{"id":12197,"date":"2016-07-07T17:15:12","date_gmt":"2016-07-07T20:15:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12197"},"modified":"2016-08-25T17:36:06","modified_gmt":"2016-08-25T20:36:06","slug":"dedos-de-prosa-ii-41","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-41\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Maria Camargo Freire<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12199\" aria-describedby=\"caption-attachment-12199\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/LUMA-FLORES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12199 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/LUMA-FLORES.jpg\" alt=\"LUMA FLORES\" width=\"450\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/LUMA-FLORES.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/LUMA-FLORES-300x261.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12199\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Luma Fl\u00f4res<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00edtio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a \u00fanica vez que amei meu pai por detr\u00e1s dos acordos sociais, do afeto obrigat\u00f3rio que irradia n\u00e3o do progenitor propriamente dito, mas na perversa escola de costumes sincr\u00f4nicos que denominamos fam\u00edlia por medo de alcunha pior; meu pai foi um bronco, crescido em s\u00edtio andava pela cidade nauseado pelo fasc\u00ednio arredio de animal silvestre, se deix\u00e1ssemos correria em quatro patas por a\u00ed, se entocaria em uma viela arisco dos odores em cinza-chumbo espargidos pela rua; enriqueceu na vida de comerciante, mam\u00e3e deu-se at\u00e9 ao luxo de tornar-se alc\u00f3olatra com whisky, e ele continuou amarfanhado sob o casulo do terno que o repelia simplesmente pela alfaiataria de bom gosto, pinguim no deserto citadino, envergonhava-me dele; era de esquerda, lutava pelas minorias, contra o sentimento elitista que aflorava vez ou outra inopinadamente, mas na formatura l\u00e1 estava ele, aquele homem que n\u00e3o diferenciava Rembrandt de Tintoretto, em sua tacanha mente esses nomes n\u00e3o soariam apenas estrangeiros, soariam intranspon\u00edveis, inaud\u00edveis em comas de sutilezas desconcertantes; nem fingir sabia, mam\u00e3e ao menos escondia as origens em seda, em vestidos drapeados de alta-costura, papai comia de colher quando em casa; acordei conturbada por uma ressaca dessas que atravessar\u00e3o o dia sem pestanejar, havia comemorado na noite anterior minha primeira exposi\u00e7\u00e3o solo em galeria de arte, a \u00fanica disson\u00e2ncia noturna era meu pai, peda\u00e7o de cerca-viva ali parado entre as telas, ondulando entre as brisas de um \u201cOl\u00e1\u201d ou um \u201cComo vai?\u201d em que respondia num farfalhar rupestre verde-oliva, roufenho, na orla entre palavras e ru\u00eddos indistintos; sobre a mesa um pequeno bilhete: \u201cEu te adimiro muito filha, seus desenhos lembram o s\u00edtio quando eu era pequeno, o p\u00e3o da v\u00f3, as botas do v\u00f4 que voc\u00ea n\u00e3o conheceu, eu te adimiro e te amo\u201d, aquele \u201ci\u201d inteiramente inconveniente berrava, no lugar da mudez costumeira havia a interfer\u00eancia de uma tulipa nascida s\u00f3bria, lisa, envolta na graciosidade do pr\u00f3prio rubor, um tronco exposto, lisonjeiro, inef\u00e1vel, a xilogravura da face de papai impressa naquele \u201ci\u201d de sobrancelhas arqueadas, elevadas em busca da cabe\u00e7a calva, na espera de um pingo de choro abscondido, naquele qualquer momento, amei papai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo,11 de abril de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tric\u00f4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Deito-me no mole solo oco na espera de que o opaco entardecer assopre as brilhantes velas dessa opressora luz diuturna, carregando-as para l\u00e1 dos meridianos sem nome, nas beiradas de um precip\u00edcio por se fazer, externo ch\u00e3o agora s\u00f3brio na sisudez supostamente sempiterna, oculta na lisura do planalto a delgada vala t\u00edmida, semente de abismo vindouro, tamb\u00e9m sinto saudades da choupana ao p\u00e9 da montanha que nunca tive, angustia meu corpo a nostalgia dos lugares que nunca estive, tamb\u00e9m sofro por paix\u00f5es, rasgo o verbo em brigas hom\u00e9ricas com namorados, maridos, amantes furtivos que n\u00e3o me conhecem, \u00e0s vezes basta um bom dia do padeiro para termos tr\u00eas filhos e um deles est\u00e1 de recupera\u00e7\u00e3o em matem\u00e1tica e por isso nada de jogos no computador; sou solit\u00e1ria e tenho de consolo os gatos que afago, o enfiar dos dedos nos ternos p\u00ealos, pouso olhar sem pressa nos novelos tran\u00e7ados com poeiras que a brisa da noite trouxe, sou al\u00e9rgica e por isso meus felinos s\u00e3o fogos-f\u00e1tuos que eu pinto enquanto me balan\u00e7o calma na cadeira que ainda terei um dia, de um vime lustroso que far\u00e1 inveja nos olhos de minhas amigas, ficar\u00e3o famintas, fe\u00e9ricas para fazer parte da minha fam\u00edlia \u00f3rf\u00e3, mas eu s\u00f3 permitirei que elas se sentem na sala ou, no m\u00e1ximo, na cozinha, nunca o quarto, l\u00e1 meus segredos, as intimidades de minha vida proscrita em santidades exalam dos cantos, por mais que se guarde, alguma pervers\u00e3o de mesmidade corriqueira pode aflorar e flutuar em faces inocentes, depois terei de colher os espantos que elas soltar\u00e3o espontaneamente, ali pausadas como espantalhos; saio para o jardim adornar com carinhos silenciosos as hort\u00eansias juntinhas em favos de um anil amig\u00e1vel, ainda n\u00e3o tenho o terreno, o solo arado nem a disposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria; hoje o caf\u00e9 da tarde ser\u00e1 em Paris, quem sabe n\u00e3o encontre meu Sartre que tenha usado tamp\u00e3o na inf\u00e2ncia enredado na pr\u00f3pria n\u00e1usea de seu ch\u00e1 de hibisco morno, n\u00e3o \u00e9 meu ch\u00e1 favorito, prefiro o de t\u00edlia que nunca tomei, mas lembro-me de sua infus\u00e3o levemente embriagante, de seu odor macio que sorvi enquanto lia Proust, n\u00e3o conhe\u00e7o Paris, nem quero; os \u00fanicos seres fascinantes que encontrei perambulantes por estradas de terra batida foram os que nasceram quase-abortados, que levam no pesco\u00e7o a brandura frouxa de quem n\u00e3o sabe para onde olha, sa\u00edram espremidos para o mundo, no respirar nota-se que falta um dedo de f\u00f4lego, ainda que n\u00e3o tenham problemas respirat\u00f3rios, queria cruzar com gente assim algum dia; o carteiro tomou-me por confidente, acho que por conta desse ar de anci\u00e3 p\u00fabere, as rugas dobradas umas sob as outras por debaixo de minha pele lisa, adoentada de um rubor saud\u00e1vel, confessou-me que traiu a mulher com o vizinho j\u00e1 idoso que sofria de catarata, achava que ele tinha um espiar charmoso, um jeito elegante de ver todo mundo pela metade, meio invis\u00edvel como somos mesmo, iceberg de v\u00edsceras \u00e0s escuras, ele contaria se pudesse, mas tem jeito de solteir\u00e3o, o cachorro dele precisou fazer uma cirurgia \u00e0s pressas, n\u00e3o sabia que h\u00e9rnia dava at\u00e9 em bicho, ficou nem quinze segundos, entregou a encomenda e n\u00e3o disse nem \u201coi\u201d; pouso a caneta cuidadosa na caixinha, essa inimiga que me atormenta, que me torce os tend\u00f5es e m\u00f3i um tanto da minha loucura em pigmento escondido, depois de escrever fico um pouco transl\u00facida, fantasm\u00e1tica, mas hoje acabou a tinta e o \u00faltimo caderno eu rasguei ontem, faz frio em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Lisboa, 07 de setembro de 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estilha\u00e7os<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pendulo, desde antes da inf\u00e2ncia se perder p\u00f3stuma numa parede de cal seco, pela posse de objetos quebrados, fr\u00e1geis, seja um rel\u00f3gio sem ponteiros, um alfinete amassado descartado logo pela costureira na prova da pr\u00f3xima cliente, sentia na palma da menina muda que eu era a atmosfera l\u00facida das coisas falidas, o halo daquelas rebarbas do tecido, aquelas linhas in\u00fateis que n\u00e3o ligariam mais nada, a liberdade do que deixou de cansar-se, o \u00f3cio daqueles fios viravam em minha mesa arabescos marroquinos desse lado do Atl\u00e2ntico, uma vez trouxe para casa quatro cacos de copo, a aba de porcelana que fora de uma x\u00edcara, dois isqueiros acabados e um gato morto, o que me rendeu v\u00e1rias cintadas e o primeiro berro de \u201cMenina, voc\u00ea \u00e9 louca\u201d de minha m\u00e3e, depois ela descobriu minha cole\u00e7\u00e3o de bitucas, tampas, canetas sem tinta, jornais rasgados em que as not\u00edcias ou propagandas ficaram ileg\u00edveis (eu tinha crit\u00e9rios), ouvi do quarto \u201cRog\u00e9rio, \u00e9 mais s\u00e9rio do que pens\u00e1vamos, mas deve ter tratamento\u201d num timbre t\u00e3o indiferente que se pudesse eu teria reunido \u00e0 minha cole\u00e7\u00e3o de destro\u00e7os;\u00a0 passei a acumular seres imateriais, andava horas pela cidade coletando falas desgastadas, contornos de desvalidos estirados ali na pra\u00e7a da S\u00e9, teve at\u00e9 um olhar fosco de um senhor alto que se sustentava pelo h\u00e1bito de andar previsivelmente por ruas asfaltadas de certezas num cinza in\u00f3spito, outro dia h\u00e1 pouco colhi a eleg\u00e2ncia no desfilar de uma prostituta em fim de noite, voltava para casa mas mantinha os trejeitos infecundos miscigenados nos tons da maquiagem que se equilibrava indolente entre o vulgar e o borrado; acho que para comemorar minha cura milagrosa fomos em fam\u00edlia ao circo, na \u00e9poca ainda havia le\u00f5es, olor de estrume de animais repisado por desconhecidos envoltos em pipoca amanteigada, o palha\u00e7o no centro do picadeiro era hil\u00e1rio para todos que n\u00e3o fossem eu, meu riso viera cindido, um pequeno abscesso interno feito de frustra\u00e7\u00f5es com fraco efeito fora, o truque consistia em jogar uma azeitona para o alto e fingir que se engasgara, enquanto o p\u00fablico se acabava de gargalhar a brincadeira ia dando certo no es\u00f4fago do coitado, estertorou sufocado, embrulhado nos sons do pr\u00f3prio trabalho, agricultor soterrado em seu celeiro de amareladas sojas, foi se esvaindo o riso at\u00e9 que a trag\u00e9dia consumada engoliu todos os lapsos de pilh\u00e9ria, naquele instante pulei em risos, saltei no picadeiro levantando ao redor de mim uma poeira fina de t\u00e3o agastada, raptei o rosto retorcido por debaixo da massa de p\u00f3 branco, tamb\u00e9m o nariz de um vermelho vivo, enfiava no bolso enquanto os outros artistas vinham atropelados socorrer o cad\u00e1ver; ainda hoje rio inaud\u00edvel ao disparatar para mim mesma a imagem de que em algum cemit\u00e9rio pode ter nascido, transgredindo garganta, caix\u00e3o e terra, uma vistosa videira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Madrid, 22 de fevereiro de 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Maria Camargo Freire<\/em><\/strong><em> \u00e9 artista pl\u00e1stica, tem 63 anos e mora atualmente em S\u00e3o Paulo. Conjugou em sua obra o barroco de Caravaggio, a sinuosidade de Giacometti e o neo-expressionismo de Bacon; lacera-se em pequenos cortes de vida por respirar em excesso o b\u00e1lsamo dos dias cin\u00e9reos. Escritora diletante, pretende esbo\u00e7ar um romance em prosas po\u00e9ticas: suas \u201cTelas de uma exposi\u00e7\u00e3o\u201d. Heter\u00f4nimo de <strong>Caio Russo<\/strong>, escritor, historiador e pesquisador em Est\u00e9tica, Arte Moderna e Teoria da Literatura. Hedonista est\u00f3ico, c\u00ednico peripat\u00e9tico que preza pela sutileza do sofrimento sentado. Tem por prazer fumar embaixo d\u2019\u00e1gua.\u00a0 <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As linhas de Maria Camargo Freire, heter\u00f4nimo de Caio Russo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12198,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3067,2534],"tags":[2284,41,3087,3088,3084,3085,3086],"class_list":["post-12197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-111a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-caio-russo","tag-dedos-de-prosa","tag-estilhacos","tag-heteronimo","tag-maria-camargo-freire","tag-sitio","tag-trico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12197"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12202,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12197\/revisions\/12202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}