{"id":11986,"date":"2016-06-07T12:24:47","date_gmt":"2016-06-07T15:24:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=11986"},"modified":"2016-07-08T18:08:45","modified_gmt":"2016-07-08T21:08:45","slug":"aperitivopalavraii-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-9\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estradas feitas para se perder<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Trilogia-do-Asfalto-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11988\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Trilogia-do-Asfalto-2.jpg\" alt=\"Trilogia do Asfalto Capa\" width=\"229\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Trilogia-do-Asfalto-2.jpg 229w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Trilogia-do-Asfalto-2-153x300.jpg 153w\" sizes=\"auto, (max-width: 229px) 100vw, 229px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos efeitos mais audaciosos do exerc\u00edcio narrativo \u00e9 extrair da linguagem uma son\u00e2ncia que repercuta os tra\u00e7os da ambienta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. \u201cVidas secas\u201d, de Graciliano Ramos, \u00e9 um exemplo vigoroso deste emprego conectivo. O romance, que se passa, em grande parte, na geografia desidratada do sert\u00e3o nordestino, empresta desta paisagem a ressequid\u00e3o que constitui sua tessitura, suas frases concisas e esfarelentas. Desde a abertura, a prosa se apresenta destitu\u00edda de vi\u00e7o, compassada pelo demorar dos p\u00e9s que avan\u00e7am quase terra, que se racham quase carne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa plan\u00edcie avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem tr\u00eas l\u00e9guas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, atrav\u00e9s dos galhos pelados da catinga rala\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cTrilogia do asfalto\u201d, o baiano D\u00eanisson Padilha Filho se arrisca na execu\u00e7\u00e3o do mesmo procedimento, e se sai bem. Os contos que comp\u00f5em a breve colet\u00e2nea (dois dos quais previamente premiados) s\u00e3o constru\u00eddos atrav\u00e9s das economias verbal e narrativa, incorporando ao alicerce sem\u00e2ntico a aridez por onde circulam seus personagens. Indiv\u00edduos cobertos pela \u201cpoeira cortante\u201d das estradas, da vida que pretende uma alian\u00e7a com o passado a fim de endireitar a rota para o futuro. O caso \u00e9 que o presente se mostra desgovern\u00e1vel, um progredir que n\u00e3o disp\u00f5e das indica\u00e7\u00f5es devidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEra um c\u00e9u de fotografia. Mas pra quem vive \u00e0 beira daquela rodovia, o azul era tempo encerrado pra chuvas; o calor fazia algo como mutir\u00f5es pesados. Primeiro, o castigo das nove, depois, um mais severo \u00e0s onze. E ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o se via mais ningu\u00e9m andando pelo asfalto. Janelinhas e portas das casas eram bocas ofegantes. Longe, algumas serras tremiam. Um \u00f4nibus parou e ele desceu, s\u00f3 ele, com sua mochila. Parecia n\u00e3o estar muito certo do que acabara de fazer\u201d, assim tem in\u00edcio o rascante \u201cNaquela manh\u00e3 de fogo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conto, um viajante faz uma parada numa venda \u00e0 beira de uma rodovia, gerenciada por um sujeito desolado e seu pai, um velho cego de um olho. Ele se dirige \u00e0 cidade vizinha, onde nasceu, em busca de resposta sobre o homem que entende como seu pai. Protegidos das \u201condas de calor que assolavam a terra\u201d do lado de fora, empreender\u00e3o um di\u00e1logo de conten\u00e7\u00f5es que revelar\u00e1 que, na expectativa de que algo aconte\u00e7a, estar\u00e3o presos em suas pr\u00f3prias exist\u00eancias. \u201cA gente nem vai nem vem&#8230; a gente fica\u201d, conclui o vendedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00eanisson trata da impot\u00eancia, de uma maneira aleg\u00f3rica. Apesar de lan\u00e7ados em jornadas, seus personagens ora seguem estacionados na ideia de partida, ora fazem um movimento contr\u00e1rio em seus \u00edntimos. No conto seguinte, \u201cComo assim, dar pra ele?\u201d, a narradora passa em revista a rela\u00e7\u00e3o com o marido, enquanto viajam, a contragosto dela, rumo a uma fazenda de caf\u00e9, por conta de um feriad\u00e3o. No carona, vai um amigo, que ter\u00e1 um papel dissonante dentro do fluxo mental no qual ela busca entender como o casamento atravessou a paix\u00e3o e chegou a duas pessoas que sequer se olham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tenho uma vida inteira pra lhe contar; voc\u00ea nunca quis saber, \u00e9 verdade, mas antes, ao menos voc\u00ea era meu her\u00f3i e eu era sua virgem roubada; voc\u00ea sondava meu fogo e meu amor por voc\u00ea. Hoje, pouco lhe importa o gelo da minha pele, que j\u00e1 se esqueceu de seus dedos. O que mais d\u00f3i em mim, j\u00e1 quis saber nos \u00faltimos dois anos? Sem chance, n\u00e3o \u00e9? Por isso me enojam suas certezas, e mais, contar a voc\u00ea de minha vida, minhas alegrias, \u00e9 hoje, mais que uma necessidade, \u00e9 uma vontade; eu quero ferir voc\u00ea, fa\u00e7o quest\u00e3o\u201d, confessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novamente a prosa se alia ao cen\u00e1rio, criando pontos de tens\u00e3o em momentos em que a estrada se mostra mais perigosa. O autor entrega a condu\u00e7\u00e3o da narrativa a uma voz que, por n\u00e3o conseguir se propagar no outro, torna-se perdida, solit\u00e1ria. Isso se agrava no \u00faltimo conto, \u201cRoupa \u00edntima, amor felino\u201d, sobre um fracassado que separa a vida entre se embriagar e detestar os gatos que lotam o pr\u00e9dio em que mora. Amargurado por conta de um amor n\u00e3o correspondido e sem emprego, passa a ocupar o quartinho do zelador, onde come\u00e7a a decifrar os h\u00e1bitos dos moradores de baixo para cima. Obviamente, quando n\u00e3o est\u00e1 num bar, \u00e0 procura de algu\u00e9m que ou\u00e7a suas tristezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm todo boteco h\u00e1 um pouco de carinho de m\u00e3e para com seus ass\u00edduos. Voc\u00ea senta no bar ou joga sua tonelada de dores no balc\u00e3o e ele lhe p\u00f5e uma dose como se dissesse, &#8216;esque\u00e7a, filho, amanh\u00e3 as ruas estar\u00e3o cheias de flores&#8217;. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar um gar\u00e7om simp\u00e1tico quando se pisa num bar pela primeira vez. Se voc\u00ea volta no dia seguinte n\u00e3o. Aquilo pra ele \u00e9 um elogio e ele retribui com gentileza. Na primeira vez voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 mais um aventureiro tentando se refrescar, e gar\u00e7ons detestam aventureiros\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pondo em marcha um sentido de unidade, a colet\u00e2nea parte de uma busca e termina num gesto resignado de quem j\u00e1 n\u00e3o consegue chegar a lugar nenhum. O asfalto pavimentado por D\u00eanisson serve para se lan\u00e7ar ao mundo, mas tamb\u00e9m para se encontrar com o pr\u00f3prio fracasso. Nem todas as estradas apontam um destino. H\u00e1 tamb\u00e9m aquelas feitas para se perder, para, como escreveu Graciliano, ficar preso nelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de D\u00eanisson Padilha Filho na \u00f3tica de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11987,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3021,2533],"tags":[11,2455,3049,189,1023,3048],"class_list":["post-11986","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-110a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-denisson-padilha-filho","tag-estradas-feitas-para-se-perder","tag-resenha","tag-sergio-tavares","tag-trilogia-do-asfalto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11986"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12068,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11986\/revisions\/12068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}