{"id":12418,"date":"2016-08-24T15:02:50","date_gmt":"2016-08-24T18:02:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12418"},"modified":"2016-09-30T13:10:19","modified_gmt":"2016-09-30T16:10:19","slug":"dedos-de-prosa-ii-42","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-42\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Lizziane Azevedo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12420\" aria-describedby=\"caption-attachment-12420\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/patrickA-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12420 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/patrickA-int.jpg\" alt=\"Patrick Arley\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/patrickA-int.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/patrickA-int-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/patrickA-int-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12420\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Patrick Arley<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cama vazia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordei assustada ao sentir que ele me tocava. A m\u00e3o dele estava fria, chamei a enfermeira. Ela veio, checou tudo o que podia e saiu. Pus-me em vig\u00edlia novamente. N\u00e3o havia outros acompanhantes. Para meus irm\u00e3os, nosso pai j\u00e1 havia morrido h\u00e1 muitos anos. Dormir era imposs\u00edvel naquele quarto de hospital. Um breve cochilo e os pesadelos me sacudiam o corpo. A presen\u00e7a dele me incomodava, sentia-me observada o tempo inteiro. Naquele lugar apertado e abafado eu podia apalpar o cheiro denso do suor azedo que sempre me nauseou. Ele acordou agitado, n\u00e3o dizia nada com nada. Segurava o peito com for\u00e7a, devia ser outro infarto. Demorei um pouco para chamar a enfermeira. No \u00edntimo era bom v\u00ea-lo estrebuchar. At\u00e9 sorri, vendo-o em agonia. Mal me virei para pedir socorro, senti a for\u00e7a da sua m\u00e3o segurando-me o bra\u00e7o. A mesma for\u00e7a que me dominava quando crian\u00e7a para roubar de mim o meu sexo. Tremi. Sufoquei. Meu cora\u00e7\u00e3o batia acelerado. Pensei em gritar, chorar. Respirei fundo e busquei me acalmar, quando percebi que ele queria dizer algo. Tive receio de baixar minha cabe\u00e7a at\u00e9 ele; mesmo assim o fiz, reunindo minhas \u00faltimas for\u00e7as. Ouvi um \u201cperdoe-me\u201d abafado que parecia mais uma de suas alucina\u00e7\u00f5es. Mas uma l\u00e1grima parecia confirmar a veracidade do pedido, que foi repetido: <em>Perdoe-me, por favor. Perdoe-me.<\/em> Paralisei com o que ouvia e via. Esqueci da enfermeira, da urg\u00eancia&#8230; Pensei em dizer algo. Confusa, sem saber o que dizer, corri para fora do hospital. Chorei, chorei muito. Quando voltei, a cama j\u00e1 estava vazia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Catecismo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele subia o morro todas as tardes. A batina preta fazia-o suar bicas. Apesar dos desconfortos, n\u00e3o deixava um s\u00f3 dia de cumprir sua miss\u00e3o. Uma b\u00edblia enorme deixava-o com apenas uma m\u00e3o livre, que estava sempre agarrada a um len\u00e7o branco. Todos os moradores do morro conheciam-no e saudavam-no ao passar. Com um sorriso gentil, ele acenava para todos; vez por outra parava para tomar um arzinho e conversar um pouco com Tuco, dono do bar da ladeira. Inteirado das novidades, bebia um copo d\u2019\u00e1gua e continuava sua romaria at\u00e9 a casa que ele usava como capela, onde dava aulas de catecismo. S\u00f3 crian\u00e7as cercavam-no por l\u00e1. Os meninos predominavam no meio de duas ou tr\u00eas meninas. Aula encerrada, os alunos come\u00e7avam a sair, um ap\u00f3s o outro, mas n\u00e3o sem antes beijar a m\u00e3o do mestre, que sempre se arrepiava com o gesto, invis\u00edvel \u00e0s crian\u00e7as. Ele permanecia no local por horas com tr\u00eas meninos do grupo. Seriam coroinhas na sede da igreja, dizia o padre. Alguns achavam que era por essa raz\u00e3o que eles eram privilegiados, ganhavam presentes, roupas, sapatos. Era n\u00edtida a diferen\u00e7a deles para os demais, que andavam com suas havaianas furadas e shortinhos e camisetas enodoadas e rasgadas, mas ningu\u00e9m parecia desconfiar do padre, at\u00e9 que uma batida policial desmascarou-o. De santo ele n\u00e3o tinha nada. Falso! Nunca foi padre. Voava pelo morro nos avi\u00f5ezinhos dos meninos que aliciava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sou <strong>Lizziane Azevedo<\/strong>, uma advogada \u00e1vida por literatura, raz\u00e3o pela qual nunca dispenso a companhia de um bom livro, h\u00e1bito que compartilho com meu esposo, leitor, revisor e primeiro cr\u00edtico dos meus textos: Andr\u00e9 S\u00e9rgio. Moro em Monteiro, interior da Para\u00edba, onde fui criada e onde aprendi sobre poesia. J\u00e1 publiquei diversos contos na C\u00e2mara Brasileira do Jovem Escritor; no suplemento liter\u00e1rio Correio das Artes, do jornal A Uni\u00e3o; na Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada e no site Diversos Afins.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Densas marcas nos breves contos de Lizziane Azevedo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12419,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3099,2534],"tags":[3140,3141,419,41,3139],"class_list":["post-12418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-112a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-cama-vazia","tag-catecismo","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-lizziane-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12418"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12451,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12418\/revisions\/12451"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}