{"id":12319,"date":"2016-08-22T12:32:36","date_gmt":"2016-08-22T15:32:36","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12319"},"modified":"2016-08-26T11:12:53","modified_gmt":"2016-08-26T14:12:53","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-46","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-46\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano, 1998. O esp\u00edrito que paira na atmosfera de a\u00e7\u00f5es traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, h\u00e1 que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que s\u00e3o ligados \u00e0 arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genu\u00edno desejo de transforma\u00e7\u00e3o. Evidenciar os sentimentos humanos \u00e9, sem d\u00favida alguma, um diferencial de qualquer investida art\u00edstica. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Gri\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz T\u00e2nia Soares, o tamb\u00e9m ator <strong>Rafael Morais<\/strong> demarca os primeiros passos do que \u00e9 hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente tamb\u00e9m do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e T\u00e2nia voltaram suas aten\u00e7\u00f5es para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abra\u00e7ando fundamentalmente o vi\u00e9s da narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, o Grupo Teatro Gri\u00f4 assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudan\u00e7as no ser pensante e pulsante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobretudo depois de testemunhar alguns espet\u00e1culos do grupo, os quais mostram o qu\u00e3o viva est\u00e1 a nossa mem\u00f3ria diante dos caminhos da express\u00e3o oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que esp\u00e9cie de sustent\u00e1culo mant\u00e9m acesos tais caminhos da arte. Com suas fei\u00e7\u00f5es de ator, diretor, professor, Mestre em Artes C\u00eanicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e tamb\u00e9m seus abismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa de agora, fica registrado um breve balan\u00e7o desses 18 anos de atividade do grupo, atrav\u00e9s do qual Rafael Morais confessa que ali est\u00e1 tamb\u00e9m a din\u00e2mica real de sua express\u00e3o enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, \u00e9 marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12323\" aria-describedby=\"caption-attachment-12323\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-2-Foto-arquivo-pessoal-int-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12323 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-2-Foto-arquivo-pessoal-int-1.jpg\" alt=\"Rafael Morais \" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-2-Foto-arquivo-pessoal-int-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-2-Foto-arquivo-pessoal-int-1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12323\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Morais \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O Teatro Gri\u00f4 surge como resposta a alguma necessidade em especial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>O surgimento do Teatro Gri\u00f4 n\u00e3o foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa pr\u00f3pria cultura. Na \u00e9poca, est\u00e1vamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na It\u00e1lia e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e tamb\u00e9m da \u00e1rea de palha\u00e7o. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresenta\u00e7\u00e3o que falasse das nossas hist\u00f3rias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich,\u00a0me convidou para ir a um terreiro de Candombl\u00e9 em Salvador, o Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do N\u00facleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e T\u00e2nia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura oral, das hist\u00f3rias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir da\u00ed, esse universo da tradi\u00e7\u00e3o foi nos arrebatando. Isso em 1998. Come\u00e7amos a desenvolver uma metodologia pr\u00f3pria para levar essas hist\u00f3rias para as crian\u00e7as da escola, os professores e tamb\u00e9m para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposi\u00e7\u00e3o dessas narrativas de tradi\u00e7\u00e3o oral para a cena. Ent\u00e3o, encenamos algumas hist\u00f3rias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que n\u00e3o fosse o teatro tradicional. Vimos que o que faz\u00edamos naquele momento em termos de teatro n\u00e3o contemplava aquele universo. \u00c0 medida que \u00edamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas hist\u00f3rias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o p\u00fablico, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de hist\u00f3rias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo n\u00e3o artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas hist\u00f3rias e pensou que tinham tudo a ver com o que est\u00e1vamos querendo, mas nem sab\u00edamos direito o que desej\u00e1vamos encontrar. Foi a arte de contar hist\u00f3rias. \u00a0Percebi que ela contemplava tudo o que busc\u00e1vamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa pr\u00f3pria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espa\u00e7os. Queria fazer algo que n\u00e3o fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do p\u00fablico, nos barrac\u00f5es, escolas, terreiros, pra\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Qual a import\u00e2ncia do vi\u00e9s da matriz africana no trabalho de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Foi desde o in\u00edcio uma grande inspira\u00e7\u00e3o. No entanto, o Teatro Gri\u00f4 n\u00e3o se limita \u00e0s narrativas de tradi\u00e7\u00e3o oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradi\u00e7\u00e3o oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Ent\u00e3o, narramos hist\u00f3rias da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, da R\u00fassia, \u00cdndia, do Oriente, dos \u00e1rabes. Com a cultura afro-brasileira n\u00e3o poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas hist\u00f3rias, cantigas e narrativas como um todo s\u00e3o predominantes. Ela tem uma import\u00e2ncia muito grande por conta at\u00e9 desse contato com o p\u00fablico. A gente trata de hist\u00f3rias do mundo inteiro e temos diversos espet\u00e1culos inspirados em hist\u00f3rias de v\u00e1rios lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, j\u00e1 \u00e9ramos muito ligados a hist\u00f3rias da mitologia grega, nossa forma\u00e7\u00e3o ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orix\u00e1s, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas hist\u00f3rias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a jun\u00e7\u00e3o da palavra cantada, essa liga\u00e7\u00e3o entre o sagrado, o m\u00edtico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de hist\u00f3rias de matriz africana, n\u00e3o somente dos Orix\u00e1s, mas hist\u00f3rias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar hist\u00f3rias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Tamb\u00e9m temos hist\u00f3rias fascinantes em todos os povos, como \u00e9 o caso dos \u00e1rabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as hist\u00f3rias dos irm\u00e3os Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fant\u00e1stico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para n\u00f3s nesse universo da tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente ex\u00f3tico, como se n\u00e3o houvesse um reflexo poss\u00edvel na realidade. O que voc\u00ea acha dessa redu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Esse n\u00e3o \u00e9 nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. N\u00e3o tem nada dessa quest\u00e3o do ex\u00f3tico, do que as pessoas chamam de folcl\u00f3rico, de buscar esses elementos que sejam mais histri\u00f4nicos. A import\u00e2ncia dessa cultura \u00e9 muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura \u00e9 nosso ber\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o, de humaniza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. Acho que isso tamb\u00e9m est\u00e1 muito relacionado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o oral, \u00e0 quest\u00e3o de uma certa import\u00e2ncia maior que se d\u00e1 \u00e0 palavra escrita como se a oralidade n\u00e3o fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma quest\u00e3o cultural, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da \u00c1frica n\u00e3o presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o qu\u00e3o equivocada \u00e9 essa vis\u00e3o de mundo que coloca a tradi\u00e7\u00e3o oral, as refer\u00eancias africanas como algo menor. Temos alguns avan\u00e7os acontecendo, algumas leis, como \u00e9 o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas \u00e0s vezes n\u00e3o sabem como fazer. Alguns professores n\u00e3o t\u00eam a forma\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma forma\u00e7\u00e3o que privilegia o euroc\u00eantrico, desprestigiando tudo o que vem da \u00c1frica. Mas sinto que isso est\u00e1 mudando. No Teatro Gri\u00f4, fugimos esteticamente desse campo do ex\u00f3tico. Inclusive, fazemos quest\u00e3o de n\u00e3o levar para a cena essa vis\u00e3o de mundo, tanto que n\u00e3o representamos, por exemplo, Orix\u00e1s em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das can\u00e7\u00f5es, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das hist\u00f3rias em evid\u00eancia. Essa dramaturgia \u00e9 constru\u00edda n\u00e3o para refor\u00e7ar o ex\u00f3tico. Temos, por exemplo, o espet\u00e1culo \u201cHist\u00f3rias de M\u00e3e Beata\u201d que \u00e9 bem simples, mas que \u00e9 uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas v\u00e3o contando hist\u00f3rias, mas em nenhum momento representamos os Orix\u00e1s em cena. N\u00e3o vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. \u00c9 uma atitude tamb\u00e9m de respeito e de aprofundar essas quest\u00f5es. Acho que \u00e9 um perigo muito grande voc\u00ea tratar um universo t\u00e3o rico como algo simplesmente ex\u00f3tico. \u00c9 um desservi\u00e7o e um desrespeito, at\u00e9 uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional voc\u00ea se apropriar dela e n\u00e3o devolv\u00ea-la como se deveria. Buscamos valorizar a viv\u00eancia, que \u00e9 t\u00e3o rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, n\u00e3o apenas os gri\u00f4s, mas os akpal\u00f4s, que significam fazedores de hist\u00f3rias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em S\u00e3o Paulo cinco espet\u00e1culos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do C\u00e9u, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas hist\u00f3rias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram n\u00e3o porque acharam engra\u00e7ado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a quest\u00e3o das cantigas, com essa coisa do feiti\u00e7o das palavras, do sagrado com uma condi\u00e7\u00e3o de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, v\u00e3o para o prazer no sentido do corpo que dan\u00e7a, est\u00e1 vivo e ligado \u00e0 magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela est\u00e1 em todos os povos. Se voc\u00ea for ver as hist\u00f3rias dos n\u00f3rdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia est\u00e1 presente nelas. As hist\u00f3rias afro-brasileiras encantam porque mant\u00eam ainda viva essa sabedoria que est\u00e1 muitas vezes mais generalista do que espec\u00edfica, valorizando a viv\u00eancia, a experi\u00eancia, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. \u00c9 muito lindo esse universo. N\u00e3o tem como reduzir ao ex\u00f3tico. Tratamos essas hist\u00f3rias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas refer\u00eancias. As hist\u00f3rias que o Teatro Gri\u00f4 acaba levando para pessoas de diferentes lugares t\u00eam um papel muito importante de ser mais uma refer\u00eancia. \u00c9 muito bacana percebermos as crian\u00e7as afrodescendentes assistindo o espet\u00e1culo e se reconhecendo nele a partir das hist\u00f3rias e n\u00e3o da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. \u00c9 a hist\u00f3ria que passa adiante, o universo do imagin\u00e1rio. Ent\u00e3o, \u00e9 uma riqueza e um poder muito maior do que a pr\u00f3pria imagem que est\u00e1 se vendo ali. Uma import\u00e2ncia muito grande nesse sentido de forma\u00e7\u00e3o e de educa\u00e7\u00e3o. A narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizat\u00f3ria, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os her\u00f3is e anti-her\u00f3is. As hist\u00f3rias aproximam as pessoas, n\u00e3o as excluem. \u00c9 a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Al\u00e9m de uma import\u00e2ncia grande de forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas hist\u00f3rias e que \u00e0s vezes est\u00e1 por baixo de um v\u00e9u de exotismo e de ridiculariza\u00e7\u00e3o do outro. A arte de narrar hist\u00f3rias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa viv\u00eancia cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que s\u00e3o importantes enquanto reconhecimento das diferen\u00e7as, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12324\" aria-describedby=\"caption-attachment-12324\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-Foto-arquivo-pessoal-Int-2-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12324 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-Foto-arquivo-pessoal-Int-2-m.jpg\" alt=\"Rafael Morais \" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-Foto-arquivo-pessoal-Int-2-m.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Rafael-Morais-Foto-arquivo-pessoal-Int-2-m-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12324\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Morais \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contr\u00e1rio, que aquilo que n\u00e3o escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, n\u00e3o conseguimos registrar. A tradi\u00e7\u00e3o oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a mem\u00f3ria \u00e9 viva, o tempo inteiro a gente est\u00e1 reinventando, revendo tudo. A tradi\u00e7\u00e3o oral tem muitas fun\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias mnemot\u00e9cnicas de fazer permanecer essa mem\u00f3ria a partir das suas transforma\u00e7\u00f5es. Temos muito material de tradi\u00e7\u00e3o oral que se manteve vivo al\u00e9m da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, est\u00e3o a\u00ed nas colet\u00e2neas de recontos, hist\u00f3rias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o pr\u00f3prio povo conhecer essas hist\u00f3rias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradi\u00e7\u00e3o oral mant\u00e9m essa palavra viva, que n\u00e3o est\u00e1 ali s\u00f3 cristalizada, mant\u00e9m a magia. A magia voc\u00ea encontra no conto que est\u00e1 escrito, mas \u00e9 bem diverso de voc\u00ea poder ouvir uma hist\u00f3ria de boca para ouvido. Essa din\u00e2mica da tradi\u00e7\u00e3o oral tem sua pr\u00f3pria for\u00e7a porque \u00e9 flex\u00edvel, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente j\u00e1 construiu h\u00e1 muitos s\u00e9culos. \u00c9 como se fosse uma espiral nesse movimento de mem\u00f3ria e de passagem dessa tradi\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria arte de narrar hist\u00f3rias sempre foi essa mantenedora, a trama da hist\u00f3ria sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gera\u00e7\u00f5es. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de hist\u00f3rias nas viv\u00eancias de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de intera\u00e7\u00e3o, mas esse mecanismo de mem\u00f3ria continua vivo o tempo inteiro no ser humano. N\u00f3s todos somos seres \u00e9picos, narrativos, al\u00e9m de l\u00fadicos e pensantes. Por que ser\u00e1 que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que \u00e9 que hoje em diversos ambientes que chegamos h\u00e1 o interesse de pessoas de todas as idades com as hist\u00f3rias de tradi\u00e7\u00e3o oral? \u00c9 algo inexplic\u00e1vel. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televis\u00e3o, nos joguinhos, mas quando eles est\u00e3o diante de uma hist\u00f3ria que est\u00e1 sendo contada \u00e9 como se reacendesse um mist\u00e9rio na mem\u00f3ria dessas crian\u00e7as. Essas crian\u00e7as s\u00e3o de todas as idades, pois em alguns espet\u00e1culos nossos, \u00e0s vezes, v\u00eam adultos sozinhos. Nosso p\u00fablico \u00e9 bem heterog\u00eaneo e \u00e9 bem bacana perceber esse jogo de mem\u00f3ria que h\u00e1 na gente, essa necessidade de ouvir essas hist\u00f3rias e depois sair espalhando elas por a\u00ed. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular est\u00e1 viva nas cantigas, n\u00e3o somente naquelas de inf\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m nas cantigas de trabalho, nos mutir\u00f5es, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo pa\u00eds. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. \u00c9 uma maneira de se preservar atrav\u00e9s da m\u00fasica. \u00c9 interessante que as hist\u00f3rias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na \u00c1frica por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da hist\u00f3ria. No Teatro Gri\u00f4, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra l\u00edrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias pode ser melhor abrigada no seio da educa\u00e7\u00e3o formal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Com certeza. E n\u00e3o apenas com objetivo expl\u00edcito de ensinar, pois a hist\u00f3ria, a narrativa de tradi\u00e7\u00e3o oral transcende a informa\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, vai al\u00e9m, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, voc\u00ea est\u00e1 o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sess\u00e3o de hist\u00f3rias \u00e9 dif\u00edcil de descrever no sentido mais amplo porque \u00e9 muito profundo. Al\u00e9m de tudo o que est\u00e1 sendo ensinado a partir da narrativa, a hist\u00f3ria ensina por si s\u00f3 nessa experi\u00eancia de arte. As escolas muitas vezes est\u00e3o preocupadas apenas com um dep\u00f3sito de informa\u00e7\u00f5es para uma resolu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que \u00e9 fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que est\u00e1 ali para aprender. Aprender n\u00e3o somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A hist\u00f3ria vem para esse campo da conviv\u00eancia, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a voc\u00ea perceber o universo do imagin\u00e1rio, que \u00e9 t\u00e3o rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento at\u00e9 nossa despedida aqui dessa experi\u00eancia de vida. O tempo inteiro estamos contando hist\u00f3rias. O bom professor conta hist\u00f3rias a todo tempo, mesmo quando n\u00e3o acha. Um tema bem narrado \u00e9 o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel ao outro ser. Os excelentes professores t\u00eam esse dom\u00ednio da narrativa, da comunica\u00e7\u00e3o. Muitas vezes a gente v\u00ea a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica nas escolas, pois sen\u00e3o ficamos colocando a arte a servi\u00e7o de determinados conte\u00fados. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imagin\u00e1rio. Precisamos descobrir isso com urg\u00eancia para dar um pouco mais de frescor \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A arte de contar hist\u00f3rias vai num ponto crucial da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o pensamento cr\u00edtico, a forma\u00e7\u00e3o desse ser que \u00e9 capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar hist\u00f3rias n\u00e3o entrega tudo de bandeja, ela convida voc\u00ea a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que n\u00e3o est\u00e1 ensinando, est\u00e1 ali aprendendo junto. \u00c9 nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que \u00e9 a arte de narrar hist\u00f3rias. \u00c9 muito bonito voc\u00ea perceber o aprendizado que surge da\u00ed. E, claro, n\u00e3o tem nada a ver com as li\u00e7\u00f5es de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a crian\u00e7a. Na arte de contar, a hist\u00f3ria passa \u00e0 frente e as pessoas v\u00e3o conseguindo fazer suas pr\u00f3prias interpreta\u00e7\u00f5es sem que algu\u00e9m precise impor algo, dizendo que \u00e9 isso ou aquilo.\u00a0 \u00c9 um momento de liberdade art\u00edstica, no qual as hist\u00f3rias podem ser aliadas da educa\u00e7\u00e3o com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor est\u00e1 no pr\u00f3prio encontro da narra\u00e7\u00e3o, momentos das pessoas poderem ouvir e contar hist\u00f3rias sem se preocupar com os mecanismos did\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Gri\u00f4 \u00e9 a multiplicidade de atua\u00e7\u00f5es, ou seja, n\u00e3o apenas a encena\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos \u00e9 o foco, mas tamb\u00e9m desdobramentos variados sob o ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o, das rodas de conversa, interc\u00e2mbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, m\u00fasica, dan\u00e7a. Como \u00e9 atuar dentro dessa inten\u00e7\u00e3o multifacetada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>\u00c9 um presente para o artista. Uma oportunidade de n\u00e3o separar as possibilidades criativas de express\u00e3o. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Voc\u00ea est\u00e1 ali contando a hist\u00f3ria, mas de forma plena, com movimento. No sentido da forma\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 muito ampla, de elementos do c\u00f4mico, do palha\u00e7o, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o c\u00eanico da rua \u00e9 fant\u00e1stico. Essa possibilidade de ter esses elementos t\u00e9cnicos da voz, da intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, da disposi\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. O Teatro Gri\u00f4 \u00e9 realmente um presente para n\u00f3s que o integramos porque \u00e9 nossa morada art\u00edstica, digamos assim. \u00c9 a possibilidade de voc\u00ea conviver com tudo aquilo que acredita. \u00c9 uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. \u00c9 uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o p\u00fablico. Ao mesmo tempo em que \u00e9 um presente, \u00e9 tamb\u00e9m um desafio voc\u00ea lidar com essa metodologia do Teatro Gri\u00f4, tanto que vira e mexe a gente faz audi\u00e7\u00e3o, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira pr\u00f3pria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que voc\u00ea falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que \u00e9 esse mundo do espet\u00e1culo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de conviv\u00eancia do p\u00fablico com os narradores, as hist\u00f3rias. E, claro, tem todo um aprimoramento t\u00e9cnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. \u00c9 um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana \u00e9 que os atores n\u00e3o sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente j\u00e1 tem os narradores tocando percuss\u00e3o, rabeca, acordeom. \u00c9 um trabalho que n\u00e3o para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. \u00c9 muito instigante fazer parte como artista desse n\u00facleo. \u00a0Mas a tradi\u00e7\u00e3o oral, a palavra viva, \u00e9 o que d\u00e1 unidade a todo esse trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O\u00a0que dizer da resposta do p\u00fablico nesses diferentes ambientes por onde voc\u00eas circulam?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e \u00e0s vezes quer atingir um p\u00fablico distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da M\u00fasica, no Abaet\u00e9, em Itapu\u00e3, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o p\u00fablico tem acompanhado a gente. As pessoas v\u00e3o percebendo o grupo como uma grande fam\u00edlia e criam um certo v\u00ednculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das hist\u00f3rias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as hist\u00f3rias, que n\u00e3o \u00e9 teatro convencional, um caminho art\u00edstico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade \u00e9 \u00f3tima. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a recep\u00e7\u00e3o foi fant\u00e1stica. As pessoas lotavam as apresenta\u00e7\u00f5es, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas hist\u00f3rias. Engra\u00e7ado que tem gente que pergunta se as hist\u00f3rias s\u00e3o reais. Ent\u00e3o, o v\u00ednculo que criamos com o p\u00fablico acaba sendo de cumplicidade. Acho que \u00e9 o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas est\u00e3o se importando. Em S\u00e3o Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do pa\u00eds, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar tr\u00eas espet\u00e1culos nossos num festival internacional de narra\u00e7\u00e3o oral porque o p\u00fablico assistiu. \u00c9 um envolvimento que n\u00e3o \u00e9 frio. A gente acaba de alguma forma passando para o p\u00fablico um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa rela\u00e7\u00e3o de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o p\u00fablico percebe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12325\" aria-describedby=\"caption-attachment-12325\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/O-Grupo-Teatro-Gri\u00f4-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-int-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12325 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/O-Grupo-Teatro-Gri\u00f4-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-int-2.jpg\" alt=\"O Grupo Teatro Gri\u00f4 - Foto - divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/O-Grupo-Teatro-Gri\u00f4-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-int-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/O-Grupo-Teatro-Gri\u00f4-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-int-2-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12325\" class=\"wp-caption-text\">O Grupo Teatro Gri\u00f4 \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Salvador \u00e9 uma cidade que abra\u00e7a verdadeiramente o teatro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013<\/strong> Pergunta complexa (risos), porque h\u00e1 v\u00e1rios p\u00fablicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia \u00e9 muito paradoxal mesmo. Voc\u00ea n\u00e3o tem um \u00fanico jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com rela\u00e7\u00e3o a essa recep\u00e7\u00e3o. O teatro pode ser melhor abra\u00e7ado. Tem um amigo que diz que se amanh\u00e3 fecharem todos os teatros de Salvador, ningu\u00e9m vai sentir falta (risos). \u00c9 uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o protestar. O teatro tamb\u00e9m \u00e9 algo muito amplo. A Bahia tem uma tradi\u00e7\u00e3o de teatro muito grande, n\u00e3o s\u00f3 pela primeira faculdade da Am\u00e9rica Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas tamb\u00e9m pelo hist\u00f3rico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador \u00e9 muito forte. Quando cheguei em Salvador h\u00e1 quase 20 anos, senti que a pulsa\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atra\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, de const\u00e2ncia do p\u00fablico buscando os espet\u00e1culos. Por\u00e9m, quando acontecem determinados espet\u00e1culos, o p\u00fablico vem. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 algo est\u00e1tico. Tem a coisa do mercado tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o do p\u00fablico abra\u00e7ar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o p\u00fablico ama teatro, a gente percebe que ele poderia abra\u00e7ar mais. No entanto, quando acontecem os espet\u00e1culos de rua, alguns atingem um p\u00fablico imenso. O que tem acontecido com o Teatro Gri\u00f4 \u00e9 o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estrat\u00e9gias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia \u00e9 muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O p\u00fablico que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afei\u00e7\u00e3o das pessoas com espet\u00e1culos realizados na rua, n\u00e3o h\u00e1 um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espet\u00e1culos quando eles acontecem. Fizemos um espet\u00e1culo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recep\u00e7\u00e3o era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com rela\u00e7\u00e3o a isso, o p\u00fablico abra\u00e7a mesmo. Voc\u00ea conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim n\u00e3o fazem com aquela const\u00e2ncia porque se acredita que n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o, mas tem sim. O p\u00fablico quer abra\u00e7ar, mas como vai fazer isso se n\u00e3o tem muitas vezes algo que se aproxima dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que o faz continuar naquilo que voc\u00ea definiu como a arte de sonhar acordado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MORAIS \u2013 <\/strong>Essa pergunta \u00e9 muito dif\u00edcil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, n\u00e3o s\u00f3 na Bahia, mas no Brasil, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois al\u00e9m das dificuldades do of\u00edcio, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que n\u00e3o era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para tr\u00e1s, percebo que realmente \u00e9 meu caminho. N\u00e3o d\u00e1 pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo h\u00e1 um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte \u00e9 pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espet\u00e1culos, do processo criativo que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 algo ef\u00eamero. A\u00ed, a gente seguindo adiante com isso \u00e9 muita coragem. Agora, n\u00e3o me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma seguran\u00e7a no sentido material. Mas acho que \u00e9 a arte que me mant\u00e9m vivo, pois abra\u00e7o um caminho de crescimento e vida, um of\u00edcio. \u00c9 meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso \u00e9 muito profundo. \u00c9 ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica voc\u00ea fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para ningu\u00e9m, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se d\u00e1 ao pessoal que segue esse of\u00edcio das hist\u00f3rias \u00e9 Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em voc\u00ea. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas fun\u00e7\u00f5es ditas art\u00edsticas, mas n\u00e3o vive ele. Voc\u00ea n\u00e3o consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. \u00c9 tamb\u00e9m a ideia da miss\u00e3o. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo \u00e9 maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e voc\u00ea n\u00e3o tem sa\u00edda. E tamb\u00e9m voc\u00ea acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem v\u00e1rios artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Ent\u00e3o, voc\u00ea acaba entrela\u00e7ando sua miss\u00e3o com as de outros parceiros c\u00famplices. Eu e T\u00e2nia, que fundamos o Teatro Gri\u00f4, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha tamb\u00e9m, que desde pequenininha est\u00e1 envolvida no universo art\u00edstico do teatro. A gente virou uma grande fam\u00edlia que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas tamb\u00e9m com muita alegria. As dificuldades n\u00e3o s\u00e3o a t\u00f4nica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que n\u00e3o sabemos dizer o que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/strong> edita a Revista Diversos Afins, al\u00e9m de buscar abrigo em livros, discos e filmes.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 frente de um dos mais importantes grupos teatrais da Bahia,  o ator Rafael Morais exalta, numa entrevista, a arte de contar hist\u00f3rias<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12320,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3099,16,2539],"tags":[1111,63,137,102,8,93,1980,99],"class_list":["post-12319","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-112a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-bahia","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-oralidade","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-rafael-morais","tag-salvador","tag-teatro-grio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12319"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12466,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12319\/revisions\/12466"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}