{"id":12025,"date":"2016-06-07T16:58:10","date_gmt":"2016-06-07T19:58:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12025"},"modified":"2016-07-08T18:09:14","modified_gmt":"2016-07-08T21:09:14","slug":"aperitivodapalavrai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavrai\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A Musa como salva\u00e7\u00e3o no absurdo da vida no livro <em>Rarefeito<\/em> \u2013 William Soares dos Santos<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Jorge Elias Neto<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CapaRAREFEITO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12027\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CapaRAREFEITO.jpg\" alt=\"RAREFEITO\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CapaRAREFEITO.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/CapaRAREFEITO-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre \u00e9 oportuno relembrar que a leitura atenta de um livro come\u00e7a pelo nome com o qual o autor convida o leitor \u00e0 leitura \u2013 sobretudo quando se trata de um livro de poemas. O poeta costuma buscar a densidade em cada palavra, um visgo que grude na capa toda uma carga de significantes e emo\u00e7\u00f5es transfigurados em linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso do livro <em>Rarefeito<\/em>, do poeta e professor William Soares dos Santos, recentemente publicado pela <em>Ibis Libris<\/em>, esta observa\u00e7\u00e3o inicial se faz relevante. Afinal, trata-se de um autor oriundo da academia e estudioso de literatura. Esse aspecto tamb\u00e9m n\u00e3o passou despercebido ao poeta e ensa\u00edsta Ant\u00f4nio Carlos Secchin que, no in\u00edcio do seu pref\u00e1cio ao livro, nos diz que, \u201capesar da insinua\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo, <em>rarefeito<\/em>, o autor, parece operar no dom\u00ednio de um real bastante denso, pleno de amores e de humores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do livro, em conson\u00e2ncia com o que nos diz o linguista Jos\u00e9 Augusto Carvalho, sugere, em um primeiro momento, pelo menos duas leituras:\u00a0o\u00a0adjetivo <em>rarefeito<\/em> (que significa &#8220;menos denso&#8221;) e a palavra-cabide ou palavra-<em>portmanteau<\/em> (tamb\u00e9m chamada &#8220;palavra entrecruzada&#8221;) <em>rarefeito<\/em>, formada pelo am\u00e1lgama do adjetivo <em>raro<\/em> com o substantivo <em>efeito<\/em>\u00a0 (raro efeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, o t\u00edtulo sugere simplicidade; no segundo, sugere algo novo, raro, diferente. Em ambos os casos, o t\u00edtulo sugere ou antecipa\u00a0o efeito que os poemas provocar\u00e3o no leitor. Vasculhemos ent\u00e3o o que inspira, espira e aspira o autor de <em>Rarefeito<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o sentido de <em>Rarefeito<\/em> j\u00e1 ensaia seu contorno nos versos do poeta Ingl\u00eas William Wordsworth, escolhidos para compor a ep\u00edgrafe da obra. Neles, o grande poeta rom\u00e2ntico hom\u00f4nimo de nosso autor, instiga seu eu l\u00edrico a erguer-se: \u201c<em>Up!up! and drink the spirit breathed\/From dead men to their kind.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente a literatura e o acaso possibilitaram que esses versos escritos no s\u00e9culo XVIII chegassem aos ouvidos do nosso poeta, e soassem assim t\u00e3o pessoais, provocando-o ao inquirir: <em>\u201cWhy, William, on that old grey stone,\/ Thus for the length of half a day,\/ Why, William, sit you thus alone,\/ And dream your time away? \u201d Finalizando com um desafio:\u201dWhere are your books? \u2013 that light bequeathed\/ To Beings else forlorn and blind!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E j\u00e1 em <em>Rarefeito<\/em>, primeiro poema do livro, William Soares nos diz, a seu modo, do imenso desconhecido contido entre o c\u00e9u e as profundezas terrestres; inicia assim um di\u00e1logo presente ao longo da obra \u2013 nesta feita com o hom\u00f4nimo William Shakespeare \u2013 com os c\u00e2nones da poesia mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quero ser tomado,<\/em><br \/>\n<em>elevado \u00e0 montanha mais<\/em><br \/>\n<em>alta e submerso ao mar mais profundo.<\/em><br \/>\n<em>o que sei de mim \u00e9<\/em><br \/>\n<em>um constante n\u00e3o saber.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao seu modo, lan\u00e7ando m\u00e3o da met\u00e1fora, o poeta tamb\u00e9m ensaia a supera\u00e7\u00e3o do absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos o sentido de urg\u00eancia do homem contempor\u00e2neo, a necessidade de lan\u00e7ar-se no desafio dos limites, na busca de embriagar-se com endorfina.<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto seus coet\u00e2neos, de forma cada vez mais radical e, por vezes, inconsequente, buscam desafiar seus limites se confrontando com ambientes in\u00f3spitos, com condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas pouco afeitas ao conforto, seja nos picos montanhosos &#8211; que se caracterizam por um ar menos denso (rarefeito) e com menor concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio \u2013 seja nas profundezas dos Oceanos que oferecem o risco das grandes press\u00f5es, comprometendo a lucidez e a coordena\u00e7\u00e3o motora, o poeta tamb\u00e9m busca o desconforto que lhe proporcionar\u00e1 \u2013 pelo menos em tese \u2013 a experi\u00eancia criadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quero ser tomado de mim,<\/em><br \/>\n<em>atravessado pela luz<\/em><br \/>\n<em>mais pura que antes<\/em><br \/>\n<em>nunca se afigura.<\/em><\/p>\n<p><em>acordei num dia novo e <\/em><br \/>\n<em>claro, no qual o ar n\u00e3o est\u00e1<\/em><br \/>\n<em>rarefeito<\/em><br \/>\n<em>e nada cala<\/em><br \/>\n<em>dentro de mim.<\/em><\/p>\n<p><em>Quero ser tomado do mundo.<\/em><br \/>\n<em>a minha passagem ser\u00e1<\/em><br \/>\n<em>apenas vento, talvez sombra,<\/em><br \/>\n<em>talvez tempo, mas nunca<\/em><br \/>\n<em>desatino.<\/em><\/p>\n<p><em>Brancura serena da primavera,<\/em><br \/>\n<em>negrume pacificador da alta<\/em><br \/>\n<em>madrugada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse-nos Emil Cioran: \u201cEscrever seria um ato ins\u00edpido e sup\u00e9rfluo se pud\u00e9ssemos chorar \u00e0 vontade&#8230; Se cada vez que os desgostos nos assaltam tiv\u00e9ssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doen\u00e7as vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma retic\u00eancia inata, agravada pela educa\u00e7\u00e3o, ou um funcionamento defeituoso das gl\u00e2ndulas lacrimais, condena-nos ao mart\u00edrio dos olhos secos.\u201d Da\u00ed a admira\u00e7\u00e3o de Cioran pelos poetas, por sua capacidade de mostrarem-se isentos de pudor \u2013 e agora cito as palavras de Nietzsche \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias experi\u00eancias; esta capacidade \u00fanica de explorar o que tantos tentam omitir e dissimular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o poeta dialoga com seu desassossego. Reconhece ser mais um p\u00e1ssaro, entre tantos, grudado nas partituras dos fios el\u00e9tricos das grandes Metr\u00f3polis. Sabe seu espa\u00e7o no sem sentido, e ensaia um arremedo de liberdade: <em>Um p\u00e1ssaro n\u00e3o \u00e9 o p\u00e1ssaro,\/\u00e9 um p\u00e1ssaro qualquer.\/\/branco?\/pode ser,\/para combinar com o azul deste mar,\/para ser livre como todos os ideais de vida.\/\/ livre como n\u00e3o sou,\/livre como n\u00e3o sei o que \u00e9 ser livre.\/\/ mas imagino,\/tento,\/\/um p\u00e1ssaro qualquer,\/livre,\/ser.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u201ca dor ladra no tempo\u201d, esse tempo s\u00f3 nosso, em que transgride\u00b9 e nos diz o poeta: <em>ainda que permanecesse\/eu seria apenas a lembran\u00e7a tang\u00edvel\/que insiste na perman\u00eancia\/da intangibilidade de ser. <\/em>Quantos de n\u00f3s n\u00e3o sentimos essa n\u00e1usea sartreana diante da iman\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E rodopia <em>sem dire\u00e7\u00e3o,\/gira,gira<\/em> o pi\u00e3o de S\u00edsifo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-nos Camus que, diante do absurdo, uma das alternativas \u00e9 o \u201csalto\u201d para a religi\u00e3o. No presente caso, vemos o eu l\u00edrico \u2013 nesta feita no poema \u201cCr\u00edstico\u201d \u2014 apresentar-se como aquele que segue os preceitos crist\u00e3os da austeridade e do amor. \u00c9 o her\u00f3i que suplanta qualquer complexo de hero\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ao modo de Augusto dos Anjos, William Soares nos diz que nem o poeta <em>profeta sem inten\u00e7\u00e3o,\/\u00e0 margem da li\u00e7\u00e3o<\/em>, nem o alquimista que dialoga com os s\u00edmbolos de Jung, nem mesmo o f\u00edsico que <em>v\u00ea o mundo calculado,\/matematizado, equilibrado<\/em> n\u00e3o sabem o que \u00e9 o mundo. S\u00e3o como <em>uma crian\u00e7a, com seus olhinhos arregalados, esbugalhados de\/surpresa diante da flor que recolhem\/todas as manh\u00e3s.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 <em>o tempo \u00e9 uma brecha que esconde o vento que sopra no rosto imaturo do mundo<\/em>; ou seria no rosto do homem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que resta ao poeta, qual o caminho poss\u00edvel diante da incerteza? A resposta vem de \u201cum anjo azul\u201d que prop\u00f5e que o poeta toque sua lira. E \u00e9 essa \u201clira moderna\u201d que acalenta o poeta e o anjo. Ambos condenados \u2013 o imortal e o mortal \u2013 \u00e0 \u201csolid\u00e3o eterna\u201d dentro de um mundo-pris\u00e3o circundado pela \u201cgrande muralha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o poeta se rebela, e se lan\u00e7a ao mar<em>, pois a leste est\u00e1 a mais bela ba\u00eda do mundo:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No mar que me transporta,<\/em><br \/>\n<em>Vejo que n\u00e3o s\u00e3o os meus olhos que veem,<\/em><br \/>\n<em>Mas eu que vejo atrav\u00e9s dos meus olhos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis a\u00ed o poeta ensaiando seu eterno retorno \u00e0 Pas\u00e1rgada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na <em>Rep\u00fablica<\/em> de Plat\u00e3o, S\u00f3crates alerta a Adimanto que as f\u00e1bulas mentirosas compostas por Hes\u00edodo e Homero seriam contadas aos homens. E entre elas encontrava-se a vingan\u00e7a de Cronos contra seu filho Urano. E, vencendo Cronos, o poeta insiste em despertar a cada dia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>o mundo pesa<\/em><br \/>\n<em>sobre mim,<\/em><br \/>\n<em>serpente incinerada do estar<\/em><br \/>\n<em>que me ape\u00e7onha em cada<\/em><br \/>\n<em>instante do viver,<\/em><br \/>\n<em>ainda quando rasga,<\/em><br \/>\n<em>sangu\u00ednea e fresca,<\/em><br \/>\n<em>a madrugada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eis que surge a Musa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Somente ela<\/em><br \/>\n<em>me trar\u00e1<\/em><br \/>\n<em>o grande sono<\/em><br \/>\n<em>na madrugada.<\/em><\/p>\n<p><em>O sono borbotado<\/em><br \/>\n<em>de azul,<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o diverso<\/em><br \/>\n<em>do cativo desejo<\/em><br \/>\n<em>em que me encontro e que me aprisiona<\/em><br \/>\n<em>na imensid\u00e3o do anoitecer.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu livro<em> L\u00b4amour fou,<\/em> Andr\u00e9 Breton nos apresenta o conceito de \u201cacaso racional\u201d. Aquele encontro \u201cinesperado\u201d \u2015 inconscientemente j\u00e1 \u201cagendado\u201d \u2015 com a musa. O grande encontro entre o poeta e a poesia. E muitos dos poemas trazem um poeta e suas lux\u00farias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma nova surpresa \u2014 talvez mais uma vez a n\u00e1usea existencialista leva o poeta a observar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> e eu sou feito um ladr\u00e3o roubado pelo roubo que leva,<br \/>\nneste anseio de mais abrir o sorriso da boca nascida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta retorna \u00e0s areias da praia cantada e \u00e0 sua cal\u00e7ada de ondas negras e alvas. E depara com os indiv\u00edduos que buscam, em rumos distintos, alinhavar suas vidas e <em>por um instante<\/em> se esquece <em>que \u00e9 p\u00f3s-moderno<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whitman afirma e o poeta inquire: <em>o que fazer com essa inquietude constante e com o desejo de ser muitos?<\/em> \u2015 lidar com a contradi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas restam-lhe a musa e o amor. \u00a0E eis a\u00ed a densidade poss\u00edvel ao poeta \u2013 a pele e o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto <em>tudo indica que o meu caminha mais longo ser\u00e1 mesmo a solid\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez, como diz o protagonista do livro <em>N\u00e1usea<\/em>, de Sartre, \u201ca margem da solid\u00e3o\u201d. Um ponto equidistante entre o isolamento e o acesso ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como isso acontece? Talvez o poeta dissimule, pare\u00e7a perdido, rendido aos atos costumeiros, diuturnamente&#8230; Mas, quando do primeiro estalo da palavra, talvez ele se sobressalte e se lance ao ch\u00e3o para salvar a flor&#8230; Resgatar a imagem primeira da musa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>Torna-me \u00e0 mente<\/em><br \/>\n<em>Do teu corpo<\/em><br \/>\n<em>A imagem da primeira vez.<\/em><\/p>\n<p><em>eu, inquieto mendicante,<\/em><br \/>\n<em>de teu corpo desejante,<\/em><\/p>\n<p><em>a febre tolhia-me o sono,<\/em><br \/>\n<em>e entre a penumbra surgiu a tua imagem<\/em><br \/>\n<em>a desnudar-se em plena alvura<\/em><br \/>\n<em>enquanto tudo se apascentava no hemisf\u00e9rio.<\/em><\/p>\n<p><em>Embora n\u00e3o me governasse,<\/em><br \/>\n<em>Me detive em tuas costas,<\/em><br \/>\n<em>Como se os astros, a aurora<\/em><br \/>\n<em>E o sil\u00eancio compactuassem.<\/em><\/p>\n<p><em>Trazia-me o ansiado deleite<\/em><br \/>\n<em>Fazendo de meu corpo a chave mestra<\/em><br \/>\n<em>Que abria portas \u00e0 sinistra-destra.<\/em><\/p>\n<p><em>Pensamentos revoavam,<\/em><br \/>\n<em>Enquanto eu calava e me concedia,<\/em><br \/>\n<em>T\u00edmido e inexperiente,<\/em><br \/>\n<em>\u00c0s voltas de teu corpo.<\/em><\/p>\n<p><em>Fechei os olhos,<\/em><br \/>\n<em>O que palpitava de novo em meu peito?<\/em><br \/>\n<em>Menino de nove mais nove s\u00f3is,<\/em><br \/>\n<em>Tudo se confundia com desejo.<\/em><\/p>\n<p><em>Todas as palavras ent\u00e3o ficaram,<\/em><br \/>\n<em>Tentativas inexpressivas de retratar<\/em><br \/>\n<em>A gravidade de teu corpo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eis novamente William Wordsworth a nos dizer que \u201ca poesia \u00e9 o transbordamento espont\u00e2neo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emo\u00e7\u00e3o recordada num estado de tranquilidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que prop\u00f5e de novo um poeta <em>p\u00f3s-moderno<\/em>?\u00a0 Talvez o reencontro com a musa, n\u00e3o de uma forma piegas e descompromissada, mas sim atrav\u00e9s dos cl\u00e1ssicos e dos grandes poetas (complementa\u00e7\u00e3o de rarefeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois ele nos diz como no poema intitulado <em>Ulisses<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>depois de tudo<\/em><br \/>\n<em>deixo o teu leito com tudo o mais de \u00f3bvio:<\/em><br \/>\n<em>molhado de suor,<\/em><br \/>\n<em>com a face relaxada,<\/em><br \/>\n<em>e uma ferida<\/em><br \/>\n<em>encravada no dorso.<\/em><\/p>\n<p><em>deixo o teu leito<\/em><br \/>\n<em>como quem<\/em><br \/>\n<em>cumpriu uma promessa,<\/em><br \/>\n<em>esperando o p\u00e3o com manteiga<\/em><br \/>\n<em>que chega com o cheiro do caf\u00e9<\/em><br \/>\n<em>perpassado pela alvorada.<\/em><br \/>\n<em>deixo o teu leito<\/em><br \/>\n<em>com a incerteza<\/em><br \/>\n<em>de um retorno tranquilo<\/em><br \/>\n<em>\u00e0 minha \u00edtaca sonhada<\/em><br \/>\n<em>&#8211; barco sem porto<\/em><br \/>\n<em>fa\u00e7o de ti meu ancoradouro \u2013<\/em><br \/>\n<em>deixo o teu leito<\/em><br \/>\n<em>com um adeus<\/em><br \/>\n<em>desacenado<\/em><br \/>\n<em>de quem procura te<\/em><br \/>\n<em>encontrar,<\/em><br \/>\n<em> \u2013 ap\u00f3s batalhas<\/em><br \/>\n<em>contra troianos, ciclopes e<\/em><br \/>\n<em>sirenes encantadas \u2013<\/em><br \/>\n<em>Na pr\u00f3xima<\/em><br \/>\n<em>dedir\u00f3sea manh\u00e3.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-nos Ant\u00f4nio Carlos Secchin no pref\u00e1cio que \u00a0\u201c&#8230; \u00e9 nessa tens\u00e3o \u2013 de dizer-se pelo vi\u00e9s de transformar-se em algo sempre diverso \u2013 que reside a for\u00e7a maior de<em> rarefeito<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou cr\u00edtico, nem perten\u00e7o \u00e0 Academia. Percorri o livro como leitor de poesia e poeta, e digo que n\u00e3o foi dif\u00edcil. Vivo neste mesmo ambiente, muitas vezes in\u00f3spito; embriago-me na mesma altitude onde \u00e9 raro o oxig\u00eanio e onde a tontura deixa obnubilada nossa mem\u00f3ria; indago as mesmas coisas; percorro os mesmos beirais, vou de leste a oeste, consciente da iman\u00eancia do corpo e, como no poema, \u201cV\u00e9sper\u201d,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>eu,<\/em><br \/>\n<em>v\u00e9sper celeste,<\/em><br \/>\n<em>despe\u00e7o-me<\/em><br \/>\n<em>de minha<\/em><br \/>\n<em>imortalidade<\/em><br \/>\n<em>para, enfim,<\/em><br \/>\n<em>encontrar em<\/em><br \/>\n<em>teu corpo<\/em><br \/>\n<em>&#8211; em n\u00e3o mais que uma hora<\/em><br \/>\n<em>eternamente breve \u2013<\/em><br \/>\n<em>a luminosidade<\/em><br \/>\n<em>inebriante do pulsar<\/em><br \/>\n<em>do perec\u00edvel<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agarrando-me \u00e0 musa, nessa falsa transcend\u00eancia do infinito instante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Jorge Elias Neto<\/strong>\u00a0(1964) \u00e9 Capixaba, reside em Vit\u00f3ria \u2013 ES. Livros: Verdes Versos (Flor&amp;cultura ed. &#8211; 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&amp;cultura ed. &#8211; 2010), Os ossos da baleia (Pr\u00eamio SECULT &#8211; ES \u2013 2013), Glacial (Ed. Patu\u00e1 &#8211; 2014) e Breve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do boxe (Ed. Patu\u00e1 &#8211; 2015). Colabora com poemas em v\u00e1rios blogs e na revista eletr\u00f4nica Germina, Diversos Afins, Mallarmargens e no Portal Liter\u00e1rio Cron\u00f3pios. Membro da Academia Esp\u00edrito-santense de Letras onde ocupa a cadeira de n\u00famero 2.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Elias Neto fala sobre a poesia de William Soares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12026,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3021,2533],"tags":[11,154,3059,189,3060],"class_list":["post-12025","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-110a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-jorge-elias-neto","tag-rarefeito","tag-resenha","tag-william-soares-dos-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12025"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12069,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12025\/revisions\/12069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}