u201cbolsa de sangue\u201d, um doador universal, que fornece sangue a um garoto doentio, Nux que como seus pares est\u00e1 sempre \u201ctrincado\u201d. Ele \u00e9 obrigado a sair com este e sua gangue atr\u00e1s da Imperatriz Furiosa que sequestrou um Caminh\u00e3o de guerra para libertar as parideiras do cativeiro sexual do terr\u00edvel l\u00edder Immortan Joe, que domina a miser\u00e1vel popula\u00e7\u00e3o sobrevivente pelo controle da \u00e1gua. Max consegue, no entanto, \u201cmudar de lado\u201d, se alia \u00e0s mulheres fugitivas e o filme inteiro ser\u00e1 essa longa fuga motorizada e sanguin\u00e1ria pelo meio de des\u00e9rticas e destru\u00eddas paisagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse enredo simples e dist\u00f3pico, <em>Estrada da F\u00faria<\/em> bem poderia se chamar de \u201cBem vindos ao deserto do Antropoceno\u201d. O filme \u00e9 cinematograficamente uma intensa alegoria audiovisual desse processo terminal de destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e rarefa\u00e7\u00e3o absoluta dos ecossistemas que desertificam, com a escassez das variedades naturais, sobretudo da \u00e1gua, extin\u00e7\u00e3o acelerada das esp\u00e9cies, tudo isso acompanhado pela implos\u00e3o civilizacional com fascistiza\u00e7\u00e3o do poder, com a guerra permanente, com o dom\u00ednio das m\u00e1quinas que se tornam mais importantes do que a humanidade, e com a regress\u00e3o pol\u00edtica para enclaves feudais e tir\u00e2nicos. A grande sacada do filme \u00e9 trazer pela alegoria barroca do hipergrotesco e do brutalismo espetacular a distopia para o centro do contempor\u00e2neo, pois como tantos bons filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica o futuro \u00e9 apenas encenado como pretexto para discutir o presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller consegue isso polarizando os eixos de oposi\u00e7\u00f5es nos quais o filme se estrutura: a \u00e1gua contra a gasolina, a fuga contra a tirania, a sobreviv\u00eancia contra o parasitismo, o deserto contra a cidadela, o solit\u00e1rio contra as gangues, o leite contra o sangue, o poder feminino contra o patriarcado e o caminh\u00e3o contra o autom\u00f3vel. \u00c9 claro que, como filme de a\u00e7\u00e3o, a narrativa tende para o manique\u00edsmo e para a oposi\u00e7\u00e3o simples entre os contr\u00e1rios, mas certas nuances tornam mais complexa a trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, a luta entre o caminh\u00e3o de guerra, conduzido pela Imperatriz com as parideiras, e os in\u00fameros autos e motocicletas que o perseguem pelo deserto. O caminh\u00e3o aqui \u00e9 o signo da coletividade e do \u201ctrabalho\u201d enquanto os demais ve\u00edculos s\u00e3o signos do individualismo e da competi\u00e7\u00e3o. O caminh\u00e3o une e re\u00fane as fugitivas e o fugitivo, enquanto a mir\u00edade de ve\u00edculos dispersam seus inimigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a polariza\u00e7\u00e3o mais intensa, dial\u00e9tica e importante \u00e9, sem d\u00favida, a luta entre o poder feminino coletivo e o patriarcado desp\u00f3tico e fascista. Curiosamente, muitos f\u00e3s originais da s\u00e9rie sentiram-se decepcionados porque o her\u00f3i natural da franquia, Max, \u00e9 tornado um mero coadjuvante dessa luta principal. Mas esse deslocamento \u00e9 que traz o principal interesse pol\u00edtico \u00e0 obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11967\" aria-describedby=\"caption-attachment-11967\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Charlize-Theron-direita-na-pele-da-Imperatriz-Furiosa-texto-dois.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11967 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Charlize-Theron-direita-na-pele-da-Imperatriz-Furiosa-texto-dois.jpg\" alt=\"This photo provided by Warner Bros. Pictures shows, from left, Abbey Lee as The Dag, Courtney Eaton as Cheedo the Fragile, Zoe Kravitz as Toast the Knowing, Charlize Theron as Imperator Furiosa and Riley Keough as Capable, in Warner Bros. Pictures\u0092 and Village Roadshow Pictures\u0092 action adventure film, \u0093Mad Max:Fury Road,&quot; a Warner Bros. Pictures release. (Jasin Boland\/Warner Bros. Pictures via AP)\" width=\"500\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Charlize-Theron-direita-na-pele-da-Imperatriz-Furiosa-texto-dois.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Charlize-Theron-direita-na-pele-da-Imperatriz-Furiosa-texto-dois-300x194.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11967\" class=\"wp-caption-text\">Charlize Theron (direita) na pele da Imperatriz Furiosa \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Imperatriz Furiosa (vivida por Charlize Theron) \u00e9 uma guerrilheira que parece sa\u00edda do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway (o filme todo parece uma reflex\u00e3o cinematogr\u00e1fica sobre a obra da bi\u00f3loga e fil\u00f3sofa americana): com sua pr\u00f3tese manual, ela parece gozar dessa t\u00edpica indistin\u00e7\u00e3o de fronteiras entre o inorg\u00e2nico e o vital, entre o humano e a m\u00e1quina e entre o masculino e o feminino. Mas Imperatriz Furiosa \u00e9 essencialmente uma guerrilheira mulher que sabota o patriarcado tir\u00e2nico para dar fuga \u00e0s parideiras da Cidadela, mulheres cativas que parem os filhos de Immortan Joe, e trazer-lhes a \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d, palavra que tem um sentido especial no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Immortan Joe, o tirano, parece, por sua vez, sa\u00eddo diretamente da obra freudiana. Ele \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o do mito do \u201cPai da horda primordial\u201d. \u00c9 como se George Miller quisesse mostrar que a regress\u00e3o pol\u00edtica p\u00f3s-capitalista conduz a esse Pai m\u00edtico primordial que estupra e mant\u00e9m em cativeiro as mulheres, servindo-se de seus corpos e de seu leite, para recriar a horda como seus filhos bastardos, pois h\u00e1 a sugest\u00e3o que todos os Garotos de guerra s\u00e3o seus filhos. A regress\u00e3o pol\u00edtica dist\u00f3pica ent\u00e3o \u00e9 um retorno ao patriarcado mais primal que mant\u00e9m a ordem matriarcal e filial sob sequestro e permanente terror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, \u00e9 Imperatriz Furiosa (insuspeit\u00e1vel guerreira cativa do ex\u00e9rcito de Immortan Joe) a verdadeira protagonista do filme e o desvio de rota que ela induz ao manejar com mestria o caminh\u00e3o de guerra \u00e9 uma fuga do patriarcado, do cativeiro e uma busca por reden\u00e7\u00e3o. A associa\u00e7\u00e3o das mulheres com Max, no entanto, n\u00e3o se d\u00e1 naturalmente, mesmo sendo este apenas outro prisioneiro cativo. Um dos elementos dramat\u00fargicos mais interessantes no filme \u00e9 justamente a aproxima\u00e7\u00e3o entre essas duas lutas de sobreviv\u00eancia, de Max e das mulheres parideiras. A princ\u00edpio, h\u00e1 uma hostilidade e mesmo uma disputa entre as partes e quando se v\u00ea livre, em sua busca desesperada para sobreviver, Max ir\u00e1 desafiar, brigar e amea\u00e7ar as mulheres. Afinal, ele pr\u00f3prio \u00e9 um representante do poder masculino patriarcal e n\u00e3o tem a confian\u00e7a das fugitivas, nem ele tem delas. Entretanto, a disputa tensa entre as partes se resolve com a consci\u00eancia de que uma alian\u00e7a entre as parideiras e o homem fugitivo \u00e9 a \u00fanica possibilidade de sobreviv\u00eancia para todos. Mais tarde ao grupo tamb\u00e9m se incluir\u00e1, por alian\u00e7a, um dos Garotos de guerra, Nux.\u00a0 \u00c9 este jogo de alian\u00e7as dif\u00edceis, mas estrat\u00e9gicas, um dos elementos pol\u00edticos mais importantes desse enredo. <em>Estrada da F\u00faria<\/em> nos fala que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel enfrentar um sistema desp\u00f3tico sem fazer alian\u00e7as estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_11968\" aria-describedby=\"caption-attachment-11968\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Tom-Hardy-como-Max-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-texto-tr\u00eas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11968 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Tom-Hardy-como-Max-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-texto-tr\u00eas.jpg\" alt=\"Tom Hardy como Max \" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Tom-Hardy-como-Max-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-texto-tr\u00eas.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Tom-Hardy-como-Max-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-texto-tr\u00eas-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11968\" class=\"wp-caption-text\">Tom Hardy como Max \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra alian\u00e7a \u00e9 constru\u00edda entre o grupo fugitivo e as Vulvalini, guerrilheiras mulheres que encontram os fugitivos no meio do deserto, onde supostamente deveria estar o \u201cLugar Verde\u201d, terra id\u00edlica onde cessaria a fuga e terra da inf\u00e2ncia de Imperatriz que foi sequestrada enquanto crian\u00e7a. Essas guerrilheiras, \u00fanicas sobreviventes da destrui\u00e7\u00e3o local, s\u00e3o uma clara refer\u00eancia \u00e0s guerrilheiras curdas, hero\u00ednas da guerra da S\u00edria. Elas se juntam para fugir com a trupe e procurar outro para\u00edso verde sobre a Terra, mas sem Max que segue para outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos momentos mais tensos do roteiro \u00e9 quando Max reencontra as mulheres em fuga para lhes convencer a retornar \u00e0 Cidadela j\u00e1 que esta se encontra indefesa, pois afinal a Cidadela tem \u00e1gua e vegeta\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o mantidas sobre o controle do tirano. Esse retorno n\u00e3o seria extremamente arriscado e contradit\u00f3rio para a l\u00f3gica emancipat\u00f3ria do filme que coloca a reden\u00e7\u00e3o sob a forma de uma fuga constante? Mesmo o argumento de Max de que n\u00e3o h\u00e1 mais para\u00edso sobre a Terra, apenas plan\u00edcies des\u00e9rticas, n\u00e3o parece realmente convincente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez pud\u00e9ssemos entender essa solu\u00e7\u00e3o \u2013 que ter\u00e1 consequ\u00eancias tr\u00e1gicas &#8211; como algo mais do que uma maneira de tornar o roteiro dram\u00e1tico. Voltando a Donna Haraway, um dos seus maiores temas \u00e9 \u201clutar na barriga do monstro\u201d. N\u00e3o \u00e9 a decis\u00e3o de retornar \u00e0 Cidadela, por tr\u00e1gica que seja, exatamente o passo para abandonar a l\u00f3gica do ex\u00edlio e da fuga e voltar a lutar na barriga do monstro e nos centros das cidades? Pois, se h\u00e1 um sentido poss\u00edvel para as batalhas a serem travadas neste fim do Antropoceno, que alguns tamb\u00e9m chamam de Capitaloceno, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 fuga poss\u00edvel de nossos mais cr\u00edticos problemas e de nossos mais poderosos inimigos neste planeta finito.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NH5TpcVaqCQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em>, carioca, \u00e9 engenheiro e escritor. \u00c9 autor de Capoeiragem (7Letras\/2003) e Extrema L\u00edrica (Ed. Oito e Meio\/2014), e um dos organizadores do coletivo liter\u00e1rio Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das tr\u00eas colet\u00e2neas lan\u00e7adas pelo grupo. Atualmente, \u00e9 doutorando em Teoria Liter\u00e1ria da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproxima\u00e7\u00e3o entre Literatura e Ci\u00eancia. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um pr\u00eamio de cr\u00edtica liter\u00e1ria do Grupo Esta\u00e7\u00e3o e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mais recente sequ\u00eancia do filme \u201cMad Max\u201d \u00e9 alvo das anota\u00e7\u00f5es de Guilherme Preger<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3021,16,2535],"tags":[3036,115,13,3035,1204,3034,3037],"class_list":["post-11959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-110a-leva","category-destaques","category-drops-da-setima-arte","tag-charlize-theron","tag-cinema","tag-drops-da-setima-arte","tag-george-miller","tag-guilherme-preger","tag-mad-max-estrada-da-furia","tag-tom-hardy"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11959"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12070,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11959\/revisions\/12070"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}