{"id":12508,"date":"2016-09-28T08:57:57","date_gmt":"2016-09-28T11:57:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12508"},"modified":"2016-09-29T22:23:23","modified_gmt":"2016-09-30T01:23:23","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-47","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-47\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">John Lennon n\u00e3o teve a mesma sorte que <strong>Tadeu Sarmento<\/strong>. Em 8 de dezembro de 1980, o ex-Beatle caminhava pelas ruas de Nova Iorque, quando foi abordado por Mark Chapman, um sujeito gordo, de \u00f3culos de lentes grandes e cabelo escorrido, que lhe pediu um aut\u00f3grafo. Horas depois, Lennon retornava ao hotel onde estava hospedado, e Chapman novamente o aguardava, desta vez armado de uma pistola. Alegando ouvir vozes que lhe mandavam matar, o suposto f\u00e3 disparou contra o m\u00fasico ingl\u00eas, atingindo-o fatalmente quatro vezes nas costas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarmento conheceu Chapman, quando trabalhava numa empresa de Call Center, em Recife. Mas as vozes que este ouvia eram as dos telefonemas dos clientes. Com o tempo, nasceu entre eles uma amizade, contudo persistia em Sarmento a sensa\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 conhecia o colega de trabalho de outro lugar. Certa noite, ent\u00e3o, veio a revela\u00e7\u00e3o: o amigo era o assassino de John Lennon. N\u00e3o o leg\u00edtimo, que estava preso fazia d\u00e9cadas, mas um s\u00f3sia an\u00f4nimo de Chapman chamado Gabriel Dourado, que sequer sabia quem era o ex-Beatle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inusitado da descoberta foi o ponto de partida para o romance \u201cAssocia\u00e7\u00e3o Robert Walser para s\u00f3sias an\u00f4nimos\u201d, que venceu o Pr\u00eamio Pernambuco de Literatura de 2014. Com tom farsesco e t\u00e9cnica impec\u00e1vel, o autor recifense amalgama registros hist\u00f3ricos e refer\u00eancias liter\u00e1rias a uma inventividade burlesca, para estruturar a trama sob duas linhas narrativas que versam sobre a figura do duplo, sendo a primeira a tal associa\u00e7\u00e3o de s\u00f3sias cujo desejo \u00e9 se anularem \u00e0 imagem de seus originais, num arremedo de seu patrono, o obscuro escritor su\u00ed\u00e7o do t\u00edtulo, que escolheu viver seus \u00faltimos dias no anonimato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra metade da hist\u00f3ria se passa numa cidadezinha fict\u00edcia, localizada no Paraguai, adotada por fugitivos nazistas como ref\u00fagio, em especial pelo pa\u00eds estar sob o punho de um regime ditatorial. Ali, os habitantes, \u00e0 maneira do comportamento de um rebanho, seguem os imperativos de Immanuel Kant, reprisando os h\u00e1bitos do fil\u00f3sofo prussiano, inclusive aqueles que dizem respeito \u00e0 sua vida sexual. Nesse jogo de duplas identidades, o romance rompe sua casca de surrealismo e, por meio de reflexos dos tempos modernos, toca em temas que se referem \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o do outro de modo a lograr a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este, de fato, \u00e9 um dos assuntos recorrentes dessa sabatina: o modo pelo qual a internet, sobretudo com o ingresso das redes sociais, possibilitou a descaracteriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em pe\u00e7as de um modo de proceder coletivo, de m\u00e1scaras que cobrem m\u00e1scaras numa postura que se tornou aceit\u00e1vel e, por que n\u00e3o?, padr\u00e3o. Sarmento percebe a literatura neste mesmo contexto, apontando os novos rumos do mercado editorial, com a dissemina\u00e7\u00e3o das pequenas editoras e dos novos autores, e ainda falando sobre as buscas de seu processo criativo, do novo livro que est\u00e1 por sair, da influ\u00eancia dos autores hispano-americanos e da poesia em sua fic\u00e7\u00e3o, da literatura feminina e da import\u00e2ncia de ter conquistado um pr\u00eamio liter\u00e1rio. Uma conversa que revela um escritor maduro, prol\u00edfero, atento \u00e0 qualidade de sua escrita na mesma propor\u00e7\u00e3o que preocupado com o leitor. \u201cN\u00e3o quero me fechar em um mundo particular e escrever hist\u00f3rias inintelig\u00edveis para a adora\u00e7\u00e3o de um seleto grupo de jacar\u00e9s empalhados\u201d, declara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12512\" aria-describedby=\"caption-attachment-12512\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/TadeuLivroint.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12512 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/TadeuLivroint.jpg\" alt=\"Tadeu Sarmento\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/TadeuLivroint.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/TadeuLivroint-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12512\" class=\"wp-caption-text\">Tadeu Sarmento \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu romance, &#8220;Associa\u00e7\u00e3o Robert Walser de s\u00f3sias an\u00f4nimos&#8221;, trata de uma maneira distinta do que se costuma abordar a figura do duplo na literatura universal. Seus personagens n\u00e3o carregam em si a \u00e2nsia de substituir (ou exterminar) seus originais, por\u00e9m introjetam essa condi\u00e7\u00e3o como uma forma de se apagarem, uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio em vida. Isso acaba por trazer \u00e0 mem\u00f3ria \u201cO mito de S\u00edsifo\u201d, em que Albert Camus argumenta que \u201cs\u00f3 existe um problema filos\u00f3fico realmente s\u00e9rio: o suic\u00eddio\u201d. Diante dessa afirma\u00e7\u00e3o, voc\u00ea acredita que, no mundo ultramoderno e expositivo, desejar intensamente ser o outro, negar de modo integral a pr\u00f3pria identidade, \u00e9 uma decis\u00e3o que est\u00e1 mais ligada \u00e0 patologia ou \u00e0 filosofia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Est\u00e1 ligada \u00e0s duas. Ali\u00e1s, depois que Nietzsche nos revelou que sistemas de conhecimento dependem mais das paix\u00f5es dos fil\u00f3sofos do que gostar\u00edamos que dependessem, n\u00e3o podemos mais separ\u00e1-las. Estou pegando a raiz etimol\u00f3gica do substantivo \u201cpatologia\u201d, que segundo a Wikip\u00e9dia (risos) vem de pathos, paix\u00e3o. \u00c9 nesse sentido que fa\u00e7o minhas as palavras do narrador do &#8220;Associa\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;: \u201ca paix\u00e3o de querer ser outra pessoa s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 maior que a de esquecer quem voc\u00ea \u00e9\u201d. Essa \u00e9 a tese central do romance, que voc\u00ea coloca muito bem na pergunta. Em tempos de redes sociais, esse desejo de apagar (ou esconder) a si mesmo para construir um outro que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9, tomou propor\u00e7\u00f5es de um surto psic\u00f3tico sem precedentes. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que muitos leitores hoje em dia gostem tanto da chamada \u201cautofic\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 que todos fazem \u201cautofic\u00e7\u00e3o\u201d diariamente em suas timelines. Cada um faz da pr\u00f3pria vida uma fic\u00e7\u00e3o fantasiosa, colocando os demais como coadjuvantes da grande novela do seu EU fantasioso. Posso citar um exemplo pr\u00e1tico, da data corrente (a entrevista foi realizada no fim de agosto): quando o golpe contra a presidente Dilma ainda n\u00e3o havia sido consolidado, vi muitos amigos afirmarem em rede que pegariam em armas caso acontecesse, que usariam de viol\u00eancia, e isso e aquilo. Agora que o golpe se consolidou, o discurso j\u00e1 se deslocou para um vi\u00e9s mais brando, de elogio \u00e0s qualidades da presidente e da afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ca hist\u00f3ria far\u00e1 justi\u00e7a\u201d, etc. Quer dizer: muda-se o roteiro, mas n\u00e3o se larga o personagem. \u00c9 pat\u00e9tico, \u00e9 triste, \u00e9 ris\u00edvel, mas \u00e9 profundamente&#8230; humano. Por isso \u00e9 t\u00e3o bonito. A humanidade \u00e9 constitu\u00edda menos de grandezas e bem mais dessas pequenas baixezas mesmo. N\u00e3o somos grande merda e ter consci\u00eancia disso torna a vida mais suport\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A\u00ed est\u00e1 um dos subtextos a que se ocupa o livro: a possibilidade de ser outro atrav\u00e9s do ingresso nas redes sociais. Mais que uma fuga, essa pode ser uma condi\u00e7\u00e3o de anestesia, de mentir para si que h\u00e1 um meio (ou meios) de se esquivar dos problemas reais, da vida que existe no espa\u00e7o-tempo at\u00e9 o acesso ao smartphone ou ao computador. N\u00e3o caminhamos, desse modo, muito mais para ser um s\u00f3sia de n\u00f3s mesmos que de um outro a quem se guarda admira\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Faz sentido. Acredito que a premissa secreta que move os s\u00f3sias que frequentam a Associa\u00e7\u00e3o Robert Walser \u00e9 a ideia de que ningu\u00e9m escolhe seu modelo de admira\u00e7\u00e3o por acaso. Isso Hussein talvez tenha percebido antes de n\u00f3s, o que fica claro durante aquele exerc\u00edcio em que ele manda os s\u00f3sias escreverem o pr\u00f3prio nome na borda das meias. Talvez sejamos incapazes de nos apagar por completo, por isso escolhemos modelos que guardem alguma identifica\u00e7\u00e3o conosco. Modelos atrav\u00e9s dos quais possamos trazer \u00e0 luz aquilo que temos de mais guardado. Nesse sentido, ser um s\u00f3sia de si mesmo ou de um outro termina dando na mesma. O s\u00f3sia do Chapman \u00e9 t\u00e3o retra\u00eddo e paran\u00f3ico quanto o Chapman original. Ele apenas encontrou um palco sobre o qual atuar. Podemos dizer que esse nosso palco \u00e9 a rede social. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode fugir de sua pr\u00f3pria sombra\u201d, diz Jack London na ep\u00edgrafe do livro. Sou t\u00e3o fascinado com essa quest\u00e3o da teatralidade nas redes sociais que depois do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d escrevi outro romance mais espec\u00edfico sobre o assunto. N\u00e3o posso dar detalhes porque o livro est\u00e1 em an\u00e1lise em um pr\u00eamio por a\u00ed. Mas em breve teremos not\u00edcias dele. Boas not\u00edcias, espero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O curioso \u00e9 que, diante dessa sensa\u00e7\u00e3o reinante de absurdo, o romance abre uma segunda linha temporal, na qual um outro grupo de s\u00f3sias, ocupando uma cidade tropical onde tamb\u00e9m se refugiam nazistas, seguem monasticamente os preceitos filos\u00f3ficos de Immanuel Kant. Como a raz\u00e3o consegue se estabelecer nesse universo frequentado justamente pela falta de l\u00f3gica? E mais, \u00e9 poss\u00edvel existir s\u00f3sias de Kant nos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Essa segunda linha temporal \u00e9 interessante. Ela n\u00e3o existia na primeira vers\u00e3o do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d. Tive a ideia de inclu\u00ed-la depois de me lembrar desse obscuro livro que li na \u00e9poca da faculdade de filosofia. \u201cA vida sexual de Immanuel Kant\u201d, de Frederic P\u00e0ges, existe. O livro trata dessa col\u00f4nia de kantianos e na \u00e9poca do seu lan\u00e7amento causou um esc\u00e2ndalo moderado, relativo a quest\u00f5es de autoria. Resolvi coloc\u00e1-lo no livro, em uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio metaliter\u00e1rio no estilo Vila-Matas, depois que percebi que para por em xeque a quest\u00e3o da identidade, precisava colocar tamb\u00e9m em xeque a quest\u00e3o da autoria. A pergunta que o esc\u00e2ndalo P\u00e0ges\/Botul suscitou foi a seguinte: at\u00e9 que ponto um texto perde sua validade quando se descobre que seu autor \u00e9 tamb\u00e9m uma inven\u00e7\u00e3o ficcional? Pois foi essa a acusa\u00e7\u00e3o que fizeram a P\u00e0ges na \u00e9poca, a de ele ter inventado o fil\u00f3sofo Jean-Baptiste Botul. A partir da\u00ed, alguns jornais tentaram desmerecer a obra. S\u00f3 que essa tentativa de desmerecimento ocorreu, em parte, do fato de P\u00e0ges ter enganado muitos com a brincadeira. Isso est\u00e1 bem tratado no \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d e a liga\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria com a hist\u00f3ria da associa\u00e7\u00e3o de s\u00f3sias \u00e9 t\u00e3o org\u00e2nica quanto contrapontual. A ideia dos criminosos nazistas veio depois. N\u00e3o tem nada a ver com o livro de P\u00e0ges. Quanto \u00e0 pergunta em si, creio que a raz\u00e3o consegue se estabelecer bem em um universo, como voc\u00ea disse, frequentado justamente pela falta de l\u00f3gica, uma vez que o que consideramos \u201cil\u00f3gico\u201d \u00e9 na verdade um outro tipo de l\u00f3gica ainda n\u00e3o desvendada. Hoje em dia n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel haver s\u00f3sias de Kant como eles existem de fato. Somos todos n\u00f3s. O homem moderno, que assassinou Deus para colocar em seu altar vazio a pr\u00f3pria consci\u00eancia como \u00fanico tribunal e \u00fanico juiz, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o kantiana. Somos todos s\u00f3sias de Kant.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Falando em Deus, recordo-me de ter lido que seu pr\u00f3ximo romance, que sai em breve pela Confraria do Vento, chama-se justamente \u201cE se Deus for um de n\u00f3s?\u201d. N\u00e3o sei a que ponto pode adiantar a trama, mas h\u00e1 tamb\u00e9m o uso dessa carga filos\u00f3fica para expor e problematizar comportamentos e valores sociais modernos, a exemplo do que foi feito em \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> O \u201cE se Deus for um de n\u00f3s?\u201d \u00e9 um romance sobre um assassino em s\u00e9rie de ruivas virgens que se envolve com uma irlandesa que muitos acreditam ser uma esp\u00e9cie de Joana D\u2019Arc do IRA. Escrevi o \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d em 2013. De l\u00e1 para c\u00e1, escrevi mais tr\u00eas romances, um deles \u00e9 o \u201cE se Deus for um de n\u00f3s?\u201d. Os outros dois est\u00e3o submetidos a pr\u00eamios liter\u00e1rios de in\u00e9ditos. Todos os tr\u00eas que vieram depois diferem em tudo do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d. Gosto bastante do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d, mas n\u00e3o pretendo ser um escritor para pares, cr\u00edticos liter\u00e1rios e afins. Quero chegar ao leitor comum (leia-se: leitores n\u00e3o especialistas), enquanto eles existirem. De modo que a resposta \u00e9 n\u00e3o. Meu romance que sai esse ano pela Confraria \u00e9 enxuto de refer\u00eancias nem tem jogos filos\u00f3ficos ou liter\u00e1rios metalingu\u00edsticos. Seu grande trunfo \u00e9 o enredo, e a maneira como consegui que esse enredo flu\u00edsse bem at\u00e9 o final. Mas continuo com o mesmo senso de humor. E os personagens que surgem com a trama s\u00e3o impag\u00e1veis, mas absolutamente veross\u00edmeis: operadores de Call Center com dist\u00farbios nervosos, gays homof\u00f3bicos, policiais canastr\u00f5es, adeptos de seitas religiosas malucas, metaleiros nazistas, surfistas com pernas amputadas, traficantes de filmes porn\u00f4s ilegais, virgens sodomitas, etc. \u00c9 tamb\u00e9m um dos livros mais politicamente incorretos que eu j\u00e1 li (risos). Terei sorte se n\u00e3o for preso depois de lan\u00e7\u00e1-lo. Do jeito que as coisas andam&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Mas j\u00e1 h\u00e1 no \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d a ocorr\u00eancia desse humor c\u00e1ustico, de uma ironia cortante que, em certos momentos, pode ser gatilho para o desagrado dos mais obtusos, dos patrulheiros mal-humorados ou mal-intencionados. Pela sua resposta anterior, parece-me que isso n\u00e3o lhe tira o sono nem um pouco. Sendo assim, sua inten\u00e7\u00e3o, enquanto escritor, \u00e9 provocar o leitor, testar sempre seus limites? O politicamente correto \u00e9 mais um est\u00edmulo que uma trava ou, menos ainda, uma constante aporrinha\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211; <\/strong>N\u00e3o apenas minha inten\u00e7\u00e3o, mas acredito que o que caracteriza a boa literatura \u00e9 justamente sua capacidade de colocar o leitor em contato com sentimentos e pontos de vistas conflitantes ao seu, e n\u00e3o apenas conflitantes, mas em alguns casos at\u00e9 indigestos. O politicamente correto n\u00e3o deve ser empecilho para escritor nenhum. Muitas vezes \u00e9 tarefa do escritor dizer como a realidade \u00e9, e n\u00e3o como ele, enquanto cidad\u00e3o, gostaria que fosse. Se num romance h\u00e1 um personagem mis\u00f3gino, homof\u00f3bico, racista, etc., como constru\u00ed-lo sem lan\u00e7ar m\u00e3o de passagens mis\u00f3ginas, homof\u00f3bicas ou racistas? Tudo depende se tais passagens funcionam e\/ou s\u00e3o essenciais \u00e0 narrativa. Note que esta \u00e9 uma pergunta t\u00e9cnica, n\u00e3o moral. Uma literatura que responda a perguntas morais deixa de ser literatura e vira panfleto de igreja. E caso essas passagens sejam necess\u00e1rias, o escritor deve estar preparado para negoci\u00e1-las diante de um poss\u00edvel linchamento p\u00fablico. Claro que, como voc\u00ea coloca muito bem na pergunta, sempre haver\u00e1 algum mal-intencionado pronto a retirar uma cita\u00e7\u00e3o de contexto para pilhar um escritor nas redes sociais. \u00c9 que depois que a fogueira est\u00e1 acesa, qualquer um arruma motivos para levar seu graveto seco para alimentar as chamas. Mas \u00e9 s\u00f3 isso o que eles t\u00eam: um graveto seco. A rede social \u00e9 como Deus: deu voz a muitas jumentas de Bala\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voltando ao romance, uma outra leitura que pode ser feita \u00e9 a respeito da pr\u00f3pria literatura contempor\u00e2nea. Voc\u00ea parece lan\u00e7ar m\u00e3o de in\u00fameras refer\u00eancias liter\u00e1rias como uma maneira de trazer \u00e0 luz a literatura que \u00e9 feita e consumida hoje em dia, como se n\u00f3s, novos autores, f\u00f4ssemos uma c\u00f3pia mal-acabada do que nos precedeu. Acredita que os escritores de hoje s\u00e3o s\u00f3sias que est\u00e3o longe de respeitar o legado de seus originais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Bem, quem usou a express\u00e3o \u201cc\u00f3pia mal-acabada\u201d foi voc\u00ea (risos). Mas acredito que todo escritor, no in\u00edcio, comece sempre como um s\u00f3sia, no sentido de escolher um modelo (um \u201coriginal\u201d) para copiar e dar os primeiros passos na escrita. A fase seguinte \u00e9 a da nega\u00e7\u00e3o dessa influ\u00eancia, em um esfor\u00e7o de tentar criar um estilo de escrita. Isso \u00e9 muito natural, e tem mais a ver com o \u201cdesrespeito\u201d do legado da tradi\u00e7\u00e3o que elegeu como sua, que com o \u201crespeito\u201d (como voc\u00ea colocou na pergunta). Todo escritor passa por esse \u201cassassinato simb\u00f3lico\u201d do pai, numa tentativa de adquirir autonomia como autor. No fundo, o estilo de um escritor vem a reboque, e depois de muitos anos de escrita. Nasce do exerc\u00edcio di\u00e1rio, da fraude bem ensaiada sobre a soma do estilo de tantos escritores que leu. S\u00f3 que h\u00e1 tamb\u00e9m o risco de isso nunca acontecer, de o escritor nunca criar um estilo, e n\u00e3o h\u00e1 problema algum nisso. Temos \u00f3timos escritores que nunca desenvolveram um estilo, mas que executam bem suas ideias e conseguem compor um romance que vale a pena ser lido. Falo de romances porque \u00e9 a minha praia, mas isso serve para poetas ou contistas tamb\u00e9m (acho). O \u201cE se Deus for um de n\u00f3s?\u201d \u00e9 a minha tentativa de superar, por exemplo, a influ\u00eancia de Roberto Bola\u00f1o e de Enrique Vila-Matas na minha escrita e criar um estilo. Terei conseguido? Bem, isso cabe ao leitor dizer. O adjetivo deve sempre partir da boca do outro. Elogiar a si mesmo \u00e9 falta de decoro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea citou um chileno e um espanhol, mas, durante a leitura do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d, senti uma frequ\u00eancia constante da literatura argentina em sua fic\u00e7\u00e3o. Autores como Antonio di Benedetto, Mario Levrero e J. Rodolfo Wilcock (sobretudo nas biografias que ocupam o fim) parecem lhe emprestar tra\u00e7os de seus estilos, de seus teores narrativos, de suas predile\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas. De maneira geral, a literatura hispano-americana \u00e9 uma forte refer\u00eancia para voc\u00ea, enquanto autor e tamb\u00e9m enquanto leitor? E qual \u00e9 a sedu\u00e7\u00e3o dos hermanos, que a literatura brasileira n\u00e3o tem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Minhas refer\u00eancias s\u00e3o sazonais. J\u00e1 tive meu \u201cano Bola\u00f1o\u201d, onde li tudo o que saiu do escritor chileno pela Companhia das Letras. Tentei acompanhar com frequ\u00eancia a cole\u00e7\u00e3o Otra L\u00edngua, que saiu pela Rocco e foi capitaneada pelo mestre Joca Reiners Terron. A principal sedu\u00e7\u00e3o da literatura argentina, para mim, \u00e9 essa desenvoltura que tem em passear pelos g\u00eaneros (alguns ditos \u201cmenores\u201d, como o romance policial) e sua capacidade para digerir a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Nossa literatura ainda \u00e9 um pouco conservadora nesse sentido e est\u00e1 mais ligada a certa tradi\u00e7\u00e3o realista. Claro, falo de um modo geral, excetuando-se o pr\u00f3prio Terron, Karam, Nelson Oliveira, Ros\u00e1rio Fusco, Campos de Carvalho, Daniel Pellizzari e tantos outros. Mas sobre as biografias inventadas, o pai de todos n\u00f3s \u00e9 o franc\u00eas Marcel Schwob, autor do genial \u201cVidas imagin\u00e1rias\u201d. O Wilcock e o Benedetto que voc\u00ea cita, por exemplo, eu ainda n\u00e3o li. O fato de voc\u00ea perceber tra\u00e7os deles no \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d s\u00f3 prova que bebemos na mesma fonte, que \u00e9 a fonte ocidental da literatura de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12513\" aria-describedby=\"caption-attachment-12513\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/foto-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12513 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/foto-2.jpg\" alt=\"Tadeu Sarmento\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/foto-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/foto-2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12513\" class=\"wp-caption-text\">Tadeu Sarmento \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Fonte, ali\u00e1s, com a qual o \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d inunda suas p\u00e1ginas. Faz tempo que n\u00e3o leio um romance que prioriza, mais que o estilo ou a linguagem, sua pot\u00eancia inventiva. De onde nasceu a inusitada (e fant\u00e1stica) ideia sobre essa associa\u00e7\u00e3o de s\u00f3sias? Como foi o processo de composi\u00e7\u00e3o do livro? Chegou a recorrer a algum trabalho de pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Fico feliz que tenha gostado, mas apesar de ser um romance inventivo, como voc\u00ea bem colocou, o gatilho para sua ideia partiu de um acontecimento prosaico: em 2012, eu trabalhava como supervisor em uma empresa de Call Center e conheci um colega de trabalho (Gabriel Dourado, que depois se tornou um grande amigo) que \u00e9 um s\u00f3sia an\u00f4nimo do Mark Chapman. O romance, ali\u00e1s, \u00e9 dedicado a ele. Quando o vi pela primeira vez, fiquei intrigado, com aquela impress\u00e3o que temos quando conhecemos algu\u00e9m que nos lembra outra pessoa, sem que saibamos qual. Fiquei uns bons dias assim, at\u00e9 que certa noite acordei assustado e gritei: \u201cMeu Deus, Gabriel Dourado \u00e9 o assassino de John Lennon\u201d(risos). Tive que alert\u00e1-lo, sobretudo porque ele andava querendo passar f\u00e9rias nos EUA e precisei dissuadi-lo da ideia, alegando que poderia ter problemas por l\u00e1, caso cruzasse com algum beatleman\u00edaco que, ao v\u00ea-lo, poderia acreditar que Chapman houvesse sa\u00eddo da cadeia. Esse foi o pontap\u00e9 inicial para a ideia do romance. Quanto \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de s\u00f3sias, em 2010, tive uma crise de depress\u00e3o que me levou a passar sete dias em uma cl\u00ednica para doidinhos moderados. Depois que sa\u00ed, fiz tratamento por um ano e estou bem desde ent\u00e3o. O fato \u00e9 que tanto na cl\u00ednica quanto na terapia fora dela, participei de grupos de autoajuda para pessoas na mesma condi\u00e7\u00e3o em que eu estava. Todas as reuni\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Robert Walser s\u00e3o baseadas nessas reuni\u00f5es. O pr\u00f3prio pr\u00e9dio da Associa\u00e7\u00e3o, descrito no romance, lembra muito o pr\u00e9dio da cl\u00ednica. O bacana foi que, apesar de estar sofrendo na \u00e9poca, consegui enxergar algo de muito c\u00f4mico e de muito teatral naqueles encontros. Essa marca d\u2019\u00e1gua humor\u00edstica sobre um desespero terr\u00edvel perpassa todo o meu romance. Basicamente foi essa minha pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O resultado foi a conquista do Pr\u00eamio Pernambuco de Literatura, em 2015. Na ocasi\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 tinha dois livros lan\u00e7ados, portanto como esse pr\u00eamio refletiu na sua carreira liter\u00e1ria? H\u00e1 uma ideia de que uma distin\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de repercuss\u00e3o nacional, quando n\u00e3o envolve uma boa recompensa financeira, serve para projetar o autor para um p\u00fablico maior, para uma grande editora. Qual foi a sua experi\u00eancia, nesse caso? Qual o valor real de um pr\u00eamio liter\u00e1rio?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Refletiu no sentido de que tive oportunidades que n\u00e3o teria se n\u00e3o ganhasse o Pr\u00eamio. Conheci pessoas. Fui chamado para lugares. Costumo dizer que o II Pr\u00eamio Pernambuco de Literatura me salvou. J\u00e1 havia disponibilizado 11 livros in\u00e9ditos na internet e estava prestes a pendurar as chuteiras (leia-se: n\u00e3o querer mais publicar e seguir escrevendo para sempre no anonimato), mas o Pr\u00eamio Pernambuco mudou tudo isso. Ganhei um bom dinheiro tamb\u00e9m, com o qual pude comprar um computador de ponta e um software original do Word. Mas voc\u00ea sabe melhor do que eu, S\u00e9rgio, que essa gl\u00f3ria dura pouco tempo. Logo vem a pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio e somos esquecidos t\u00e3o r\u00e1pido quanto. O dinheiro acaba tamb\u00e9m. \u00c9 assim que a coisa funciona e \u00e9 bom que funcione assim, pois 99% do principal trabalho do escritor acontece no anonimato e na solid\u00e3o. Algo que digo em favor do Pr\u00eamio Pernambuco de Literatura \u00e9 que \u00e9 um pr\u00eamio s\u00e9rio. Quando o ganhei, n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m no meio liter\u00e1rio, estava enfurnado h\u00e1 quatro anos em uma empresa de Call Center, comendo o p\u00e3o que o Diabo amassou, cagou e cuspiu em cima. Ganhei pelo texto mesmo, com uso de pseud\u00f4nimo. Eu e mais meus tr\u00eas (hoje) amigos Helder Herik, R\u00f4mulo C\u00e9sar e Wander Shirukaya (que levou o pr\u00eamio principal)&#8230; ta\u00ed, acho que a amizade desses tr\u00eas caras foi a melhor coisa que o Pr\u00eamio me deu. Se for medir o valor real do Pr\u00eamio pela amizade deles, eu diria que \u00e9 um valor inestim\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Pois \u00e9, isso \u00e9 algo que eu desconhecia e realmente me impressionou: o fato de voc\u00ea ter publicado 11 livros na internet, num espa\u00e7o de tempo t\u00e3o curto. Tem autores consagrados que, durante toda a carreira liter\u00e1ria, n\u00e3o chegaram a esse n\u00famero. O que o levou a essa iniciativa: falta de oportunidade por parte das editoras, vontade de ter o controle de todo o processo, \u00edmpeto? E hoje, olhando para tr\u00e1s, faria o mesmo? N\u00e3o acha que, se tivesse um pouco de paci\u00eancia, esse material poderia ser mais batalhado e, quem sabe, chegar ao papel, por um selo editorial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Na verdade, s\u00e3o livros incompletos ou mal finalizados, romances em sua maioria, cujas ideias n\u00e3o consegui levar adiante. Na \u00e9poca, pus l\u00e1 a t\u00edtulo de curiosidade mesmo, aproveitando o fato de que estava desencantado com tudo e duvidando at\u00e9 mesmo da minha capacidade de escrever. As \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es foram o livro de contos \u201cBreves Fraturas Port\u00e1teis\u201d e o romance \u201cLautr\u00e9amont Press\u201d. Destes, eu gosto bastante. O primeiro chegou a ser publicado em 2004. O segundo perdeu merecidamente um Pr\u00eamio SESC para o grande Andr\u00e9 de Leones, cujo romance de estreia, \u201cHoje est\u00e1 um dia morto\u201d, \u00e9 infinitamente melhor conduzido que ele. Mas houve um livro que n\u00e3o disponibilizei, uma novela chamada \u201cMatadouro\u201d. Foi escrita na mesma \u00e9poca que os outros, mas \u00e9 muito bem acabada. O argumento gira em torno de um homem que decide abrir um puteiro s\u00f3 com travestis para juntar grana e fazer uma opera\u00e7\u00e3o de sexo na mulher que ele ama, que tamb\u00e9m \u00e9 travesti. Esse est\u00e1 guardado. O fato \u00e9 que n\u00e3o me arrependo. Hoje olho para eles e vejo exerc\u00edcios de estilo que me trouxeram at\u00e9 onde estou. Todos foram escritos entre 1997 e 2007, mais ou menos. E vou te contar: tenho um ritmo de produ\u00e7\u00e3o acelerado, al\u00e9m de muita disciplina para escrever e quase zero de vida social. Depois do \u201cAssocia\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d, por exemplo, escrevi o \u201cE se Deus for um de n\u00f3s?\u201d (que sai pela Confraria esse ano) e tenho mais sete livros in\u00e9ditos (um romance longo e mais seis novelas de cem p\u00e1ginas, em m\u00e9dia). A maioria est\u00e1 pendurada em algum pr\u00eamio liter\u00e1rio. N\u00e3o sofro dessa pressa para publicar. Tenho uma primeira leitora exigent\u00edssima (a poeta Adriane Garcia) que supre em parte essa necessidade de comunica\u00e7\u00e3o que tenho, que todos os escritores t\u00eam, e que \u00e9 o que nos leva a querer publicar depressa. Acho a pressa a inimiga n\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o, mas do escritor. A profus\u00e3o de gr\u00e1ficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. Mas gra\u00e7as a Adriane, posso ficar meses, at\u00e9 mesmo anos, com um livro na gaveta. Enxugando e reescrevendo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 corret\u00edssimo: a Adriane \u00e9 uma grande escritora, vide a antologia po\u00e9tica \u201cS\u00f3, com peixes\u201d. Ali\u00e1s, voc\u00ea tamb\u00e9m escreve poesia, mas logo falamos sobre isso. O que gostaria de destacar \u00e9 o surgimento de uma nova gera\u00e7\u00e3o de escritores nordestinos que, nos \u00faltimos anos, vem abocanhando um tanto de pr\u00eamios liter\u00e1rios. Para se ter uma ideia, o \u00faltimo Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura teve as suas tr\u00eas categorias vencidas por autores nascidos no Nordeste. O mesmo tem ocorrido com o Pr\u00eamio Sesc de Literatura e outros mais. Natural de Recife, como observa esse momento? H\u00e1 algo realmente de inovador ocorrendo na regi\u00e3o? E, para al\u00e9m dos limites territoriais, nota que existe uma resist\u00eancia dos chamados grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Pergunta dif\u00edcil, n\u00e3o sei se tenho conhecimento nem seguran\u00e7a suficiente para responder. No meu ponto de vista n\u00e3o se pode mais medir a literatura por essa r\u00e9gua regionalista. De modo que \u00e0 pergunta sobre se h\u00e1 algo de inovador acontecendo no nordeste em termos liter\u00e1rios eu respondo pensando no Brasil como um todo. H\u00e1 algo de inovador acontecendo com a literatura brasileira contempor\u00e2nea? Resposta: sim. O qu\u00ea? A participa\u00e7\u00e3o das mulheres. O futuro da literatura \u00e9 das mulheres. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que em 2016 elas levaram a quase totalidade dos pr\u00eamios liter\u00e1rios. E veja bem: n\u00e3o sou um homem feminista, isso n\u00e3o existe. Digo at\u00e9 que sou um machista na condicional. Para n\u00f3s seria mais c\u00f4modo se elas quisessem permanecer na cozinha. Mas elas n\u00e3o quiseram; m\u00e9rito delas, sorte nossa. O fato \u00e9 que leitor nenhum aguenta mais o modelo cl\u00e1ssico-masculino Bukowski: putinha, \u00e1lcool, sexo, mimimi. Leitor nenhum aguenta mais a figura do outsider que passou fome e venceu como artista. Leitor nenhum se interessa mais pela vida sexual dos escritores. Isso \u00e9 coisa de retardado mental, e o escritor que fugir desse modelo poder\u00e1 dividir espa\u00e7o com as mulheres. Escritoras como Betzaida Mata, Martha Batalha, Cinthia Kriemler, Carol Bensimon; poetas como Adriane Garcia, Carla Diacov, trazem experi\u00eancias novas e vis\u00f5es de mundo diversas, at\u00e9 ent\u00e3o pouco ou nunca tratadas literariamente. Saindo um pouco do Brasil, a mexicana Valeria Luiselli, por exemplo, com \u201cRostos na multid\u00e3o\u201d escreveu um grande romance sobre a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre a maternidade e a vida de escritora. Um livro surpreendente. Que escritora far\u00e1 o pr\u00f3ximo? Tenho at\u00e9 um palpite, mas n\u00e3o quero estragar a surpresa. Quanto \u00e0 outra pergunta, n\u00e3o acredito que exista essa resist\u00eancia dos grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos. Grandes grupos editoriais querem vender livros e lucrar. Duvido que se importem se seus autores s\u00e3o nordestinos, \u00edndios, marcianos ou sacis-perer\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O que achou de toda aquela pol\u00eamica envolvendo o termo \u201cliteratura feminina\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Uma bobagem. Voltamos \u00e0s redes sociais: elas s\u00e3o lentes de aumento que, de um traque de massa, esperam gerar uma grande explos\u00e3o. \u00c9 uma esp\u00e9cie de histeria coletiva que se alimenta de pol\u00eamicas fabricadas. A sorte (ou m\u00e1 sorte, depende) \u00e9 que essas discuss\u00f5es \u201cinfind\u00e1veis\u201d raramente duram mais de vinte e quatro horas. Logo o enxame se agarra ao rabo de cometa de outra pol\u00eamica e segue seu caminho rumo ao inevit\u00e1vel nada. Isso que se chama \u201cliteratura feminina\u201d n\u00e3o existe. Existe a Literatura. \u00c9 v\u00e1lida a discuss\u00e3o de uma maior participa\u00e7\u00e3o das escritoras em espa\u00e7os p\u00fablicos antes s\u00f3 ocupados por escritores? Claro que \u00e9. Mas para isso n\u00e3o precisamos criar mais um r\u00f3tulo. Os que j\u00e1 t\u00eam j\u00e1 bastam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Queria voltar, ent\u00e3o, a uma observa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fez l\u00e1 atr\u00e1s. Quando colocou que \u201ca profus\u00e3o de gr\u00e1ficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situa\u00e7\u00e3o\u201d, voc\u00ea tocou num ponto que sempre trago para minhas discuss\u00f5es com autores e editores, que \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o das oportunidades de publica\u00e7\u00e3o. Sei que tem um lado positivo, sobretudo para os autores que n\u00e3o conseguem acesso aos grandes selos, por\u00e9m me preocupa o fato de termos uma leva de t\u00edtulos de escritores ainda imaturos, que poderiam ter estreado de uma forma muito mais consistente e na hora certa. O que pensa sobre essas pequenas editoras que, de fato, s\u00e3o f\u00e1bricas de publica\u00e7\u00f5es? Acredita que isso, a longo prazo, ter\u00e1 um efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Tem uma frase do Kierkegaard que gosto muito: \u201cH\u00e1 uma impaci\u00eancia que quer colher antes de semear; deixemos que a ironia a discipline\u201d. As pequenas editoras t\u00eam um papel essencial: apostar em novos autores que, por N motivos, n\u00e3o teriam acesso aos grandes selos (como voc\u00ea os chamou). Apresentar esse autor ao mercado de leitores. Faz\u00ea-lo circular. Dar visibilidade \u00e0 sua voz. A \u00fanica coisa que est\u00e1 faltando, de um modo geral, \u00e0s pequenas editoras \u00e9 justamente a figura de um editor (ou editora) que freie essa impaci\u00eancia supracitada e trabalhe as arestas do manuscrito junto com o escritor at\u00e9 que fique pronto. Precisa ser um editor ou editora comprometido com a Literatura; e que conhe\u00e7a a melhor maneira de fazer com que esse texto chegue aos seus leitores. \u00c9 isso que est\u00e1 faltando. Editoras como Karla Melo (da Confraria do Vento), que trabalham nesse sentido, s\u00e3o uma raridade. Mas para se chegar nesse n\u00edvel \u00e9 preciso ter crit\u00e9rios de qualidade. \u00c9 preciso ter disposi\u00e7\u00e3o. Seriedade. Fazer livros n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 meter uma capa, colar as p\u00e1ginas e mandar imprimir. Existe todo um trabalho pr\u00e9vio. Esse trabalho pr\u00e9vio \u00e9 o que distingue editores de donos de gr\u00e1fica. Imprimir livros n\u00e3o tem nada a ver com Literatura. Construir um livro, sim. O bom editor ou editora \u00e9 aquele que redescobre o texto do autor para ele mesmo. Mas n\u00e3o acredito que isso tenha efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira de um modo geral. O que tem esse efeito incisivo (e negativo) \u00e9 a p\u00e9ssima qualidade da educa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds. Se nosso agonizante ex-governo de esquerda tivesse investido maci\u00e7amente em educa\u00e7\u00e3o de base desde 2003, ter\u00edamos hoje a primeira gera\u00e7\u00e3o de adolescentes bem formados. Em vez disso temos&#8230; bem, temos o que temos. \u201cMas a educa\u00e7\u00e3o de base n\u00e3o \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do governo federal\u201d, dizem alguns. Isso \u00e9 verdade, mas E DA\u00cd? Eu quero os CIEPs de Darcy Ribeiro implantados em todo o pa\u00eds. N\u00e3o aceito nada menos que isso. Dinheiro temos. O que n\u00e3o temos \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o como prioridade. Da\u00ed a f\u00f3rmula \u00e9 f\u00e1cil: sem educa\u00e7\u00e3o, sem leitores \u2013 e uma Bienal do Livro cuja principal atra\u00e7\u00e3o s\u00e3o os youtubers. Ent\u00e3o, diante da escassez de leitores, escritores e escritoras fazem o diabo para chamar a aten\u00e7\u00e3o: poetas tiram a roupa na rede; escritores forjam a pr\u00f3pria morte ou inventam papinhos de mis\u00e9ria. E a Literatura vai ficando cada vez mais em segundo plano at\u00e9 virar um ap\u00eandice, uma nota de rodap\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 N\u00e3o faz muito tempo, ouvi de uma pessoa do mercado editorial que o escritor, hoje em dia, tem de ter muito mais que talento liter\u00e1rio. O seu valor seria determinado pelo quanto de curtidas t\u00eam suas postagens no Facebook, o quanto de seguidores atraem suas redes sociais, pelo tanto de pessoas que enchem audit\u00f3rios para ouvi-lo falar de qualquer coisa, mais a literatura. O escritor, afinal, teria mais import\u00e2ncia pelo que \u00e9, do que pelo que escreve. O que pensa dessa coloca\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> \u00c9 uma coloca\u00e7\u00e3o realista, de algu\u00e9m preocupado mais com venda de livros que com a qualidade do texto em si. Acho algo natural. As grandes editoras, afinal de contas, t\u00eam um corpo de funcion\u00e1rios consider\u00e1vel e precisam sobreviver e sobrevivem vendendo livros. Mas isso n\u00e3o deve ser preocupa\u00e7\u00e3o do escritor. J\u00e1 na pr\u00f3pria fonte do texto o escritor submete a palavra, ao mesmo tempo, a um princ\u00edpio de exclus\u00e3o e desigualdade. O escritor procura seus iguais, excluindo todos os outros. A linguagem que escolhe e as imagens que utiliza restringem o acesso ao seu estilo de pensamento. Querer ser lido por todos \u00e9 uma car\u00eancia de neur\u00f3ticos. Claro que todo escritor quer vender o m\u00e1ximo de livros poss\u00edvel, a quest\u00e3o \u00e9 saber at\u00e9 que ponto est\u00e1 disposto a ir para conseguir isso. S\u00f3 que acrescentar mais \u00e1gua para alimentar a todos \u00e9 correr o risco de deixar a sopa mais rala. E isso n\u00e3o d\u00e1 garantia nenhuma. Porque o p\u00fablico que curte e segue um escritor nas redes n\u00e3o \u00e9 necessariamente um p\u00fablico leitor em potencial. Quase tudo nas redes \u00e9 fugaz, superficial, vol\u00e1til e f\u00fatil. Mas enxergo a quest\u00e3o sem romantismos. Acho at\u00e9 bom que uma editora mantenha esse tipo de bucha de canh\u00e3o na linha de frente, para vender milh\u00f5es de livros durante um surto de pieguices. \u00c9 uma maneira de capitalizar a editora. Capitalizada, ela pode decidir apostar em outro autor que n\u00e3o venda tanto, mas que tenha um trabalho consistente. Bons autores d\u00e3o prest\u00edgio a uma editora. Editoras n\u00e3o vivem s\u00f3 de dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Numa resposta l\u00e1 atr\u00e1s, referente ao seu novo livro, voc\u00ea declara que seu objetivo \u00e9 \u201cchegar ao leitor comum, enquanto eles existirem\u201d. E agora coloca uma f\u00f3rmula de que \u201csem educa\u00e7\u00e3o, sem leitores\u201d. Parece-me, desse modo, uma equa\u00e7\u00e3o complexa cujo resultado, se n\u00e3o for igual a zero, \u00e9 potencialmente negativo. O quadro \u00e9, de fato, irrevers\u00edvel ou ainda h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> A \u00fanica coisa irrevers\u00edvel \u00e9 a morte. No fundo sou um otimista envergonhado. Tamb\u00e9m n\u00e3o posso confirmar se, com um n\u00edvel educacional melhor, teremos mais leitores. Tudo o que eu disse foram conjecturas. \u00c9 dif\u00edcil pensar em uma massa de leitores num pa\u00eds como o nosso, que foi inserido na era da cultura das imagens sem cumprir antes seu ciclo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se a Literatura ser\u00e1 capaz de competir com todo o resto (redes sociais, etc.) quando esse n\u00edvel educacional supostamente subir. Quando digo que meu objetivo \u00e9 chegar ao leitor comum \u00e9 por acreditar que o escritor tem um papel individual nisso, que \u00e9 o de construir hist\u00f3rias cada vez mais bem contadas, que prendam a aten\u00e7\u00e3o do leitor at\u00e9 o fim. N\u00e3o quero me fechar em um mundo particular e escrever hist\u00f3rias inintelig\u00edveis para a adora\u00e7\u00e3o de um seleto grupo de jacar\u00e9s empalhados. Quero escrever um texto cada vez mais fluido e mais simples, com hist\u00f3rias cada vez melhor arquitetadas. Temos (n\u00f3s, escritores) na ponta da l\u00edngua v\u00e1rias desculpas para o reduzido n\u00famero de leitores atuais: desde a n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos de leitura at\u00e9 nossos problemas educacionais \u2013 e todos est\u00e3o corret\u00edssimos em apont\u00e1-los e querer debat\u00ea-los. S\u00f3 que se n\u00e3o fizermos nosso mea culpa n\u00e3o sairemos do raio de reclama\u00e7\u00e3o. O escritor deve pretender se dirigir, tanto quanto poss\u00edvel, para uma plateia cada vez mais ampla, em vez de querer desanc\u00e1-la com esnobismos. Somos parcialmente culpados por esse \u00eaxodo de leitores, afinal, n\u00f3s os espantamos, depois de anos e anos de hermetismos p\u00f3s-modernos. Conhe\u00e7o escritores que ficam de fato emburrados quando o leitor compreende seu texto, pois no fundo acreditam que a ininteligibilidade \u00e9 o mais alto padr\u00e3o qualitativo. Mas se um escritor n\u00e3o trabalha para ser lido com clareza \u00e9 para qu\u00ea ent\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 pouco, falamos rapidamente sobre poesia e agora quero retornar ao assunto. Embora sua fic\u00e7\u00e3o se dedique mais \u00e0 prosa, na forma de contos, novelas e romances, voc\u00ea tamb\u00e9m escreve poemas. Como se relaciona com a poesia? De que maneira e a que ponto o g\u00eanero lhe motiva, em seus encontros com a literatura, em seus processos criativos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> Minha rela\u00e7\u00e3o com a poesia \u00e9 bissexta. N\u00e3o sou um grande leitor de poesia tamb\u00e9m. \u00c9 uma defici\u00eancia cognitiva que tenho e que a Adriane agora est\u00e1 tentando corrigir (me indicando bons poetas para ler, lendo bons poemas para mim). E sempre que escrevo um poema nunca estou seguro de sua qualidade. N\u00e3o me sinto \u00e0 vontade no g\u00eanero, para ser honesto. Sempre acho meus poemas muito formais, empostados e anacr\u00f4nicos. E tinha muita birra com poetas antigamente. Agora levo na brincadeira a mania que eles t\u00eam de sempre achar uma brecha para recitar poemas em tudo que \u00e9 canto, lugar ou hora impr\u00f3pria. Parece at\u00e9 que poetas v\u00eam com um \u201ctiming\u201d interno que os avisa quando aquela \u00e9 a hora mais impr\u00f3pria para recitar. Ent\u00e3o eles se levantam e recitam. Parecem pastores no p\u00falpito. Claro que estou exagerando um pouco. Tenho grandes amigos com esse defeito absolutamente perdo\u00e1vel. A Adriane vai bater em mim quando ler isso. Mas no fundo admiro muito os poetas. Os grandes. Os loucos. Os Papasquiaros da vida. Bola\u00f1o diz, em \u201c2666\u201d, que poetas s\u00e3o os \u00fanicos que est\u00e3o fora do jogo. Que n\u00e3o se vendem. E est\u00e3o mesmo. E n\u00e3o se vendem mesmo. S\u00e3o artistas. Pelo menos os maiores s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O que \u00e9 essa necessidade de escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> \u00c9 uma voca\u00e7\u00e3o. S\u00f3 de encontrar minha voca\u00e7\u00e3o j\u00e1 me sinto um privilegiado. Isso soa at\u00e9 piegas e talvez seja mesmo, mas n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o mais acertada. \u00c9 tamb\u00e9m uma maneira de me relacionar com o mundo, de digerir a realidade pelo vi\u00e9s da imagina\u00e7\u00e3o. No fundo sou um moralista que quer dar sentido \u00e0quilo que n\u00e3o tem sentido. Escrever um romance \u00e9 uma forma de reordenar os fatos. Talvez por isso que, com o tempo, eu tenha optado por escrever narrativas longas. Escrever \u00e9 uma maneira de me manter coeso, funcional, e escrever narrativas longas me mant\u00e9m assim por mais tempo. Mas, sobretudo, escrever \u00e9 uma maneira de conquistar um lugar no mundo. Trabalhei em um Call Center por quatro anos e todos sabem que Call Centers s\u00e3o considerados um dos piores lugares para se trabalhar. Suportei toda sorte de cansa\u00e7o e humilha\u00e7\u00f5es porque sabia quem eu era, porque tinha \u00e0 m\u00e3o algo pelo que abandonar todas as demais minoridades da vida e me concentrar em um \u00fanico foco. Quem se livra de bagagens pesadas para seguir um declive deve sentir-se assim como me sinto quando escrevo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Se voc\u00ea pudesse escolher ser um s\u00f3sia, de quem seria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>TADEU SARMENTO &#8211;<\/strong> De Philip K Dick. Algumas pessoas at\u00e9 me acham parecido com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falando um pouco sobre sua viv\u00eancia com a Literatura, o escritor Tadeu Sarmento concede uma entrevista a S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12509,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3146,16,2539],"tags":[3147,63,8,1023,2572],"class_list":["post-12508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-113a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-associacao-robert-walser-para-sosias-anonimos","tag-entrevista","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares","tag-tadeu-sarmento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12508"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12668,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12508\/revisions\/12668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}