{"id":12391,"date":"2016-08-23T17:12:20","date_gmt":"2016-08-23T20:12:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12391"},"modified":"2016-09-30T13:10:45","modified_gmt":"2016-09-30T16:10:45","slug":"aperitivopalavraii-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-10\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Uma indel\u00e9vel e tortuosa via chamada mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-de-A-Eternidade-da-Ma\u00e7\u00e3-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12430\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-de-A-Eternidade-da-Ma\u00e7\u00e3-int.jpg\" alt=\"Capa de A Eternidade da Ma\u00e7\u00e3 \" width=\"299\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-de-A-Eternidade-da-Ma\u00e7\u00e3-int.jpg 299w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-de-A-Eternidade-da-Ma\u00e7\u00e3-int-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensa\u00e7\u00f5es as mais variadas poss\u00edveis, \u00e9 porque algo efetivamente aconteceu dentro de n\u00f3s a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas v\u00e3o maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espa\u00e7o de proje\u00e7\u00f5es, arremates e de livres inven\u00e7\u00f5es, sejam elas labir\u00ednticas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando n\u00e3o desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de n\u00f3s. A partir da\u00ed, decidimos se avan\u00e7amos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades \u00e9 gra\u00e7a um tanto improv\u00e1vel de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimens\u00e3o mais \u00edntima que guardamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o para as linhas iniciais deste texto serem assim constru\u00eddas est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 experi\u00eancia de leitura proporcionada por \u201cA Eternidade da Ma\u00e7\u00e3\u201d (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vin\u00edcius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensa\u00e7\u00f5es narrativas que demarcam uma v\u00e1lida op\u00e7\u00e3o por relacionar aquilo que est\u00e1 fora e dentro dos dom\u00ednios humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo como fagulhas marcantes de inspira\u00e7\u00e3o can\u00e7\u00f5es de Caetano Veloso, \u201cA Eternidade da Ma\u00e7\u00e3\u201d apresenta todo um territ\u00f3rio de fic\u00e7\u00f5es contidas num dos per\u00edodos mais assombrosos da hist\u00f3ria do Brasil \u2013 a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cen\u00e1rio de tens\u00e3o sugerido pela repress\u00e3o ditatorial acaba sendo uma esp\u00e9cie de armadilha quando um autor n\u00e3o sabe se livrar dos apelos f\u00e1ceis do tema. Para a recompensadora constata\u00e7\u00e3o do leitor mais atento, Marcus Vin\u00edcius foge desses ardis criativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que estamos diante de sete contos marcados por uma men\u00e7\u00e3o temporal expl\u00edcita a hist\u00f3rias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do s\u00e9culo passado. Ainda assim, isso \u00e9 apenas um recorte do tempo para situar quem se debru\u00e7a sobre suas linhas. O destaque maior est\u00e1 em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequ\u00eancia ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o vi\u00e9s notadamente psicol\u00f3gico dos personagens, cujas exist\u00eancias s\u00e3o alvejadas pela ambi\u00eancia pl\u00fambea dos anos em curso. O tempo psicol\u00f3gico \u00e9 como um grande personagem central que abra\u00e7a todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesita\u00e7\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es e desejos contidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcus Vin\u00edcius \u00e9 h\u00e1bil em posicionar num mesmo front da consci\u00eancia de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a m\u00e3o obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conforma\u00e7\u00e3o especial na medida em que intercalam cen\u00e1rios difusos de vida. O autor manipula a din\u00e2mica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de\u00a0<em>flashback\u00a0<\/em>como uma estrat\u00e9gica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percep\u00e7\u00e3o da realidade na qual est\u00e3o densamente mergulhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>She has given her soul to the Devil\/but the Devil gave his soul to God<\/em>, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composi\u00e7\u00f5es do per\u00edodo em que amargou seu ex\u00edlio em paragens londrinas. Esse trecho da m\u00fasica Maria Beth\u00e2nia, utilizado por Marcus Vin\u00edcius como ep\u00edgrafe de \u201cA Alma do Diabo\u201d, conto que abre o livro, por si s\u00f3 \u00e9 emblem\u00e1tico e sugere um caminho atrav\u00e9s do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irm\u00e3o foi torturado por aquele mesmo militar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cBarco vazio\u201d, as no\u00e7\u00f5es de integridade f\u00edsica e moral s\u00e3o postas em xeque ante a extrema necessidade de sobreviv\u00eancia a qual est\u00e1 submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exce\u00e7\u00e3o l\u00f3gicas tradicionais se invertem a tal ponto que tamb\u00e9m \u00e9 permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabe\u00e7a do personagem central ecoa a frase: \u201c\u00c0s vezes \u00e9 preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que \u00e9 certo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas \u00f3bvias em alguns de seus personagens. \u00c9, por exemplo, o que ocorre em \u201cA flor e a estrela\u201d, trama que tem por curioso arremate a ing\u00eanua vis\u00e3o de mundo do seu protagonista, at\u00e9 ent\u00e3o alheio a tudo o que representava viver num pa\u00eds subtra\u00eddo em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de como uma suposta aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais \u00e0 frente, no conto &#8220;Longe daqui&#8221;, subsiste um espa\u00e7o para o desejo, que em meio a toda sombra circular da trai\u00e7\u00e3o, encontra algum m\u00ednimo abrigo diante da aus\u00eancia de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experi\u00eancia de vida desde a inf\u00e2ncia, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer no\u00e7\u00e3o de sexualidade e que se norteia pela consci\u00eancia de que o corpo \u00e9 tamb\u00e9m um recept\u00e1culo de gratid\u00e3o e lealdade.\u00a0 Estamos diante de uma amizade posta \u00e0 prova por vias nada usuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos, vamos percebendo que os personagens s\u00e3o pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cen\u00e1rio de repress\u00e3o, cultivam uma esp\u00e9cie de felicidade clandestina. Esta fugidia, \u00e9 claro, mas o suficiente para recriar cen\u00e1rios da mem\u00f3ria, atrav\u00e9s dos quais passam v\u00edvidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de repara\u00e7\u00e3o. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das hist\u00f3rias recorrem a lembran\u00e7as que tanto significam uma v\u00e1lvula de escape para a dor presente como tamb\u00e9m uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vencedora do Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, \u201cA Eternidade da Ma\u00e7\u00e3\u201d \u00e9 uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lan\u00e7a m\u00e3o de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o f\u00edsico e o imaterial. Assim, n\u00e3o entrega respostas prontas ao leitor. \u00c9 como se as hist\u00f3rias ficassem em suspens\u00e3o, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a din\u00e2mica de outros olhares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminada a leitura do livro, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que Marcus Vin\u00edcius Rodrigues n\u00e3o quer que esque\u00e7amos uma das p\u00e1ginas mais cru\u00e9is de nossa hist\u00f3ria. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formula\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, o saldo \u00e9 por demais positivo. Qui\u00e7\u00e1 a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a mem\u00f3ria, e n\u00e3o usurp\u00e1-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem prop\u00f3sito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> edita a Revista Diversos Afins, al\u00e9m de buscar abrigo em livros, discos e filmes. \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de contos de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12429,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3099,2533],"tags":[3142,11,419,137,252,189],"class_list":["post-12391","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-112a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-a-eternidade-da-maca","tag-aperitivo-da-palavra","tag-contos","tag-fabricio-brandao","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12391"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12391\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12460,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12391\/revisions\/12460"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}