{"id":12006,"date":"2016-06-07T16:01:32","date_gmt":"2016-06-07T19:01:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12006"},"modified":"2016-07-08T18:09:07","modified_gmt":"2016-07-08T21:09:07","slug":"dedos-de-prosa-ii-40","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-40\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Fernanda Fazzio<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12008\" aria-describedby=\"caption-attachment-12008\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalat2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12008 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalat2.jpg\" alt=\"Suzana Latini\" width=\"382\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalat2.jpg 382w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/suzanalat2-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12008\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Suzana Latini<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>As defini\u00e7\u00f5es acerca do Belo s\u00e3o h\u00e1 muito tempo o alvo de inquieta\u00e7\u00f5es de fil\u00f3sofos e de artistas. E \u00e9 devido a elas que se tornou poss\u00edvel reconstruir uma hist\u00f3ria da est\u00e9tica. Contudo, o mesmo n\u00e3o aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considera\u00e7\u00f5es relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflex\u00f5es de Umberto Eco, n\u00e3o se pensa o Feio em oposi\u00e7\u00e3o ao Belo, mas sim em suas caracter\u00edsticas peculiares, considerando conceitos pr\u00f3prios, relativos aos v\u00e1rios per\u00edodos hist\u00f3ricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A primeira margem<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com p\u00f4r do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lun\u00e1tico-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada pe\u00e7o a ningu\u00e9m, n\u00e3o preciso de esmolas, s\u00f3 propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma exist\u00eancia imprecisa. Um poeta um dia disse: \u201cEsquecer \u00e9 des-existir\u201d. E fiz disso meu amuleto prof\u00e9tico, eu n\u00e3o desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o dos tempos, j\u00e1 invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de p\u00f3 de caf\u00e9. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez pr\u00f3spera de certezas, mas n\u00e3o percebem que s\u00e3o escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equ\u00edvocos de suas vidas empacotadas \u2013 meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente inc\u00f4modas. Isto tamb\u00e9m acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, \u00e0s v\u00e9speras do dia final, arrependem-se de uma exist\u00eancia com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que n\u00e3o valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indiz\u00edvel, eu lhes digo, junto ao seu \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu logo percebi que essas coisas n\u00e3o eram para mim, sujeito de uma autoria que n\u00e3o se escreve em pauta, mas que se esgar\u00e7a entre uma linha e outra da exist\u00eancia. Foi ent\u00e3o que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei at\u00e9 o final da linha do trem e, distra\u00eddo, vim parar aqui em Vila Grandina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou odiado por muitos, n\u00e3o nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como \u201caquele l\u00e1\u201d. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necess\u00e1rio aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem mem\u00f3ria, sem lembran\u00e7as, sem passado nem mesmo uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admito que meus pensamentos desaforados s\u00e3o como as \u00e1guas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consci\u00eancia lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento \u00e9 decifrar as pessoas desta cidade, at\u00e9 aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conhe\u00e7o o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os v\u00edcios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E tamb\u00e9m o mais terr\u00edvel escondido: eu sei dos segredos, das hist\u00f3rias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, at\u00e9 das lembran\u00e7as que deveriam permanecer esquecidas, que fa\u00e7o retornar como reminisc\u00eancias opacas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfa\u00e7o de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas n\u00e3o conseguem tir\u00e1-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e n\u00e3o me compreendem. Cren\u00e7a ou ci\u00eancia, eu tamb\u00e9m j\u00e1 desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e mem\u00f3rias perdidas. Mas mesmo assim elas me d\u00e3o comida, \u00e0s vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconhe\u00e7am dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha ess\u00eancia necessita de solid\u00e3o, de quietude sem lugar comum. S\u00f3 assim chego \u00e0 superf\u00edcie do manto de ang\u00fastia quase insuport\u00e1vel, meu companheiro fiel no desespero gelado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um an\u00e3o, menos ainda de uma an\u00e3. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os an\u00f5es n\u00e3o morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, n\u00e3o se sabe ao certo \u00e0 qual maldi\u00e7\u00e3o est\u00e3o destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terr\u00edveis s\u00e3o por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as a\u00e7\u00f5es mais desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes eu vou at\u00e9 os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico \u00e0 procura de alguma explica\u00e7\u00e3o para n\u00e3o deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que n\u00e3o podem se manifestar ali, h\u00e1 sem d\u00favida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o para tentar assentar minha cabe\u00e7a no lugar. O \u00fanico que me acompanha fielmente nesses retiros \u00e9 Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho c\u00e1 para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condi\u00e7\u00e3o de gato que emudece o seu miado, eu sei que n\u00e3o ignora o fim da pequenina. N\u00f3s bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.fernandafazzio.com.br\"><strong><em>Fernanda Fazzio<\/em><\/strong><\/a><em> \u00e9 psic\u00f3loga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes C\u00e9lia Helena (ESCH). Buscando aperfei\u00e7oar a sua escuta cl\u00ednica, especializou-se em Semi\u00f3tica Psicanal\u00edtica: Cl\u00ednica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a \u201cA Inquietante Beleza do Feio\u201d (Patu\u00e1, 2014), livro de ensaios e contos po\u00e9ticos sobre as m\u00e1scaras, o feio e a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sina dos invis\u00edveis no conto de Fernanda Fazzio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12007,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3021,2534],"tags":[3053,81,41,3052],"class_list":["post-12006","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-110a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-primeira-margem","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-fernanda-fazzio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12006"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12013,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12006\/revisions\/12013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12007"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}