{"id":11980,"date":"2016-06-07T12:13:52","date_gmt":"2016-06-07T15:13:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11980"},"modified":"2016-07-08T18:08:38","modified_gmt":"2016-07-08T21:08:38","slug":"dedos-de-prosa-iii-44","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-44\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Roberta Silva<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_11982\" aria-describedby=\"caption-attachment-11982\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalatini.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11982 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalatini.jpg\" alt=\"suzanalatini\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalatini.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalatini-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11982\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Suzana Latini<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Lament\u00e1vel fim da fam\u00edlia de Dr. Conrado, o Benem\u00e9rito<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moro numa daquelas casas que rodeiam o belo Central Park, nome atual do antigo parque da Colina, \u00e1rea nobre de nossa pequena e antiquada cidade. Ao redor desse parque, a nata de nossa sociedade. Fam\u00edlias invejavelmente bem sucedidas e felizes que passam os domingos fazendo piqueniques no verde gramado do parque, como este fosse, e \u00e9, uma extens\u00e3o de seus jardins. Nossa cidade \u00e9 pr\u00f3spera, apesar da pequenez e pacata, apesar da rotina e grande distanciamento social entre as classes. Somos pac\u00edficos e cat\u00f3licos e isto nos basta. Durante muitos anos, somente dois acontecimentos causaram esc\u00e2ndalo entre o seleto grupo dos moradores do parque. O primeiro foi minha mudan\u00e7a para c\u00e1. Eu, Maria da Piedade, ou Pi\u00ea, como era chamada no posto de sa\u00fade em que trabalhava como atendente de farm\u00e1cia, filha de m\u00e3e solteira, herdei esta casa de meu pai, um ilustre personagem pol\u00edtico da cidade. Seu desejo \u00faltimo foi redimir-se de sua omiss\u00e3o deixando para mim todos os bens que possu\u00eda. Nos primeiros anos fui apontada por meus vizinhos na rua e no parque e, primeiro por causa de uma exclus\u00e3o descarada, depois, por convic\u00e7\u00e3o, passei a aproveitar os domingos na janela a observar o bal\u00e9 social, no qual bailam e representam nossa tosca com\u00e9dia as pessoas respeit\u00e1veis de nossa sociedade. Deixaram de falar de mim ap\u00f3s a morte de Dr. Conrado, o benem\u00e9rito. Morte lament\u00e1vel, mas n\u00e3o tanto quanto o lament\u00e1vel fim de sua fam\u00edlia, que aconteceu ap\u00f3s a tr\u00e1gica morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dr. Conrado era um advogado conhecido. Bonito, jovem, culto, bem sucedido. Era casado com uma mulher bela, jovem, culta, extremamente t\u00edmida, excelente dona de casa e pai de tr\u00eas ador\u00e1veis, educad\u00edssimas e tamb\u00e9m belas crian\u00e7as, o primog\u00eanito e duas meninas. Eram invejados pelos vizinhos, inveja branca dizia-se, daquela que n\u00e3o se deseja o mal. Exemplo vivo de uma fam\u00edlia perfeita. Durante as tardes de domingo, no parque, estavam sempre rodeados de amigos. Seus quitutes eram fartos e os mais saborosos, a conversa deles era a mais agrad\u00e1vel e suas crian\u00e7as nunca davam um pingo de trabalho. Quando as m\u00e3es tinham de ralhar com seus filhos por terem cutucado os peixes do lago com espetos ou darem rasteiras nas bengalas dos velhinhos, quando uma esposa descontente cobrava do marido um pouco mais de zelo ou um marido, cansado das lam\u00farias da mulher, desejava secretamente que a dita engolisse a l\u00edngua e se calasse numa crise convulsiva de auto sufocamento recorriam \u00e0 imagem da fam\u00edlia de Dr. Conrado como exemplo a ser seguido, meta a ser atingida. Eram assunto tamb\u00e9m, nas rodas, as diversas obras de caridade que patrocinavam e as gordas doa\u00e7\u00f5es nos jantares beneficentes feitos por ele e sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como num conto de fadas invertido, essa era uma hist\u00f3ria feliz que tivera um triste final. A princ\u00edpio notaram que o jardim de Sra. Conrado n\u00e3o estava mais impec\u00e1vel. Ervas daninhas proliferavam a olhos vistos e depois estas substitu\u00edram definitivamente os lugares de destaque das folhagens nobres. O pior era que isso n\u00e3o acontecera por falta de zelo, tristeza recolhida ou luto. Parecia que a jovem vi\u00fava estava dando os primeiros sinais de enlouquecimento. Fora flagrada diversas vezes cultivando os capins, carrapichos e ervas de passarinho no que agora n\u00e3o era mais uma p\u00e1lida sombra do lindo jardim de antes. Pararam de frequentar o parque aos domingos. O filho mais velho, depois que adolescera, perdeu-se completamente. Fazia teatro de rua, pintava os cabelos de cores vivas e os olhos e as unhas de preto. Viam-no circular com um colega um tanto afeminado diversas vezes pelo bairro em conversinhas purpurinadas, tr\u00f4pegas e cheias de risinhos. A filha do meio vestia-se \u00e0 moda dos novos hippies e vivia acompanhada de pessoas que n\u00e3o condiziam com sua classe social. A ca\u00e7ula ainda trazia muito dos modos de antes da morte tr\u00e1gica de seu pai, mas temiam cedo ou tarde contaminar-se tamb\u00e9m com o caos que se instalara no seio daquele lar. No seu andar, apesar de ainda elegantemente vestida, notava-se um leve desleixo nos movimentos, um desleixo que n\u00e3o se permitiria antes, visto que era, dos tr\u00eas, a mais elegante. Pela aus\u00eancia demorada aos piqueniques de domingo descartaram a possibilidade do luto familiar, pois saiam todos, nesses dias, animados em seus novos trajes, rumo a um programa desconhecido al\u00e9m das fronteiras do rico boulevard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela janela presenciei a chegada de um caminh\u00e3o de mudan\u00e7a que parou \u00e0 porta da casa da fam\u00edlia de Dr. Conrado. O <em>grand-finale<\/em> deste esc\u00e2ndalo ser\u00e1 quando descobrirem que Sra. Conrado est\u00e1 de mudan\u00e7a. Com a fam\u00edlia, mudar\u00e1 para outro lado da cidade para amasiar-se com um livreiro comunista e p\u00e9 rapado com quem ela havia tido um pequeno <em>affair<\/em> na juventude. Superar\u00e1, por certo, em <em>pontos de audi\u00eancia<\/em> a not\u00edcia da morte do estimado doutor ap\u00f3s ingerir uma sopa de mandioca brava, preparada para ele pela zelosa esposa, naquela tranquila noite de inverno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci Sra. Conrado tempos antes de me mudar para c\u00e1, durante os anos em que ainda trabalhava na farm\u00e1cia de um posto de sa\u00fade afastado. Ela veio pegar gratuitamente os medicamentos receitados pelo doutor do posto em nossa farm\u00e1cia. Ela apresentou-se na portinha apresentando a receita, minha repulsa foi imediata, pois se via logo de cara que era uma mulher que n\u00e3o precisava dos medicamentos gr\u00e1tis que distribu\u00edamos para as pessoas menos afortunadas que eram tratadas ali. Era uma lista enorme, antiinflamat\u00f3rios, antibi\u00f3ticos e ataduras. Ofereceu-se muito constrangida para pag\u00e1-los e senti-me um tanto arrependida pelo julgamento precipitado. Depois daquele dia, ela voltou v\u00e1rias vezes. Comentava-se a boca pequena entre os funcion\u00e1rios a natureza de suas consultas secretas. Ela entrava, \u00e0s vezes s\u00f3, outras acompanhando um dos filhos e depois passava na farm\u00e1cia. Nunca dizia nada e parecia resignar-se ou n\u00e3o perceber os olhares de reprova\u00e7\u00e3o dos outros pacientes e funcion\u00e1rios dali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dia igual a muitos outros, em que ela havia ido ao posto em busca de cuidados e rem\u00e9dios, sem motivos aparentes, ignorando completamente a fila que formara atr\u00e1s de si, come\u00e7ou a falar. Sua voz era baixa e suas palavras polidas e bem escolhidas. Contou-me como algu\u00e9m contaria a um padre em uma extrema-un\u00e7\u00e3o sobre como havia conhecido o marido. Ap\u00f3s um namorico problem\u00e1tico com um colega de escola de n\u00edvel social muito inferior ao dela encontrou-o, rec\u00e9m formado, belo, companheiro e disposto a terminar com suas ang\u00fastias para sempre. Foi o casamento dos sonhos. Pouco depois da lua-de-mel, o marido dera os primeiros sinais que nunca esqueceria que um dia ela havia amado outro homem. Desconfiava de seu amor. Vasculhava suas coisas, seguia-a pelas ruas. Primeiro veio as discuss\u00f5es \u00e0 meia voz para n\u00e3o serem ouvidos pelos empregados. Depois o primeiro tapa, o primeiro soco. A primeira gravidez frustou-se em um aborto devido a um chute que levou na barriga. Tirando a vez em que ele lhe socou a primeira vez, as outras nunca lhe deixaram hematomas que n\u00e3o pudessem ser omitidos por uma blusa, um echarpe, um xale. O m\u00e9dico da fam\u00edlia amea\u00e7ou denunci\u00e1-lo, depois que se esgotaram as desculpas para os ferimentos e infec\u00e7\u00f5es, caso ela n\u00e3o o fizesse pessoalmente. Ela n\u00e3o o procurou mais e nas reuni\u00f5es em que se encontravam convencia-o de que n\u00e3o aconteciam mais aquelas coisas e que estavam todos muito bem e felizes. Al\u00e9m do ci\u00fame, sua excessiva mania de limpeza e perfeccionismo o fazia perder a paci\u00eancia com a menor sombra de poeira ou objeto deixado fora do lugar. Isto era mais f\u00e1cil de controlar antes da chegada das crian\u00e7as, mas depois dela sua vida era uma eterna inspe\u00e7\u00e3o atr\u00e1s de coisas que pudessem desagrad\u00e1-lo. L\u00f3gico que os filhos n\u00e3o podiam acompanhar o cuidado da m\u00e3e. Vez ou outra deixavam cair um talher, manchar um vestido ou soltavam uma risada inoportuna e tamb\u00e9m sofriam com os corretivos do zeloso pai. Ouvi calada e depois a chamei para dentro do meu cub\u00edculo. Atendi as pessoas que esperavam na fila rapidamente e tranquei a portinhola. Conversamos durante algum tempo. Ela dizia que n\u00e3o havia como sair de l\u00e1. Todos iriam ficar contra ela, era imposs\u00edvel imaginar que Dr. Conrado, o benem\u00e9rito, fosse capaz daquelas coisas. Ele mesmo a advertira que a internaria num manic\u00f4mio caso tentasse levantar algum falso sobre sua honra. Ficamos amigas, eu a ouvia, quase todas as semanas, sobre a viol\u00eancia que aquele homem cometia impunemente contra a fam\u00edlia acuada e indefesa. Um dia decidi por tentar ajud\u00e1-la. O filho tinha sido submetido, pela terceira vez, a uma sutura de pontos de um ferimento. O pai tinha por ele uma f\u00faria mais contundente. Dizia que daria \u00e0quele ser pat\u00e9tico uma postura m\u00e1scula e viril nem que para isso tivesse que quebr\u00e1-lo em pancadas. Eu disse \u00e0 minha amiga que tinha como dar a ela um veneno que ela poderia misturar a sua comida e ele morreria rapidamente. Sugeri que ela fizesse uma sopa de mandioca, pois era sabido que esse tipo de alimento vez ou outra causava uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vel\u00f3rio foi preparado com muita pompa pela fam\u00edlia do doutor. Queriam aproveitar a visita rel\u00e2mpago do governador pela cidade e pediram ao diretor do hospital, que era o mesmo que acompanhava a fam\u00edlia do vener\u00e1vel defunto, para que fossem dispensadas as formalidades e que este assinasse o atestado de \u00f3bito o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Foi mais f\u00e1cil que imaginavam e foi, na \u00e9poca, aquele vel\u00f3rio o evento social mais elogiado nas colunas sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Roberta Silva<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 escritora, edita o blogue\u00a0<a href=\"http:\/\/ragimoana.blogspot.com.br\/\"><strong>Ragi Moana<\/strong><\/a>. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.germinaliteratura.com.br\/rsilva.htm\">Germina<\/a>\u00a0<\/strong>e no\u00a0<a href=\"ttp:\/\/escritorassuicidas.com.br\/roberta_silva.htm#.V1RS3vkrLIU\"><strong>Escritoras suicidas<\/strong><\/a>. Faz parte de Dedo de mo\u00e7a \u2014 uma antologia das escritoras suicidas (S\u00e3o Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A marca das revela\u00e7\u00f5es numa narrativa de Roberta Silva <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11981,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3021,2534],"tags":[81,41,3047,3046,3045],"class_list":["post-11980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-110a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-o-benemerito","tag-o-lamentavel-fim-da-familia-de-dr-conrado","tag-roberta-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11980"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11985,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11980\/revisions\/11985"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11981"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}